O terror no meio de nós

Ficou surpreendido com o atentado terrorista na Bélgica? Sorte a sua. Significa que tem andado distraído e, mais importante, não teve a necessidade de se preocupar com a maior ameaça à segurança mundial dos tempos modernos. Um monstro que mudou várias vezes de nome na última década até assumir a mais recente versão: Estado Islâmico (EI). A designação não é o mais relevante. O que importa é que, para os mais atentos, o ataque não foi surpresa. É por isso que a pergunta correcta não é “vai haver mais ataques?” mas sim “quando acontecerão novos ataques?” A resposta honesta é: ninguém sabe. Ou melhor, alguém saberá, mas está do outro lado da barricada.

Há também aqueles que procuram saber. E prevenir. Em Janeiro desde ano, a Europol divulgou um relatório que passou mais ou menos despercebido ao cidadão comum. No entanto, o documento alertava para a forte possibilidade de ocorrerem novos atentados na Europa, justamente em França e na Bélgica. Chamava-se “Mudanças no modus operandi dos ataques terroristas do Estado Islâmico“. Não se pode dizer que o título seja o mais claro. Ou interessante. Mas o conteúdo é da máxima importância. Estas são algumas passagens:

“Informações sugerem que o EI desenvolveu um comando de acção externas treinado para operações ao estilo de ‘forças especiais’ destinadas a ataques no estrangeiro, na União Europeia e na França em Particular. Isto pode significar que mais ataques como os que ocorreram em Paris em Novembro estão neste momento a ser planeados e preparados”.

“As células terroristas prontas para realizar um ataque terrorista são na maioria domésticas e/ou baseadas localmente”.

“Não há provas concretas de que os viajantes terroristas usem sistematicamente a onda de refugiados para entrar na Europa sem serem detectados. É possível que elementos da diáspora síria na Europa seja vulnerável à radicalização. Há relatos de que os centros de refugiados estão a ser um alvo de recrutadores do EI.”

“Para além das instalações de treino na Síria, existem campos de treino mais pequenos na União Europeia e nos países de Balcãs.”

Em suma: há muito que se sabe que o Estado Islâmico prepara atentados na Europa; há equipas especiais a serem treinadas para isso; e os terroristas são geralmente europeus. A tarefa de quem trabalha todos os dias para os impedir é hercúlea. Senão mesmo impossível. Alguém que tenha recebido treino num palco de conflito e que tenha também a motivação para o fazer, não terá grandes dificuldades para levar por diante um ataque que tem como único objectivo causar o maior número de vitimas.

Não importa se são militares, políticos, trabalhadores ou estudantes. Aos olhos dos radicais islamitas do EI não existem civis. Há inimigos. Que não merecem piedade e cuja morte não é de lamentar. E é isso que é assustador. Um novo atentado pode acontecer em qualquer lugar: transportes (metro, autocarros, comboios, aeroportos, gares, etc), estádios, centros comerciais, escolas, museus, salas de espectáculos, cafés, restaurantes… Locais de grande concentração de pessoas. É possível controlá-los todos? Não.

A opção que resta é tentar monitorizar os protagonistas. Identificar suspeitos, controlar comunicações, vigiar encontros, impedir acções – sempre dentro do respeito do primado da lei – e partilhar informações entre serviços de informações e forças de segurança. Só assim será possível reduzir as probabilidades de novos atentados. Tal como tem sido conseguido. Porque é disso que se trata: reduzir probabilidades.

Para isso são precisos recursos. Materiais e humanos. Para controlar um suspeito 24 horas por dia, física e electronicamente, são necessárias cerca de 25 pessoas. Isto inclui seguimentos físicos, escutas telefónicas, traduções, etc. Só em França há cerca de 5000 indivíduos referenciados pela Direção Geral de Segurança Interna por ligações a movimentos extremistas. E muitos outros que ainda não caíram no radar das autoridades. Jovens e menos jovens que passam os dias ou as noites ligados ao computador a ver vídeos de propaganda ou em comunicação directa com um jihadista que lhes dá instruções a partir de um cibercafé ou de um apartamento em Raqqa ou Mossul. Uma tarefa aparentemente impossível.

(Continua)

terrorismo.1

Ilustração do Vasco Gargalo.

9 thoughts on “O terror no meio de nós

  1. Obviamente que não fiquei surpreendido com os ataques.
    A minha humilde observação está relacionada com o facto das acções serem do conhecimento e verifico sim alguma negligência.
    Não bastará colocar aparelhos de Raio X no aeroportos, será sim e acima de tudo importante monitorar os terooristas por via de pulseiras electrónicas e mais do que isso, colocar a policia canina especializada em detenção de engenhos.

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