Uma resistente no Parlamento

Conheci a Domicília Costa há uns quatro anos. Estava a trabalhar num projecto que está há demasiado tempo na gaveta e depois de ler uma reportagem do Público achei que ela me podia ajudar. Telefonei-lhe. Sem me conhecer de lado nenhum, aceitou logo falar comigo. Encontrámo-nos ao fim da tarde num café do Campo Pequeno. A Domicília estava à minha espera, acho que a beber um carioca de limão. Recebeu-me com um sorriso. Quis então saber exactamente o que estava a fazer e depois começou a contar a sua história. Aquele que devia ter sido um encontro de uns 20 minutos foi-se prolongando por quase uma hora. É que quando começa a contar a sua história, a Domicília, como ela própria diz, “nunca mais se cala”. Teríamos continuado por mais tempo não fosse ela ter de apanhar o autocarro.

A semana passada voltei a vê-la nos jornais. Tinha sido eleita deputada pelo Bloco de Esquerda e dizia, com toda a sinceridade do mundo, que não estava à espera de ser eleita. Era apresentada como doméstica (um termo que adquiriu uma carga negativa) e reformada (algo que não é). Alguns acrescentavam que teria gerido casas clandestinas do PCP, como se isso fosse a coisa mais banal do mundo. Não é.

A Domicília Costa tem todo um passado de luta na clandestinidade numa época em que poucos ousaram fazê-lo. Primeiro assistia em silêncio à actividade dos seus pais, funcionários do PCP. Tinha de fingir que ia à escola quando não o podia fazer, para os vizinhos não desconfiarem. Aos 9 anos começou a dobrar folhetos que o pai fazia na tipografia clandestina. Aos 11 já trabalhava a sério na produção de jornais, panfletos e manifestos. Aos 20 saiu de casa para criar uma nova morada clandestina com um homem que não conhecia. Ajudou muita gente até se exilar em França.

Voltou a Portugal em 1975. Agora, 40 anos depois, vai estrear-se na Assembleia da República. Talvez seja a única com uma experiência semelhante. Não vai só enriquecer o Parlamento. Vai também dar-lhe dignidade – e a memória, que faltou à nossa comunicação social. A entrevista sobre a sua vida na clandestinidade pode ser lida esta semana, na Sábado.

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