Schiiiuuuu, não digam nada a Donald Trump…

Adel Kermiche e Abdel Malik Petitjean; Larossi Abballa; Ibrahim El Bakraoui, Najm al-‘Ashrāwī, Mohamed Abrini, Khālid al-Bakrāwī e Osama Krayem; Abdelhamid Abaaoud, Mohamed Abrini, Samy Amimour,  Salah Abdeslam, Brahim Abdeslam, Ismael Omar Mostefai, Samy Amimour,Foued Mohamed-Aggad; Amedy Coulibaly, Chérif Kouachi, Saïd Kouachi; Yassin Salhi; Mehdi Nemouche; Mohammad Sidique Khan, Shehzad Tanweer, Germaine Lindsay e Hasib Hussain.

Estes são os nomes dos autores dos atentados terroristas na Europa entre 2005 e 2016. Entre eles estão os dois jovens que degolaram o padre da igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, na Normandia, em Julho de 2016; o homem que matou um casal de polícias na véspera do Euro 2016, nos arredores de Paris; os responsáveis pelo ataque ao Charlie Hebdo e ao Hiper Cashier, em Paris, em Janeiro de 2015; os autores dos atentados à sala de espectáculos Bataclan, ao Stade de France e a vários cafés de Paris, em Novembro de 2015;  os suicidas que levaram a cabo os atentados no aeroporto de Bruxelas e na estação de metro de Maalbeek, em Março de 2016; o homem que decapitou o patrão em  Saint-Quentin-Fallavier, perto de Lyon, em Junho de 2015; o autor do atentado no museu judaico de Bruxelas, em Maio de 2014; os responsáveis pelos atentados terroristas de Londres, em Julho de 2005.

As suas acções provocaram centenas de mortos no Reino Unido, na França e na Bélgica. Para além de agirem em nome de grupos terroristas como o auto-proclamado Estado Islâmico ou a Al Qaeda, unia-os um detalhe: eram (ou são) todos cidadãos europeus, nacionais do Reino Unido, Bélgica, França e Suécia.

É bom que ninguém diga nada disto a Donald Trump. Caso contrário, em breve, poderemos ser proibidos de entrar nos Estados Unidos.

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A ilustração é do Vasco Gargalo.

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Tudo o que precisam de saber sobre o… Estado Islâmico

É vulgar dizermos que os extremistas islâmicos são loucos. Doidos. Varridos. Que vivem numa época medieval onde a razão não impera. Lunáticos. Fanáticos. Assassinos sem respeito pela vida humana. Radicais. Extremistas Irracionais. Mas serão mesmo? Ou será que – pelo menos os seus líderes – sabem exactamente aquilo que querem e qual a forma de alcançar esse objectivo. Assassinos, sim. Medievais e extremistas, também. Agora loucos? Talvez não. Desde o início que o grupo tem por objectivo a criação de um califado islâmico e, a partir de certa altura, seguiu uma estratégia clara e objectiva para o conseguir. Imediatamente. Ontem, na véspera de mais um aniversário dos antentados de 11 de Setembro, Barack Obama anunciou a estratégia para o tentar impedir: ataques aéreos às zonas controladas pelo EI no Iraque e na Síria. A longo prazo. Isto é tudo o que precisam de saber sobre o Estado Islâmico.

  • O grupo – ou a sua ideia – começou a formar-se na cabeça do jordano Abu Musab al-Zarqawi há mais de 20 anos. O islamita, nascido a 30 de Outubro de 1966, viajou para o Afeganistão no final da década de 1980 para lutar contra os soviéticos. No entanto, quando chegou, as tropas da então URSS já tinham deixado o país. De volta à Jordânia, criou o Jama’at al-Tawhid w’al-Jihad (JTJ) com o objectivo de derrubar o governo. Sem grande sucesso. Voltou então ao Afeganistão em 1999 para criar um campo de treino para terroristas. Foi aí que conheceu Osama Bin Laden.
  • Ao contrário de outros, al-Zarqawi preferiu não aderir à Al Qaeda. Continuou a tentar implantar o seu grupo. Mas a invasão norte-americana após o 11 de Setembro de 2001 obrigou-o a fugir para o Iraque. Aí, passou despercebido durante dois anos. Até que, a 5 de Fevereiro de 2003, o então secretário de Estado Colin Powell o indicou como um dos motivos que justificavam a invasão do Iraque. Segundo Powell, al-Zarqawi seria o elo de ligação entre Saddam Hussein e a Al Qaeda. Não era. Mas desde então que passou a ser uma figura a ter em conta.
  • Após a invasão norte-americana, al-Zarqawi tornou-se uma das principais figuras da resistência aos EUA. Mas não só. O seu objectivo passava também por derrubar o governo iraquiano e estabelecer um estado islâmico – tal como a Al Qaeda. As diferenças eram poucas. Prendiam-se sobretudo com a intenção de al-Zarqawi de atacar a população xiita, que via como herética. Foi ele que orquestrou o bombardeamento do templo de Najaf, um dos locais mais sagrados para os xiitas. Os objectivos eram também políticos: conseguir o apoio da população sunita, afastada do poder após a queda de Saddam.
  • Em 2004, al-Zarqawi tinha lançado uma campanha de ataques suicidas no Iraque. Bin Laden deu-lhe o seu apoio. E ele retribuiu, aderindo à Al Qaeda: o JTJ foi rebaptizado de Al Qaeda do Iraque (AQI). No entanto, a extrema violência dos ataques à população civil começaram a gerar anticorpos na hierarquia da Al Qaeda. Ele não ligou. Aqueles que lhe resistiam eram executados. Ao contrário de outros grupos ligados à Al Qaeda, a AQI não pedia resgates pelos presos estrangeiros. Os ocidentais eram capturados com um objectivo: serem executados. Al-Zarqawi tornou-se mesmo conhecido como o “sheikh dos matadores” por decapitar pessoalmente os detidos. O seu estilo era inconfundível: os presos eram obrigados a vestir um fato cor-de-laranja (como em Guantánamo). As execuções tornaram-se tão frequentes que o então número dois da Al Qaeda pediu-lhe para parar e matar apenas os prisioneiros.
  • Al-Zarqawi não chegou a cumprir o seu sonho. Em Junho de 2006, morreu durante um bombardeamento ao local onde estava escondido, na sequência de uma ofensiva preparada pelo General David Petraeus em colaboração com as tribos sunitas a quem foram prometidos perdões por crimes anteriores, contratos lucrativos no futuro e uma parte do poder político. A estratégia resultou – mas apenas em parte. Os ataques suicidas pararam e a AQI foi praticamente desmantelada. Mas as promessas aos sunitas não foram cumpridas: não receberam contratos e foram afastados dos cargos de poder pelo primeiro-ministro  Nouri al-Maliki.
  • Quando os Estados Unidos retiraram do Iraque, a AQI praticamente não tinha actividade. Mas continuava a existir. Era então liderada por Abu Bakr al-Baghdadi, um natural de Samarra que se licenciou em Estudos Islâmicos pela Universidade de Bagdade e subiu na cadeia hierárquica do grupo ao longo de oito anos. A AQI tinha também mudado de nome para Estado Islâmico do Iraque (ISI, em inglês). Al-Baghdadi voltou à estratégia do fundador do grupo: ataques indiscriminados contra a população xiita, numa tentativa de voltar a conquistar o apoio sunita. Conseguiu. Muitos daqueles que tinham sido armados pelos Estados Unidos para combater a AQI voltavam-se agora para o grupo que se dispunha a atacar o seu opressor: o governo iraquiano.
  • Com o início da guerra na Síria, al-Baghdadi viu uma oportunidade: recrutar milhares de jihadistas ávidos de combater. Com soldados calejados por anos de combate no Iraque, o ISI destacou-se facilmente dos restantes grupos que lutavam contra Bashar al Assad. Rapidamente voltou a mudar de nome: tornou-se no Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL, em inglês). O objectivo era claro: o estabelecimento de um estado islâmico na região entre os dois países.
  • Nesta altura as relações entre o ISIL e a Al Qaeda já não eram as melhores.  Em 2011, após a morte de Osama Bin Laden, al-Baghdadi jurou obediência ao novo líder da Al Qaeda, Ayman al-Zawahri. Mas, apesar dos objectivos comuns – o estabelecimento de um califado islâmico – os dois divergiam sobre a forma de o alcançar. A Al Qaeda prefere uma estratégia de desgaste lento dos governos apoiados pelo ocidente, sem campanhas de terror para não alienar a população civil. Já o ISIL defende a estratégia do caos, com bombardeamentos e ataques indiscriminados, que deixe os governos sem capacidade para os impedir de estabelecer um emirado.

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Leitura para o fim-de-semana: os drones de Obama

Três dias depois de chegar à Casa Branca, em Janeiro de 2009, Barack Obama autorizou o primeiro ataque aéreo através de um drone. Nos últimos cinco anos, o presidente norte-americano lançou cerca de 400 operações secretas do género que provocaram quase 2500 mortos – muitos deles inocentes. Ao longo destes anos, o The Bureau of Investigative Journalism, tem tentado registar estas acções no Paquistão, Iémen e Somália e contabilizar as suas vítimas. O resultado não é bonito para o presidente Nobel da Paz.

Air Force, Army leaders discuss new UAS concept of operations

“More than 2,400 dead as Obama’s drone campaign marks five years

Five years ago, on January 23 2009, a CIA drone flattened a house in Pakistan’s tribal regions. It was the third day of Barack Obama’s presidency, and this was the new commander-in-chief’s first covert drone strike.

Initial reports said up to ten militants were killed, including foreign fighters and possibly a ‘high-value target’ – a successful first hit for the fledgling administration.

But reports of civilian casualties began to emerge. As later reports revealed, the strike was far from a success. At least nine civilians died, most of them from one family. There was one survivor, 14-year-old Fahim Qureshi, but with horrific injuries including shrapnel wounds in his stomach, a fractured skull and a lost eye, he was as much a victim as his dead relatives.

Later that day, the CIA attacked again – and levelled another house. It proved another mistake, this time one that killed between five and ten people, all civilians.

Obama was briefed on the civilian casualties almost immediately and was ‘understandably disturbed’, Newsweek reporter Daniel Klaidman later wrote. Three days earlier, in his inauguration address, Obama had told the world ‘that America is a friend of each nation, and every man, woman and child who seeks a future of peace and dignity.’

The Pakistani government also knew civilians had been killed in the strikes. A record of the strikes made by the local political administration and published by the Bureau last year listed nine civilians among the dead. But the government said nothing about this loss of life.

Yet despite this disastrous start the Obama administration markedly stepped up the use of drones. Since Obama’s inauguration in 2009, the CIA has launched 330 strikes on Pakistan – his predecessor, President George Bush, conducted 51 strikes in four years. And in Yemen, Obama has opened a new front in the secret drone war.

Lethal strikes
Across Pakistan, Yemen and Somalia, the Obama administration has launched more than 390 drone strikes in the five years since the first attack that injured Qureshi – eight times as many as were launched in the entire Bush presidency. These strikes have killed more than 2,400 people, at least 273 of them reportedly civilians.

Although drone strikes under Obama’s presidency have killed nearly six times as many people as were killed under Bush, the casualty rate – the number of people killed on average in each strike – has dropped from eight to six under Obama. The civilian casualty rate has fallen too. Strikes during the Bush years killed nearly more than three civilians in each strike on average. This has halved under Obama (1.43 civilians per strike on average). In fact reported civilian casualties in Pakistan have fallen sharply since 2010, with no confirmed reports of civilian casualties in 2013.

The decline in civilian casualties could be because of reported improvements in drone and missile technology, rising tensions between Pakistan and the US over the drone campaign, and greater scrutiny of the covert drone campaign both at home and abroad.”

O artigo completo está aqui.

Espionagem informática: a versão da NSA

Entre a comunidade de informações dos Estados Unidos a National Security Agency (NSA) é também conhecida por outro nome: Never Say Anything (nunca dizer nada). No entanto, perante as sucessivas revelações feitas pela imprensa a partir dos documentos cedidos por Edward Snowden, a agência decidiu mudar a sua política de silêncio e deu ao programa 60 Minutes acesso às suas instalações. O jornalista John Miller – que começa por dizer que já trabalhou num gabonete governamental na área das informações – pôde falar com funcionários e analistas que explicam até como os metadados dos telemóveis são usados para identificar potenciais terroristas. Na primeira parte deste programa os responsáveis da NSA defendem os seus programas de espionagem, garantem que cumprem escrupulosamente a lei e revelam que Edward Snowden tem em mãos um milhão e meio de documentos confidenciais – incluíndo 31 mil sobre o Irão e a China que lhes permitiria proteger-se da espionagem norte-americana.

As instalações mais secretas de Guantánamo – onde terroristas eram convertidos em espiões

Após o 11 de Setembro, e à medida que centenas de prisioneiros começaram a chegar à prisão de Guantánamo, a CIA decidiu usar alguns dos detidos para um objectivo muito específico: infiltrar agentes na Al Qaeda. Para isso criou um programa secreto dedicado a converter alegados terroristas em espiões decididos a matar os inimigos dos Estados Unidos. A poucas centenas de metros dos edifícios administrativos da prisão de Guantánamo, a CIA construíu um complexo – baptizado de Penny Lane – com oito pequenos bungalows onde os candidatos a espiões eram instalados e analisados. Muitos voltaram aos seus países com muito dinheiro no bolso e um objectivo claro. Alguns cumpriram-no. Outros não. A alguns a CIA perdeu-lhes o rasto. E apesar de ter terminado em 2006, o programa manteve-se secreto até hoje: dia em que a Associated Press divulgou a história. Aqui.

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Por dentro de Guantánamo

Em menos de um ano, Guantánamo vai receber o maior julgamento de crimes de guerra desde Nuremberga. Alguns prisioneiros estão detidos sem acusação há 12 anos. Outros foram levados para locais secretos e interrogados sem regras. Por outras palavras, foram torturados – mas nem os seus advogados o podem dizer, sob o risco de poderem ser acusados. Agora o programa 60 minutes obteve um acesso inédito à prisão norte-americana de Cuba e ao homem responsável pelo julgamento.

O inimigo interno

No Paquistão, o principal inimigo não é uma potência estrangeira. Não é sequer o histórico conflito fronteiriço com a Índia. Está nas ruas de Islamabad. Nas aldeias remotas. Nas montanhas. E está, sobretudo, na fronteira leste – uma área remota para onde terroristas das mais diversas nacionalidades fugiram, vindos do Afeganistão, para lutar ao lado dos taliban paquistaneses. A Al Jazeera conseguiu acesso a essa zona, que até há pouco tempo esteve sob controlo do grupo, que é ainda mais radical do que os taliban afegãos: o Waziristão. A reportagem chama-se Pakistan: The Enemy Within