O terror no meio de nós VI

Em resumo: há muito que as autoridades alertam para o risco de atentados na Europa; o auto-proclamado Estado Islâmico (EI) tem inserido nas suas mensagens de propaganda sucessivas ameaças aos países europeus; o conflito com este grupo terrorista já dura há 13 anos; a guerra na Síria tornou-se o maior palco de mobilização de combatentes terroristas estrangeiros desde o fim da II Guerra Mundial; e um número inédito de cidadãos nacionais ou luso-descendentes juntaram-se a uma organização jihadista que tem por fim último a destruição da sociedade ocidental. A pergunta seguinte é: há um risco de atentados em Portugal? A resposta genérica é: “há, como em todos os outros países europeus”. Mas se a questão for mais específica, por exemplo, vão acontecer ataques terroristas em Portugal? A resposta honesta será: “talvez sim, talvez não. Ninguém sabe”.

No fundo, é tudo uma questão de probabilidades. Portugal está inserido no espaço europeu, faz parte da NATO, ocupa um território que integrou o longínquo Al Andalus e participa na coligação internacional que combate o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. É por isso natural que o nosso país esteja entre os alvos potenciais do terrorismo jihadista. É também natural que aqui e ali surjam referências a Portugal nos meios de propaganda oficiais do grupo terrorista (sem contar com afirmações esporádicas dos combatentes portugueses). E não é de agora, ao contrário do que tem sido escrito e dito nos últimos dias.

A primeira vez que tal aconteceu terá sido em Outubro do ano passado, no 11º número da revista Dabiq, num artigo de 10 páginas que comparava a luta de Maomé, em Medina, contra uma aliança entre judeus e tribos árabes à actual situação em que o EI enfrenta uma coligação internacional. De acordo com a crença islâmica, nessa batalha de Al-Ahzab os muçulmanos resistiram a um cerco entre Janeiro e Fevereiro do ano 627 e, apesar de estarem em minoria, saíram vitoriosos. O mesmo, escreveram, acontecerá agora. Em seguida, a revista enumerou os países e organizações empenhados na luta contra o EI – lista onde estava Portugal.

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Um mês depois, em Novembro de 2015, houve uma nova referência a Portugal, agora num vídeo de propaganda. Divulgado em contas do grupo terrorista no Twitter e no Telegram, alguns dias após os atentados terroristas de Paris, o vídeo foi produzido pelo Al Hayat Media Center – o departamento de comunicação destinado maioritariamente ao público ocidental – tinha a duração de quatro minutos e o título de “No Respite” (Sem tréguas, numa tradução livre).

Apesar de recorrer apenas a animações gráficas e a fotografias – em vez de imagens reais – o vídeo desafia os membros da coligação internacional a lançarem tudo o que tiverem contra o grupo terrorista. É aí que a bandeira portuguesa surge entre as dos 60 países que formam a coligação internacional que enfrenta o EI.

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A 29 de Janeiro, o EI colocou na internet um novo vídeo em que cinco prisioneiros são acusados no meio de ruínas no norte do Iraque. O único terrorista que fala para a câmara exprime-se em francês e ameaça sobretudo a França – mas também o Al Andalus, Portugal e Espanha. A referência ao nosso país, entre ameaças de novos atentados que farão esquecer o 11 de Setembro e os ataques de Paris e promessas de reconquista da Península Ibérica, é exactamente esta: “tenham paciência por Alá, vocês não são espanhóis nem portugueses, são muçulmanos do Al Andalus”. Apesar de não o confirmarem oficialmente, as autoridades portuguesas acreditam que existe uma forte probabilidade de o homem que surge encapuçado a falar para a câmara é o luso-descendente com passaporte português, Steve Duarte. No entanto, não há certezas. Há probabilidades.

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Na passada terça-feira, dia 29 de Março, o jornal norte-americano The Washington Times publicou uma notícia em que afirma que o Estado Islâmico, através do departamento de média Al Wafa, terá feito uma ameaça directa aos Estados Unidos e também a Portugal e à Hungria. A publicação cita um relatório do Middle East Media Research Institute (MEMRI), que se dedica a monitorar as comunicações jihadistas, que especifica que o comunicado do grupo garante que “Hoje foi Bruxelas e o seu aeroporto, amanhã poderá ser Portugal ou a Hungria”. A notícia do The Washington Times foi depois reproduzida na imprensa portuguesa – e húngara – e levou as autoridades a afirmarem que “tinham conhecimento” do caso e que o “estavam a acompanhar” .

Contudo, depois de aceder ao relatório original do MEMRI, pude confirmar que a ameaça não era tão certa. O instituto cita uma série de artigos, em árabe, colocados no Twitter por vários autores que pertencem à citada Al Wafa, que não é um departamento de média do Estado Islâmico mas sim um grupo de apoiantes da organização terrorista. É por isso que o título do relatório especifica: “Apoiantes do ISIS depois dos ataques de Bruxelas: América é a próxima; Londres vai tornar-se uma província do ISIS; a Europa enfrenta um futuro negro”. Talvez isso explique porque mais nenhum país do mundo – além de Portugal e da Hungria – tenha replicado a história. Ou seja, a ameaça não tinha credibilidade. São “vozes” anónimas na internet.

A conta de Twitter onde os textos foram publicados (@alwafa014794755) já não está activa. A maioria dos artigos ameaçava países como os Estados Unidos e o Reino Unido na sequência dos atentados de Bruxelas. Um deles tinha realmente como título a frase “Hoje foi Bruxelas e o seu aeroporto, amanhã poderá ser Portugal ou a Hungria”. No entanto, o texto assinado por um Al-Qurtubi Al-Qurashi, entre elogios aos jihadistas que atacaram Bruxelas, não faz qualquer referência a Portugal. Para os analistas do MEMRI o significado do título é apenas simbólico – o que não impediu o alarmismo generalizado da semana passada.

Apesar de todas estas referências, como dizia, é tudo uma questão de probabilidades. Se o risco de atentados em Portugal existe – é por isso que a ameaça terrorista é alvo de especial atenção por parte das autoridades, como se pode ler no Relatório Anual de Segurança Interna relativo a 2015 – a probabilidade de tal acontecer é incomparavelmente menor do que em outros países europeus, como a França, a Bélgica, o Reino Unido ou a Alemanha.

Em primeiro lugar por uma questão de mediatismo: um ataque em Portugal teria menos impacto do que um atentado numa grande capital europeia. Em segundo, por uma questão de apoio: eventuais células terroristas terão uma maior base de suporte em países onde existe uma grande comunidade islâmica, radicalizada, do que em Portugal, onde a população muçulmana é relativamente pequena e, sobretudo, moderada. Não é por acaso que todos os portugueses que se deslocaram para a Síria se radicalizaram no estrangeiro. Em terceiro, pelos próprios números de combatentes estrangeiros que cada país tem na Síria: a probabilidade de um atentado é maior em países com centenas ou milhares de voluntários jihadistas do que em Estados onde esse numero não ultrapassa as duas dezenas. Para contrariar esta última fragilidade, o Estado Islâmico estará a preparar unidades capazes de realizar ataques em qualquer Estado da Europa. A lógica é simples: será mais difícil às autoridades, por exemplo, portuguesas, detectarem jihadistas cipriotas do que os próprios cidadãos nacionais que estão perfeitamente identificados. Mas isso não muda a questão essencial: é tudo uma questão de probabilidades. E em Portugal, apesar do natural e saudável mediatismo da questão, ela é, até ver, reduzida – mas não pode ser descartada.

Esse é o grande problema do terrorismo: pode acontecer a qualquer altura, em qualquer lugar. As autoridades têm um papel fundamental na redução dos riscos – das probabilidades – mas esse papel cabe-nos também a nós, cidadãos. Tentar compreender um fenómeno que, aparentemente não é compreensível, é apenas o primeiro passo. Os restantes passam por estarmos conscientes de que esta é uma realidade com a qual teremos de viver, provavelmente, durante muito tempo e por tentarmos reduzir os factores de risco que levam alguém a decidir aderir a uma organização terrorista.

Ao longo dos últimos dois anos, falei com muitas pessoas que conheceram os portugueses que se juntaram ao Estado Islâmico ou a grupos como a Jabhat Al Nusra. A maioria, para não dizer todas, reagiu com surpresa ao saber onde estavam aquelas pessoas com quem tinham privado de perto. “Nunca imaginei” foi talvez a expressão mais usada. “Era um tipo tão porreiro” foi outra. Nós não pensamos neles desta forma mas, geralmente, os terroristas  não são indivíduos estranhos, são pessoas como nós. Podem ser os nossos vizinhos, amigos de infância, companheiros de equipa, colegas de escola e universidade, familiares ou apenas conhecidos de uma noite de copos que, por qualquer razão, enveredaram por aquele caminho. E isso é verdadeiramente assustador.

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ilustração é do Vasco Gargalo

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