A Guio

Estava no jornalismo há menos de um ano quando uma senhora pequenina, que me habituei a ver na redacção de O Independente sempre de cigarro na mão ou com o dedo a repuxar o lábio inferior enquanto olhava para o velho ecrã Macintosh, me chamou para me dizer com voz doce e os olhos brilhantes que tinha gostado de uma entrevista que eu tinha feito. Jovem e ignorante no que diz respeito à história do jornalismo, na altura não me apercebi da dimensão daquele elogio. A Guio – Maria Guiomar Lima – era uma das mais antigas e respeitadas jornalistas da redacção. Na altura escrevia sobretudo sobre religião e sobre o Partido Comunista Português. Mas tinha todo um passado no Diário de Notícias e no Diário de Lisboa, entre outros, que eu desconhecia – mas que viria a descobrir com o passar dos anos.

Com o passar dos anos viemos a conhecer-nos melhor. Achava piada quando ela levantava a voz, furiosa, para nos dizer que a redacção, envolvida em guerras de bolas de papel (sim, é verdade) não era um jardim de infância. Ouvia-a, fascinado, a contar as suas histórias de jovem repórter e a proximidade que tinha tido das grandes figuras da democracia. De quando em quando ela chamava-me para desabafar sobre aquilo que, do alto dos seus 51 anos, via com preocupação: o futuro do jornal, o receio de ser despedida, aquilo de que gostava mesmo de fazer ou, simplesmente, para apontar uma asneira qualquer que tínhamos feito na edição dessa semana. Eu escutava-a com atenção. Infelizmente, não tinha respostas para lhe dar.

Atrás dela, colado nos enormes armários azuis, tinha uma folha A4 com uma frase que nunca esqueci: “O importante não é saber, mas ter o telefone de quem sabe”. E foram muitas as vezes que, depois de sair do Indy, lhe liguei a pedir ajuda. Porque ela era daquelas que sabia. Tinha a memória de tempos idos que nenhum de nós possuia, uma agenda telefónica disponível para todos e a generosidade que só os grandes sabem ter para com os novos.

Quando ela se reformou, almoçávamos regularmente. A mensagem que enviava para combinarmos era quase sempre a mesma: “Olá querido Nuno. Queres ir almoçar? Tenho saudades”. Lá nos encontrávamos onde calhava. Nas Amoreiras, na Casa da Imprensa – foi ela quem me convenceu a associar-me – na Av. de Berna. Não importava. Falávamos dos amigos do Indy que ela não via há algum tempo, de política, da Cândida (não está esquecido) e dos seus projectos e viagens pela Índia, Macau, Canadá e Açores. Nunca perdeu aquele brilho e alegria no olhar. Nem a voz doce. Ou o temperamento especial. Quando escrevi o meu primeiro livro ela disse-me sem rodeios, com o mau feitio que a caracterizava. “Escreveste um livro horrível sobre pessoas horríveis. Está bem escrito, mas não deixa de ser sobre pessoas horríveis. Esperava outra coisa de ti.” Na altura ri-me. Sabia que ela tinha toda a razão. Nunca mais o esqueci.

Com o passar dos anos, os almoços foram-se tornando mais raros. Continuávamos a falar-nos regularmente, mais por Facebook do que pessoalmente. O ano passado passei a correr pela apresentação do livro dela na Católica e, semanas depois, na apresentação do livro do Fernando ela levou o meu para eu assinar. Disse-lhe que tinha o dela guardado à espera de um autógrafo e ficámos de combinar um novo almoço para a semana seguinte. Nunca aconteceu. Trocámos mensagens pela última vez no fim do ano passado. Ironicamente, ela falou-me para me dizer que tinha gostado bastante da entrevista que tinha feito à Domicilia Costa, a filha da clandestinidade que tinha acabado de se tornar deputada pelo Bloco de Esquerda. Voltámos a agendar um almoço que nunca aconteceu. Despediu-se com um “beijinhos, vai ser engraçado vê-la na AR.”

Esta noite soubemos que a Guio nos deixou de repente. É um dia muito triste. E eu ainda não consigo acreditar. Merda, Guio. Merda. Um beijo. Onde quer que estejas, estarás com os grandes.

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