Os combatentes portugueses do Estado Islâmico: um excerto

Esta tarde é apresentado, na Fnac do Centro Comercial Colombo, o meu novo livro, Os Combatentes Portugueses do Estado Islâmico. Para aguçar o apetite, fica aqui um excerto do capítulo Jihad 2.0, que se debruça sobre a investigação da Polícia Judiciária e sobre a recolha de informações do Serviço de Informações de Segurança. Este mesmo excerto foi usado para a pré-publicação do livro na Sábado, a 23 de Abril. Estão obviamente convidados a aparecer. A apresentação estará a cargo do presidente da Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento, Vasco Rato.

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“Bastaram três parágrafos num documento com 413 páginas para revelar uma realidade que estava na ordem do dia em vários países europeus mas que até então tinha passado ao lado da sociedade portuguesa: havia cidadãos nacionais a combater na Síria. Fosse em forças apoiadas pela União Europeia ou em grupos rebeldes já então classificados como organizações terroristas. Divulgado a 28 de Março de 2014, o documento não mencionava um dado importante: essa realidade era já do conhecimento das autoridades portuguesas há mais de um ano e meio. A decisão de a divulgar teve por objectivo chamar a atenção da sociedade portuguesa para o fenómeno – e, em última instância, preveni-lo.

Os primeiros indícios de que haveria portugueses em palcos de “guerra santa” começaram a chegar à Polícia Judiciária e ao Serviço de Informações de Segurança através dos mecanismos de cooperação internacional na segunda metade de 2012. Na época foram uma surpresa. Mas não total. As várias polícias e serviços de informações dos Estados-membros da União Europeia há algum tempo que vinham assinalando a deslocação crescente de combatentes ocidentais, primeiro para o Iraque, depois para a Síria. Portugal era, até então, uma das excepções. A viagem ou a identificação de um ou mais cidadãos nacionais era uma questão de tempo. Que tinha chegado.

Na época, o fenómeno não suscitava grande preocupação. Era visto como uma repetição do que já tinha ocorrido no passado: primeiro no Afeganistão, depois na Bósnia e na Tchechénia, por fim, no Iraque. Havia mesmo quem o comparasse com o que aconteceu na guerra civil de Espanha. Para além disso, a rebelião armada contra Bashar al -Assad, que começara em 2011, era encarada com simpatia por parte do Ocidente. No ano seguinte, os Estados Unidos, a França e o Reino Unido apoiaram a oposição síria com dinheiro e informações e, em Maio de 2013, a União Europeia levantou o embargo da venda de armas aos rebeldes, como forma de demonstrar um apoio total à instauração de um regime democrático. O problema, ainda pouco perceptível, é que já então havia grupos a actuar com um segundo objectivo: a instauração de um califado islâmico na região.

Foi um desses ainda pequenos grupos radicais que, a 19 Julho de 2012, se atravessou no caminho dos fotojornalistas John Cantlie e Jeroen Oerlemans: o britânico e o holandês tinham acabado de atravessar a fronteira turca, rumo a um campo que desconheciam ter sido tomado por rebeldes, quando foram capturados e feitos prisioneiros. Primeiro os jihadistas julgaram que eles eram espiões. Depois começaram a pensar pedir um resgate pela sua libertação.

No segundo dia de cativeiro, os repórteres tentaram fugir. Estavam descalços. Ainda assim, correram algemados entre as pedras e os arbustos – apenas para serem parados a tiro: Cantlie foi atingido no braço esquerdo; Oerlemans na anca. Recapturados, receberam cuidados médicos dos rebeldes. Mais concretamente, de um clínico do serviço nacional de saúde inglês. A partir daí foram vendados. Ouviam apenas o som de facas a serem afiadas, ameaças de decapitação e vozes que viriam a revelar -se importantes para as autoridades britânicas após a sua libertação, ao fim de uma semana, pelo Exército Livre Sírio. “Falavam-nos todo o dia no Corão e em como iriam instaurar a sharia na Síria. Acho que não eram da Al-Qaeda; pareciam demasiado amadores. Diziam: ‘Não somos a Al-Qaeda, mas a Al-Qaeda está ali em baixo’”, recordou o fotojornalista holandês ao The New York Times. Mais importante: “Eram todos jihadistas estrangeiros; acho que não havia um único sírio entre eles.” John Cantlie foi mais concreto, num artigo escrito para o The Sunday Times: “Ao todo eram uns 30, uma dúzia falava inglês e cerca de nove tinham sotaques londrinos. Dois deles estavam tão ocidentalizados [a expressão usada foi “anglicised”] que não falavam árabe.”

A presença de ingleses (ou de antigos residentes no Reino Unido) no conflito já então preocupava as autoridades britânicas. Polícias e serviços secretos começaram então a investigar. E ao reverem as listas de passageiros que tinham viajado recentemente de Londres para a Turquia repararam que entre eles estavam vários portugueses. Alguns tinham já regressado à Europa. Mas pelo menos um membro do grupo continuava na região: chamava-se Nero Patrício Saraiva.

“Vivia na zona entre a Turquia e a Síria. As informações que temos indicam que ele passava muito de um lado para o outro da fronteira. Por isso é bastante provável que estivesse entre o grupo que raptou os jornalistas britânicos”, conta uma fonte bem informada. Confrontado com uma fotografia de Nero Saraiva, Jeroen Oerlemans diz que o rosto não lhe é familiar: “Lamento mas não o reconheço.” Para as autoridades, esta negação explica-se de uma única forma: “Ou não o viu ou está com medo. Por outro lado não sabemos o que o John Cantlie teria dito se visse as fotografias.” Em Novembro desse ano, o fotojornalista britânico voltou à Síria, apenas para ser raptado. Ainda hoje continua refém do Estado Islâmico.

Na época, questionadas pelas congéneres britânicas, as autoridades portuguesas recolheram e passaram a pouca informação disponível sobre o grupo: tinham todos raízes nas ex-colónias portuguesas; viviam todos na Linha de Sintra; tinham todos emigrado para Londres, alguns há mais de uma década; apesar da diferença de idades entre eles tinham todos pontos de contacto em comum; e – isso era importante – nenhum se tinha convertido ao Islão em Portugal.

Aos poucos, a Polícia Judiciária (PJ) e o Serviço de Informações de Segurança (SIS) foram recebendo mais dados sobre o grupo. Suspeitas de que teriam feito parte de redes que usariam jovens ambiciosos ou carenciados para, através dos seus documentos de identificação verdadeiros, obterem apoios estatais como bolsas de estudo, subsídios de desemprego ou de inserção social. Exactamente como e quando se radicalizaram permanece um mistério, apesar de, aparentemente, terem frequentado e vivido em bairros londrinos conhecidos pela presença de extremistas como Leyton ou Waltham Forest.

A 9 de Janeiro de 2013, as autoridades britânicas deram um novo passo. No âmbito da investigação ao rapto de John Cantlie e Jeroen Oerlemans, a Metropolitan Police da Scotland Yard prendeu quatro homens. Um deles preparava-se para embarcar, no aeroporto de Gatwick, num voo com destino a Damasco, capital da Síria. Apesar de ter dupla nacionalidade, foi identificado como “um português” de 33 anos. Era um dos amigos de Nero Saraiva em Londres [tal como a SÁBADO revelou na última edição, tratava-se de Sadjo Turé, nascido na Guiné-Bissau mas criado na zona de Massamá].

O português acabou por ser libertado uma semana depois sem acusação. Mas permaneceu no radar das autoridades. Tal como os restantes membros do grupo da Linha de Sintra reunido em Londres, cujo percurso até então continuava a ser reconstituído: os irmãos Celso e Edgar Rodrigues da Costa, Fábio Poças e Sandro Monteiro. Foi assim que se descobriram indícios de que Nero Saraiva e os irmãos Celso e Edgar teriam viajado até à zona do Iémen e da Somália no início de 2012, onde terão recebido formação militar. Só depois partiram para a Síria. Nero ficou por lá. Os irmãos regressaram à Europa.

Celso viajou para Lisboa no fim de 2012. Após a detenção do sexto membro do grupo no aeroporto de Gatwick, Edgar também decidiu regressar a Portugal. Passaram grande parte de 2013 em casa dos pais, num 9º andar em Massamá, na Linha de Sintra, perto de uma escola e de uma igreja católica. Mantiveram-se discretos. Embora activos. Ao longo desses meses, as autoridades detectaram mais de 10 transferências de dinheiro via Western Union que tinham os irmãos como destinatários. Terão recebido várias dezenas de milhares de euros que tiveram depois destinos diferentes. Uma parte foi reencaminhada para países africanos e do Médio Oriente como Guiné -Bissau, Somália, Iémen e Turquia; outra foi entregue em mãos a cerca de seis jihadistas que pernoitaram na zona de Lisboa antes de embarcarem para a Síria. Três terão ficado em casa de conhecidos dos dois irmãos. Os restantes foram recebidos por amigos de Sandro Monteiro. Não era uma operação complexa. “Funcionava tudo na base da informalidade. Eles ligavam a alguém, diziam que um amigo de Londres vinha cá passar uns dias e perguntavam se ele podia ficar lá em casa”, conta uma fonte.

Em Agosto desse ano, Fábio Poças veio a Portugal visitar a família. Passou três dias em Mem Martins antes de regressar a Londres. Mais ou menos na mesma altura, Celso Rodrigues da Costa voltou a partir. Primeiro para a capital britânica, depois para a Turquia. Aí, Nero te-lo-á recebido e ajudado a atravessar a fronteira com a Síria. Fez o mesmo com Fábio Poças em Setembro. Edgar juntou-se-lhes no final do ano. E Sandro seguiu-o em Janeiro de 2014 – tal como o português que tinha sido detido em Gatwick. Viagens registadas pelas autoridades.

Durante todo este tempo, a PJ, o SIS e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras continuaram a receber informações sobre a chegada de outros grupos de portugueses ou luso -descendentes à Síria. Conhecidos serão 15 – sem contar com aqueles que já terão morrido –, incluindo as mulheres que adquiriram a nacionalidade através do casamento antes da viagem para a Síria.”

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