O medo

Tinha acabado de escrever este texto e estava à conversa com um camarada brasileiro num café nas imediações do Bataclan quando, de repente, comecei a ver pela janela gente a correr. Ao mesmo tempo, o meu telefone tocou. Um amigo com família em Paris ligava-me de Lisboa a avisar que havia tiroteio na capital francesa. Por instinto, levantei-me e fui até à porta ver o que se passava. Havia gritos. O proprietário do estabelecimento, que não consegue esconder o cansaço e o stress provocado pelos acontecimentos dos últimos dias, pareceu ter um pico de adrenalina e saltou detrás do balcão para lançar ordens aos clientes: “depressa, para a cave”.

Nessa altura, já uma funcionária tinha destrancado a porta verde que dá acesso a um armazém para onde, um a um, aqueles que estavam no interior do estabelecimento começaram a dirigir-se. Também ela tremia. Voltei atrás, fechei o computador e preparei-me para o pior. Então era aquilo, a sensação de que algo terrível estaria prestes a acontecer. O medo.

O dono do café não parava. Ora saía para tentar perceber o que estava a acontecer, ora trancava a porta da rua, ora a abria para deixar entrar mais algumas pessoas que corriam rua abaixo em busca de um local onde se proteger. Minutos antes, um falso alarme tinha lançado o pânico na Place de la Republique, a algumas centenas de metros de distância.

A questão é que ninguém sabia que tinha sido um falso alarme. Aliás, ninguém sabia nada. Apenas que havia gente a correr em pânico e polícias que gritavam: “dispersem, dispersem”. Homens e mulheres choravam. Alguns agarrados. Outros enquanto caminhavam sozinhos sem direcção definida. Alguns repórteres de imagem arriscaram sair até à esquina mais próxima e tentar registar o que se passava em segurança. As possibilidades eram muitas. Na mente de cada um estava a hipótese de algo voltar a acontecer. Enquanto espreitava pelas janelas, escondido atrás de um pilar, recordo-me de pensar que aquela porta de vidro que o dono do café insistia em trancar e destrancar não serviria de muito perante um terrorista armado com uma Kalashnikov – e  que a cave que se queria um local seguro seria apenas um beco sem saída. Avaliei a resistência dos vidros que protegem a esplanada. Quebrar-se-iam facilmente com uma cadeira caso fosse necessário? Ou era melhor sair dali o quanto antes na direcção oposta?

Não houve tempo para decidir. Apesar de ter parecido uma eternidade, o pânico durou poucos minutos. Mas foram os suficientes para perceber que, em Paris, os nervos continuam à flor da pele perante a possibilidade de um novo atentado. A notícia de que tudo não tinha passado de um falso alarme chegou através do Twitter que tem sido a melhor forma de obter informação sobre o que se passa em Paris. O telefone voltou a tocar. Estava tudo bem. O dono do café abriu as portas e saiu para a rua para fumar um cigarro. Um cliente ainda lhe disse que nestas alturas devia poder fumar lá dentro. Mas nem isso lhe arrancou um sorriso. E assim que toda a gente saiu da cave anunciou: “Por hoje chega. Vou fechar”.

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