O terror no meio de nós II

A realização de atentados terroristas na Europa não devia ser surpresa para ninguém. Não só por causa dos alertas das autoridades mas, sobretudo, por causa das ameaças dos próprios terroristas. Isso mesmo. Há muito que os líderes e membros do auto-proclamado Estado Islâmico (EI) exprimem abertamente a sua intenção de realizar atentados terroristas em solo europeu. Um objectivo que se intensificou no último ano e meio, na sequência dos bombardeamentos da coligação internacional na Síria e no Iraque.

Numa primeira fase, logo após a proclamação do Califado, no Verão de 2014, as comunicações mediática dos líderes do grupo terrorista centravam-se em dois grandes temas: a dinâmica de vitória dos seus combatentes, cujo expoente máximo foi a conquista de Mossul, e um apelo constante à migração dos muçulmanos para a terra prometida. No seu discurso já como “Califa Ibrahim”, Abu Bakr al Baghdadi dedicou uma boa parte da sua declaração a este apelo:

“Por isso, apressem-se, ó muçulmanos, para o vosso Estado. Sim, é o vosso Estado. Apressem-se, porque a Síria não é para os sírios e o Iraque não é para os iraquianos. A terra é de Alá. O Estado é um Estado para todos os muçulmanos. A terra é para os muçulmanos, todos os muçulmanos. (…)

Fazemos um apelo especial aos clérigos, fuqaha (peritos em jurisprudência islâmica), especialmente aos juízes, bem como às pessoas com competências militares, administrativas e de serviços, e médicos e engenheiros de todas as diferentes especializações e campos. Apelamos-lhes e lembramos-lhes para temerem Alá, porque a sua emigração é wajib’ayni (uma obrigação individual), para que eles possam responder às necessidades dos muçulmanos. As pessoas são ignorantes sobre a sua religião e estão sedentas daqueles que as podem ensinar e ajudar a compreendê-la Por isso temam Alá, ó escravos de Alá.”

Este apelo foi repetido vezes sem conta por combatentes estrangeiros em vídeos de propaganda colocados online. Alguns foram mesmo filmados a queimar os seus passaportes. Mas aos poucos, esta narrativa foi sendo complementada por outra: aqueles que, por qualquer motivo não fossem capazes de realizar a hijrah, a migração, não tinham desculpa para não levar a jihad onde quer que estivessem. No 11º número da revista Dabiq, publicada em Outubro do ano passado, há uma passagem esclarecedora sobre esta matéria:

“Quanto aos Muçulmanos incapazes de fazer a hijrah das terras infiéis para o Califado, há muitas oportunidades para eles atacarem os inimigos do Estado Islâmico. Há mais de 70 nações cruzadas, regimes ilegítimos, exércitos apóstatas, e facções para ele escolher. Os seus interesses estão espalhados por todo o mundo. Ele não deve hesitar em os atacar onde puder. Além disso, para além de matar cidadãos cruzados em qualquer ponto da terra o que é que, por exemplo, o impede de atacar comunidades em Dearborn (Michigan), Los Angeles e Nova Iorque?”

Há uma particularidade neste excerto. Ele aparecia num artigo de 10 páginas no qual os autores comparavam a luta de Maomé, em Medina, contra uma aliança entre judeus e tribos árabes à actual situação em que o EI enfrenta uma coligação internacional. De acordo com a crença islâmica, nessa batalha de Al-Ahzab os muçulmanos resistiram a um cerco entre Janeiro e Fevereiro do ano 627 e, apesar de estarem em menor número, saíram vitoriosos. O mesmo, escreveram, acontecerá agora. Em seguida, a revista enumerou os países e organizações empenhados na luta contra o EI – lista onde estava Portugal. Terá sido a primeira vez que o nosso país surgiu mencionado numa publicação jihadista.

Os avisos não foram apenas lançados em publicações oficiais. Em Julho de 2014, o luso-descendente (com passaporte português) Mickael dos Santos, começou a receber mais atenção por parte dos serviços secretos franceses e das autoridades portuguesas depois de escrever no Twitter: “Anuncio oficialmente e com toda a franqueza: estão a ser preparados dois atentados em França. Tenham paciência.” Mickael fazia parte de um grupo de combatentes que, após a proclamação do califado, tinha trocado a Jabhat al Nutra pelo Estado Islâmico. Era então conhecido pelas fotografias extremamente violentas que colocava no twitter, algumas delas a segurar ou com o pé sobre cabeças humanas. Como recém-convertido, parecia ser dos mais determinados  – e violentos. E a ameaça foi levada a sério.

Nos últimos seis meses, o nível de ameaça subiu. Incapaz de obter ganhos territoriais na Síria e no Iraque, acossado pelos bombardeamentos da coligação internacional e da aviação russa, estrangulado nas suas fontes de financiamento – que já levaram ao corte de 50% do salário dos combatentes – o EI terá visto na realização de atentados fora da Síria e do Iraque uma forma de desviar as atenções dos fracassos internos e manter a narrativa de vitória mediática que é tão importante para instigar medo nos adversários e recrutar novos voluntários. Não será por acaso que, no comunicado em que reivindica a autoria dos atentados em Bruxelas, o EI tenha frisado que a Bélgica é “um país que participa na coligação internacional contra o Estado Islâmico”.

Se antes as suas forças estavam concentradas na consolidação do poder no interior do território por elas controlado, agora uma parte desse foco ter-se-á movido para o exterior. Começou em Outubro de 2015, com a bomba que derrubou um avião russo na península do Sinai. Continuou depois em Beirute, Paris, Istambul, Jacarta e agora Bruxelas. Uma tendência que não dá sinais de parar.

(Continua)

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Ilustração do Vasco Gargalo

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