Maxi: o emplastro, o golaço e a decisão

Caro Maxi,

Como estás concentrado na Copa América, não sei se tens lido os jornais e visto televisão. Desde ontem que a imprensa diz que te preparas para trocar a Luz pelo Dragão. Não sei se é verdade. Há cerca de semana e meia as mesmas notícias indicavam que tinhas renovado por três anos. Portanto, até à confirmação oficial, acredito que ainda não tomaste aquela que seria a pior decisão da tua vida.

O que não me impede de ter umas coisas para te dizer. Quando chegaste a Lisboa, no Verão de 2007, vinhas rotulado de extremo. Raçudo. Lembro-me de olhar para ti e pensar “este gajo não tem pinta de jogador, é parecido com o emplastro”. Os primeiros tempos pareciam confirmar essa ideia. Sim, eras raçudo. Mas de extremo tinhas pouco. A técnica não era a melhor. O drible não saia. Velocidade? Assim-assim. A cabeça? Sempre apontada para o chão. Confesso, era um sofrimento ver-te no lugar que já tinha sido de Vitor Paneira, Karel Poborsky e muitos outros.

Até que marcaste aquele golo contra o Milão. Golo, não, golaço. Fora da área, passaste a bola para o pé esquerdo, sim o esquerdo, e remataste ao ângulo. Estava atrás dessa baliza e, a partir daí, cada vez que olhava para ti lembrava-me desse golo. Cada vez que fazias uma asneira, lembrava-me do Dida, sentado no chão, impotente para travar aquele remate demolidor. Definitivamente, não eras um extremo. Mas tinhas qualquer coisa.

Acho que nessa época, o lateral direito titular era o Nélson. E quando ele foi vendido para Espanha, alguém teve a brilhante ideia de te colocar a jogar na defesa. Não eras brilhante a atacar. Mas tinhas tudo para ser bom a defender. Não desistias. Eras raçudo. E se fosse preciso desistir da bola para apanhar o jogador, estavas disposto a fazê-lo. Foi o melhor que te podia ter acontecido. Nessa altura não te apercebeste, mas estavas num momento determinante da tua carreira: ou continuavas um médio medíocre que acabaria num qualquer clube menor; ou te tornavas num lateral direito de eleição. Escolheste a segunda opção. Ou melhor, alguém escolheu por ti. No Benfica. O Benfica.

É por isso que és hoje, aos 31 anos, o lateral direito titular da selecção do Uruguai. É por isso que és, hoje, oito anos depois, um dos capitães do Benfica. Um dos jogadores mais queridos da massa associativa apesar de não seres um génio com a bola nos pés. És a prova de que o querer e a capacidade de trabalho conta tanto ou mais do que o talento para se ser um profissional bem sucedido. Ok, admito, nestes últimos anos, não houve muitos laterais talentosos a disputar contigo um lugar. Mas sabes porquê? Porque todos os treinadores sabiam que podiam estar descansados contigo. Tal como os adeptos. Sabiam que ias correr até ao último minuto, até que as pernas não aguentassem mais e que ias dar tudo pelo emblema que te pesava no peito. Mesmo que não fosse suficiente – como por vezes não foi.

Passaste a carregar aquilo que se chama de “mística” do clube. Não é só um dos mais velhos, como és um dos mais antigos. Em Portugal ganhaste tudo o que havia para ganhar. Pelo que tenho lido, o Benfica quer que continues e tu queres continuar. Já não é a primeira vez que isto acontece – e tal como há três ou quatro anos parece haver um empresário que está mais interessado nele próprio do que em ti. Lembras-te do teu amigo Christian Rodriguez? Pois.

É isso que te quero dizer. Tens 31 anos e duas opções. Continuares no clube que te deu tudo – e que te quer continuar a dar – ou optares por uma mudança. Percebo o que te vai na cabeça. Estás a aproximar-te do fim da carreira e tens uma agremiação a acenar-te com um salário milionário. Pelo que vem nas notícias, quer mesmo fazer de ti o jogador mais bem pago do País. Por isso, se achas que três milhões de euros por três anos não é suficiente para garantires o teu sustento para o resto da vida e que só o conseguirás fazer com oito milhões em quatro anos, aceita. Vai. Junta-te ao emplastro. Será como uma facada. Tornará este defeso ainda mais parecido com o Verão quente de 1993 – e as vitórias da época que aí vem ainda mais saborosas.

Nunca te esqueças. Uma agremiação será sempre uma agremiação e o Benfica será sempre o Benfica: o maior clube do mundo. Agora decide de que lado queres estar. No lado mau da força ou a lutar pelo #rumoao35

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5 thoughts on “Maxi: o emplastro, o golaço e a decisão

      • Caro Nuno, grato pela sua solução. Acompanho-o com muito gosto há algum tempo. Confesso que fiquei surpreendido com o termo usado. Não quis questionar o seu estilo, pelo contrário. Nem isto tem que ver com clubes, Nem com o “politicamente correto”, aliás, farto disso está a blogosfera, que só sai a ganhar com opiniões próprias, criativas, fundamentadas, rigor, humor e que não se bastam com análises superficiais. Justamente o que me encanta no seu “Informador”. O seu gesto só o honra. Grande grande abraço deste seu leitor (da cidade do Porto, pois claro).

  1. Pingback: O Rúben devia ser capitão, mas está a treinar sozinho | O Informador

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