Uma “media blitz”

O Macer Gifford teve uma expressão feliz para os dois dias que esteve em Lisboa. Chamou-lhe “media blitz”. E foi exactamente isso que aconteceu há uma semana, entre 17 e 18 de Novembro. A presença dele em Portugal para a apresentação do meu novo livro, Heróis Contra o Terror, chamou a atenção de muita gente interessada em conhecer melhor não só a história do Mário Nunes mas também dos outros voluntários internacionais que, como ele, decidiram juntar-se às Unidades de Protecção Popular curdas na luta contra o autoproclamado Estado Islâmico. Espero que gostem. Eles merecem.

Porque hoje é dia da Europa

Numa época de eurocepticismo e de ameaças de “exits” vale sempre a pena recordar o discurso em que Winton Churchill pediu a criação dos Estados Unidos da Europa.

Três décadas de Europa

A 1 de Janeiro de 1986, Portugal aderiu oficialmente à então Comunidade Económica Europeia – o maior e mais bem sucedido projecto de paz da História. Faz hoje 30 anos.

Rosa, Joana, André, Catarina. Todas eram Cândida Ventura

Estávamos sentados no café Slávia, junto ao teatro nacional de Praga. Cândida Ventura abriu a mala e tirou um cigarro de mentol. Era o primeiro da manhã. Lá fora o rio Voltava atravessava a cidade, tranquilo. Ela olhou em volta, deu umas baforadas e disse-me: “Alguma vez pensei, quando estava no ‘hotel de Caxias’, que ia durar até hoje?”

Era Abril de 2010. Cândida tinha então 91 anos. Fumava, bebia um copinho para activar a circulação, lia o Le Monde na internet e trocava emails com os amigos espalhados pelo mundo. Tinha, sobretudo, uma memória prodigiosa de um tempo que já não existe. Uma época em que funcionários clandestinos do Partido Comunista Português (PCP) viviam sem documentos, passavam fome e estavam sujeitos à prisão, tortura e isolamento. Um tempo em que percorriam o país de bicicleta, durante a noite, movimentavam-se para encontros clandestinos entre sinais e senhas conspirativas destinadas a iludir as autoridades do Estado Novo.

A Cândida viveu isso tudo. Olhando para ela era difícil acreditar como é que aquela mulher pequenina, com uns grandes e penetrantes olhos verdes podia ter enfrentado as dificuldades da clandestinidade durante tanto tempo. Foram 17 anos. Ininterruptos. Quase duas décadas em que, por saír quase sempre durante a noite, ficou para o resto da vida com uma grande dificuldade em tolerar a luz do sol e a obrigavam a andar sempre com os seus grandes óculos escuros. Isto para não falar no tempo passado no “hotel de Caxias”, onde esteve às portas da morte na sequência de diversas hemorragias provocadas por um aborto.

Falei com ela pela primeira vez há uns 12 anos. Estava então em O Independente quando o Vítor Cunha me deu o telemóvel dela com uma indicação: “ligas-lhe que ela quer por-nos em contacto com um amigo francês”. O amigo era Pierre Rigoulot, um investigador que se dedica a estudar regimes comunistas, que tinha então estado em Cuba e que tinha uma reportagem para publicar.

Desde então que nos mantivemos em contacto. Ela passou a telefonar-me para comentar notícias publicadas em França ou os mais recentes desenvolvimentos da política internacional. Vivia então em Portimão, sozinha, numa torre enorme. E à medida que conhecia cada vez mais da sua história, tinha de a conhecer pessoalmente. Acho que foi isso que ela gostou em mim: tinha paciência e vontade de a escutar. Durante muitas horas ouvi-a contar em como conheceu Álvaro Cunhal, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, Fernando Piteira Santos, José Gregório, Mário Dionísio, Maria Lamas, o médico Pulido Valente, Manuel Campos Lima, António Sérgio, José Hermano Saraiva, Mário Soares, Dias Lourenço, Manuel Alegre, Vitorino Magalhães Godinho, Guilherme da Costa Carvalho, Dubcek e muitos, muitos outros. Registei a forma como se envolveu na política na universidade, como participou nos famosos Passeios do Tejo, como, já funcionária do PCP, se  movimentava de noite e como escolhia casas clandestinas. Fixei os pseudónimos que usou: Joana, Rosa, André, Catarina. Ouvi-a falar das perseguições que lhe moveram, das reuniões do Comité Central, no qual foi a primeira mulher a entrar após a reorganização do PCP no início da década de 1940 e dos dias passados na prisão onde, apesar das dificuldades, nunca falou com a PIDE. 

Um dia, já depois de vários encontros, disse-me: “Vou a Praga. Quer vir comigo?” Claro. Foi assim que fomos parar à capital a República Checa e ao café Slávia e percorremos todos os locais marcantes da Primavera de Praga, bem como os sítios onde ela viveu e trabalhou na década que passou no exílio. Esse ano de 1968 é talvez um dos mais controversos na sua vida. Ela garantiu-me vezes sem conta (tal como tinha escrito no livro O Socialismo que eu vivi) que esteve sempre de alma e coração com os checos contra a invasão soviética e que se manteve no posto de representante do PC junto do PCUS para poder ajudar a mudar o sistema por dentro. Os portugueses que viviam em Praga na época dizem que isso é falso e acusam-na de ter estado sempre ao lado do partido contra a revolução. Mas o seu papel não está aqui em causa.

O que me importa é a mulher que conheci. É por isso que não resisto a partilhar um dos episódios mais insólitos e reveladores que passei com ela. Estávamos no terminal de embarque do aeroporto de Lisboa, 30 minutos antes de entrar no avião rumo a Praga, quando ela decidiu perguntar a uma funcionária da limpeza onde podia fumar. A mulher disse-lhe que não podia. Mas a Cândida não desistiu: “Então e se eu for à casa-de-banho?”, replicou. Apanhada desprevenida pela figura aparentemente frágil, a mulher riu-se e disse-lhe em voz baixa: “Só se for na divisão dos deficientes”. A Cândida sorriu de volta, agradeceu e dirigiu-se aos lavabos de onde voltou minutos depois, com um ar satisfeito. De certeza que nem deixou cair cinzas no chão: além do maço de tabaco, trazia sempre na mala um pequeno cinzeiro portátil com uma folha de canábis na tampa.

Nos últimos tempos falámos pouco. A saúde dela foi piorando depois de uma queda que a levou à mesa de operações. Na última vez que lhe telefonei, há uns meses, tenho a certeza que não me reconheceu apesar de termos combinado ir almoçar ao Clube Naval quando eu fosse a Portimão. Não chegou a acontecer. Hoje recebi a notícia de que a Cândida tinha morrido. Estas breves palavras não lhe fazem justiça. Esfumam-se num cigarro. Aquele com que a Cândida as estaria a ler.

Até sempre.

F421-422 - Passeio cultural no Tejo-1

Cândida Ventura, ao centro, durante os Passeios no Tejo

 

Coincidências: o governo caiu no dia em que Cunhal nasceu

A data vai ficar na história. Esta terça-feira, 10 de Novembro, a maioria de esquerda na Assembleia da República derrubou o governo de coligação PSD/CDS-PP. Por ironia do destino, a moção de rejeição do Partido Socialista foi aprovada no dia em que Álvaro Cunhal, líder histórico comunista, faria 102 anos. Uma excelente ocasião para recordar um artigo e uma entrevista que guardo com especial carinho e orgulho.

Conhecer o passado para entender o presente – em 10 minutos

E foi assim que tudo começou… e acabou