Os segredos dos espiões

Quando falamos do jornalismo português, o mais vulgar é ouvirmos vozes que se lamentam da sua falta de qualidade, da inexistência de repórteres de investigação ou da ausência de jornalistas independentes. Muitas vezes essa crítica é injusta. Sobretudo para aquele grupo de repórteres que se dedicam a isso mesmo: a investigar, a denunciar, a trazer a lume histórias desconhecidas dos principais protagonistas da vida portuguesa ou de anónimos que, nos bastidores, movimentam influências. É o caso do António José Vilela.

Trabalho com ele há 10 anos. Primeiro (pouco), em O Independente. Depois, na Sábado. Nesta década vi-o, semana após semana, a publicar dos mais consistentes e certeiros trabalhos da imprensa portuguesa. Assim de repente lembro-me, entre outros, dos longos artigos sobre o caso Freeport; da investigação sobre o envolvimento de Duarte Lima no BPN; da notícia da existência de uma investigação aos Vistos Gold; das histórias dos casos BES, Furacão e Monte Branco; das revelações sobre a Maçonaria e negócios militares e, claro, no último ano, sobre a Operação Marquês.

Ao longo destes anos tive o privilégio de com ele assinar alguns trabalhos. Com ele aprendi muito sobre jornalismo – apesar de nem sempre estarmos de acordo sobre as opções a tomar. Nem temos que estar. As discordâncias são normais na vida. E normalmente chegamos a um consenso. Mais do que um simples colega, ele tornou-se um amigo. Daqueles com quem se pode contar. Mas não é por isso que escrevo este post: faço-o porque hoje é o dia do lançamento do seu mais recente livro Os códigos e as operações dos espiões portugueses – um tema sobre o qual ele escreve há muito e que surge numa altura em que as eventuais actividades dos serviços de informações estão a ser discutidas nos tribunais. É, por tudo, um livro importante. É, sobretudo, um livro bom. Muito bom. A apresentação é às 18h30 na Bertrand das Amoreiras. E como amostra fica aqui o primeiro capítulo.

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1 – As regras: o conde francês, a colega bisbilhoteira da loja da Baixa e o espião com bom senso

Alexandre de Marenches foi um aristocrata francês que se tornou militar e lutou contra os alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Na altura, chegou a escapar à prisão pela Gestapo atravessando a pé os Pirenéus para se juntar à resistência francesa. Acabou a guerra a combater em Itália depois de se juntar às tropas norte -americanas que tomaram Roma. Com o fim do conflito bélico, o oficial do Exército passou à reserva com o posto de coronel e entrou definitivamente nos negócios que a família mantinha na indústria. Mas manteve- se sempre próximo do poder político e extremamente crítico dos ideais comunistas. Em 1969, com a chegada à Presidência de França do antigo primeiro-ministro Georges Pompidou – após a demissão de Charles de Gaulle, o mais emblemático político francês do pós -guerra com quem Marenches se incompatibilizara –, o novo presidente decidiu proceder a alterações profundas nos serviços secretos, sobretudo ao nível da contraespionagem externa.

O homem escolhido para essa tarefa foi precisamente Alexandre de Marenches, que acabou por mandar durante mais de uma década, entre novembro de 1970 e junho de 1981, no poderoso Service de Documentation Extérieure et de Contre -Espionnage (SDECE), que deu origem no ano seguinte à Direction Générale de la Sécurité Extérieure (DGSE). O conde de Marenches – como era conhecido o aristocrata – tornou-se célebre no mundo da espionagem e também fora dele, sobretudo depois dos dois livros que escreveu já na reforma e em parceria com jornalistas.

Nos anos 80, ainda chegou a ser conselheiro especial do presidente norte -americano Ronald Reagan e foi a uma longa citação do antigo espião francês que o SIS recorreu para abrir, em 1988, o primeiro manual destinado à formação de espiões portugueses. «As informações são uma espécie de puzzle permanente, multiforme e policromo, que se faz e desfaz sem cessar, um pouco como os projetores coloridos que rodam nas discotecas dos jovens. As informações consistem em procurar continuamente, e por todo o lado, um certo número de pedaços que outras pessoas no interior do mesmo serviço tentam ajustar para formar o puzzle. A grande dificuldade é que, à medida que se consegue tapar os vazios com novas peças, o puzzle muda instantaneamente. Evolui sem parar.»

Recém- criado e envolto em forte polémica devido à cerrada oposição dos partidos políticos de esquerda, que viam nos serviços de informações um regresso ao tempo da polícia política PIDE/DGS, o SIS viveu os primeiros anos com grandes dificuldades, pois faltava -lhe quase tudo: apoio político, meios, experiência no terreno e formação. Mais de 25 anos depois, quando se lê o primeiro manual usado para ensinar os espiões do SIS, dificilmente se deixa de reparar em vários exemplos muito terra- a -terra que foram usados para ilustrar o que realmente se queria do novo serviço de informações e dos seus espiões.

Uma das principais qualidades exigidas era a de que um bom agente devia «saber calar -se» no momento certo, mas também deter o «domínio da oralidade». No manual do SIS estavam registados outros atributos dos espiões, quase todos relacionados com o bom senso, a discrição e a capacidade de trabalho. Eis alguns exemplos concretos do que se pedia a um bom agente:
– motivação para a realização de uma tarefa difícil; inteligência para assimilar rapidamente um grande número de factos; flexibilidade de espírito para se adaptar às novas situações; imaginação e curiosidade temperadas com bom senso; honestidade intelectual para captar e transmitir factos como são e não como o espião ou os seus chefes desejariam que fossem;capacidade de trabalho em grupo e sem horários; lealdade para com o seu país e o seu serviço; estabilidade emocional para fazer bons julgamentos; e capacidade de separar a realidade da ficção.
Os exemplos e as explicações usados pelo SIS eram simples, quase maniqueístas, mesmo quando o objetivo passava por mostrar aos espiões a diferença entre o que era uma «notícia», um facto isolado, e as verdadeiras informações que resultavam da integração de vários acontecimentos. Para ilustrar esta diferença fundamental, o manual recorria a uma história ficcionada com três personagens principais que integravam um grupo mais alargado de funcionários da Loja da Moda, situada na movimentada Baixa de Lisboa. Tratava -se de a «D. Ana», o «Sr. Lopes» e uma «colega bisbilhoteira».

O enredo começava no momento em que a funcionária desconfiada decidira anotar os locais onde cada um dos dois colegas lhe dizia que passava os fins de semana. Durante quatro meses a mulher registou as informações que lhe eram dadas de forma individual, e em incautas conversas, por cada um dos dois colegas. Para cada um dos alvos fez também corresponder um quadro com cada um dos 17 fins de semana onde escreveu de forma metódica os destinos – Sesimbra, Lisboa, Troia, Malveira, Ericeira… O primeiro passo da espia de ocasião estava dado. «Tanto num caso como no outro, a senhora bisbilhoteira obteve e registou notícias (neste caso, verdadeiras)», frisava o manual do SIS, notando que ainda era muito cedo para tirar conclusões: «Essas notícias não permitem concluir nada entre um possível relacionamento dos dois empregados na Loja da Moda.»

Pois não, mas o caminho era mesmo este para encontrar as conexões. Quando integrados e cruzadas as informações registadas da D. Ana e do Sr. Lopes num só quadro, a colega bisbilhoteira passaria a ter dados realmente interessantes: 14 das 17 saídas de fim de semana dos colegas tinham tido um destino comum. Para confirmar o maldizer alheio já bastaria, mas isso não chega no mundo da espionagem, conforme especificavam as recomendações do SIS: «Claro que não pode afirmar, por enquanto, que haja uma relação amorosa entre ambos. Para o fazer conscientemente teria de continuar a pesquisa.»

Depois deste pequeno capítulo sobre «Informações e Notícias», que ia buscar inspiração às escapadinhas amorosas de empregados de balcão, o manual do SIS ensinava os espiões a focalizar de imediato a atenção em problemas mundiais então relativamente recentes como a longa e devastadora guerra entre o Iraque e o Irão, a invasão falhada do Afeganistão pelas tropas soviéticas e a crise petrolífera que se seguira ao ataque militar do Egito e da Síria a Israel. Para a secreta portuguesa, algumas das nefastas consequências destes casos eram simplesmente explicáveis por falhas na recolha e tratamento de informações sobre o adversário e as ameaças reais, conforme concretizava o novo capítulo do manual chamado «Informações prospetivas: previsão de possibilidade». Num ápice, os agentes passavam a saber que as regras da espionagem tanto se aplicavam na Baixa de Lisboa como no palco internacional da intriga política.

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