Para quem quiser saber mais sobre o Estado Islâmico

Hoje em dia há cada vez mais – e melhores – livros sobre o auto-proclamado Estado Islâmico. Ainda assim, não me levem a mal por puxar a brasa à minha sardinha. Este foi publicado em Maio. E apesar de o título ser Os combatentes portugueses do Estado Islâmico, lá podem encontrar toda a história do mais terrível grupo terrorista mundial, como se organiza, como funciona, como se financia, como comunica e como propaga a sua ideologia. Ficarão também a conhecer os seus líderes, para além dos protagonistas nacionais e luso-descendentes e a história sobre como as autoridades portuguesas foram informadas da sua presença na Síria.  Agora que o Natal se aproxima, nada melhor do que fazer uma sugestão para um presente a um amigo ou um familiar. E para abrir o apetite, deixo aqui um capítulo.

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As origens

Desde que saltou para as primeiras páginas dos jornais e para a abertura dos telejornais, o Estado Islâmico tem sido apresentado como um grupo dependente da Al Qaeda ou com origens na Al Qaeda do Iraque (AQI). Não sendo totalmente falsa, essa definição também não é inteiramente correcta. É apenas uma simplificação que ignora alguns detalhes – e esses podem fazer toda a diferença.

As origens do grupo remontam ao final do século XX quando, em 1999, Abu Musab al-Zarqawi (nome de guerra de Ahmad Fadl al-Nazal al-Khalayleh) foi libertado da prisão al-Sawwaqa, na Jordânia. Então com 33 anos, al-Zarqawi era já um veterano da guerra no Afeganistão, para onde tinha viajado em 1989. Nessa época, apesar de ter recebido treino militar, não se tornou logo guerrilheiro: foi repórter de uma pequena revista jihadista chamada Al-Bosnian al Marsous[1]. Mais importante: foi no Afeganistão que conheceu aquele que se tornaria no seu mentor ideológico: o também jordano Abu Muhammad al-Maqdisi (nome de guerra de Issam Muhammad Tahir al-Barqawi).

Al-Maqdisi era já um reputado clérigo salafista[2], um movimento originário do Egipto que, no século XX, evoluiu para uma escola de pensamento único baseada numa interpretação literal do Corão. No início da década de 1980 tinha publicado o livro O Credo de Abrão, obra que se tornou na mais importante fonte de ensinamentos dos movimentos Salafistas mundiais[3].

Em 1992, al-Maqdisi e al-Zarqawi voltaram à Jordânia onde criaram o grupo Bayat al-Iman (Fidelidade ao Iman), cujo principal objectivo era derrubar o regime e instaurar um governo islâmico. No ano seguinte, foram ambos presos e Zarqawi condenado a 15 nos de cadeia por posse de armas e por pertencer à organização clandestina[4]. Na prisão, al-Zarqawi tornou-se rapidamente um líder incontestado. No pátio era ele quem decidia quem cozinhava, quem lavava a roupa e até que programas de televisão podiam ser vistos. Passava o tempo a trabalhar o corpo, a ler o Corão e a angariar novos recrutas. Quando foi libertado, em Maio de 1999, graças a uma amnistia concedida pelo recém entronizado Rei Abdullah II, era tratado pelos outros reclusos por “emir” ou “principe”[5].

Novamente livre, viajou primeiro para o Paquistão e depois para o Afeganistão, onde conheceu Osama Bin Laden, em Kandahar. Os dois não se deram especialmente bem[6]. Ainda assim, al-Zarqawi obteve um empréstimo da Al Qaeda e autorização para criar um campo de treino em Herat, junto à fronteira com o Irão. Aí, estabeleceu o seu próprio grupo jihadista. Chamou-lhe inicialmente Jund al Sham (o Exército do Levante)[7]. Meses depois, alterou o nome para Jamaat al-Tawid wa al-Jihad (Organização para o Monoteísmo e Jihad), ou apenas Tawid wa al-Jihad (Monoteísmo e Jihad)

O grupo tornou-se uma atracção imediata para militantes jordanos[8]. Começou com poucas dezenas de recrutas. Mas ao fim de dois anos, já reunia cerca de 3000 pessoas. Nesse período – entre 2000 e 2001 – Osama Bin Laden chamou al-Zarqawi a Kandahar cinco vezes para o convencer a prestar bayat, um juramento de fidelidade. Em todas elas, al-Zarqawi recusou[9].

Quando os Estados Unidos começaram a bombardear o Afeganistão, a 7 de Outubro de 2001, como retaliação pelos atentados do 11 de Setembro, al-Zarqawi lutou ao lado da Al Qaeda e dos Taliban pela primeira vez. No entanto, foi ferido no peito quando o tecto de um edifício desabou sobre ele durante um ataque aéreo. No final de 2001, atravessou a fronteira com o Irão, juntamente com cerca de 300 guerrilheiros. Nos 14 meses seguintes, viajou entre o Irão, o Iraque, a Síria e os campos de refugiados do sul do Líbano[10]. Nesse período, expandiu a sua rede: criou bases, campos de treino e recrutou novos membros.

Ele próprio terá ficado surpreendido quando, a 5 de Fevereiro de 2003, o então secretario de Estado norte-americano, Collin Powell, no famoso discurso onde denunciava a alegada existência de armas de destruição massiva no Iraque, o indicou como o elo de ligação entre a Al Qaeda e o regime de Saddam Hussein. Perante o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, ao tentar justificar a necessidade da invasão do Iraque, Colin Powell afirmou[11]:

O Iraque alberga uma rede terrorista mortal liderada por Abu Musab al-Zarqawi, um associado e colaborador de Osama Bin Laden e dos seus tenentes da Al Qaeda. [] Quando a nossa coligação depôs os Taliban, a rede Zarqawi ajudou a estabelecer um outro campo de treino de veneno e explosivos. E este campo fica no nordeste do Iraque. [] As actividades de Zarqawi não estão confinadas a este pequeno canto no nordeste do Iraque. Ele viajou para Bagdade em Maio de 2002 para tratamento médico, ficando na capital do Iraque durante dois meses, enquanto recuperava para lutar mais um dia. Durante a estadia, cerca de duas dúzias de extremistas convergiram para Bagdade e estabeleceram aíuma base de operações. Esses associados da Al Qaeda, sediados em Bagdade, coordenam agora o movimento de pessoas, dinheiro e abastecimentos para e através do Iraque para esta rede e estão a operar livremente na capital hámais de oito meses. [] Pedimos a um serviço de segurança amigo para abordar Bagdade sobre a extradição de Zarqawi e para fornecer informação sobre ele e os seus associados mais próximos. Este serviço contactou os oficiais iraquianos duas vezes e nós passámos detalhes que deviam ter tornado fácil encontrar Zarqawi. A rede continua em Bagdade. Zarqawi continua em liberdade.[] Não nos surpreende que o Iraque esteja a dar abrigo a Zarqawi e aos seus subordinados. Este entendimento assenta em décadas de experiência com respeito aos laços entre o Iraque e a Al Qaeda.   

Colin Powell estava errado. Não só não havia armas de destruição maciça no Iraque, como al-Zarqawi não estava formalmente ligado à Al Qaeda. Nessa altura, nem estaria sequer no Iraque, mas sim no Irão. O que não significa que o jordano não fosse perigoso.

Com a invasão anunciada a aproximar-se, al-Zarqawi estabeleceu uma pequena base em Biyara, na província curda de Sulaymaniya. O local foi um dos primeiros alvos da campanha aérea de Março de 2003. Graças à projecção internacional que lhe foi dada por Colin Powell, era um alvo a abater – apesar de ainda não ter realizado algo que fizesse jus à reputação. Mas isso estava prestes a mudar.

Em Agosto de 2003, a Tawid wa al-Jihad realizou uma série de ataques que transformariam al-Zarqawi num dos terroristas mais procurados do mundo. O primeiro no dia 7: um carro bomba explodiu junto à embaixada da Jordânia em Bagdade. Morreram 17 pessoas. O segundo a 19: um veículo suicida entrou na Zona Verde da capital iraquiana e explodiu junto à sede da Organização das Nações Unidas. Morreram 22 pessoas, incluindo o representante especial da ONU no Iraque, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello. O terceiro a 29: um carro bomba explodiu nas imediações da mesquita do Iman Ali, em Najaf, um dos locais sagrados dos xiitas. Morreram 95 pessoas, naquele que na época foi o atentado mais mortífero da guerra, incluindo o líder do Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque, Ayatollah Muhammad Baqr al-Hakim[12]. O bombista suicida que levou a cabo o ataque chamava-se Yassin Jarad. Era um dos sogros de al-Zarqawi.

Os três ataques atingiram os principais alvos do líder da Tawid wa al-Jihad: os jordanos, a comunidade internacional e os xiitas. O objectivo também era claro: enfraquecer as forças internacionais e fomentar um conflito sectário para, através do caos, estabelecer-se como um defensor da comunidade sunita e apressar o estabelecimento de um Estado Islâmico.

No entanto, al-Zarqawi terá percebido que não o conseguiria fazer sozinho. E resolveu arranjar aliados. Em Janeiro de 2004, os militares norte-americanos capturaram um correio que transportava uma carta de 17 páginas dirigida aos líderes da Al Qaeda. Na missiva, o jordano faz um retrato da situação no terreno, identifica aqueles que considera os grandes inimigos – americanos, xiitas, curdos e forças de segurança -, pede apoio e traça um plano de actuação que passa por um ataque constante à população xiita. A carta termina com uma interrogação: “E vocês?”[13]

Vocês, irmãos graciosos, são os líderes, guias e figuras simbólicas da jihad e da batalha. Não nos vemos como dignos para vos desafiar, e nunca lutámos para alcançar a glória para nós próprios. Tudo o que desejamos ésermos a lança, a vanguarda e a ponte que a nação [islâmica] vai atravessar para a vitória que estáprometida e para o amanhãa que aspiramos. Esta éa nossa visão e explicámo-la. Este éo nosso caminho e nós tornámo-lo claro. Se concordarem connosco, se o adoptarem como programa e estrada e se estão convencidos da ideia de combater as seitas apóstatas, vamos ser os vossos soldados mais prontos, trabalhando sobre a vossa bandeira, cumprindo as vossas ordens e, de facto, jurando-vos fidelidade publicamente e nos média, vexando os infiéis e alegrando aqueles que pregam a unicidade de Deus. Nesse dia, os crentes vão rejubilar na vitória de Deus. Se as coisas vos parecem de outra forma, somos irmãos, e o desacordo não vai estragar a [nossa] amizade. [Esta é] uma causa [na qual] estamos a cooperar para o bem e apoio da jihad. Esperando a vossa resposta, que Deus vos preserve como as chaves para o bem e reservas do Islão e do seu povo.

 Ou seja, após cinco anos de resistência, al-Zarqawi mostrava-se disponível para jurar fidelidade a Bin Laden e à Al Qaeda. Foi o que aconteceu, mas só após oito meses de negociações. A 17 de Outubro de 2004, uma mensagem colocada num fórum islamita anunciava o juramento de lealdade de al-Zarqawi[14].

Numerosas mensagens foram trocadas entre Abu Musab(Deus o proteja) e a irmandade da Al Qaeda ao longo dos últimos oito meses, estabelecendo um diálogo entre eles. [] Os nossos generosos irmãos da Al-Qaeda perceberam a estratégia da organização Tawhid wal-Jihad no Iraque, a terra dos dois rios e dos Califas. [] [Para que se saiba]al-Tawhid wal-Jihad os seus líderes e os seus soldados juram fidelidade ao mujahedine, Sheikh Osama Bin Laden.

Foi uma aliança pragmática. Al-Zarqawi ganhava projecção ao associar-se à Al Qaeda e Bin Laden precisava de uma presença no Iraque, então o principal palco de guerra no Médio Oriente. Nessa altura, al-Zarqawi proclamou-se o “Emir das Operações da Al Qaeda na Terra da Mesopotâmia” e mudou o nome da organização para Tanzim Qaidat al-Jihad fi Bilad al-Rafidayin: Al Qaeda na Terra dos Dois Rios, Al Qaeda da Mesopotâmia ou o mais comum Al Qaeda no Iraque (AQI)[15].

Para além dos diversos atentados, al-Zarqawi tornou-se também conhecido pelo rapto e decapitação de reféns ocidentais – cujos vídeos eram depois partilhados na internet. Criou um estilo próprio: as vítimas eram vestidas em fatos cor-de-laranja, uma referência aos detidos na prisão de Guantánamo, em Cuba, e obrigadas a ajoelharem-se em frente a um grupo de homens vestidos de negro e voltados para uma câmara. Após uma breve declaração, os reféns eram executados. O primeiro foi o empresário norte-americano, Nicholas Berg, em Maio de 2004. [16] Outros se seguiram, como Eugene Armstrong e Jack Hensley. Decapitados pelo próprio al-Zarqawi.

A brutalidade dos seus métodos não se reflectia apenas nos prisioneiros ocidentais. Os ataques à população xiita, fosse em locais públicos ou templos religiosos, não pararam. E isso dificultou a já de si tensa relação que mantinha com a liderança da Al Qaeda.

Numa carta enviada a al-Zarqawi, no Verão de 2005, o braço direito e sucessor designado de Osama Bin Laden, o egípcio Ayman al-Zawahiri queixou-se dos métodos brutais aplicados pelo ramo iraquiano da Al Qaeda e do impacto negativo que os massacres e as decapitações estavam a ter na opinião pública mundial. Para al-Zawahiri, a Al Qaeda não devia cometer o erro dos Talibã, que alienaram a população, e ficar sem uma base de apoio para o estabelecimento de um futuro califado. A certa altura, o egípcio diz mesmo que podem “matar os reféns com uma bala”[17] – uma referência óbvia às imagens gráficas colocadas a circular na internet e que valeram a al-Zarqawi o cognome de “Xeique dos matadores.”

Ambos os grupos tinham o mesmo objectivo: estabelecer um Califado Islâmico. Apenas divergiam na forma de o alcançar. O jordano acreditava que a sociedade estava corrompida e necessitava de uma limpeza através da violência. Preferia também começar a purificação pelos regimes muçulmanos corruptos e obter resultados mais rapidamente. Já a Al Qaeda insistia em levar a guerra para o Ocidente e evitar, sempre que possível, acções que pudessem danificar a imagem do projecto jihadista. Era uma postura mais paciente, de longo prazo, que apostava no desgaste do inimigo[18].

Apesar das divergências entre a liderança da Al Qaeda e a sua filial iraquiana, a projecção atingida pela AQI começou a atrair outros grupos iraquianos que lutavam contra a ocupação dos Estados Unidos. Em Janeiro de 2006, a organização liderada por al-Zarqawi anunciou a fusão com cinco outras entidades: a Jaysh al-Taifa al-Mansura, a Saraya Ansar al-Tawhid, a Saraya al-Jihad al-Islami, a Saraya al-Ghuraba e a Kataib al-Ahwal. Juntos, formaram o  Majlis Shura al Mujahidin (Conselho Shura Mujahideen), uma coligação que tinha por objectivo coordenar melhor a resistência iraquiana[19].

Al-Zarqawi foi excluído do grupo de líderes com assento no conselho[20]. Apesar de ter tentado recuperar protagonismo, não teve tempo para o conseguir: a 7 de Junho desse ano, dois aviões F-16 da Força Aérea norte-americana bombardearam uma casa onde estava ele reunido com outros responsáveis da resistência iraquiana, na cidade de Baqubah, a norte de Bagdade[21]. A sua morte foi confirmada no local. Tinha 39 anos.

Na época, os Estados Unidos ofereciam uma recompensa de 25 milhões de dólares pela sua captura. Era o mesmo valor atribuído a Osama Bin Laden. Um sinal da sua importância. Por isso, esperava-se que a sua morte enfraquecesse a AQI. Na realidade, aconteceu exactamente o oposto. A organização, que já era financeiramente autónoma[22], reforçou-se. Em cinco dias, nomeou como novo líder Abu Ayyub al-Masri (nome de guerra de Abu Hamza al-Muhadhir). E, quatro meses mais tarde, o Conselho Shura Mujahideen anunciou a formação de um novo grupo: al-Dawla al-Islamiya fi Iraq, o Estado Islâmico do Iraque (ISI, em inglês). Tinha como líder, Abu Omar al-Baghdadi (nome de guerra de Hamid Dawud Muhammad Khalil al-Zawi).

Dois factos ocorridos nesta transição marcaram o futuro da relação da Al Qaeda central com a AQI – apesar de, na época, não se ter compreendido o seu significado mais profundo. O primeiro foi o juramento de fidelidade de Abu Ayyub al-Masri, sucessor de al-Zarqawi, ao líder do ISI, Abu Omar al-Baghdadi, a 10 de Novembro de 2006. O segundo foi a falta de uma declaração formal de fidelidade do ISI à Al Qaeda. São dois detalhes importantes. Os bayats são feitos entre líderes, não entre organizações. Ou seja, se um líder morrer ou for afastado, a nova liderança tem de prestar um novo juramento de fidelidade para se manter na órbita do grupo, no caso da Al Qaeda, ou então escolher afastar-se e tornar-se independente[23].

Nos anos seguintes, a Al Qaeda continuava determinada a ter o ISI como subordinado. Mas a verdade é que Abu Omar al-Baghdadi nunca jurou fidelidade a Osama Bin Laden. A criação do ISI tinha um objectivo: transformar grupos rebeldes num actor político-militar capaz de administrar território. Para isso, o ISI anunciou o controlo de uma área no oeste iraquiano, criou um governo, descreveu processos judiciais e exigiu às tribos que aceitassem a sua autoridade. Formalmente, a AQI deixou de existir e os seus combatentes tornaram-se soldados de um estado governado com base na religião[24]. No entanto, as comunidades que o grupo tentou governar acabaram por se opor à implementação da sua ideologia absolutista.

Mais do que uma divisão religiosa, estas comunidades obedecem a um sectarismo tribal. “O Iraque tem 176 tribos, várias têm xiitas e sunitas e para muitas delas não existem fronteiras”, explica o coronel do exército Nuno Pereira da Silva[25] que, entre 2009 e 2010, coordenou a equipa de aconselhamento e assessoria junto do Centro Nacional de Operações Conjuntas do primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki, no âmbito da NATO. “Para eles em primeiro lugar está a família, depois a tribo, em seguida a religião e só no fim o Estado. Um exemplo: o gabinete de al-Maliki era composto apenas por elementos da sua família e a sua segurança era assegurada por membros da tribo, o mais próximos possíveis da família”, diz. “Além disso, há tribos com 10 milhões de pessoas que atravessam fronteiras. Cada chefe de tribo tem o seu partido político, as suas forças armadas e de segurança e os seus tribunais. Se um rapaz e uma rapariga de tribos diferentes fizerem qualquer coisa imprópria, os líderes negoceiam um casamento porque senão vão haver retaliações inter-tribais”, continua.

Quando o exército iraquiano foi desmantelado na sequência da invasão norte-americana, os militares que não foram integrados nas novas forças armadas regressaram à região de origem da sua tribo. “A maioria era sunita e foi para a zona norte, junto à fronteira com a Síria e atravessavam de um lado para o outro. Em 2010 todos os dias esses militares treinados faziam ataques para defender a sua população. Nessa época estavam identificados 34 ‘príncipes’ da AQI – indivíduos que degolaram 12 pessoas”, lembra o militar. Haveria então dezenas de atentados por dia.

Quando os militares norte-americanos compreenderam esta realidade, tentaram aproximar-se das tribos que tinham alienado e forneceram-lhes armas, treino e dinheiro para enfrentar os membros do ISI, num movimento que ficou conhecido Sahwa ou “Despertar”. Os chamados conselhos Sahwa reuniam militares norte-americanos e os líderes tribais sunitas, que tinham perdido privilégios com a deposição de Saddam Hussein, para discutir estratégias e coordenar esforços. Eles permitiram ainda integração de milhares de sunitas nas forças de segurança iraquianas e mais tarde em instituições estatais locais e nacionais[26]. O sucesso da iniciativa foi tão grande que, na Primavera de 2009, havia 100 mil sunitas a lutar contra o ISI.

A organização estava sob enorme pressão. As estimativas indicam que, ao todo, o ISI teria então 15.000 elementos. No início de 2008, 2400 tinham morrido em combate e 8.800 cumpriam pena de prisão. Muitos outros fugiram do país. A violência estava a diminuir de tal forma que o prémio oferecido pelos Estados Unidos em troca do líder da AQI, nomeado ministro da guerra do ISI, Abu Ayyub al-Masri, diminuiu de 4,7 milhões de euros para apenas 94.000 euros[27].

A 18 de Abril de 2010, os Estados Unidos pareciam ter desferido o golpe final sobre o grupo: Abu Ayyub al-Masri e Abu Omar al-Baghdadi foram mortos por um ataque aéreo. Em Julho desse ano, o principal comandante norte-americano no Iraque, General Ray Odierno, deu uma conferência de imprensa em Washington onde apresentou um discurso triunfal[28]: 34 dos 42 líderes da organização tinham sido mortos ou capturados, a organização tinha “perdido contacto” com a liderança central da Al Qaeda, no Paquistão, e teria problemas em criar novas bases. “Acho que eles estão em dificuldades e penso que vai ser difícil continuarem a recrutar”, afirmou. “Capturámos vários líderes que tratavam das finanças, planeamento e recrutamento – alguns advogados que trabalhavam de forma a levar prisioneiros que eram libertados para a Al Qaeda. Fomos capazes de entrar nesta rede”, disse.

O responsável deixou mesmo no ar a insinuação de que os novos líderes do grupo podiam não existir: “nem temos a certeza de que há pessoas por detrás dos nomes”. Havia. O principal era o do novo líder do ISI, Ibrahim bin Awwad al-Badri al Samarrai. Nome de guerra: Abu Bakr al-Baghdadi.

[1] The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi, Mary Anne Weaver, The Atlantic, 1 de Julho de 2006, http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2006/07/the-short-violent-life-of-abu-musab-al-zarqawi/304983/, consultado em Dezembro de 2014

[2] The Islamic State. Richard Barrett, The Soufan Group, Novembro 2014, p.11,  http://soufangroup.com/the-islamic-state/

[3] The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi…

[4] Profiling the Islamic State, Charles Lister, Brookings Doha Center, Novembro 2014, p.6, http://www.brookings.edu/~/media/Research/Files/Reports/2014/11/profiling%20islamic%20state%20lister/en_web_lister.pdf

[5] The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi…

[6] Idem

[7] The Islamic State. Richard Barrett… p.11

[8] Al-Zarqawi’s Biography, Craig Whitlock, Washington Post, 8 de Junho de 2006, http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/06/08/AR2006060800299.html, consultado em Dezembro de 2014

[9] The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi…

[10] Al-Zarqawi’s Biography, Craig Whitlock…

[11] U.S. Secretary of State Colin Powell Addresses the U.N. Security Council, 5 de Fevereiro de 2003, http://georgewbush-whitehouse.archives.gov/news/releases/2003/02/20030205-1.html, consultado em Novembro de 2014

[12] Profiling the Islamic State, Charles Lister… p.7

[13] Carta de al-Zarqawi, US Department of State, Archive http://2001-2009.state.gov/p/nea/rls/31694.htm consultado em Novembro de 2014

[14] Zarqawi’s Pledge of Allegiance to Al-Qaeda: From Mu’asker Al-Battar, Terrorism Monitor, volume 2, issue 24, The Jamestown Foundation, http://www.jamestown.org/single/?tx_ttnews%5Btt_news%5D=27305#.VOtdJSusVqU

[15] The Islamic State. Richard Barrett… p.11.

[16] Before Killing James Foley, ISIS Demanded Ransom From U.S., Rukmini Callimachi, 20 Agosto 2014, The New York Times, http://www.nytimes.com/2014/08/21/world/middleeast/isis-pressed-for-ransom-before-killing-james-foley.html?_r=0, consultado em Dezembro de 2014

[17] Office of the Director of National Intelligence, Letter from al-Zawahiri to al-Zarqawi, 11 Outubro 2005, http://fas.org/irp/news/2005/10/dni101105.html, consultado em Dezembro de 2014

[18] Profiling the Islamic State, Charles Lister… p.8

[19] Idem

[20] Al Qaeda in Iraq, M. J. Kirdar, CSIS – Center For Strategic & International Studies, Junho 2011, p.5 http://csis.org/files/publication/110614_Kirdar_AlQaedaIraq_Web.pdf consultado em Janeiro de 2015

[21] Insurgent Leader Al-Zarqawi Killed in Iraq, Ellen Knickmeyer e Jonathan Finer, The Washington Post, 8 de Junho de 2006, http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/06/08/AR2006060800114.html, consultado em Dezembro de 2014.

[22] An Economic Analysis of the Financial Records of al-Qa’ida in Iraq… p.14

[23] The Islamic State vs. al Qaeda, Who’s winning the war to become the jihadi superpower?, J.M. Berger, Foreign Policy, 2 de Setembro de 2014, http://foreignpolicy.com/2014/09/02/the-islamic-state-vs-al-qaeda/, consultado em Novembro de 2014

[24] Redefining the Islamic State, The Fall and Rise of Al Qaeda in Iraq, Brian Fishman, New America Foundation, Agosto de 2011, p.9, http://security.newamerica.net/sites/newamerica.net/files/policydocs/Fishman_Al_Qaeda_In_Iraq.pdf

[25] Entrevista realizada a 25 de Fevereiro de 2015

[26] The Status and Future of the Awakening Movements in Iraq, Michael Knights, Carnegie Endowment for International Peace, 2 de Junho de 2009, http://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/view/the-status-and-future-of-the-awakening-movements

[27] Al Qaeda in Iraq, M. J. Kirdar… p.5

[28] Qaeda Leaders in Iraq Neutralized, U.S. Says, Thom Shanker, The New York Times, 4 de Junho de 2010, http://www.nytimes.com/2010/06/05/world/middleeast/05military.html, consultado em Novembro de 2014

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