“Não vale a pena procurar culpados porque não há inocentes”

Não sei se repararam, mas nesta época pré-eleitoral, chegou às livrarias um dos livros mais importantes dos últimos anos sobre os meandros do sistema político português. Mais concretamente sobre a forma como os políticos dos principais partidos nacionais – PS e PSD – conseguem chegar ao poder e se perpetuam, e aos amigos, nos lugares depois de lá chegarem. Chama-se Os Predadores e é assinado pelo meu camarada de secção, Vítor Matos, que tem uma frase genial para descrever aquilo que descobriu: “não vale a pena procurar culpados porque não há inocentes”. Este é um pequeno resumo do que podem encontrar:

“Orlando Gaspar, velha raposa do PS/Porto, observou a rapariga num evento do partido. Era namorada de um cacique de bairro que ia empenhar todo o seu sindicato de votos no apoio a um rival. Ficou admirado com o que viu, mas o seu instinto disse-lhe que era uma oportunidade. A rapariga estava desdentada. “Que é isso?”, perguntou. Ela respondeu que não tinha dinheiro para arranjar os dentes. Estávamos em 2003. Orlando Gaspar liderara a concelhia dos socialistas portuenses durante 15 anos e comandava agora a campanha de Nuno Cardoso – ex-presidente da Câmara – para lhe suceder, contra o ex-vereador José Luís Catarino. Nunca tinha perdido uma eleição interna. Não era agora que ia ser derrotado. Fez os seus contactos. E a amante do dirigente recebeu uma dentadura nova. Os votos mudaram de sentido. Nuno Cardoso ganhou a José Luís Catarino naquela secção. E conquistou a concelhia socialista do Porto.

Estas moedas de troca existem, segundo o livro Os Predadores, do jornalista da SÁBADO Vítor Matos, sobre o funcionamento interno dos partidos políticos, que é lançado esta semana. Pode ser assim, com mais ou menos bizarrias, que as eleições internas se decidem nos maiores partidos. É através de pequenas ou grandes vigarices, truques, manipulações e chapeladas, ou compra de apoios com cargos, que uma parte da classe política nos dois maiores partidos vai subindo na pirâmide partidária.

Para quem quiser ascender na política através do PS e do PSD, o que conta são as disputas internas: “O Poder nos partidos é conquistado a partir do seu interior, contra os companheiros ou contra os camaradas. As disputas com os rivais de outros partidos acabam por ser quase secundárias. O que interessa é garantir o controlo das estruturas”, explica Carlos Reis, o social-democrata que mais tempo dirigiu a JSD/Lisboa e que presidiu ao PSD da Amadora. “Se ganhamos umas eleições passamos a ganhar todas as eleições seguintes. Quem fica na oposição interna não tem meios nem capacidade para o fazer”. E é o domínio das estruturas que dá acesso aos cargos electivos e de nomeação.

Apesar das promessas em sentido contrário e mesmo com a criação da CRESAP, o aparelho do PSD (e do CDS) enxameou os lugares no Estado. No caso de António Costa, a rede de empregos na câmara de Lisboa é extensa, incluindo lugares dados a familiares de dirigentes do PS.”

Mas não é só estas moedas de troca que o livro aborda. Querem saber como Luís Filipe Menezes ganhou a liderança do PSD a Marques Mendes? Graças à contratação de um pirata informático que permitiu a alguém pagar as quotas de milhares de militantes que acabaram por votar no antigo autarca de Gaia. Os detalhes desse capítulo foram já contados no Observador. Já o Expresso, centrou-se no “embuste” que foram as eleições primárias do PS que deram a vitória a António Costa. Há muitos mais. Garanto que vale a pena.

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