Ontem em Berlim. Amanhã noutro lado qualquer

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Se ainda houvesse dúvidas, os atentados de ontem na Turquia e na Alemanha vêm comprovar a nova realidade com a qual temos de aprender a viver. A grande dúvida já não é se irá ou não acontecer um ataque terrorista na Europa. Para as forças de segurança e serviços de informações – que tentam reduzir esta probabilidade ao máximo – a principal questão é “quando e onde vai ocorrer o próximo atentado?” E isso é praticamente impossível de prever.

Claro que há indícios que estão permanentemente a ser monitorizados. Um exemplo: no final de Novembro, o Departamento de Estado dos EUA alertou os cidadãos americanos para a probabilidade da ocorrência de um atentado terrorista em vários países europeus durante a época natalícia. Entre eles estavam a Turquia, a Bélgica, a França e a Alemanha. As autoridades americanas eram especialmente claras quanto aos potenciais alvos: festivais, eventos e mercados ao ar livre.

Estes ataques poderiam ser realizados por grupos organizados ou por elementos individuais – os chamados lobos solitários – através do recurso a armas convencionais e não convencionais. Se os primeiros poderão mais facilmente ser detectados pelas autoridades, é praticamente impossível prever ou monitorizar alguém que, sozinho, através da internet, decide levar a cabo um atentado terrorista. Foi o que aconteceu este ano em Nice ou em Orlando, por exemplo. Até prova em contrário poderá terá sido o que aconteceu em Berlim.

Na Alemanha, um condutor desconhecido enviou um camião contra as centenas de pessoas que estavam no tradicional mercado de Natal na Breitscheidplatz. Até agora sabe-se que o veículo tem matricula polaca, que estava carregado com vigas de aço, que o condutor foi encontrado morto no banco do pendura e que o ataque vitimou 12 pessoas e feriu quase 50. A polícia prendeu um primeiro suspeito, um refugiado paquistanês que chegou à Alemanha no início do ano, que negou qualquer ligação ao atentado e já foi libertado por falta de provas. As autoridades partem do princípio que o atacante está armado e em fuga. Não se conhecem as suas motivações, nem se agiu em nome individual ou em grupo.

Nas horas seguintes ao atentado, uma das principais preocupações dos órgãos de comunicação era saber quem estaria por detrás do atentado. O autoproclamado Estado Islâmico tornou-se imediatamente o suspeito número um. Pelo menos o The Washington Times e o The Sun atribuiram-lhe mesmo responsabilidades. No entanto, se o diário americano citava o britânico, este último citava militares iraquianos que por sua vez citavam alegados jihadistas. Na verdade, até agora, não houve qualquer reivindicação nos canais oficiais do EI. Pelo contrário. Desde ontem que as diversas contas no Telegram estão particularmente calmas.

Esta ausência de reivindicação não é nova. Por exemplo, após o atentado de Nice, quando o condutor de um camião matou 86 pessoas, o EI levou dois dias a reivindicar o ataque. E fê-lo em termos muito genéricos: atribuiu-o a um “soldado do califado” que respondeu aos “pedidos para atacar cidadãos das nações da coligação que combate o Estado Islâmico”. Ou seja, foi “inspirado”. Um exemplo mais recente: durante o fim-de-semana houve um atentado terrorista na Jordania. O ataque só foi reivindicado pelo EI esta terça-feira.

Existe ainda uma outra possibilidade: a de o EI ignorar sistematicamente os atacantes que sobrevivem ao próprio atentado. O exemplo mais flagrante é Saleh Abdeslam: o único elemento que restou dos atentados de Novembro de 2015 em Paris foi completamente banido das eulogias dedicadas aos restantes “mártires”.

Venha ou não a ser reivindicado, a única coisa que liga o atentado de Berlim ao EI é o padrão: o uso de veículos contra civis, uma das técnicas há muito propagandeadas como mais eficazes pelos jihadistas do EI. Já em 2014 o então porta-voz do EI, Abu Mohamad al Adnani, apelava aos seguidores do grupo que recorressem a carros ou camiões para realizar atentados. Mais recentemente, no terceiro número da revista Rumiyah, divulgado em Novembro em várias páginas encriptadas da internet, o grupo terrorista publicava um artigo que explicava a forma mais eficaz de utilizar um veículo no atentado. O mesmo já tinha sido feito pela revista Inspire, da Al Qaeda, no seu segundo número.

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O texto da Rumiyah começava por realçar que os “mujahedines estacionados atrás das linhas inimigas” têm à sua disposição uma série de armas e técnicas que podem utilizar a qualquer momento e que, ao contrário das facas, por exemplo, os veículos motorizados não “causam suspeitas”. Depois, os autores do artigo explicavam quais os veículos ideais e aqueles a evitar, quais os melhores alvos – locais públicos com grande concentração de pessoas – e que passos preparatórios deveriam ser seguidos. Por fim, declaravam ser importante garantir que o motivo do ataque fosse conhecido – nem que fosse através de um simples papel com a frase “sou um soldado do Estado Islâmico”.

Essa simples menção será suficiente para o grupo terrorista reivindicar a autoria do atentado. Mesmo que não tenha estado envolvido na preparação, considerará que o terrorista respondeu ao apelo contínuo dos líderes da organização desde a proclamação do “califado”, em Junho de 2014: caso não consigam viajar para a Síria, deverão realizar atentados onde quer que estejam. Esta é a nova realidade. Só não se sabe onde nem quando. Haja ou não reivindicação

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2 thoughts on “Ontem em Berlim. Amanhã noutro lado qualquer

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