Mário Nunes, o português que foi combater o Estado Islâmico

2 de Março de 2015. Foi o dia em que, pela primeira vez, tentei falar com o Mário Nunes. Era uma segunda feira. Uns dias antes, o JN tinha dado a notícia: um militar português da Força Aérea tinha desertado e estaria a combater na Síria, junto dos curdos, contra o Estado Islâmico. Depois de muito escrever sobre os portugueses e luso-descendentes que se tinham juntado aos jihadistas, o interesse em conhecer a história do Mário era óbvio. Mas não tive sorte. Ele nem sequer me respondeu.

Uns meses depois voltei a tentar. A decisão da cessação compulsiva do seu contrato com a Força Aérea foi publicada em Diário da República a 10 de Julho. Mais uma vez, fiquei sem resposta. Em Agosto, quando o JN divulgou a rescisão do contrato e a Agência Lusa noticiou que o Mário já tinha abandonado a Síria, pareceu-me que era a altura de ser escrito um artigo sobre um homem que, aparentemente, tinha abandonado tudo para lutar numa guerra que só é distante para aqueles que não vêem mais longe do que as ruas do bairro onde vivem. E se o Mário não falava, teria de o fazer sem ele.

Contactar amigos e familiares em Portugal não adiantava de muito. Aparentemente ele não mantinha o contacto. Por outro lado, abundam os ocidentais que decidiram juntar-se aos curdos das YPG (não confundir com os Peshmerga que, apesar de também serem curdos, pertencem a uma organização diferente e lutam no Iraque). Algum haveria de o conhecer. Ao fim de alguns dias, cheguei a um grupo de nomes que, quase de certeza, tinha-se cruzado com o Mário em algum momento. Encontrei também jornalistas que se tinham deslocado ao curdistão sírio para filmar e fotografar estes voluntários estrangeiros. Foi por eles que comecei.

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Michael McEvoy e Mau Gris tinham estado na Síria no início do ano para fazer um documentário que vai ser transmitido pelo Channel 4 britânico. Estiveram lá algumas semanas. Estavam em pleno processo de edição. Inicialmente, o Mário não queria aparecer. Só após algum tempo aceitou dar-lhes o seu depoimento. Por isso, eles não quiseram falar sobre ele – a não ser que o próprio aceitasse.

O próximo da minha lista foi Macer Gifford, um inglês que trabalhava na City e deixou tudo para lutar pelos curdos. Para além de participar nos combates, tinha-se tornado uma das faces mais visíveis dos ocidentais no norte da Síria. Estava de regresso ao Reino Unido onde se tornou um activista pela causa do povo curdo (voltarei a ele em breve).

Outros se seguiram. Para além de voluntários que lutaram lado a lado com o Mário, falei com alguns que tinham entrado com ele na Síria e um norte-americano que deixou o país, com ele, no início de Junho. Tinha informação mais do que suficiente para escrever um bom artigo – incluindo fotografias e vídeos colocados nas redes sociais.

Faltava o forcing final. Enviei-lhe uma nova mensagem já com a informação que tinha recolhido e fui até ao Algarve, onde ele viveu. Aí tive sorte: encontrei-me com a pessoa que melhor o conhece. Confirmou-me as informações que já tinha e, sem me contar que o iria fazer, acabou por falar de mim ao Mário. Nessa mesma noite, à 1h03m de 22 de Agosto, recebi uma mensagem: “ok tou disposto a falar”.

Desde então que conversamos praticamente todos os dias. O Mário revelou-se uma pessoa simples e disponível. Não estava ansioso por contar a sua história. Nunca procurou a fama. Mas sabia que iria acabar por acontecer. Escolheu fazê-lo neste momento. A partir daí, respondeu a todas as questões de uma forma clara e directa. Sem meias palavras ou subterfúgios. Nunca foi incoerente. Pelo contrário. À medida que os dias passavam revelou uma enorme consistência e maturidade. Só me pediu uma coisa: que não revelasse a sua localização, para manter a privacidade.

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Ao longo destas última semanas ele contou-me porque decidiu ir lutar para a Síra, como entrou no país, onde ficou, quais foram as suas primeiras impressões, falou-me dos amigos que fez, dos problemas que teve, dos riscos que correu, das dificuldades, das incongruências dos curdos e das frustrações sentidas pelos ocidentais. Quando os voluntários estrangeiros vão para a Síria há uma convergência de vontades: eles querem lutar e os curdos querem a sua presença pelo mediatismo que dão ao conflito. No entanto, no terreno, essa convergência por vezes diverge: os ocidentais continuam a querer lutar, mas os curdos tendem a protegê-los porque não querem a sua morte nas notícias. Tendem também a doutriná-los na sua própria ideologia – o que não cai bem junto da maioria. Resultado: nos últimos meses muitos têm abandonado o país ou trocado as YPG pelos Peshmerga.

Para o trabalho ficar completo, faltavam as imagens que lhe dariam força. Alguns dias antes tinha visto uma bela fotoreportagem do Michael McEvoy sobre os voluntários ocidentais na Síria. Resolvi perguntar-lhe se tinha imagens do Mário. Tinha várias. Enviou-me nove. Nós escolhemos quatro ou cinco. Uma delas seria capa. Até que, no passado domingo, o Mário me reencaminhou uma fotografia que lhe tinha sido enviada por um fotojornalista da AFP. Um retrato incrível, tirado pelo Uygar Önder Şimşek, do Mário a levantar a AK-47. Mais incrível ainda: a imagem estava na linha da AFP desde Abril e ninguém em Portugal a tinha visto. Foi a capa da Sábado desta semana. Um trabalho de que muito me orgulho e que tem apenas um protagonista: o Mário. Obrigado por tudo. Sabe bem escrever sobre os bons. Espero que gostem

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3 thoughts on “Mário Nunes, o português que foi combater o Estado Islâmico

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