Recortes de imprensa

As ideias feitas são difíceis de contrariar. As generalizações ainda mais. Uma das mais repetidas nos últimos tempos é a da falta de qualidade do jornalismo português. Para tentar contrariar essa noção, esta página vai compilar aqueles que me parecerem os melhores trabalhos publicados nos órgãos de comunicação portugueses. O objectivo é chegar ao fim do ano e ter uma noção daquilo que de melhor foi feito no jornalismo nacional, onde e por quem. Como é óbvio, é impossível ler, ver e ouvir tudo, todos os dias. Será por isso uma amostra subjectiva. E pessoal. Se quiserem contribuir ou alertar para um trabalho de excepcional qualidade, basta enviarem um email.

OUTUBRO

José Sócrates deixou a política, mas a política não o deixou a ele. José Sócrates foi morar para França, mas nunca deixou de cá estar. José Sócrates tentou defender-se, mas só sabe atacar. Na véspera do lançamento do seu livro sobre a tortura nas democracias, Clara Ferreira Alves entrevistou-o para a Revista do Expresso e produziu uma notável peça jornalística de uma dificuldade extrema.

JULHO

Em pleno Verão, o Público fez capa da revista de domingo com uma reportagem notável da Catarina Gomes sobre um assunto que, para muitos, ainda hoje é tabu: os filhos que os soldados portugueses na guerra colonial deixaram para trás. Chamaram-lhes filhos do vento.

MARÇO

Desde que o governo de Pedro Passos Coelho tomou posse, há um homem que parece ter a influência de um ministro, não estando no governo: António Borges, o consultor para a área das privatizações. Sempre que fala, há consequências. Seja sobre a TSU, a RTP ou outro dossier que o executivo tenha em mãos. A 24 de Março, na revista 2, do Público, a Cristina Ferreira traçou um retrato do homem ao longo dos últimos 41 anos, com episódios desconhecidos e testemunhos de inúmeras pessoas que com ele privaram. A história começa em 1972 e termina em 2013 – e está separada por anos.

FEVEREIRO

A 21 de Fevereiro, a Visão fez capa com uma reportagem do Miguel Carvalho sobre um escândalo mantido em segredo pela Igreja Católica: as suspeitas de assédio sexual a membros do clero por parte de D. Carlos Azevedo. A denúncia partiu de um sacertode ao núncio apostólico e relatavam situações que se repetiam desde os anos de 1980 até à actualidade. A notoriedade – e as posições públicas sobre sexualidade – do antigo bispo auxiliar de Lisboa, bem como a sua colocação no Conselho Pontifício da Cultura da Santa Sé, deu ao caso uma enorme dimensão, que teve continuação na semana seguinte, com a publicação da história do padre que denunciou o caso. Um exemplo de como o bom jornalismo pode abalar as estruturas das mais importantes instituições.

A 7 de Fevereiro, a Visão fez capa com o artigo A história dos portugueses que combateram no exército de Hitler. Já tinhamos ouvido falar de espiões ao serviço dos nazis, de combatentes na guerra civil de Espanha. Mas, que me lembre, este é o primeiro trabalho de grande fôlego sobre os portugueses que quebraram a neutralidade do regime de Salazar para lutar contra o exército soviético. Além da história das batalhas, o trabalho faz um resumo biográfico dos soldados lusos (com fotos). É um excelente texto, bem escrito que tem uma particularidade interessante: não é assinado por um jornalista mas por Ricardo Silva, um licenciado em História que está a preparar a tese de mestrado sobre os portugueses da Divisão Azul. Para saberem o que é exactamente esta divisão, o melhor é lerem o texto.

No primeiro domingo de Fevereiro, o Público fez o seu destaque semanal com uma investigação aos subsídios atribuídos pelo Estado em 2011 – o último ano disponível. São mais de 2400 milhões de euros distribuídos pelos diferentes ministérios. A informação, que devia ser pública, revelou-se cheia de buracos. Ainda assim foi possível tirar algumas conclusões e localizar os maiores beneficiários: as misericórdias.

JANEIRO

Por ocasião do 50º aniversário do início da guerra na Guiné-Bissau, o Correio da Manhã deu 20 páginas da revista Domingo ao tema. Com uma particularidade: pela primeira vez são publicados num órgão de comunicação social os nomes de todas as vítimas portuguesas. O texto atravessa todos os anos do conflito e as maiores operações das forças armadas portuguesas, com relatos dos participantes. Um belo trabalho sobre um tema que anda arredado dos outros jornais.

One thought on “Recortes de imprensa

  1. Pingback: A entrevista a José Sócrates é uma notável peça jornalística | O Informador

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