O Rui e o Vitória

Caro Rui,

Espero que esta carta te encontre bem. Desculpa, não espero. Sei que te encontras bem. Acabaste de dar o maior passo da tua carreira. Imagino que estejas eufórico, entusiasmado, ansioso por começar a trabalhar. Espero que estejas demasiado ocupado com relatórios de jogadores, estatísticas e com o planeamento da próxima temporada que não te resta tempo para leres esta carta. Ainda assim, decidi escrevê-la. Porquê? Por isto.

Nesta altura os teus amigos devem estar todos a dar-te os parabéns e a dizer-te como as coisas vão correr bem. A maioria vai dizer-te que vais ganhar tudo no Benfica. Que vais ficar na história. Melhor, que vais fazer história. Eu não estou aqui para te dizer isto. Pelo contrário. Escrevo-te esta carta para que dizer que, provavelmente, as coisas não vão correr tão bem assim.

Os problemas vão começar logo no teu primeiro dia. Sei que sabes disso, mas nunca é demais lembrar. Chegas ao Benfica numa posição difícil: suceder ao treinador mais bem sucedido das últimas décadas. Muitos vão olhar para ti de lado. Alguns vão dizer que não tens currículo. Que és um nome fraco. Que ainda não provaste nada. Outros vão dizer que foste uma má escolha. Que a correcta seria ir buscar um nome consagrado ao estrangeiro ou contratar o Marco Silva. Aprende a lidar com isso.

Quando entrares pela primeira vez nos balneários, os jogadores mais antigos vão olhar para ti de uma de duas formas: como a segunda escolha que sucedeu ao treinador campeão; ou como o treinador que os vai voltar a fazer campeões. Não percas a oportunidade de os conquistar logo no primeiro dia. Ganha-lhes o respeito, conquista-lhes a lealdade. Não te esqueças: tu dependes mais deles do que eles de ti.

Quando entrares pela primeira vez no Estádio da Luz e o speaker anunciar o teu nome, vais ter uma das maiores ovações da tua carreira. Mas não te iludas. Esses aplausos iniciais não são para ti. São contra o teu antecessor. O ídolo que agora é adversário. Quando as palmas pararem, todos os olhos vão estar postos no banco. Todas as tuas opções vão ser escrutinadas. Até a tua postura vai ser analisada: gritas? Gesticulas? Corres? Mascas pastilha? Tira-la da boca e voltas a pô-la lá dentro? Usa essa atenção em benefício da equipa. Dá o peito às balas e protege os jogadores – eles farão o mesmo por ti.

Ao contrário dos últimos anos, os jogos da pré-temporada serão importantes. Eles vão marcar o ambiente com que vamos chegar ao início do campeonato. Não os descures, nem desvalorizes. Porque deles depende o que os jornais – e logo depois os sócios – vão dizer de ti. Deles depende a atmosfera com que vamos iniciar a competição: confiantes e dominadores ou nervosos e amedrontados. Uma onda transformada em tsunami ou um rio que está a perder o caudal.

Após os primeiros jogos, a tua cara vai aparecer em todos os jornais e televisões. Serás herói ou vilão. Serás o novo Mourinho ou o novo “Lotopegui”. Serão dedicadas dezenas de páginas às tuas opções. Serão dedicadas horas de antena às tuas decisões. E como já percebeste, terás sempre um fantasma a pairar sobre a tua cabeça. Ele chama-se Jorge.

Será com ele que vão ser feitas todas as comparações. As do passado e as do presente. Por jogadores, adeptos, dirigentes e comentadores. Vão comparar os resultados, as estatísticas, os golos marcados e os sofridos, a forma física, o estado anímico e um sem número de outras coisas relacionadas com a teoria da bola que serve para entreter as conversas de café. Não queiras ser ele. Sê tu próprio. Trata os jogadores com respeito e eles respeitar-te-ão. Trata os funcionários do clube com simpatia e eles farão tudo por ti. Partilha os méritos das vitórias e assume os erros das derrotas. Põe os interesses do clube à frente dos teus. Não te julgues mais inteligente do que todos os outros. Estabelece empatia com os adeptos porque vão ser eles a levar-te ao colo no estádio. Tem a humildade de reconheceres os teus erros, porque vais cometê-los – mas não insistas neles por teimosia.

No meio disso tudo, se puderes, espreita as imagens das festas dos últimos anos no Marquês e imagina-te lá daqui a um ano. Nessa altura já ninguém te irá tratar por Rui: serás o Vitória. Então sim, as palmas já serão para ti. Mas mesmo nessa altura, nunca te esqueças de uma coisa: no fim da linha, és apenas um treinador. Mais um dos que vão ter direito a algumas linhas na História do Benfica. Repito: a História do Benfica.

Como disse no início, preparas-te para dar o maior passo da tua carreira. Mas não é apenas isso. Provavelmente, este será o maior passo que alguma vez darás. Porque não há um clube maior do que este. Será difícil. Muito mais do que possas pensar ou eu te possa dizer. Mas isso também significa que pode saber melhor. Espero que fiques muitos e bons anos. Será um bom sinal. Para ti – e, sobretudo, para nós. #rumoao35

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