A batalha (esquecida) por Mossul

Com as atenções centradas em Aleppo e agora em Ancara e Berlim, o mundo parece ter esquecido a batalha que até há bem pouco tempo era considerada decisiva e seguida com grande atenção e expectativa: a operação para a reconquista de Mossul ao auto-proclamado Estado Islâmico. Se nos primeiros dias e semanas era habitual ver repórteres dos grandes jornais e televisões na linha da frente (inclundo o português José Manuel Rosendo, da Antena1), à medida que o tempo passou e os avanços se tornaram mais lentos do que o esperado, deixámos de ter grande informação sobre o que se passava no terreno.

Uma reportagem recente do The New York Times sobre o avanço das forças iraquianas começava assim:

“After two months, the battle to retake the Iraqi city of Mosul from the Islamic State has settled into a grinding war of attrition. The front lines have barely budged in weeks. Casualties of Iraqi security forces are so high that American commanders heading the United States-led air campaign worry that they are unsustainable. Civilians are being killed or injured by Islamic State snipers and growing numbers of suicide bombers.

As the world watches the horrors unfolding in Aleppo, Syria, where government forces and allied militias bombed civilians and carried out summary executions as they retook the last rebel-held areas, a different tragedy is transpiring in Mosul. Up to one million people are trapped inside the city, running low on food and drinking water and facing the worsening cruelty of Islamic State fighters.”

As tropas iraquianas encontraram obstáculos já esperados, mas numa dimensão que nunca imaginaram: túneis escavados ao longo dos últimos dois anos que permitem aos jihadistas aparecer e desaparecer num piscar de olhos, fábricas de bombas sofisticadas, toneladas de explosivos prontos a serem usados, minas, snipers e bombistas suicidas – muitos, mesmo muitos.

As baixas entre civis e militares não param de crescer. Se no início de Outubro as autoridades iraquianas agradeciam e apreciavam a companhia de jornalistas, a presença de repórteres na frente de combate foi, na maioria dos casos, proibida. Obter e verificar notícias tornou-se cada vez mais complicado.

Do outro lado, o autoproclamado Estado Islâmico continua a divulgar periodicamente estatísticas do que acontece no campo de batalha através dos canais oficiais e afiliados de propaganda do grupo na aplicação encriptada Telegram. Inicialmente, estas actualizações eram diárias e detalhadas: revelavam o número de bombistas suicidas (mártires), ataques com morteiros, veículos destruídos, mortes entre as forças iraquianas, e resultados dos bombardeamentos da coligação ocidental.

Com os passar dos dias e o prolongar dos combates, essas actualizações tornaram-se semanais.

Mais recentemente, o EI passou a fazer também actualizações mensais do que, alegadamente, se passará no terreno:

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Apesar de não ser possível confirmar a veracidade destes números, tudo aponta para que as baixas entre as tropas iraquianas sejam, realmente, enormes e talvez incomportáveis. A acreditar nas infografias divulgadas através da Amaq, a agencia noticiosa do grupo terrorista, as tropas iraquianas terão perdido quase cinco mil homens. Uma boa parte delas terão sido vítimas de uma das mais aterradoras armas do EI: os bombistas suicidas. Em dois meses, os jihadistas terão recorrido a 215 “mártires” na defesa de Mossul, o que dá uma média de um pouco mais de três por dia. Uma batalha “esquecida”, mas que durará ainda bastante tempo.

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