O terror no meio de nós IV

Uma das mais importantes características do conflito na Síria e (por arrasto) no Iraque é a capacidade de atracção de combatentes estrangeiros. Ela é tão grande que o território se tornou no maior palco de mobilização de voluntários internacionais desde a Segunda Guerra Mundial.

O fenómeno não é exactamente novo. Há indivíduos que viajam para outros Estados para lutar há séculos. Seja como mercenários, voluntários ou, como agora, terroristas. A guerra civil espanhola foi um dos mais famosos exemplos durante o século XX. Nas últimas décadas existiram combatentes estrangeiros nos conflitos no Afeganistão, durante a ocupação soviética, na Bósnia, na Chechénia e, mais recentemente, novamente no Afeganistão, Iraque e Síria. Neste último caso, a diferença é que eles não são apenas considerados combatentes estrangeiros. São Combatentes Terroristas Estrangeiros, com direito a classificação numa resolução (2178) adoptada pelo Conselho de Segurança da ONU, em Setembro de 2014:

“[alguém que] viaje ou tente viajar para um Estado que não o seu Estado de residência ou de nacionalidade com o objectivo de perpetrar, planear, preparar ou participar em actos terroristas ou para fornecer ou receber treino terrorista.”

A definição é recente. Quando este movimento começou, em 2011, estes voluntários estrangeiros não foram imediatamente vistos como terroristas. Eram encarados como combatentes pela liberdade que viajaram para Síria para lutar contra o regime de Bashar al Assad. Na época, os Estados Unidos, a França e o Reino Unido apoiaram a oposição síria com dinheiro e informações e, em Maio de 2013, a União Europeia levantou mesmo o embargo da venda de armas aos rebeldes, como forma de mostrar o seu total apoio à implementação de um regime democrático na Síria. Isso mudou no Verão de 2014, após a auto-proclamação do Califado por parte do Estado Islâmico (EI).

O que é novo é a dimensão do fenómeno. Há uma década existiam alguns milhares de combatentes terroristas oriundos de um pequeno número de países. Mas desde que o conflito na Síria eclodiu, os números cresceram exponencialmente. Em Julho de 2014, um relatório do The Soufan Group estimava que 12 mil combatentes estrangeiros de 81 países tinham viajado para a Síria desde o início do conflito. Cerca de três mil eram ocidentais. Em Dezembro do ano passado, a mesma organização actualizou os números e concluiu que entre 27 mil e 31 mil pessoas tinham viajado para a Síria e para o Iraque para se juntarem ao Estado Islâmico e a outros grupos extremistas. Mais de cinco mil eram originários da União Europeia. Ou seja, os números não pararam de aumentar apesar dos mais de nove mil bombardeamentos realizados pela coligação internacional no último ano e meio.

A maioria destes combatentes são originários de países do Médio Oriente como a Tunísia (7000) , a Arábia Saudita (2500), e a Jordânia (2500). Segue-se depois a Rússia (2400), Turquia (2200), França (1700) e Marrocos (1500). Entre os países europeus mais afectados, em termos de quantidade, estão a Alemanha e o Reino Unido (760). Mas, em termos percentuais, nenhum país da Europa Ocidental tem um problema maior do que a Bélgica: os mais de 500 combatentes estrangeiros belgas na Síria e no Iraque representam cerca de 42 voluntários por cada milhão de habitantes. Na Europa de Leste o Kosovo terá 122 (por milhão de habitantes), a Bósnia, 84 e a Macedónia, 69.

As explicações para estes números são várias. A primeira é geográfica. Se em 1980 era difícil viajar para o Afeganistão, hoje em dia é muito fácil viajar para a Síria. Basta apanhar um avião, um comboio, um barco ou alugar um carro para chegar até à Turquia (onde os europeus não precisam de visto) e depois atravessar a fronteira. A viagem é também barata. Com cerca de 1000/1500 euros é possível comprar um bilhete de avião, ficar uma noite na Turquia e pagar às redes que transportam pessoas clandestinamente pelas antigas rotas de contrabando.

O último factor é a internet. O Estado Islâmico compreendeu o potencial das redes sociais para chegar a uma nova audiência, jovem, que cresceu no meio de uma revolução tecnológica e que está receptiva a ouvir quem fale a sua linguagem. Enquanto as mensagens da Al Qaeda se centravam em grupos de idosos, escondidos em cavernas, que proferiam longos sermões teológicos, as mensagens do Estado Islâmico são o oposto: focam-se em jovens endurecidos em batalha, fortemente armados, que surgem em paradas militares. Mostram força em vez de fraqueza. Os vídeos de propaganda obedecem a uma nova linguagem televisiva e de videojogos. Uma grande parte são propositadamente violentos com dois objectivos: atemorizar os inimigos e atrair novos recrutas – o que está a ter efeito.

Estes combatentes estrangeiros são, obviamente, uma ameaça aos seus países de origem caso eles decidam regressar. Actualmente, as estimativas indicam que cerca de 20% a 30% já voltaram à Europa depois de um período em que terão aprendido a usar uma arma, a fazer uma bomba ou a preparar ataques. A ONU já concluiu que aqueles que viajaram para a Síria e para o Iraque “vivem e trabalham numa verdadeira escola internacional de extremistas”, como foi o caso do Afeganistão na década de 1990 – só que a uma escala maior.

Até agora, as estatísticas indicavam que apenas 15% dos antigos combatentes que regressavam a casa tinham-se envolvido em atentados terroristas (um em nove, de acordo com um em estudo realizado pelo director do Norwegian Defence Research Establishment, Thomas Heggahammer). Esse baixo número devia-se a vários factores: muitos morriam, outros nunca voltavam, uma boa parte desiludia-se com a causa à qual se tinham juntado e, por fim, bastantes eram presos ou viam os planos boicotados pelas autoridades.

Esta é a boa notícia. A partir do momento em que alguém viaja para a Síria, torna-se mais facilmente controlável pelas autoridades. O que já não é o caso daqueles que se radicalizam e nunca chegam a viajar, cujo perigo é menor mas que são mais dificilmente detectados. No entanto, o perigo parece estar a aumentar com a decisão do Estado Islâmico em treinar grupos de comandos para realizar atentados na Europa, como retaliação pelos bombardeamentos da coligação ocidental. Os atentados de Paris, em Novembro do ano passado, e os recentes ataques na Bélgica, são um exemplo desse perigo. A maioria dos executantes nasceu na Europa mas passou algum tempo na Síria. Nisto, os Estados Unidos podem estar mais descansados: tal como é mais fácil aos europeus chegarem à Síria hoje em dia do que ao Afeganistão nos anos 1980, é também mais simples regressarem à Europa sem serem detectados do que atravessarem o Atlântico.

(Continua)

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Ilustração do Vasco Gargalo.

O terror no meio de nós III

O terror no meio de nós II

O terror no meio de nós

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