Coincidências: o governo caiu no dia em que Cunhal nasceu

A data vai ficar na história. Esta terça-feira, 10 de Novembro, a maioria de esquerda na Assembleia da República derrubou o governo de coligação PSD/CDS-PP. Por ironia do destino, a moção de rejeição do Partido Socialista foi aprovada no dia em que Álvaro Cunhal, líder histórico comunista, faria 102 anos. Uma excelente ocasião para recordar um artigo e uma entrevista que guardo com especial carinho e orgulho.

A fuga

A 3 de Janeiro de 1960, 10 funcionários do Partido Comunista Português fugiram da Fortaleza de Peniche. A fuga tornou-se um dos episódios mais ímpares da história do PCP. Pela vitória sobre a ditadura salazarista. Pelo regresso à liberdade de importantes quadros clandestinos. E, sobretudo, pelo fim do cativeiro do futuro secretário-geral do partido, Álvaro Cunhal, que tinha passado os últimos 11 anos atrás das grades.

Apesar da sua importância, na época a fuga passou despercebida à esmagadora maioria da população e só foi conhecida nos círculos políticos, policiais e do próprio PCP clandestino. No entanto, hoje, é importante que o feito desdes homens continue a ser recordado. Porque foi também graças à luta deles – independentemente de simpatias ou antipatias ideológicas – que vivemos numa sociedade democrática. Para memória futura, ficam aqui os nomes dos elementos do grupo: Álvaro Cunhal, Joaquim Gomes, Jaime Serra, Carlos Costa, Francisco Miguel, Pedro Soares, Rogério de Carvalho, Guilherme Carvalho, José Carlos, Francisco Martins Rodrigues.

A vida privada de Álvaro Cunhal

Ontem à noite a TVI emitiu uma grande reportagem sobre Álvaro Cunhal. Chama-se “Álvaro, Eugénia e Ana – os 100 anos de Cunhal”. O trabalho de Judite de Sousa foi apresentado como uma reportagem cheia de factos desconhecidos e surpreendentes sobre a vida privada do antigo líder comunista, com fotografias e documentos inéditos e testemunhos originais (incluindo a primeira entrevista à secretária de Cunhal, Olga Constança). Mais do que isso: Judite de Sousa prometeu revelar a verdade sobre a relação de Álvaro Cunhal com a filha porque, disse ao DN, “tudo o que está escrito sobre essa relação não corresponde à verdade. A reportagem mostra que ele foi um pai muito presente na vida da filha.”

Vi a reportagem com curiosidade. O assunto é-me querido. E é por isso que não posso deixar passar em claro as afirmações de alguém com especiais responsabilidades, como é Judite de Sousa, de que o lado humano de Álvaro Cunhal nunca tinha sido abordado ou que, se o foi, o tinha sido de forma incorrecta. A verdade é que já foram escritos milhares de artigos e inúmeros livros sobre o líder histórico do PCP – entre os quais um, do investigador e ex-jornalista Adelino Cunha, cujo título era, precisamente, Álvaro Cunhal, retrato pessoal e intimo. Para além disso, Eugénia Cunhal já deu dezenas de entrevistas sobre o irmão. Domingos Abrantes também. Olga Constança diz pouco mais para além de que, como todos os comunistas, tratava Cunhal por Álvaro.

No entanto, o verdadeiro motivo que me leva a escrever este post, é outro. No início de Junho de 2010, publiquei na Sábado um artigo sobre a vida em família de Álvaro Cunhal – que fez a capa da dessa edição – cujo centro era exactamente a relação do líder comunista com a filha. Será difícil à Judite de Sousa classificar esse trabalho de falso porque ele era constituído, em boa parte, por uma entrevista a Ana Cunhal, a primeira que ela alguma vez deu. Está lá tudo: a infância na ex-URSS, o divórcio dos seus pais, as férias com o líder comunista na Europa de Leste, o regresso a Portugal, os passeios pela praia das maçãs, a visitas dos netos…

Também será difícil à directora de informação da TVI alegar desconhecimento. Além de ter mostrado duas imagens publicadas na Sábado a própria Judite de Sousa foi uma das fontes contactadas para este artigo. Motivo: poucos o sabem, mas o seu pai foi funcionário do Partido e isso permitiu-lhe ser, provavelmente, a única jornalista a entrar na casa onde Cunhal passou os últimos anos de vida, nos Olivais. A reportagem emitida ontem não é má. Mas não traz grande novidade sobre Álvaro Cunhal. No entanto, para o caso de não estares mesmo recordada, fica aqui o texto, Judite.