Obrigado, Jorge

Caro Jorge,

Agora que já passou algum tempo desde as emoções de domingo e todos tivemos tempo para festejar e reflectir, quis escrever-te novamente para te deixar uma palavra que, acredito, não esperarias ouvir de um benfiquista nesta altura da época: obrigado.

Não, não estou a agradecer-te pelo que fizeste nos seis anos em que foste treinador do meu clube, tu sabes, aquele que é o maior do mundo e que tu tiveste o privilégio de treinar. Por isso já te agradecemos na altura devida, com aplausos, merecidos, em vitórias gloriosas: o campeonato e o bicampeonato. No entanto, ao contrário do que possas pensar, os agradecimentos não foram só para ti: foram para um conjunto de pessoas, entre as quais te incluias, que tinham o privilégio (sim, outra vez) de exibir o simbolo da águia ao peito.

Na verdade, quero mesmo agradecer-te por teres tomado a decisão que tomaste no Verão do ano passado. Graças a isso, o ar do Estádio da Luz tornou-se um pouco mais saudável. O ambiente menos pesado. As pessoas voltaram a sorrir. Não apenas nas vitórias, mas também nas derrotas. Sobretudo nas derrotas.

Quero agradecer-te por nos permitires voltar a ter um treinador que representa genuinamente os valores do Benfica: a humildade, a união, a lealdade, o companheirismo, o cavalheirismo, a solidariedade e o respeito – e que ainda por cima ganha jogos na Champions.

Quero agradecer-te porque, com a tua decisão, deste esperança a toda uma geração de jovens que sabiam que contigo por perto a esperança era a primeira coisa a morrer. Agora eles sabem que aquele sonho de criança, de ouvirem os aplausos do terceiro anel enquanto seguram o troféu de campeão nacional, é possível. E bastou-lhes nascer uma vez – mas na altura certa.

Quero agradecer-te também por seres quem és. Por não teres fugido à tua verdadeira essência e por não teres conseguido nem sabido respeitar teu próprio passado. O clube que te deu muito mais do que tu alguma vez lhe poderias dar.

Quero agradecer-te muito por isso. Por não conseguires conter-te nas palavras. Foram elas que nos deram a força necessária para enfrentar as contrariedades iniciais. Foram elas que fizeram os sócios unir-se em torno de um treinador que no início não era consensual mas que, em fez de fragilizado, saiu reforçado graças a ti. Sim, a ti. Porque de cada vez que lançavas uma farpa em direcção ao teu sucessor, os aplausos dos benfiquistas ganhavam cada vez mais fervor. Os jogadores colocavam o pé na bola com mais determinação. Rematavam com mais arte e engenho. Em vez de destruires o teu anterior clube, contribuiste para a construção de verdadeiro campo de forças que levou a equipa ao colo pelos estádios do país, de vitória em vitória – e foram muitas seguidas – até regressarmos pela terceria vez consecutiva ao Marquês de Pombal. Sim, Jorge, o tri também é graças a ti.

Por fim, quero também agradecer-te por seres um visionário. Por teres razão antes de tempo. Ninguém o diria melhor que tu. Por isso vou apropriar-me das tuas palavras, proferidas no início deste ano: “Não acredito que quem esteja em segundo ou em terceiro jogue melhor do que quem está em primeiro. As equipas que estão em primeiro são as melhores equipas”. Para o ano poderá ser diferente. Logo se verá. E nesse caso cá estaremos para felicitar o vencedor.

Mas por enquanto é só isto: obrigado, Jorge.

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O dia em que vi Kobe Bryant jogar: sim, foi incrível

Foi uma pequena-grande loucura. Era 13 de Junho de 2010. Saimos de madrugada de Washington D.C., onde estávamos a passar uma semana de férias, para apanhar um avião para Boston. Era uma ocasião especial. Nessa noite, os Boston Celtics recebiam os Los Angeles Lakers para o jogo cinco da final da NBA. Os bilhetes tinham sido comprados ainda em Lisboa após o segundo jogo da série e chegado pelo correio algum tempo antes da partida para os Estados Unidos. Nessa altura ainda havia a possibilidade de aquela ser a partida decisiva. Mas, entretanto, com duas vitórias para cada lado, tinha-se tornado uma partida à melhor de sete.

Chegámos cedo ao estádio recentemente inaugurado. O mítico Boston Garden tinha sido demolido e substituído pelo novíssimo TD Garden. E o ambiente era uma loucura. Verdes (da casa) e amarelos (visitantes) misturavam-se nas ruas numa convivência aparentemente impossível para quem está habituado ao comportamento dos adeptos europeus. Dançavam e provocavam-se mutuamente. Mas a rir e a dançar.

Como muitos dos adeptos, fomos para a zona do parque de estacionamento ver as estrelas chegar. Era longe, por isso só conseguimos distinguir o pequenote Nate Robinson. Quando a hora se aproximou entrámos para sentir o ambiente. E foi incrível. De um lado estavam Rajon Rondo, Kevin Garnett, Paul Pierce e Ray Allen. Do outro Paul Gasol, Ron Artest, Derek Fisher e, sobretudo, Kobe Bryant. Ah, havia também Lamar Odom, o sexto jogador dos Lakers que, cada vez que tocava na bola era brindado com gritos de “ugly sister”. Odom era então casado com a “menos interessante” das Kardashians. Uma maldade, com bastante piada…

Havia várias lendas em campo. Mas uma brilhava mais do que todas as outras. Naquela noite vi Kobe Bryant em acção. A determinada altura do terceiro período, com a equipa a perder, marcou 19 pontos consecutivos para os manter na luta. Triplos, alley-oops, lançamentos de dois, entradas para o cesto, fez um pouco de tudo.

Naquela noite, os seus 38 pontos não foram suficientes para ganhar. Do outro lado, os 27 de Paul Pierce chegaram para carregar a equipa da casa para uma vantagem que viria a revelar-se insuficiente. De regresso a Los Angeles, os Lakers venceram os dois jogos que restavam para conquistar o campeonato por 4-3. Vimos esses dois últimos jogos já em Washington, pela televisão. Foi o último título conquistado por Kobe, o quinto. Quando lhe perguntaram o que significava, nem hesitou: “tenho mais um do que o Shaq”.

Ontem ele despediu-se do basquetebol com mais uma exibição épica: 60 pontos que levaram a equipa à vítória. Outro daqueles jogos que ao longo dos últimos 20 anos fizeram dele uma lenda. E que me vão fazer poder dizer com orgulho: “eu vi o Kobe jogar – e foi incrível”.

O regresso à normalidade

Caro Rui,

Escrevo-te esta carta apesar de saber que não és adepto de grandes protagonismos. Para ti, a equipa está sempre à frente de quem quer que seja. Se havia dúvidas em relação a isso, elas ontem ficaram desfeitas. No final, depois de todas as polémicas e críticas, quanto te perguntaram pelo jogo, respondeste simplesmente que o mérito é da qualidade da equipa e dos jogadores. É isso mesmo. Um bom treinador não é aquele que chama para si a responsabilidade das vitórias e atira para os outros a culpa das derrotas. É ao contrário. É aquele que assume as culpas das más decisões quando um jogo corre mal e deixa para os verdadeiros ídolos os louros das vitórias. Sim, as estrelas do futebol são os jogadores. Basta olhares para as bancadas para o perceberes. Por mais polémicas em que se envolva, está para chegar o dia em que os adeptos benfiquistas vão entrar no Estádio da Luz com o nome de um treinador nas camisolas.

Ontem gostei de muitas coisas. Gostei de ver a equipa calma, sem entrar no desespero do balão para a área à espera de um ressalto que decidisse o jogo, gostei da paciência com que enfrentaram a pressão de uma equipa que não foi à Luz estacionar o autocarro e, quase sem me aperceber, gostei de uma coisa que há muito não via: já perto do final, a estatística dizia que o Benfica tinha feito cinco faltas contra 15 do adversário. Cinco faltas em 90 minutos – e uma delas que deu direito a cartão amarelo nem sequer existiu. Poderão dizer que somos uma equipa menos agressiva. Eu prefiro pensar que deixámos de ser um grupo de caceteiros e passámos a ser inteligentes na procura da bola. Talvez por isso tenhamos chegado ao fim do jogo e continuássemos a correr como se estivéssemos no início.

Gostei de ver o Lisandro López, que há vários anos era classificado de jogador sem nível para o Benfica, assumir-se como patrão da defesa ao lado do Luisão. Gostei da classe do Júlio César. Gostei (gosto sempre) do talento do Gaitán. Gostei do golo do Mitroglou (que deixou de parecer apenas um personagem do filme 300 para se tornar um ponta-de-lança a sério). Gostei da aposta no Nelson Semedo e claro, do golo do miúdo. Mas sabes do que eu gostei mesmo? Gostei de ver a forma como o Victor Andrade celebrou o terceiro golo da equipa. Vai lá ver as imagens. Elas dizem tudo. Está o Jonas a celebrar do outro lado do campo e vê-se o miúdo, sozinho, de punhos cerrados, cabeça erguida, a desferir um grito que parece um misto de revolta, alegria e concretização de um sonho. Ele tinha acabado de fazer um centro perfeito, de primeira, após um passe do Nélson Semedo (que celebrava da mesma maneira), que foi teleguiado para a cabeça do Jonas. Tal como o do Gaitan tinha ido para a cabeça do Mitroglou. Não foi por acaso que em vez de ir festejar com o Jonas, o argentino tenha sido o primeiro a ir felicitar o “menino”. Mais: ele voltou a repetir o festejo minutos depois, quando o amigo Nelson fez o 4 a 0 na jogada que ele começou. Como se ele próprio tivesse marcado.

Sim, é verdade. Os jovens jogadores do Benfica não precisam de nascer 10 vezes para ganharem um lugar na equipa. Precisam de quem lhes “faça o parto” e os faça crescer, devagarinho, passo a passo, etapa a etapa. Porque eles não são piores do que os carregamentos de estrangeiros que têm chegado ao clube ao longo dos anos. Apenas dão menos dinheiro a intermediários, empresários e agentes que fazem fortuna à conta do futebol. Mas têm uma coisa fundamental que os outros não têm: o amor ao clube que os educou como homens e jogadores e que se torna uma parte do seu próprio ADN. Isso é algo que não tem preço. É algo pelo qual vão ser sempre acarinhados e aplaudidos pelos sócios. Porque eles não são apenas mais um jogador que chega a caminho de um qualquer lugar. Eles são como filhos. Os filhos que todos nós temos ou gostávamos de ter e que após anos de viagens até ao centro de estágio concretizam o sonho de vestir a camisola da equipa principal.

Isso leva-me à última coisa de que gostei: as tuas palavras acertadas no final. Não vamos pensar que o “Nelsinho” e o Victor já são estrelas. Não são. Como bem disseste, ainda são “protótipos” de jogadores. Projectos que precisam de crescer e aprender para se afirmarem. É que, sabes, nós já estamos fartos de estrelas instantâneas que não vão a lado nenhum. Assim de repente vieram-me à memória o Pepe, o Hugo Leal, o Bruno Caires, o Edgar, o Akwa, o Mawete e até o Nélson Oliveira. Elevados a estrelas imediatas, acabaram por nunca ter direito a um lugar na história do Benfica. Talvez o último ainda tenha uma hipótese. Cabe-te a ti dá-la – e a ele, aproveitá-la. Agora, #rumoao35

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Afinal, Jesus atirou a primeira pedra

Jorge,

Continuas igual a ti próprio. Com um ego do tamanho do mundo. Um ego que te faz sempre assumir os méritos das vitórias e culpar os outros por não terem compreendido o teu génio na altura das derrotas. Se a bola bate no poste e entra foi porque tu disseste ao jogador para chutar daquela forma. Mas se ela bate na trave e sai foi porque o jogador não chutou como tu lhe indicaste. Já não nos surpreendes. Tal como não nos surpreenderás se um dia ganhares um troféu ao Benfica e festejares. É natural. Se esse dia alguma vez chegar, para ti não será o clube que te paga o salário a vencer. Serás tu. Ou a Paula Rego, não sei bem.

O que seria surpreendente na tua entrevista – ou nas conferências de imprensa – seria mostrar alguma elegância. Alguma decência. Alguma educação. Como nunca o fizeste, isso sim seria espantoso. Algo merecedor de aplausos. Podia não dar tantas partilhas nas redes sociais, nem comentários inflamados e jocosos de adeptos. Mas far-te-ia passar a outro nível que não conseguiste nos últimos seis anos. Eu sei que tentaste melhorar. Trocaste a Charneca da Caparica pelo Estoril, mas pelos vistos levaste a Amadora contigo. Continuaste a ir ao Solar dos Presuntos, mas é como se fosses o eterno cliente do Cantinho do Taxi. Tentaste também melhorar a imagem antes de chegares ao outro lado da Segunda Circular mas… espera aí. Pronto. Não tenho mais nada a dizer. Há, realmente, imagens que valem mais que mil palavras.

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O Rúben devia ser capitão, mas está a treinar sozinho

O Jorge saiu? Ok, tudo bem. O Maxi quis ganhar mais? Tranquilo. O Lima foi vendido? Percebe-se. O Artur não renovou? Ninguém deu por isso. O Rúben Amorim está a treinar sozinho no Jamor? Pára tudo.

Um clube como o Benfica distingue-se pela forma como trata os seus. E o Rúben é um dos nossos. Além de um grande benfiquista é um jogador da casa. Foi formado no Benfica, dispensado, afirmou-se no Belenenses e quando chegou a hora de escolher entre as diversas propostas que tinha, decidiu voltar a casa. Foi em 2008. Nessa época foi titular em grande parte dos jogos. No ano seguinte foi campeão nacional e ganhou a Taça da Liga. Depois lesionou-se nos dois joelhos.

Já em Outubro, de 2011, durante um estágio da selecção nacional, teve um desabafo que lhe trouxe dissabores: criticou as escolhas do treinador Jorge que, na maior parte dos jogos, fazia a equipa sem um único português. E não era por eles não terem valor ou capacidade para serem titulares. A solução encontrada foi o empréstimo ao Braga (onde também ganhou a Taça da Liga). Curiosamente, durante o tempo em que esteve fora, o Benfica não voltou a ser campeão.

Regressou no início da época 2013-2014. Ano histórico, com a conquista do Campeonato, Taça e Taça da Liga. Faltou a Liga Europa. Em 2014-2015, voltou a ser campeão e a ganhar a Taça da Liga. É, portanto, um dos jogadores com mais troféus no actual plantel. Um dos mais experientes. Um dos que melhor conhece a casa. A famosa mística benfiquista, que lhe vem desde pequeno, e que tem de ser transmitida aos que chegam. É um dos que podia envergar a braçadeira de capitão.

O Rúben Amorim pode não ser um génio. Mas aos 30 anos está longe de estar acabado. Tem muito para dar ao Benfica. Aos mais novos. Aos estrangeiros. Um clube com a grandeza do Benfica distingue-se também pela forma como trata os seus. O Rúben é um dos nossos – e não merece ser tratado desta forma.

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Maxi: o emplastro, o golaço e a decisão

Caro Maxi,

Como estás concentrado na Copa América, não sei se tens lido os jornais e visto televisão. Desde ontem que a imprensa diz que te preparas para trocar a Luz pelo Dragão. Não sei se é verdade. Há cerca de semana e meia as mesmas notícias indicavam que tinhas renovado por três anos. Portanto, até à confirmação oficial, acredito que ainda não tomaste aquela que seria a pior decisão da tua vida.

O que não me impede de ter umas coisas para te dizer. Quando chegaste a Lisboa, no Verão de 2007, vinhas rotulado de extremo. Raçudo. Lembro-me de olhar para ti e pensar “este gajo não tem pinta de jogador, é parecido com o emplastro”. Os primeiros tempos pareciam confirmar essa ideia. Sim, eras raçudo. Mas de extremo tinhas pouco. A técnica não era a melhor. O drible não saia. Velocidade? Assim-assim. A cabeça? Sempre apontada para o chão. Confesso, era um sofrimento ver-te no lugar que já tinha sido de Vitor Paneira, Karel Poborsky e muitos outros.

Até que marcaste aquele golo contra o Milão. Golo, não, golaço. Fora da área, passaste a bola para o pé esquerdo, sim o esquerdo, e remataste ao ângulo. Estava atrás dessa baliza e, a partir daí, cada vez que olhava para ti lembrava-me desse golo. Cada vez que fazias uma asneira, lembrava-me do Dida, sentado no chão, impotente para travar aquele remate demolidor. Definitivamente, não eras um extremo. Mas tinhas qualquer coisa.

Acho que nessa época, o lateral direito titular era o Nélson. E quando ele foi vendido para Espanha, alguém teve a brilhante ideia de te colocar a jogar na defesa. Não eras brilhante a atacar. Mas tinhas tudo para ser bom a defender. Não desistias. Eras raçudo. E se fosse preciso desistir da bola para apanhar o jogador, estavas disposto a fazê-lo. Foi o melhor que te podia ter acontecido. Nessa altura não te apercebeste, mas estavas num momento determinante da tua carreira: ou continuavas um médio medíocre que acabaria num qualquer clube menor; ou te tornavas num lateral direito de eleição. Escolheste a segunda opção. Ou melhor, alguém escolheu por ti. No Benfica. O Benfica.

É por isso que és hoje, aos 31 anos, o lateral direito titular da selecção do Uruguai. É por isso que és, hoje, oito anos depois, um dos capitães do Benfica. Um dos jogadores mais queridos da massa associativa apesar de não seres um génio com a bola nos pés. És a prova de que o querer e a capacidade de trabalho conta tanto ou mais do que o talento para se ser um profissional bem sucedido. Ok, admito, nestes últimos anos, não houve muitos laterais talentosos a disputar contigo um lugar. Mas sabes porquê? Porque todos os treinadores sabiam que podiam estar descansados contigo. Tal como os adeptos. Sabiam que ias correr até ao último minuto, até que as pernas não aguentassem mais e que ias dar tudo pelo emblema que te pesava no peito. Mesmo que não fosse suficiente – como por vezes não foi.

Passaste a carregar aquilo que se chama de “mística” do clube. Não é só um dos mais velhos, como és um dos mais antigos. Em Portugal ganhaste tudo o que havia para ganhar. Pelo que tenho lido, o Benfica quer que continues e tu queres continuar. Já não é a primeira vez que isto acontece – e tal como há três ou quatro anos parece haver um empresário que está mais interessado nele próprio do que em ti. Lembras-te do teu amigo Christian Rodriguez? Pois.

É isso que te quero dizer. Tens 31 anos e duas opções. Continuares no clube que te deu tudo – e que te quer continuar a dar – ou optares por uma mudança. Percebo o que te vai na cabeça. Estás a aproximar-te do fim da carreira e tens uma agremiação a acenar-te com um salário milionário. Pelo que vem nas notícias, quer mesmo fazer de ti o jogador mais bem pago do País. Por isso, se achas que três milhões de euros por três anos não é suficiente para garantires o teu sustento para o resto da vida e que só o conseguirás fazer com oito milhões em quatro anos, aceita. Vai. Junta-te ao emplastro. Será como uma facada. Tornará este defeso ainda mais parecido com o Verão quente de 1993 – e as vitórias da época que aí vem ainda mais saborosas.

Nunca te esqueças. Uma agremiação será sempre uma agremiação e o Benfica será sempre o Benfica: o maior clube do mundo. Agora decide de que lado queres estar. No lado mau da força ou a lutar pelo #rumoao35

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O Rui e o Vitória

Caro Rui,

Espero que esta carta te encontre bem. Desculpa, não espero. Sei que te encontras bem. Acabaste de dar o maior passo da tua carreira. Imagino que estejas eufórico, entusiasmado, ansioso por começar a trabalhar. Espero que estejas demasiado ocupado com relatórios de jogadores, estatísticas e com o planeamento da próxima temporada que não te resta tempo para leres esta carta. Ainda assim, decidi escrevê-la. Porquê? Por isto.

Nesta altura os teus amigos devem estar todos a dar-te os parabéns e a dizer-te como as coisas vão correr bem. A maioria vai dizer-te que vais ganhar tudo no Benfica. Que vais ficar na história. Melhor, que vais fazer história. Eu não estou aqui para te dizer isto. Pelo contrário. Escrevo-te esta carta para que dizer que, provavelmente, as coisas não vão correr tão bem assim.

Os problemas vão começar logo no teu primeiro dia. Sei que sabes disso, mas nunca é demais lembrar. Chegas ao Benfica numa posição difícil: suceder ao treinador mais bem sucedido das últimas décadas. Muitos vão olhar para ti de lado. Alguns vão dizer que não tens currículo. Que és um nome fraco. Que ainda não provaste nada. Outros vão dizer que foste uma má escolha. Que a correcta seria ir buscar um nome consagrado ao estrangeiro ou contratar o Marco Silva. Aprende a lidar com isso.

Quando entrares pela primeira vez nos balneários, os jogadores mais antigos vão olhar para ti de uma de duas formas: como a segunda escolha que sucedeu ao treinador campeão; ou como o treinador que os vai voltar a fazer campeões. Não percas a oportunidade de os conquistar logo no primeiro dia. Ganha-lhes o respeito, conquista-lhes a lealdade. Não te esqueças: tu dependes mais deles do que eles de ti.

Quando entrares pela primeira vez no Estádio da Luz e o speaker anunciar o teu nome, vais ter uma das maiores ovações da tua carreira. Mas não te iludas. Esses aplausos iniciais não são para ti. São contra o teu antecessor. O ídolo que agora é adversário. Quando as palmas pararem, todos os olhos vão estar postos no banco. Todas as tuas opções vão ser escrutinadas. Até a tua postura vai ser analisada: gritas? Gesticulas? Corres? Mascas pastilha? Tira-la da boca e voltas a pô-la lá dentro? Usa essa atenção em benefício da equipa. Dá o peito às balas e protege os jogadores – eles farão o mesmo por ti.

Ao contrário dos últimos anos, os jogos da pré-temporada serão importantes. Eles vão marcar o ambiente com que vamos chegar ao início do campeonato. Não os descures, nem desvalorizes. Porque deles depende o que os jornais – e logo depois os sócios – vão dizer de ti. Deles depende a atmosfera com que vamos iniciar a competição: confiantes e dominadores ou nervosos e amedrontados. Uma onda transformada em tsunami ou um rio que está a perder o caudal.

Após os primeiros jogos, a tua cara vai aparecer em todos os jornais e televisões. Serás herói ou vilão. Serás o novo Mourinho ou o novo “Lotopegui”. Serão dedicadas dezenas de páginas às tuas opções. Serão dedicadas horas de antena às tuas decisões. E como já percebeste, terás sempre um fantasma a pairar sobre a tua cabeça. Ele chama-se Jorge.

Será com ele que vão ser feitas todas as comparações. As do passado e as do presente. Por jogadores, adeptos, dirigentes e comentadores. Vão comparar os resultados, as estatísticas, os golos marcados e os sofridos, a forma física, o estado anímico e um sem número de outras coisas relacionadas com a teoria da bola que serve para entreter as conversas de café. Não queiras ser ele. Sê tu próprio. Trata os jogadores com respeito e eles respeitar-te-ão. Trata os funcionários do clube com simpatia e eles farão tudo por ti. Partilha os méritos das vitórias e assume os erros das derrotas. Põe os interesses do clube à frente dos teus. Não te julgues mais inteligente do que todos os outros. Estabelece empatia com os adeptos porque vão ser eles a levar-te ao colo no estádio. Tem a humildade de reconheceres os teus erros, porque vais cometê-los – mas não insistas neles por teimosia.

No meio disso tudo, se puderes, espreita as imagens das festas dos últimos anos no Marquês e imagina-te lá daqui a um ano. Nessa altura já ninguém te irá tratar por Rui: serás o Vitória. Então sim, as palmas já serão para ti. Mas mesmo nessa altura, nunca te esqueças de uma coisa: no fim da linha, és apenas um treinador. Mais um dos que vão ter direito a algumas linhas na História do Benfica. Repito: a História do Benfica.

Como disse no início, preparas-te para dar o maior passo da tua carreira. Mas não é apenas isso. Provavelmente, este será o maior passo que alguma vez darás. Porque não há um clube maior do que este. Será difícil. Muito mais do que possas pensar ou eu te possa dizer. Mas isso também significa que pode saber melhor. Espero que fiques muitos e bons anos. Será um bom sinal. Para ti – e, sobretudo, para nós. #rumoao35

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Jorge Jesus e o Benfica

Caro Jorge,

(Ia chamar-te Jesus mas agora que pareces estar prestes a trocar as forças do bem pelas do mal estás a perder a tua divindade)

Entraste como um furacão. Na tua primeira conferência de imprensa com o símbolo sagrado ao peito prometeste que, contigo, o Benfica ia jogar “pelo menos o dobro”. Tinhas razão. Contigo, o Benfica não jogou apenas o dobro. Jogou o triplo, quem sabe o quádruplo. Naquela época de 2009/2010 a onda vermelha varreu os campos do país como um rolo compressor. O Cardozo parecia um velocista. O Di Maria finalmente explodiu. O Aimar, bom, era o Aimar. O Saviola voltou à vida. Havia ainda o Ramirez, o Luisão, o Maxi, o David Luiz, o Nuno Gomes e outros. Talvez um dos melhores planteis dos últimos anos. Mas não importa. Tu eras o capitão aos comandos do navio. Melhor: o comandante aos gritos no navio. Confesso que sempre me fez impressão a forma como falavas – ou melhor insultavas – com jogadores da craveira de Aimar e Saviola. Mas não importava. A equipa ganhava. Ganhou.

O teu segundo ano já foi diferente. Ainda antes de o campeonato começar, já mostravas o que podia acontecer: com uma proposta daquele clube cujo nome não deve ser mencionado, obrigaste o presidente do Benfica a aumentar-te o salário para os famosos quatro milhões. Nos bastidores futebolísticos consta mesmo que falaste com Pinto da Costa, com o telefone em voz alta, à frente de Luís Filipe Vieira. O presidente do Benfica, com medo de repetir o erro de Manuel Vilarinho  com Mourinho, cedeu. Tornou-te o treinador mais bem pago da história do futebol  português. Mas tu não eras o mesmo. Primeiro perdeste a equipa. Começaste a fazê-lo quando trataste de forma inacreditável o guarda-redes titular da equipa. Chama-se Quim, lembras-te? Dispensaste-o para contratar um que “desse pontos”. Chamava-se Roberto, lembras-te? Ora o Quim era um elemento querido no plantel. Respeitado. Alguém que nunca abriu a boca em protesto apesar de todos os insultos que foste fazendo ao seu profissionalismo. Fizeste também umas maldades ao Nuno Gomes, outro de quem nunca ouviste uma crítica. Os jogadores percebem essas coisas. Tu gritavas, mas eles já não te ouviam. Nem respeitavam. Todos sabemos o que aconteceu nesse ano. Incluindo a eliminação humilhante da Taça de Portugal, em casa, que meteu uma festa do adversário às escuras.

No teu terceiro ano voltaste a falhar. Mas no quarto reinventaste-te. Prometeste uma época de sonho. Campeonato, Taça, Taça da Liga e Liga Europa – sim, porque a Liga dos Campeões nunca foi contigo. A equipa, renovada, jogava que se fartava outra vez. Prometeste ganhar o campeonato – e ajoelhaste-te no Dragão. Prometeste a Liga Europa – e falhaste outra vez. Prometeste a Taça de Portugal – e foste empurrado pelo Cardozo. Nessa altura tiveste um grande mérito: resististe aos insultos, aos palavrões, aos empurrões para sair. Ficaste. Renovaste o contrato. Resististe. E mostraste a todos que és um belo treinador. No ano seguinte voltaste a todas as finais em que tinhas estado e só perdeste a Liga Europa – outra vez. Calaste tudo e todos. Com a mesma equipa.

Este ano temia-se o pior. Saíram muitos jogadores bons, entraram outros de qualidade duvidosa. Mas tu definiste um objectivo – a conquista do bicampeonato – e conseguiste-o. Tudo o resto ficou para segundo plano. Com uma competência interna que nunca tinhas mostrado. Pela primeira vez em seis anos, não perdeste um jogo com os principais rivais. Um mérito que ninguém te tira. Tal como os 10 títulos em seis anos.

Foram anos bons. Contigo aos gritos no comando, o Benfica voltou ao lugar que é seu por direito. Esse mérito ninguém te tira. Independentemente de, nestes seis anos, o Benfica ter tido os melhores jogadores das últimas duas décadas. Independentemente dos autocarros de atletas que chegaram da América do Sul e que tão depressa apareciam como desapareciam. Independentemente de nunca teres apostado num único jogador da casa. E não, o André Gomes não é exemplo porque, contigo, raramente jogava. Independentemente dos gestos deselegantes que foste tendo e que não dignificam o clube: recordas-te dos cinco dedos apontados ao Manuel Machado? Recordas-te da cena insólita em Guimarães? Recordas-te dos três dedos ao treinador do Tottenham? Recordas-te de tentares aprender inglês porque querias ir para uma grande equipa europeia?

Todos os anos, no Verão, era a mesma coisa: sucediam-se as notícias de que ias para o Chelsea, Real Madrid ou Manchester City. Afinal, vais ali para o outro lado da Segunda Circular. Talvez vás ganhar mais dinheiro, talvez vás para o teu clube do coração. Mas o que te quero dizer é apenas isto. Afinal, vais para pior.

Saíste como entraste. Como um furacão. Agora, os sportinguistas que te insultavam vão idolatrar-te. Os benfiquistas que te idolatravam vão insultar-te. Os que gozavam com a tua forma pouco ortodoxa de lidar com o português vão defender-te. Os que te defendiam, vão gozar-te. Aqueles que toleravam a tua presença porque tinhas uma aura vitoriosa vão lavar a roupa suja em público. Os que diziam mal de ti sem tu saberes vão dar-te palmadinhas nas costas. É pouco racional, mas é a natureza humana quando aplicada ao futebol.

No fim da linha és só um treinador. Mais um dos muitos que passaram pelo clube. Sim, os últimos seis anos foram mais bons do que maus. Pelos vistos, acabaram. Mas só para ti. Perguntas-me se estou triste com a tua partida? Nem por isso. Sabes, é que o Benfica é maior do que qualquer treinador. Tu terás o teu lugar na história, no museu do clube. Mas nunca terás uma estátua à porta do estádio. #rumoao35

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O problema de ter memória: a lenda dos milagres de Jesus

Nos últimos tempos, as palavras que mais temos ouvido dos jogadores que chegam ao Benfica é “quero aprender com o mister Jesus” ou “quero crescer com Jesus”. Foi o que disse Bebé, o mais recente reforço benfiquista, depois de quatro anos emprestado pelo Manchester United, onde se celebrizou pelos cruzamentos para a bancada. Mas não é isso que interessa. O que é verdadeiramente importante é que foi criada à volta de Jorge Jesus uma aura milagrosa de formador e potenciador de talentos futebolísticos. Chamo-lhe o síndrome Coentrão. Diz a lenda que, de fracasso em potência, o Fábio de Caxinas transformou-se no melhor lateral esquerdo português. Graças a Jesus. É o que diz a lenda. Mas a lenda não resiste à memória. Nem aos factos.

Em 2009/2010, Jorge Jesus não queria Fábio Coentrão no plantel. O destino era um novo empréstimo. À sua frente, para o treinador, estavam César Peixoto, Jorge Ribeiro e até David Luiz. Terá sido Luís Filipe Vieira a obrigar o técnico a ficar com a jovem promessa portuguesa. O seu destino: o banco ou a bancada. Até que, numa determinada fase da época, os dois laterais e o central estavam lesionados. E Jesus foi obrigado a colocar Coentrão em campo. Correu bem. E Jesus – como sempre acontece quando as coisas correm bem – reclamou os louros. Nascia a lenda da aura milagrosa de potenciador de talentos.

O problema é que, mais uma vez, a lenda não resiste a um exercício de memória. Eu ainda me lembro quando Jesus disse que ia fazer de Yannick Djaló um grande jogador. Alguém sabe onde ele joga hoje? Mas depois de me lembrar do ex-marido de Luciana Abreu resolvi fazer um exercício de memória. E encontrei um camião de talento que Jesus contratou mas não foi capaz de transformar em jogadores de futebol. Preparados? Respirem fundo:

Éder Luís, Keirrison, Roberto, Jara, Élvis (quem?), Carole, José Fernandez (quem?), Leo Kanu (quem?), Derlis Gonzalez (quem?), Bruno César, Wass (quem?), Rodrigo Mora, Melgarejo, Nuno Coelho, Roderick, Mika, Capdevilla, Júlio César, César Peixoto, Shaffer, Airton (quem?), Filipe Menezes, Weldon (quem?), Kardec, Fábio Faria, Yannick Djaló, Urreta, Olá John, Luisinho, Sidnei, Émerson, Luís Martins, Lisandro Lopez, Steven Vitória, Stefan Mitrovic (quem?), Bruno Cortez, Victor Nilsson-Lindelof (quem?), Filip Djuricic, Luís Fariña, Diego Lopes, Michel (quem?) e Funes Mori.

Pronto, confesso. Não me lembrava de todos. A internet é uma coisa maravilhosa. Muitos nem chegaram a vestir o manto vermelho. Simplesmente desapareceram. Ou andam por aí. São 42. E posso ter-me esquecido de algum. Acredito que os contratados deste ano – César, Loris Benito, Djavan, Talisca, Luís Filipe, Eliseu, Victor Andrade, Derley e Bebé – também querem “crescer” com Jesus. Vamos ver onde estarão no fim do ano. Se se juntam ao camião de talento ou se se tornam a excepção.

Foto: Lindsey Parnavy/EPA

Foto: Lindsey Parnavy/EPA

 

Leitura para o fim-de-semana: o purgatório de Lance Armstrong

Quando Lance Armstrong admitiu o consumo de substâncias dopantes, o mundo caiu-lhe em cima. Foi afastado da fundação que criou para promover a luta contra o cancro, perdeu contratos publicitários, chamaram-lhe todos os nomes. O que aconteceu desde então? A reportagem é da revista Esquire.

Foto: Joe Pugliese

Foto: Joe Pugliese

LANCE ARMSTRONG IN PURGATORY: THE AFTER-LIFE

After a great fall, what do we remember? We remember the cheating, and the lies. We remember the cult of personality that we eagerly embraced, and then felt betrayed by. But what of the man who fell? What about the work he didn’t cheat at? What about the 16 years Lance Armstrong spent building a global cancer advocacy? Did it matter? Does it still? Does it matter that Livestrong, the foundation that kicked him out, now wants him back? Do we care what happens to the great work a man has done, after a great fall?

By John H. Richardson

Here in purgatory, the mansion is smaller, but the wine cellar, paneled in rich mahogany and stocked with thousands of bottles, is truly magnificent. The TV will go over on that wall. The lighting system is still being installed but it will be all muted and indirect, like an art gallery.

Upstairs, he leads a tour of his art collection. The work is edgy and full of dark action: a photograph of a dancing couple with giant thorns emerging from their backs, a photorealistic painting of a woman jumping through a window, an empty desert landscape charged with eerie stillness. “That’s by Ed Ruscha,” he says. “He’s a friend.” There’s a giant wooden map of Texas on the wall. If you look close, he says, you see that every single line was burned into the wood with a pyrographic iron. “I like art that makes me go, How did he do that?” he says. “Stuff that is technically amazing.”

Later, he says, he’ll dig out a really beautiful piece made completely out of cockroach wings.

On the desk of his little office nook sits a sculpted arm made out of laminated skateboards that, in a perfect touch, ends in a fist with an upraised middle finger.

The fall from an ordinary perch is a universal story. Few of us get through life without one taste of failure and disgrace. But the fall from a very great height is a different order of experience altogether, because it happens to a different kind of person—the kind who was driven to climb that high in the first place. Should it come as a surprise that such a person—this man right here—makes a lousy penitent?

Depression? Self-loathing? Emotional paralysis? Lance Armstrong will not indulge, thank you. A year and a half after the scandal that ended his career, after being stripped of all his trophies and confessing the ugly truth to his children and losing in a single day an estimated $150 million, these are the circumstances to which he has been reduced.

A glass of wine, perhaps? Or is it time yet to mix up some of his special margaritas—Lanceritas he calls them—with the ice crushed just so? He loves his Lanceritas, and he loves his crushed ice.

Despite his preference for solitary sports, Armstrong also loves a full house. Little children are everywhere, their toys littering the floor of every room. In the kitchen, a coven of beautiful women is preparing dinner. One is his loving girlfriend, a Modigliani blond named Anna Hansen. Her equally beautiful friend teases Armstrong with easy intimacy, bringing a glass of freshly opened wine out to the outdoor sofas by the pool. “Here’s your wine, HRH,” she says. “We call him HRH for ‘His Royal Highness.’ ”

While the food cooks, Armstrong lounges—on this Sunday afternoon in Austin, the sun is bright and the temperature cool—watching a toddler in a Supergirl outfit wrestle his youngest son to the grass. Life is good, he insists. He has five happy children. He’s learned who his real friends are. And he is learning to not fight all the time. Really. A fringe benefit of crushing defeat is learning to accept things.

Except for that leaf scooper jutting up over his wall. The neighbor always leaves it sticking up there. Look at that goddamn ugly thing, man, ruining an otherwise perfect setting. It is most definitely not perfect. Not perfect at all. You can see this incongruity just working on Armstrong, in his eyes, the set of his jaw.

“A couple more glasses of wine and you’ll climb over there,” a friend teases.

Halfway through dinner, Armstrong begins slurring his words. Just a little, barely noticeable. He detaches and focuses on his meal while his friends carry the conversation, chatting about Austin traffic and how the media only quotes the bad things. Some of Armstrong’s kids drift through, a little one sitting in his lap and begging for a sleepover. He masks affection with a pretense of crankiness, or maybe he is actually a little cranky. Either way, tonight every second of his forty-two years shows. Even here, in the afterlife, he manages to make relaxation look remarkably intense.

It bears reminding that before Armstrong became a reviled figure, this same intensity made him Herculean, to none more so than people all over the world with cancer. To those people, he remains a hero, and it is that work, he says, that has given his life the most meaning, even though the global cancer charity he built and seeded with almost $8 million from his own bank account told him not long ago it wanted nothing further to do with him and literally erased his name from memory, changing its name from the Lance Armstrong Foundation to the Livestrong Foundation.

But trail him for a few days and watch how giddy and hopeful the sick and the dying become in his presence, forgetting for a moment their nausea and pain and mortal fears. Amid all the controversy and disgrace, you admit, you forgot just how important Lance Armstrong was and still is to cancer patients everywhere.

“Yeah, you and about seven billion other people,” Armstrong says.

Last spring, he even got kicked out of a local swim meet. This was six months after the USADA—the United States Anti-Doping Agency—issued the lifetime ban against him competing in any sport “under the Olympic umbrella,” which includes pretty much anything anywhere. (The cyclists who testified against him, most of whom were just as guilty, got six months.) But he figured a little Austin swim race would be okay. It’s Austin, for chrissakes, his refuge, and the organizer said it was fine, he could swim—but then one guy had a problem and the calls went from Austin to Florida to Switzerland and finally the answer came back: No, Lance Armstrong can’t even compete in a local swim meet. “Anything I try to do, any sport, even archery and volleyball, I can’t do it,” he says.

He’s sorry, he swears, for the lies and the bullying and the lawsuits against journalists. “It was indefensible,” he says. “Pure hubris.” But he’s not going to be a hypocrite, either. The doping charges were bullshit. “Nobody has stepped forward and said, ‘I really won those races,’ ” he says. “They didn’t award those jerseys to somebody else. I won those races.”

This we can stipulate: Lance Armstrong cheated death, and then he kept on cheating. And he was no run-of-the-mill cheat. Sublimely American in his ambition, he became the best cheater, greatest cheater of all time, turning a European bicycle race into a gaudy, ruthless, and unprecedented demonstration of American corporate prowess and athletic hegemony. He doped and bullied other bikers to dope and sued or harassed people for telling the truth about him, which is hard to forgive. But he wasn’t the evil genius who invented evil. At twenty-three days and twenty-two hundred miles, the Tour is so hard that cyclists have always sought some kind of performance enhancement. In the 1920s, they took cocaine and alcohol, and in the 1940s, amphetamines. In 1962, fourteen of them dropped out because of morphine sickness. Between 1987 and 1992, use of the blood-oxygen booster called EPO may have killed as many as twenty-three riders. But even that didn’t stop them. In his testimony to the antidoping agency, testimony that helped ruin Armstrong, a former teammate named Frankie Andreu told investigators that when they first met on the European circuit in 1992, both of them quickly realized that “it was going to be difficult to have professional success as a cyclist without using EPO.” This was, in fact, the “general consensus” of the entire team, Andreu added.

And that’s how things stayed. The year before Armstrong won his first Tour, seven entire teams left the race after an assistant for the Festina team was caught with massive quantities of EPO, testosterone, and human growth hormone. The year after he left, the first-place winner got disqualified because of a bad test. The handful of idealists who refused to take anything at all, men like Darren Baker and Scott Mercier, quickly learned they couldn’t compete and dropped out. Everyone in cycling was aware of this history, and everyone knew the charges against Armstrong—the first book-length exposé came out way back in 2004. Nike even made them the subject of one of its most famous ads, a montage of swooping bicycle attacks matched to Armstrong’s confident narration:

Everybody wants to know what I’m on. What am I on? I’m on my bike busting my ass six hours a day.

He was a spectacular product, a very winning brand, and as long as he kept protesting his innocence and a shred of doubt persisted, anyone remotely associated with him continued to profit. Trek Bicycle doubled its sales, Nike washed away the memories of its sweatshop scandals, his teammates shared the profits from his victories, and his foundation pulled in hundreds of millions in charitable donations. The rest of us profited in more subtle ways. In the dark days that followed the 9/11 terrorist attacks, Armstrong was a living American myth, the troubled and cocky natural who fought testicular cancer and came back to win the hardest sports event in the world seven times in a row. Seven times in a row! It was a resurrection, a modern miracle. He appeared on Wheaties boxes, starred in those iconic Nike ads, presented a bike to Bill Clinton at the White House, hung out with Bono and Sean Penn, dated Sheryl Crow and Kate Hudson, and wrote a best-selling memoir calledIt’s Not About the Bike that inspired cancer patients like nothing had ever inspired them before. He replaced the phrase “cancer victim” with “cancer survivor” and made it so hip to wear a yellow Livestrong bracelet, ninety million of them sold at a dollar apiece. John Kerry wore one on the campaign trail. John McCain talked about cancer at a Livestrong event. There was serious talk about a campaign for governor of Texas.

Armstrong believed in this story as much as anybody. He came out of a shabby little Dallas suburb like a snarling dog, son of a scrappy teenage mother who still hasn’t forgiven the dirty looks of her classmates and a stepfather who cheated frequently and beat him with a fraternity paddle. “As bad as he says his childhood was,” one old friend says, “it was worse. And the lesson he took from that was that people will fuck you, and you have to fight for everything you get.” In sports, he transformed that lesson into a warrior’s code. “Did you ever hear about how when you stab somebody, it’s really personal?” one coach told him. “Well, a bike race is that kind of personal. Don’t kid yourself. It’s a knife fight.”

Armstrong treated the doping charges like a knife fight too, playing the cancer card shamelessly—in one Nike ad, racing along narrow roads in his iconic yellow helmet, he sneered at his detractors:

The critics say I’m arrogant. A doper. Washed up. A fraud. That I couldn’t let it go. They can say whatever they want—I’m not back on my bike for them.

Cut to a cancer ward, where the camera panned over the chemo-ravaged patients to teach those silly critics a lesson in what’s really important.

And he got away with it. Despite all the rumors and accusations, Armstrong retired in 2005 with a clean record. His fatal mistake was trying to make a comeback four years later—and that is where his story goes into a deeper level of myth. As in a prophetic tale, he remembers one particular night of grim foreboding in Fort Davis, Texas, when he sensed his comeback was going to bring down the furies. He and Anna were at a café. “Every part of my being said, I gotta fucking stop this right now—I can’t do this. And Anna, bless her heart, was saying, ‘What are you talking about? What’s the problem?’ ” But he couldn’t stop. The sponsors were chomping at the bit for a comeback. The foundation and the fans were excited. Fate was beckoning him, and he couldn’t turn away. “I would do anything to be sitting back in that small café with Anna, and make a decision to just call it off.”

Then it all vanished in an instant. Cornered for transgressions that surprised absolutely no one inside the sport, Armstrong suffered one of the most astonishing and brutal reversals of fortune in American history, a level of punishment so extreme it raises the question of what was really being punished.

A year and a half later, Armstrong is still trying to figure out the answer.”

O artigo completo está aqui.

O vídeo perfeito

Se não viram, vale muito a pena ver.

O plano quase perfeito para derrotar os EUA

O plano era perfeito. Saía de Lisboa às 13h20 e chegava ao aeroporto de Newark às 16h20 locais. Mesmo a tempo de ver o jogo entre Portugal e os Estados Unidos. Maravilhas da diferença horária. Estava tudo previsto: apanhava um taxi para Manhatan, deixava a mala no hotel, seguia de metro até Times Square e via a partida num ecrã gigante, pronto para agitar o cachecol e gritar alto e bom som quando aviássemos os gringos. Afinal, eles acham que futebol é um jogo que se joga com as mãos e o corpo.
Mas – há sempre um mas – nada aconteceu conforme planeado. A começar em Lisboa. Não, não houve um furacão. Não, não houve uma erupção vulcânica que cobriu os céus com uma cinza assassina. O avião nem sequer se atrasou vindo de outro local qualquer. Aliás, quando cheguei à porta de embarque com a antecedência necessária ele já lá estava estacionado. Só que ao contrário do que seria expectável não partiu à hora prevista. Passava das 15h30 quando o voo levantou – sem grandes explicações por parte da TAP.
Times Square estava fora de jogo. Restava um ecrã qualquer. Pouco depois da aterragem o comandante informava – com “honra” – que Portugal ganhava um a zero. Entre saír, atravessar os controlos fronteiriços, recolher a bagagem e apanhar um taxi a segunda parte estava a começar. A meio do caminho o motorista resolve alterar o preço e parou na berma da auto-estrada para eu decidir se continuava ou voltava para trás – claro que teria que pagar a corrida de regresso. Estávamos a discutir se as portagens estariam incluídas no preço quando os EUA empataram o jogo. A notícia chegou por SMS. Ao que parecia, não estava a perder grande coisa.
Acabei por fazer as pazes com o motorista, um haitiano simpático chamado Serge que vive há 29 anos nos EUA. Tinha acabado de regressar do seu país onde passou duas semanas numa reunião alargada de família. Viajou com a mulher, filhos, sobrinhos, cunhados e irmãos. A mãe, de 84 anos, também foi. Para a proteger, não lhe contaram que um sobrinho que vive no país morreu recentemente. Disseram-lhe que ele estava a tirar um curso de formação no Canadá. Ela acreditou: “não vale a pena preocupá-la”.
Quando lhe contei que vinha de Portugal, ele disse duas coisas. A primeira: “O jogo está empatado a um.” A segunda: “Tenho um sobrinho que casou com uma portuguesa e vive em Portugal. Conheceram-se na República Dominicana. Estavam os dois a dar lá aulas.”
Entre o transito para atravessar o Lincoln Tunnel não parecia haver muita gente interessada no jogo. Nem o Serge. Sem notícias do que se passava acabámos por ser informados através de um telefonema. A mãe do motorista ligou-lhe para lhe dizer que a partida tinha acabado com um empate a dois golos. Sem honra nem glória. Quando me deixou à porta do hotel, Serge despediu-se com um amigável “até à próxima”. Eu também. Sem grande convicção. O cachecol nem chegou a sair da mala. Só vi os golos mais tarde. Cruzei-me com americanos com a bandeira pintada na cara. O plano revelou-se tudo menos perfeito.

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A diferença entre o futebol e aquela coisa a que os americanos chamam futebol

Football vs. Football

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O resumo do Campeonato do Mundo

World Cup Brazil 2014

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Os números do campeonato que começa amanhã

A história animada de Espanha nos mundiais de futebol

O The Guardian está a apresentar uma série de histórias animadas sobre as selecções presentes no campeonato do mundo. Na falta de um vídeo (por enquanto) sobre a selecção nacional, fica aqui o trabalho sobre Espanha.