“Devemos poder viver livres e tranquilos, não queremos ser protegidos.”

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Quando este domingo milhares de pessoas se juntarem na Place de la République, em Paris, para uma marcha em homenagem às vítimas dos atentados terroristas da última semana e pela liberdade de expressão, Samuel Njoh vai estar entre elas. No entanto, estará lá por outro motivo: “vou manifestar-me pela pena de morte”, diz à SABADO junto ao Hyper Casher, o supermercado atacado esta sexta-feira por Amedy Coulibaly onde morreram cinco pessoas – além do terrorista.

Para que não houvesse dúvidas sobre o que acabara de dizer, Samuel Njoh voltou a repetir: “vou manifestar-me pela pena de morte”. Alto, negro, o homem nascido nos Camarões não parece exactamente um apoiante da Frente Nacional de Marine Le Pen que, na sequência dos atentados ao jornal satírico Charlie Hebdo, defendeu um referendo à pena capital. “Não, sou republicano, e cristão praticante. Mas é altura de dizer às pessoas que é necessário justiça. É precisa a pena de morte”, diz. O argumento é simples: “olhe para as pessoas que foram assassinadas. Morreram por nada. Se o Coulibaly tivesse sido apanhado vivo era julgado, cumpria 20 ou 40 anos e depois voltava ao mesmo. Não, é necessário lançar o debate.” Nem a própria contradição entre os princípios cristãos, que diz praticar, e o que acabou de defender o demove. “Nos Camarões há cristãos e muçulmanos mas se eu matar um polícia vou a tribunal militar e levo a pena de morte”, garante.

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A ideia expressa por Samuel Njoh (e os aplausos que recebeu de quem o ouviu) parece mostrar que, após um primeiro momento de união total, a sociedade francesa começa a expressar as suas divisões. Bastou que o terceiro atacante tenha decidido invadir um supermercado apenas por um motivo: era um estabelecimento judeu. O que até aí era visto como um atentado à liberdade de expressão passou também a ser encarado como um crime de ódio. “É preciso dizer que quem fez isto é uma minoria. Mas o problema é que as minorias podem fazer muito mal. Esta matou 17 pessoas e feriu muitas outras”, diz à SABADO Samuel Elbase, residente nos arredores do Hyper Casher. “Nós, judeus, quando uma criança faz alguma coisa de mal, dizemos-lhe que a vamos denunciar. Fazemos isso para a proteger. O problema são os muçulmanos cúmplices que não fizeram nada. É preciso denunciar isto mesmo que se trate do nosso filho”, continua.

As vozes minoritárias que tentam explicar que este não foi um ataque a judeus nem a cristãos, que foi um ataque aos franceses e à própria liberdade, não conseguem fazer ver os seus pontos de vista. Pelo menos no dia seguinte aos ataques. Os ânimos estão revoltados. A polícia continua a isolar o estabelecimento que fica numa esquina de um bloco de apartamentos, entre uma rotunda e uma bomba de gasolina, nos limites de Paris.

Tal como aconteceu junto à redacção do Charlie Hebdo, a população começou a depositar flores, mensagens e velas junto às barreiras da polícia. Samuel Njoh foi lá colocar um ramo. Yoav, de 27 anos, também se deslocou ao local para prestar homenagem às vítimas. E como a maioria dos que aceitam dar uma opinião sobre os acontecimentos, não tem dúvidas sobre o que é preciso fazer para evitar novos atentados. “Cabe aos muçulmanos colocar as coisas no seu devido lugar e dizer que isto não é o Islão. É preciso educar as crianças na ideia de que somos todos iguais: judeus, cristãos e muçulmanos”, diz à SABADO. Com o dedo da mão direita espetado e a mão esquerda a segurar a trela do pequeno cão preto que passeia, diz: “devemos poder viver livres e tranquilos, não queremos ser protegidos.” Samuel Njoh concorda. “Assim não temos total liberdade. Eu vivo ao fim da rua. Ontem sai do trabalho e vi isto. Pensei na minha filha e fiquei doente. Também por isso vou manifestar-me”, diz.

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