“Esta é uma guerra com um grupo fascista que quer destruir toda a diversidade e civilização”

Foi uma entrevista difícil. Durante vários dias andámos desencontrados. O meu objectivo inicial era saber mais sobre os voluntários estrangeiros que se juntaram às YPG curdas contra o Estado Islâmico (EI). Informação sobre eles significava informação sobre o Mário Nunes, o primeiro português a lutar contra o EI. Mas no caso de Macer Gifford significava mais: já tinha encontrado, online, imagens dos dois no mesmo grupo. Portanto, a probabilidade de ele o conhecer bem era grande. Não me enganei. O Macer e o Mário estiveram juntos cerca de dois meses. Conviveram muito, falaram mais. Foi também graças a ele que, mais tarde, consegui entrevistar o Mário. No entanto, por causa disso, a esmagadora maioria da minha conversa com o Macer acabou por não ser publicada. Mas como as suas respostas – dadas já pela noite dentro, via Skype e depois de ultrapassada uma greve de comboios no Reino Unido – são tão boas e esclarecedoras, não podia deixar de as publicar. Obrigado, Macer.

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Trabalhava na área financeira e não tinha passado militar. Como foi parar ao Curdistão sírio, a lutar contra o Estado Islâmico?

Foi a frustração com o pouco que o Ocidente estava a fazer. O EI apareceu do nada. Apanhou todos de surpresa. Mas isso é compreensível. O que é imperdoável é que, enquanto o EI estava a crescer, nada foi feito para os parar. O que me deixa doente é que ainda hoje não há um plano para combater o EI. Há um ano estava na minha secretária, no início de Dezembro, a ver os acontecimentos em Kobane e os Yazidi presos nas montanhas de Sinjar. Esse foi um momento decisivo para mim. Foi uma das principais razões pelas quais decidi partir. Estava a pensar: a qualquer segundo o Ocidente vai intervir, pará-los e destruí-los. E nada aconteceu. Descobri que me podia voluntariar e foi o que fiz.

Como? 

Na época era muito simples. Agora eles abrandaram os recrutamentos. Há muito poucas pessoas a entrar no país. Contactei os Lions of Rojava, enviei-lhes um email. Como eles recebiam muitos contactos, o ónus estava sobre nós. A maioria dos estrangeiros que lhes escrevia diziam “tenho medo, vocês tem que me dar garantias”. Eles respondiam: “não, você é que tem de nos dar garantias. Se nos enviar uma fotografia do seu cartão de embarque a provar que pagou um bilhete, nós daremos o dia e o local de encontro”. Basicamente contactei-os e eles deram-me os factos: isto é uma guerra e é com isso que podes contar. Perguntaram-me o passado militar, se tinha condenações e além disso era só apanhar um avião que eles iam ter ao aeroporto. Foi o que aconteceu. Paguei 320 libras por um bilhete de ida para o Iraque, cheguei a Sulaymaniyah poucos dias depois do Natal de 2014. Demorei uns dias para passar a fronteira para a Síria e nos cinco meses e 10 dias seguintes estive a combater.

Já tinha disparado uma arma? 

Sim. Quando estava na escola, nos cadetes.

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Encontrou aquilo que esperava? 

Não sabia exactamente o que esperar. Sabia que era uma guerra brutal. Não tinha ilusões: não sou um soldado. Sabia que a minha ida não ia ganhar a guerra. Não pensei que ia fazer uma grande diferença. Claro que um par extra de mãos, alguém que tenha solidariedade e esteja disposto a lutar ao lado dos curdos é bem-vindo. Mas a verdadeira diferença que podia fazer, como ocidental, britânico, era chamar a atenção e falar aos média britânicos e políticos e dizer-lhes “é por isto que fui lutar”, é por isto que os curdos lutam e é assim que derrotamos o EI. Houve um elemento de querer liderar pelo exemplo e embaraçar o governo britânico ao dizer: “se não vão defender os valores britânicos, ajudar quem mais precisa e lutar contra o fascismo no Médio Oriente, eu vou. E quando voltar vou dizer exactamente como o fiz e porque o fiz”.

Não receia que os voluntários ocidentais sejam vistos como uma espécie de turistas de guerra? 

Sim, isso é uma preocupação. Mas no fim do dia, se és um turista, rapidamente verás que estás no local errado. É tão perigoso, brutal e duro que quem não estiver lá pelas razões certas tende a partir ao fim de um mês. Os que ficam e lutam são aqueles que acreditam mesmo no que fazem. Claro que houve estrangeiros que passaram lá um mês. Ouvi falar de um tipo americano que apareceu, passou um dia no Iraque, nem entrou na Síria e disse que estava com demasiado medo e apanhou um avião para casa – mas só depois de pedir aos Curdos para pagarem o seu bilhete. Eles acabaram por gastar 2000 dólares que podiam ter sido usados em munições e medicamentos para mandar este idiota para casa.

Cada um dos voluntários terá as suas razões particulares. Acredita que a maioria tem esse espírito de solidariedade?

Há muitas razões. Pode haver um tipo que aparece e diz que é cristão e quer ajudar as pessoas e que foi pela fé. Outro diz sou um verdadeiro americano e sei que se lutar aqui estou a proteger a América no longo prazo. Outros são esquerdistas: acreditam em valores socialistas e querem lutar ao lado da causa socialista. Há humanistas, pessoas que genuinamente se preocupam com o sofrimento das pessoas e querem aliviá-lo. Há todas estas razões diferentes. Mas o que une estas pessoas é a crença na democracia, na igualdade, liberdade de expressão, coisas que tomamos como garantidas. Por último é um ódio ao EI e a tudo o que eles representam. O que me chateia é que as pessoas dizem: como inglês, que direito tens de lutar na Síria? Esse é um problema Sírio. Mas no fim do dia esta é uma guerra internacional, com um grupo fascista que quer destruir toda a diversidade e civilização do Médio Oriente e fazer o tempo andar para trás, para o século VI. Por outro lado há os curdos, que acreditam na democracia, e que estão a lutar pelas suas casas, pela sobrevivência. Há valores ocidentais a lutar contra o totalitarismo e barbárie.

Suponho que lhe tenham dado treino. 

Não muito. A maioria dos voluntários, mais de 85%, já tem treino militar. Há pouco que os curdos possam ensinar. Chegam, dão-lhe um uniforme, uma arma, ensinam a disparar e o que o YPJ defende. O meu treino apareceu depois. Nessa semana fizemos exercícios, etc, coisas simples. Só no mês e meio seguinte, quando estava na linha da frente sem fazer nada, é que fiz muito treino. Tínhamos uma aldeia para nós. Ficámos a observar o EI mais do que outra coisa.

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Onde?

Perto da montanha Sinjar, na fronteira da Síria com o Iraque. Em Fevereiro, quando a primeira operação começou, lutámos primeiro no Iraque. Deixámos a posição onde estávamos e fomos à volta deles. As posições do EI estavam muito bem fortificadas. Tinham minas, metralhadoras pesadas e até tanques. Fomos até ao Iraque, juntámo-nos aos Peshmerga e rodeámo-los e voltámos ao país pelo sul. Éramos três mil. Havia 30 estrangeiros.

O Mário Nunes já estava lá? 

Não, ele chegou pouco depois da operação de Tel Amis. Conheci-o fora de um sítio chamado Tel Tamer. Lembro-me de rir com ele uma vez. Disse-lhe que estava com ciúmes porque cheguei ao país e demorei um mês e meio a ver combates, a fazer alguma coisa. Ele chegou, fez o treino uma semana e foi enviado para a linha da frente. Tomou parte numa grande batalha. O EI atacou a posição dele. Eles mataram 10 ou 15 combatentes do EI. Quando o conheci ele era uma figura selvagem, um tipo grande e forte, que usava equipamento que tinha… ele tinha morto alguns soldados do EI e como o equipamento deles era melhor do que o nosso ele tirou-lhos e estava a usá-lo. Pensei: este gajo chegou há duas semanas e já entrou numa enorme batalha e já está a construir a sua reputação de combatente. Foi a primeira vez que o vi.

Ficaram juntos quanto tempo? 

Dois meses.

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Ele partilhou as razões para ir para lá? 

Ele queria ajudar. Lutar contra o EI. Ele odiava o EI. A razão porque deixou a Força Aérea foi porque pensou que eles não iam ajudar e não conseguiu suportar ficar sentado em Portugal a ver tudo acontecer na síria, com as pessoas a sofrer. E meteu-se num avião. Tivemos várias conversas sobre as suas crenças e ele é um verdadeiro patriota. Ele adora o seu país, acredita na democracia e viu as pessoas à volta dele a tomar por garantidas a vida que têm em Portugal e no Ocidente. Quis ajudar as pessoas na Síria que estavam a pedir os mesmos direitos que tomamos por garantidos.

E um dos objectivos do EI é tomar o Al Andalus.

Exactamente. Portugal tem um alvo vermelho em cima e houve pelo menos um português que não ficou à espera que eles fossem ter com ele. Teve a motivação para deixar a vida dele para trás e lutar. Admiro-o por isso.

O que me pode dizer mais sobre ele?

Era muito focado, nunca se atrasava para as tarefas de vigia. Nunca se queixava das condições duras. Havia alguns estrangeiros que odiavam o facto de acordar à uma da manhã e fazer cinco horas de guarda. Odiavam a má comida. As condições horríveis. A maioria, pessoas como eu ou o Mário, perceberam que não havia nada a fazer. Mais valia não nos queixarmos e continuarmos. Era também muito ansioso por lutar. Era muito corajoso. Quando chegava a altura de lutar era  muito de, “ok, vamos lá acabar com isto”. Era muito focado, determinado, completamente destemido.

Destemido não significa louco…

Provavelmente um pouco, mas a maioria de nós também o é [risos]. Provavelmente fez-lhe bem. Às vezes ficava frustrado com a situação, a longa espera. Queria ver mais do país, que as operações continuassem e que tomássemos mais terra ao EI. Mas percebia que fazíamos parte das forças curdas e que  eles fazem as coisas à sua maneira.

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Alguma vez foi ferido?

Não. O pior que me aconteceu foi aleijar o joelho. Estávamos a atacar uma aldeia e tivemos uma batalha de oito horas. Pedimos um ataque aéreo e os americanos atingiram-na. Rebentaram metade da aldeia. Na manhã seguinte entrámos e eles ainda estavam lá. Começaram a disparar para o tanque. À ida, estava no tanque, ouvi uma bomba e pensei que tínhamos pisado uma mina. Saltei do meu lugar e bati no lado do tanque. Como era metal esmaguei o joelho. Saltei para fora e uma rapariga à minha frente foi atingida no estômago. A bala saiu pelas costas. Ela caiu e fui ajudá-la. Passámos o dia a “limpar” a aldeia. Só na manhã seguinte, quando tentei mexer a minha perna é que me apercebi que estava a coxear como um velho. Mas nunca fui alvejado.

Se tivesse que escolher uma situação que o marcou mais seria essa? 

Não, houve outras. Uma vez, noutra aldeia, quase morri, ouvia as balas a baterem junto à minha cabeça e fiquei ali à espera de morrer. Houve outros momentos como esse, mais assustadores. Os primeiros momentos em que vi cadáveres, ouvi balas por cima da minha cabeça ou vi combatentes do EI. Houve muitas primeiras vezes para mim.

Viram-nos cara a cara?

Os únicos que vi cara a cara estavam mortos. É muito difícil fazê-los prisioneiros. Normalmente, só quando apanhamos uma aldeia e as pessoas dizem que algum é do EI e está a tentar passar por civil.

Então o dia-a-dia é imprevisível: podem ficar dias sem fazer nada e outros com batalhas de horas.

Exactamente. O que nos deixa loucos é não saber quando a situação vai mudar. Chegamos a uma aldeia, estivemos a lutar, temos toda esta adrenalina e queremos continuar e eles dizem: esperem. Passa um dia, dois, uma semana, duas… depende muito. Muitas vezes chegamos a uma aldeia, preparamos o jantar e quando estamos a pôr a primeiro pedaço de comida na boca dizem “vamos embora, para os carros”. Outras vezes chegamos e pensamos que provavelmente vamos embora em breve e não comemos – e três semanas depois lembramo-nos disso. Uma vez estive com o Mário um mês, sem fazer nada, só a ser alvejados. Estávamos numa posição a observar o EI. Eles disparavam contra nós, com morteiros, e nós contra eles.

Qual era a reacção dos sírios ao verem ocidentais quando libertavam uma aldeia? 

A maioria ficava felicíssima ao ver-nos. Éramos libertadores. Estávamos a libertar Rojava do EI, daqueles que os apedrejavam até à morte.

E não estavam a ser pagos.

Não. Se formos capturados vamos ser brutalmente assassinados. Vamos aparecer na TV e ser decapitados. Se formos feridos não teremos os melhores cuidados médicos. Se ficarmos com problemas psicológicos por vermos as coisas horríveis que vimos, não teremos ajuda. Tudo é por nossa conta. A única razão para lá estarmos é querermos ajudar. Pagamo-nos a nós próprios.

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Porque decidiu sair? 

Decidi sair em Junho porque pensei que a luta tinha acalmado, que íamos passar muito tempo a construir defesas. Tomámos o principal quartel-general da região. Durante uma semana só cavei trincheiras, edifiquei fortificações e até pusemos minas. Pensei: vamos ficar aqui meses, mais vale ir a casa, descansar e voltar quando a operação por Kobane começar. Parti e uma semana depois Tal Abyad caiu. Fiquei tão chateado… Estou ansioso por voltar para lá.

O que vai fazer agora? 

Criei um grupo chamado Amigos de Rojava, que encoraja o diálogo entre as pessoas de Rojava e o governo britânico. É basicamente um grupo de pressão que promove os assuntos curdos no Parlamento. Acho que é algo que vai beneficiar os curdos. Estou a passar muito tempo a falar com os média, a fazer filmagens, discussões e a tentar influenciar a posição do governo britânico, que é errada.

Teve problemas a voltar para casa? 

Na lei britânica não é ilegal lutar pelo YPJ. Só é ilegal lutar contra o Estado, contra Assad. Se me tivesse juntado ao FSA, Al Nusra ou EI estaria preso. Juntei-me aos curdos, que estavam a sofrer e morrer por causa do EI. Juntei-me às Forças de Protecção Popular que defendiam o povo dos terroristas brutais. O Reino Unido também está em guerra com o EI.

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