Está na hora! Antes que seja tarde

Quando olhamos para o jornalismo em geral, e para o jornalismo português em particular, é fácil identificar os problemas. O diagnóstico está feito há muito: precariedade, sustentabilidade económica, violações éticas e deontológicas, mistura entre notícia e opinião, investigação a menos, infotainment a mais, diminuição da independência editorial, interferências externas às redacções, pressões políticas e económicas, falta de autonomia, inexistência de estratégias claras, erros grosseiros, notícias falsas, agregadores de conteúdos, ausência de memória e desconhecimento do público alvo, são apenas alguns. A lista parece infindável.

O que é difícil é encontrar soluções que agradem e mobilizem todos os que estão envolvidos na Comunicação Social. Sendo o jornalismo uma ciência social, logo, que não é exacta, cada um de nós, jornalistas, tem uma opinião diferente sobre qual destes problemas é o mais importante e sobre quais as estratégias a seguir para os enfrentar.

É esse o grande desafio do Congresso que hoje começa no cinema S. Jorge em Lisboa: tentar pôr uma classe, que não se reunia para discutir os seus problemas há 18 anos, de acordo sobre um conjunto de medidas que permitam ao jornalismo (re)afirmar-se como aquilo que realmente é: uma missão de serviço público, essencial para a existência de uma democracia saudável. Porque se a forma de fazer jornalismo e os desafios dos jornalistas mudaram ao longo do tempo, o fundamental da actividade jornalística mantém-se (na minha modesta opinião) inalterado: ajudar os cidadãos a tomar decisões conscientes e informadas e servir de “vigilante” dos poderes instituídos.

Não vai ser uma tarefa fácil. Só o processo para aqui chegarmos foi complicado. Primeiro, três organizações – Sindicato, Casa da Imprensa e Clube de Jornalistas – colocaram-se de acordo em promover um Congresso. Depois, essas mesmas instituições convidaram a Maria Flôr Pedroso a criar um grupo independente para o organizar. Aos poucos esse grupo foi crescendo. E, em Março de 2016, jornalistas de diversos órgãos de comunicação social começaram a reunir-se todas as segundas-feiras à noite para tentar montar aquele o primeiro Congresso em quase duas décadas.

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Só esse facto era importante: poucos de nós tinham estado nos anteriores Congressos e a maioria nunca tinha participado na organização de um evento desta dimensão. Parecia uma tarefa hercúlea: era preciso arranjar local, definir temas a debater, montar toda uma logística sem o apoio de uma estrutura profissional, escolher convidados, encontrar patrocínios e muito, mas muito mais.

Desde o início que tentámos alargar o mais possível a abrangência do Congresso. Durante meses foram feitas reuniões em vários pontos do país para ouvir as recomendações e queixas de todos os jornalistas que vivem e trabalham fora do centralismo de Lisboa. Convidámos repórteres de todas as redacções a participar na organização. Lançámos apelos à inscrição e à discussão. Pedimos o envio de propostas e comunicações.

Montámos um Ciclo de Cinema, uma espécie de pré-Congresso, aberto à sociedade civil. A cada um dos filmes escolhidos seguiu-se um debate com inúmeras personalidades sem ligação ao jornalismo profissional. Queríamos ouvir daqueles pelos quais fazemos o que fazemos o que pensam do jornalismo actual e quais os principais problemas que identificam. Foram ditas coisas muito interessantes. É pena que a adesão não tenha sido maior.

Inaugurámos uma exposição de fotografia, composta por imagens incríveis de fotojornalistas desempregados ou que trabalham em regime precário. O tema só podia ser um: “O Trabalho”.

Fizemos também uma experiência inédita. Ao longo destes dias, 80 alunos de 10 universidades vão trabalhar em conjunto com professores universitários e jornalistas profissionais naquela que vai ser uma verdadeira redacção multiplataforma que vai cobrir os acontecimentos do Congresso em papel, em áudio, em vídeo e em fotografia. Haverá ainda conteúdos feitos propositadamente para as redes sociais.

O Congresso em si começa hoje. Ele não teria sido possível sem o empenho de uma série de pessoas que abdicaram de tempo pessoal e profissional para o organizar. É mais que justo que se saiba que este projecto não seria possível sem a paixão ímpar pelo jornalismo da Maria Flôr Pedroso, da Helena Garrido, do Pedro Coelho, da Dina Soares, da Ana Clotilde Correia, da Carla Pinto, do Paulo Martins, do Rui Peres Jorge, da Alexandra Machado, da Teresa Abecasis, do Filipe Garcia, da Maria João, da Anabela Campos, da Sónia Ferreira, do Vítor Rodrigues Oliveira e de vários outros.

A nossa parte está feita. Agora cabe a todos os jornalistas olhar para dentro. É preciso que se debata, que se reflicta, que se cheguem a conclusões e propostas – e depois que se tente mudar o que está mal. Antes que seja tarde demais. Está na hora. De Afirmar o Jornalismo – com independência e credibilidade.

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