O terror no meio de nós V

Costumamos dizer que há um português em cada canto do planeta. Por isso, quando o fenómeno dos combatentes terroristas estrangeiros deslocados na Síria e no Iraque começou a ganhar proporções nunca antes vistas, a questão não era se haveria entre eles algum português, mas quando eles apareceriam.

A situação nem sequer era inédita. No final da década de 1980, Paulo Almeida Santos tinha deixado a vida em Lisboa para viajar para o Afeganistão onde acabou por conhecer Osama Bin Laden e por se juntar à Al Qaeda. Ao serviço da organização combateu, viajou pelo mundo graças ao passaporte português e tornou-se no autor do primeiro atentado da Al Qaeda fora do Afeganistão: a tentativa de assassinato do antigo rei afegão Zahir Shah, exilado em Itália desde 1973. Disfarçado de jornalista, Paulo Santos conseguiu aproximar-se do monarca, mas uma cigarreira de prata impediu-o de o esfaquear no coração. Foi preso e condenado a 15 anos de prisão.

Mais de 20 anos depois, a primeira indicação pública de que que havia portugueses a seguir-lhe as pisadas foi dada a 28 de Março de 2014, com a divulgação do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) relativo ao ano anterior. Era um pequeno parágrafo que podia passar despercebido entre as 413 páginas do documento. Dizia o seguinte:

“Suscitou idêntica atenção o movimento de cidadãos nacionais para palcos de jihad, em particular com destino a regiões onde a Al-Qaeda (AQ) e a liadas procuraram reforçar a sua posição, com destaque para a Síria, ou em direcção a regiões sob a in uência da Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI) e de grupos terroristas de carácter regional, como o Mali.”

No entanto, o documento não dizia que este fenómeno já era conhecido pelas autoridades há cerca de ano e meio. Os primeiros indícios de que haveria portugueses em palcos de «guerra santa» começaram a chegar à Polícia Judiciária e ao Serviço de Informações de Segurança através dos mecanismos de cooperação internacional na segunda metade de 2012. Concretamente: do Reino Unido. As autoridades britânicas investigavam o rapto do fotojornalista John Cantlie, na Síria, no Verão desse ano, quando depararam com a presença na zona de conflito de um conjunto de portugueses que há alguns anos viviam em Londres. Havia suspeitas de que alguns deles poderiam estar envolvidos no sequestro. Depois de ser libertado, Cantlie haveria de contar às autoridades que a maioria dos seus raptores eram estrangeiros, falavam inglês com sotaque londrino e vários nem sequer falavam árabe.

Nessa época, um dos portugueses chamou a atenção das autoridades: Nero Patricio Saraiva. Chegado à Síria a 14 de Abril de 2012 pela cidade de Atme, tinha passado pela Tanzânia e pelo Sudão. Apresentou-se como “engenheiro civil/projector de estradas”, revelou ter um nível elevado de conhecimento da lei islâmica, ofereceu-se para combatente e foi colocado em funções administrativas num campo militar sob o nome de Abu Yakoub Al Andalusi. Tinha um bom cartão de visita: fora recomendado por Firas al Absi, um dentista nascido na Arábia Saudita que lutou no Afeganistão, onde conheceu Abu Musab al Zarqawi, o fundador da Al Qaeda no Iraque. Com o início da revolução síria, fundou um grupo chamado Majlis Shura Dawlat al-Islam (Conselho Consultivo do Estado Islâmico). Para além de ter sido o primeiro a usar a designação de “Estado Islâmico” na Síria, o grupo ganhou notoriedade ao participar na conquista de Bab al-Hawa, um posto de fronteira entre a Turquia e a Siria, a 19 de Julho de 2012 – o local onde John Cantlie foi raptado meses depois. Nero Saraiva será o português com uma posição mais importante no actual Estado Islâmico.

Entre os nomes trazidos pelas autoridades britânicas às congéneres portuguesas estavam os dos irmãos Celso e Edgar Rodrigues da Costa. O primeiro ficaria célebre mundialmente   a 4 de Abril de 2014, alguns dias após a divulgação do RASI, ao aparecer num vídeo a apelar à emigração para a Síria, identificado com o nome de Abu Issa Al Andalusi. Foi o primeiro português a aparecer num vídeo daquele que, meses depois, viria a tornar-se no Estado Islâmico. Celso voltaria a surgir num novo filme colocado na internet em Novembro de 2015, na véspera dos atentados de Paris, agora acompanhado pelo irmão, Edgar. Desta lista fazia ainda parte Sadjo Turé, um português de origem guineense, que tinha emigrado para Londres para estudar engenharia no inicio da década de 2000. No início de 2013, Sadjo viria mesmo a ser detido em Gatwick antes de embarcar num voo que teria com destino final Damasco por suspeitas de envolvimento no rapto de John Cantlie. Acabaria libertado uma semana mais tarde por falta de provas e um ano depois juntou-se aos amigos na Síria – onde viria a morrer.

Edgar, Celso e Sadjo tinham em comum o facto de terem frequentado a mesma escola em Massamá e de terem feito parte de uma banda de hip-hop que teve o ponto alto no início da década de 1990, os Greguz du Shabba. Acabaram por se reunir em Londres, anos mais tarde. Ao grupo juntou-se Sandro Monteiro, também ele originário da linha de Sintra e amigo de Sadjo Turé. Sandro terá morrido em Kobane em Outubro de 2014.

Apesar de muitas vezes ser incluido no chamado grupo da linha de Sintra, Nero Saraiva só conheceu os outros portugueses em Londres. Chegado a Portugal, vindo de Angola com a mãe, cresceu na zona de Coimbra e Aveiro e mudou-se para Londres aos 17 anos. Foi aí que se converteu. Na mesma situação estará Fábio Poças. Apesar de ter crescido na zona de Massamá, só se tornou amigo de Celso, Edgar, Sadjo e Sandro depois de se mudar para Londres para estudar no início de 2013. Converteu-se ao Islão para casar com uma rapariga originária do Bangladesh e quando ela o deixou acabou por se aproximar do grupo que tinha conhecido no ginásio de Muay Tai. Em Outubro de 2013 chegou à Síria onde, durante bastante tempo, foi dos portugueses mais activos nas redes sociais com o nome de AbduRahman Al Andalus.

Durante todo o ano de 2013, a PJ e o SIS continuaram a receber informações de outros cidadãos portugueses que se tinham deslocado para a Síria em níveis nunca vistos. O primeiro a chamar a atenção foi Joni Miguel Parente, filho de um casal de emigrantes de Tondela que, no início do Verão de 2013, chegou à Síria e, em Maio do ano seguinte, se tornaria no primeiro bombista suicida nacional com o nome de Abu Usama al‐Firansi. De acordo com o Site Intelligence Group, fez parte de uma série de ataques levada a cabo por bombistas suicidas numa operação intitulada «Invasão por Vingança pelo Povo de al‐Anbar».

Depois foi Joana, a filha de um casal de emigrantes no Luxemburgo, que viajara com o marido, também ele nascido no grão‐ducado embora com ascendência kosovar. O homem tinha o nome de guerra de Abu Huthaifa e a sua morte foi anunciada em Dezembro desse ano pelo grupo Jaish-e-Mohammed (O Exército de Maomé). Já viúva, Joana regressou ao Luxemburgo com a filha, onde estarão integrados e sem contacto com o Estado Islâmico.

No Verão de 2013, foi a vez de Mickaël dos Santos e de Micael Batista viajarem de Paris rumo à Síria. Juntaram‐se primeiro à Jabhat al-Nusra e mais tarde ao Estado Islâmico. Mickäel dos Santos chamou rapidamente a atenção das forças de segurança europeias pelas muitas imagens violentas – algumas com cabeças humanas – colocadas nas redes sociais. Batista acabaria por morrer em Janeiro de 2015, em Kobane.

No início de 2014, foram seguidos por Dylan Omar, filho de Catarina, uma luso‐descendente de 43 anos, nascida em Trappes, nos arredores de Paris. No Verão desse ano, ela viajou até à Síria para o con‐ vencer a regressar a casa. Não conseguiu e ainda hoje permanece entre a Síria e Turquia. Uma outra luso‐descendente, Melanie, voltou também à região do Val‐du‐Marne, nos arredores de Paris depois de um período na Síria.

Em Agosto de 2014, Ângela Barreto, uma filha de um casal de imigrantes na Holanda saiu de casa da mãe, viajou para a Turquia e atravessou a fronteira com a Síria para se casar com Fábio Poças, aliás, AbduRahman Al Andalus. Ela mudou de nome para Umm AbduRahman e já terá tido uma filha do jihadista.

Em Setembro de 2014, foi a vez de Steve Duarte, um rapper filho de emigrantes portugueses no Luxemburgo partir para o Médio Oriente. Ainda na Europa, fazia já propaganda aos grupos jihadistas na Internet e dedicava‐se à produção de vídeos com imagens em 3D. Após a declaração do Califado islâmico, decidiu viajar para a Síria, onde assumiu um lugar no departamento de comunicação do Estado Islâmico com o nome de Abu Muhadjir al Andalous. Filmou, editou e realizou alguns dos vídeos divulgados na Internet e é, para as autoridades portuguesas, um dos mais importantes operacionais nessa área. Há suspeitas de que será ele o jihadista que ameaça Portugal e Espanha num vídeo divulgado recentemente.

Em Outubro do mesmo ano, Luis Carlos Almeida, um português de origens cabo-verdianas emigrado em França partiu para a Siria com toda a família. Assumiu o nome de Abu Naila Al Portugali e terá morrido em Junho de 2015. Antes de ser abatido terá feito parte da política islâmica e foi filmado, de cara tapada, numa decapitação pública.

A todos estes, as autoridades acrescentam as mulheres com quem se casaram e com quem viajaram que adquiriram a nacionalidade portuguesa. Ao todo, serão entre 15 e 20 os cidadãos nacionais num palco de conflito que é considerado uma verdadeira escola de terrorismo internacional. Estão identificados e sobre grande parte já recaem mandados de captura internacionais. No último mês, especulou-se sobre se existiria algum nome desconhecido nos ficheiros do Estado Islâmico que foram divulgados por órgãos de comunicação social alemães e britânicos. No entanto, essa possibilidade não se confirmou. Todos os nomes constantes dos ficheiros já eram conhecidos – o que não significa que não tenham informações relevantes.

Apesar de ter uma dimensão inédita em Portugal, o número de voluntários portugueses ou luso-descendentes que se alistaram nas fileiras do EI é insignificante quando comparadas com outros países Europeus de uma dimensão semelhante. Na Bélgica, por exemplo, serão cerca de 540. O que não significa que a ameaça não exista. Ou que o fenómeno não nos deve preocupar.

(Continua)

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