De Beirute a Paris

Ali tem 40 anos. É dono de vários restaurantes libaneses em Paris. Um deles fica a cerca de 100 metros do Bataclan, a sala de espectáculos que esta sexta-feira, 13 de Novembro, foi alvo de um atentado terrorista que matou mais de 80 pessoas que assistiam a um espectáculo da banda Eagles of Death Metal. Nos últimos dois dias uma boa parte dos seus clientes têm sido jornalistas. A cada um diz que tem informações importantes. Mas que cobra 150 euros por cada resposta.

A cada olhar incrédulo responde com um grande sorriso, enquanto prepara mais um falafel ou serve um chá verde (deve ser o único nas redondezas que não vende café). Não estava no restaurante na noite dos ataques. Mas assim que ouviram os primeiros tiros, os seus funcionários fecharam a porta. Só puderam sair às 5h da madrugada.

Também ele está chocado com o que aconteceu. Mas encara-o de uma forma diferente da maioria dos franceses. “Isto foi terrível, mas se me perguntar se tenho medo, respondo que não. Isto não é a guerra, é um acontecimento fora do normal em Paris. Guerra é o que vivi toda a minha vida no Líbano, onde cresci habituado a ver corpos nas ruas e a ouvir tiros e explosões.”

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Nem de propósito. Na véspera dos ataques em França, Beirute foi alvo de um enorme ataque do auto-proclamado Estado Islâmico. Ao todo, 43 pessoas morreram e 239 ficaram feridas quando dois bombistas suicidas se fizeram explodir com cerca de cinco minutos de diferença, a pouco mais de 150 metros um do outro, num mercado ao ar livre. Um bombista que sobreviveu e foi capturado pela polícia disse às autoridades que o grupo tinha entrado no país a partir da Síria dois dias antes.

De volta a França, uma enorme onda de solidariedade varreu as redes sociais com milhões de pessoas a cobrirem as suas fotografias no Facebook com as cores da bandeira francesa. Edifícios icónicos em todo o mundo foram iluminados de azul, branco e encarnado. Mas quantos usaram o vermelho, verde e branco da bandeira libanesa? Ou o encarnado e branco da bandeira turca, quando o EI realizou um atentado pouco antes das eleições do mês passado? Ou o vermelho, negro, branco e verde da bandeira iraquiana praticamente todos os dias dos últimos anos? Ou as cores de todos os outros locais afectados pelo terror indiscriminado ao longo da última década?

Sim, devemos ser solidários quando um atentado terrorista acontece num país que nos é próximo. Sim, devemos ser Charlie. Sim, devemos ser Paris. Mas também devemos ser Beirute, Ancara, Kobane ou Bagdade. Porquê? Ali tem a resposta: “Podia ser o meu filho ali dentro, isso é que é assustador. Isto não é uma questão de religião, de muçulmanos, cristãos ou judeus. É um problema político”.

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