Al-Baghdadi e a destruição da mesquita de Mossul

Não. Abu Bakr Al Baghdadi não proclamou a existência do “Califado” na mesquita de Al-Nuri, em Mossul, em Julho de 2014. Essa proclamação foi feita cinco dias antes, a 29 de Junho de 2014, pelo então porta voz do Estado Islâmico, Abu Muhammad Al-Adnani. Numa mensagem intitulada “Esta é a promessa de Alá”, traduzida para várias linguas e difundida na internet, foi Al-Adnani quem anunciou pela primeira vez a decisão do grupo terrorista de proclamar a existência do califado.

A 4 de Julho, Abu Bakr Al-Baghdadi apareceu na mesquita central de Mossul não para proclamar o Califado mas sim para dar o seu primeiro sermão como “Califa Ibrahim”. Nessa aparição pública – a única conhecida – Baghdadi usou a maior parte do tempo para apelar à hijra, a migração dos muçulmanos para o califado, que disse ser obrigatória. Apelou, sobretudo, à migração de quadros qualificados: professores, juízes, médicos, engenheiros, militares e pessoal com experiência em serviços e administração pública.

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Um encontro com Madeleine Albright

Quando entrei para o curso de Relações Internacionais, em Setembro de 1996, os Estados Unidos estavam em plena campanha eleitoral. De um lado, o presidente em funções, Bill Clinton. Do outro, o republicano Bob Dole. A eleição era, por isso, tema obrigatório de acompanhar. Tal como as teorias das relações internacionais que moldavam o mundo.

Aquela era ainda uma época de mudanças extraordinárias (não são todas?). O muro de Berlim tinha caído há sete anos e a Europa de Leste atravessava a chamada terceira vaga de democratização (que começou em Portugal, em 1974). Do outro lado do Atlântico, Bill Clinton era um defensor vocal da teoria da paz inter-democrática. Ou seja, da tese de que não há guerra entre democracias.

Depois de ser eleito para um segundo mandato, Clinton escolheu para secretária de Estado a mulher que tinha sido, até então, a representante dos EUA na Organização das Nações Unidas. Chamava-se Madeleine Albright. Natural da Checoslováquia – e por isso impedida de se candidatar à presidência -, foi a primeira mulher a ocupar o cargo. E nos anos seguintes tornou-se a grande artífice da expansão da NATO para a Europa de Leste e até hoje uma vocal defensora da paz entre democracias.

Nesse ano, Vasco Rato era o meu professor de Teoria das Relações Internacionais. Recordo-me que no fim do ano, durante o obrigatório exame oral, ele me perguntou o que achava da Teoria da Paz Inter-Democrática. Devo ter dito uma asneira qualquer porque ele respondeu-me com ar de poucos amigos: “então o senhor acha que o Bill Clinton é burro?” Lá balbuciei qualquer coisa, mas confesso que a partir daí não me lembro de muito mais. Só sei que passei com uma nota miserável e que nunca mais me esqueci do que é a paz inter-democrática e de quem foram os seus defensores.

Foi por isso engraçado ver o Vasco Rato, hoje presidente da FLAD, a moderar o debate com Madeleine Albright nas últimas conferências do Estoril (e sim, ela falou na paz entre democracias, teoria em que continua a acreditar). Mas melhor foi ter tido a oportunidade de a entrevistar em exclusivo, entre o fim do debate e o início da conferência de imprensa. Foram apenas 15 minutos, contados ao segundo pela assessora atenta que a acompanhava para todo o lado. No final, não lhe contei esta história. Mas não resisti em pedir-lhe para tirar com ela uma fotografia para a história. Obrigado, madam secretary.

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Foto original: Pedro Zenkl

Será Angela Merkel a líder de uma nova Europa?

“One of the key purposes of NATO was to embed Germany in an international framework that would prevent it from becoming a threat to European peace as it had been in World War I and World War II. In the words of NATO’s first secretary general, NATO was supposed “to keep the Russians out, the Americans in, and the Germans down.” Now, Merkel is suggesting that the Americans aren’t really in, and, by extension, Germany and Europe are likely to take on a much more substantial and independent role than they have in the past 70 years.” 

A análise do The Washington Post ao discurso em que a chanceler alemã diz que a era em que podiamos confiar nos aliados terminou.

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Estado Islâmico reivindica atentado em Manchester

Demorou poucas horas: o autoproclamado Estado Islâmico acabou de reivindicar o atentado terrorista em Manchester. Ao contrário dos últimos ataques, o grupo terrorista fê-lo através do seu órgão de comunicação central e não através da mais conhecida Agência Amaq – o que poderá indicar que foi um atentado conduzido e não apenas “inspirado”. Para além disso, a reivindicação refere terem sido colocados vários engenhos explosivos por um “soldado do califado” e não refere qualquer bombista suicida. O ataque é também justificado pelas “agressões” aos muçulmanos. A reivindicação foi primeiro publicada em árabe e logo depois em inglês. resta saber se irá ser divulgado em breve algum vídeo do autor a jurar fidelidade a Abu Bakr al-Baghdadi.

Um herói da luta contra o terrorismo (1994-2016)

Era a segunda vez que Mário Nunes estava na Síria para combater o autoproclamado Estado Islâmico. Tal como tinha feito um ano antes, tinha viajado para o Curdistão sírio para se juntar às Unidades de Protecção Popular (YPG) na luta contra o grupo terrorista. Mas ao contrário do que aconteceu entre Fevereiro e Junho de 2015, não ficou inserido numa unidade normal: entrou para um grupo de elite, uma espécie de forças especiais, composto apenas por voluntários ocidentais conhecido por um nome de código: a 223. Mário tinha uma missão fundamental: era ele o operador da metralhadora pesada. Nunca se saberá exactamente o que aconteceu naquela tarde de 3 de Maio de 2016. Nem os reais motivos. Sabe-se apenas que o acampamento da 223 entrou num alvoroço quando o corpo de Mário Nunes foi encontrado estendido no chão. Na carta que foi enviada à família, algumas semanas depois, os líderes das YPG reconheciam o seu papel: “Mário não era apenas um combatente que dava força adicional à nossa luta. De facto, com a sua experiência e conhecimento ele foi um exemplo para os soldados mais jovens. Enquanto alcançou uma série de objectivos nas nossas linhas da frente, Mário serviu o propósito de ser uma ponte muito importante entre nós, os cudos de Rojava. Ele atravessou continentes pelo destino do nosso povo e humanidade”. Até hoje continua a ser, que se saiba, o português a juntar-se à luta contra o Estado Islâmico na Síria. Um herói, que merece ser recordado.

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Foto @Michael McEvoy

A União Europeia vale a pena?

Sim, vale.

Mitos sobre os atentados do Estado Islâmico na Europa

Publicado originalmente aqui.

“O Estado Islâmico reivindica tudo e mais alguma coisa”
Nem por isso. Por norma, o autoproclamado Estado Islâmico (EI) reivindica apenas aqueles atentados com os quais teve algum tipo de ligação, por mais ténue que seja. Normalmente acaba por apresentar provas: geralmente um vídeo dos autores dos atentados a declarar a sua fidelidade a Abu Bakr al-Baghdadi. Foi assim, por exemplo, com Anis Amri, o autor do ataque ao mercado de Natal, em Berlim, ou com os dois terroristas que, em Julho de 2016, degolaram um padre no norte de França. Até agora não foi divulgado qualquer vídeo do género relacionado com o atentado desta quarta-feira, em Londres. Se tal vier a acontecer, poderemos distinguir entre um ataque “inspirado” e um ataque “dirigido”, mesmo que à distância.

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“Estes tipos são uns amadores”
Não importa. A maioria dos atentados ocorridos nos últimos anos na Europa foi realizada por terroristas que nunca estiveram na Síria ou no Iraque mas que se prepararam através da internet. Como tal, não têm a mesma eficácia do grupo que, por exemplo, em Novembro de 2015 realizou os atentados de Paris. No entanto, quase sempre os autores receberam instruções sobre como agir do chamado serviço de informações externo do EI: a Amn al-Kharji. Um relatório da Henry Jackson Society, divulgado esta semana, conclui que 75% dos 148 atentados realizados na Europa e nos Estados Unidos entre 2002 e 2016 foram de alguma forma dirigidos por responsáveis ou intermediários do EI. Apenas 15% (22 ataques) foram cometidos pelos chamados lobos solitários.

“Esta é uma nova realidade”
Nem por isso. Em Setembro de 2014, o então porta-voz do EI, Abu Muhammad Al-Adnani, num discurso áudio partilhado na internet, já apelava a ataques indiscriminados contra cidadãos ocidentais. Pedia-o de uma forma bastante explicita:

“Se não forem capazes de encontrar um EEI [Engenho Explosivo Improvisado] ou uma bala, então ataquem os infiéis directamente – sejam americanos, franceses ou qualquer dos seus aliados. Esmaguem a cabeça [dos infiéis] com uma pedra, cortem-lhes a garganta com uma faca, ou atropelem-nos com o vosso carro, ou atirem-nos de um lugar alto, ou sufoquem-nos ou envenenem-nos. (…) Se não forem capazes de fazer isso, então incendeiem as suas casas, carros ou negócios. Ou destruam as suas colheitas. Se não forem capazes de fazer isso, então [pelo menos] cuspam na sua face.”
A ideia geral era a de que era dever de todos os muçulmanos fazerem a hijra (migração) para o Califado. Todos aqueles que não fossem capazes de o fazer deviam atacar os ocidentais onde quer que estivessem. Desde então que este apelo é repetido incessantemente, seja em discursos, seja nas publicações oficiais do EI.

“A maioria dos terroristas vieram da Síria”
Nem por isso. Pelo contrário. A maioria nasceu na Europa. Khalid Masood, o responsável pelo atentado de Londres, é apenas o último exemplo. Junta-se aos autores dos atentados terroristas de Londres, em 2005; ao responsável pelo ataque ao museu judaico de Bruxelas, em Maio de 2014; ao homem que decapitou o patrão em Saint-Quentin-Fallavier, perto de Lyon, em Junho de 2015; à dupla que degolou o padre da igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, na Normandia, em Julho de 2016; ao assassino de um casal de polícias na véspera do Euro 2016, nos arredores de Paris; aos responsáveis pelo ataque ao Charlie Hebdo e ao Hiper Cashier, em Paris, em Janeiro de 2015; aos autores dos atentados ao Bataclan, ao Stade de France e a dois cafés de Paris, em Novembro de 2015; e aos suicidas que levaram a cabo os atentados no aeroporto de Bruxelas e na estação de Maalbeek, em Março de 2016.“As polícias e os serviços de informações falharam”
Nem por isso. É fácil apontar o dedo a uma instituição quando algo falha. Sobretudo quando é divulgado que o responsável por um ataque era “conhecido das autoridades”. No entanto, se mais de cinco mil cidadãos ocidentais viajaram para a Síria e para o Iraque, muitos outros ficaram nos países de origem. Seja como apoiantes, seja como voluntários para realizar atentados futuros. É impossível às forças de segurança seguir todos os potenciais suspeitos 24h por dia. Fazê-lo implicaria ter uma equipa de 20 agentes permanentemente dedicada a apenas uma pessoa (com seguimentos físicos e monitorização telefónica e electrónica). A perspectiva é a oposta: com tantos apoiantes, o surpreendente é que não haja mais atentados – e aqui o mérito é das polícias e dos serviços de informações.

“Os terroristas são uns desgraçados com problemas mentais”
É duvidoso. A grande dificuldade do combate à radicalização é que não existe um perfil de um terrorista. Qualquer um pode ser aliciado. Seja um estudante universitário, um adolescente, um desempregado ou um médico. Existem todo o tipo de casos e os mais variados motivos para alguém decidir tornar-se um terrorista. No entanto, existem alguns indícios. Há estudos que indicam que existe uma relação entre a radicalização e o crime. Mais que isso: jovens com problemas com a lei são muitas vezes os alvos preferidos das redes jihadistas que lhes apresentam a radicalização como uma oportunidade de redenção. Nos últimos anos as prisões tornaram-se, com sucesso, autênticos pontos de recrutamento.

“A capacidade de propaganda do Estado Islâmico diminuiu”.
Nem por isso. Apesar de as redes sociais como o Twitter e o Facebook terem encerrado milhares de contas de jihadistas e apoiantes do EI nos últimos anos, elas continuam a surgir. Mais do que isso, os terroristas direccionaram a sua actividade para canais encriptados no Telegram. É aí que as organizações oficiais do grupo terrorista continuam a fazer as reivindicações, a divulgar vídeos de propaganda e é também aí que os apoiantes do EI partilham imagens a apelar a novos atentados. Se dúvidas houvesse em relação à vitalidade mediática do grupo, o atentado de ontem em Londres voltou a recordar que ela está para durar.