Estado Islâmico reivindica atentado de Londres

O autoproclamado Estado Islâmico acabou de reivindicar o atentado em Londres. Como de costume, a reivindicação foi feita através dos canais encriptados do grupo no Telegram. A fórmula é também a habitual: “uma fonte disse à agência Amaq que um soldado do Estado Islâmico efectuou um ataque, ontem, em frente ao parlamento britânico”.

Tal como foi feito em ocasiões anteriores, essa reivindicação foi feita em várias linguas. Aqui em inglês, francês, alemão e italiano.

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Agora, a grande questão é: irá o Estado Islâmico divulgar uma mensagem em vídeo do atacante a declarar a sua fidelidade a Abu Bakr al-Baghdadi tal como aconteceu depois do ataque em Berlim?

 

Uma reivindicação padrão

Ontem ao fim da tarde o autoproclamado Estado Islâmico reivindicou a autoria do atentado em Berlim. Primeiro em árabe:

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Depois em alemão:

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Foram ainda divulgadas reivindicações em russo e em francês, como é habitual, através dos canais oficiais do grupo terrorista no Telegram. Era previsivel que tal viesse a acontecer.

Tal como em anteriores ocasiões, esta reivindicação do grupo terrorista segue uma fórmula padrão: “uma fonte de segurança da agência Amaq indicou que a operação que teve lugar na cidade de Berlim, na Alemanha, foi realizada por um soldado do Estado Islâmico em resposta aos apelos a ataques nos países da coligação internacional”. Já tinha sido assim em Nice e em Orlando, entre outras. Ou seja, a organização não esteve directamente envolvida no planeamento e execução do ataque. O autor terá sido “inspirado” ou agido de acordo com instruções transmitidas por um elemento com ligações ao grupo.

O que é novo é que esta reivindicação foi feita sem que se saiba quem é o autor do atentado e com o mesmo ainda em fuga. Nas próximas horas poderá haver novidades. Não seria a primeira vez que, após a reivindicação, o EI divulgaria novos dados que provassem que autor e grupo terrorista estariam em contacto, mesmo indirecto.

Actualização (13h35): acabou de ser divulgado o comunicado no canal da Amaq em inglês

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Ontem em Berlim. Amanhã noutro lado qualquer

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Se ainda houvesse dúvidas, os atentados de ontem na Turquia e na Alemanha vêm comprovar a nova realidade com a qual temos de aprender a viver. A grande dúvida já não é se irá ou não acontecer um ataque terrorista na Europa. Para as forças de segurança e serviços de informações – que tentam reduzir esta probabilidade ao máximo – a principal questão é “quando e onde vai ocorrer o próximo atentado?” E isso é praticamente impossível de prever.

Claro que há indícios que estão permanentemente a ser monitorizados. Um exemplo: no final de Novembro, o Departamento de Estado dos EUA alertou os cidadãos americanos para a probabilidade da ocorrência de um atentado terrorista em vários países europeus durante a época natalícia. Entre eles estavam a Turquia, a Bélgica, a França e a Alemanha. As autoridades americanas eram especialmente claras quanto aos potenciais alvos: festivais, eventos e mercados ao ar livre.

Estes ataques poderiam ser realizados por grupos organizados ou por elementos individuais – os chamados lobos solitários – através do recurso a armas convencionais e não convencionais. Se os primeiros poderão mais facilmente ser detectados pelas autoridades, é praticamente impossível prever ou monitorizar alguém que, sozinho, através da internet, decide levar a cabo um atentado terrorista. Foi o que aconteceu este ano em Nice ou em Orlando, por exemplo. Até prova em contrário poderá terá sido o que aconteceu em Berlim.

Na Alemanha, um condutor desconhecido enviou um camião contra as centenas de pessoas que estavam no tradicional mercado de Natal na Breitscheidplatz. Até agora sabe-se que o veículo tem matricula polaca, que estava carregado com vigas de aço, que o condutor foi encontrado morto no banco do pendura e que o ataque vitimou 12 pessoas e feriu quase 50. A polícia prendeu um primeiro suspeito, um refugiado paquistanês que chegou à Alemanha no início do ano, que negou qualquer ligação ao atentado e já foi libertado por falta de provas. As autoridades partem do princípio que o atacante está armado e em fuga. Não se conhecem as suas motivações, nem se agiu em nome individual ou em grupo.

Nas horas seguintes ao atentado, uma das principais preocupações dos órgãos de comunicação era saber quem estaria por detrás do atentado. O autoproclamado Estado Islâmico tornou-se imediatamente o suspeito número um. Pelo menos o The Washington Times e o The Sun atribuiram-lhe mesmo responsabilidades. No entanto, se o diário americano citava o britânico, este último citava militares iraquianos que por sua vez citavam alegados jihadistas. Na verdade, até agora, não houve qualquer reivindicação nos canais oficiais do EI. Pelo contrário. Desde ontem que as diversas contas no Telegram estão particularmente calmas.

Esta ausência de reivindicação não é nova. Por exemplo, após o atentado de Nice, quando o condutor de um camião matou 86 pessoas, o EI levou dois dias a reivindicar o ataque. E fê-lo em termos muito genéricos: atribuiu-o a um “soldado do califado” que respondeu aos “pedidos para atacar cidadãos das nações da coligação que combate o Estado Islâmico”. Ou seja, foi “inspirado”. Um exemplo mais recente: durante o fim-de-semana houve um atentado terrorista na Jordania. O ataque só foi reivindicado pelo EI esta terça-feira.

Existe ainda uma outra possibilidade: a de o EI ignorar sistematicamente os atacantes que sobrevivem ao próprio atentado. O exemplo mais flagrante é Saleh Abdeslam: o único elemento que restou dos atentados de Novembro de 2015 em Paris foi completamente banido das eulogias dedicadas aos restantes “mártires”.

Venha ou não a ser reivindicado, a única coisa que liga o atentado de Berlim ao EI é o padrão: o uso de veículos contra civis, uma das técnicas há muito propagandeadas como mais eficazes pelos jihadistas do EI. Já em 2014 o então porta-voz do EI, Abu Mohamad al Adnani, apelava aos seguidores do grupo que recorressem a carros ou camiões para realizar atentados. Mais recentemente, no terceiro número da revista Rumiyah, divulgado em Novembro em várias páginas encriptadas da internet, o grupo terrorista publicava um artigo que explicava a forma mais eficaz de utilizar um veículo no atentado. O mesmo já tinha sido feito pela revista Inspire, da Al Qaeda, no seu segundo número.

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O texto da Rumiyah começava por realçar que os “mujahedines estacionados atrás das linhas inimigas” têm à sua disposição uma série de armas e técnicas que podem utilizar a qualquer momento e que, ao contrário das facas, por exemplo, os veículos motorizados não “causam suspeitas”. Depois, os autores do artigo explicavam quais os veículos ideais e aqueles a evitar, quais os melhores alvos – locais públicos com grande concentração de pessoas – e que passos preparatórios deveriam ser seguidos. Por fim, declaravam ser importante garantir que o motivo do ataque fosse conhecido – nem que fosse através de um simples papel com a frase “sou um soldado do Estado Islâmico”.

Essa simples menção será suficiente para o grupo terrorista reivindicar a autoria do atentado. Mesmo que não tenha estado envolvido na preparação, considerará que o terrorista respondeu ao apelo contínuo dos líderes da organização desde a proclamação do “califado”, em Junho de 2014: caso não consigam viajar para a Síria, deverão realizar atentados onde quer que estejam. Esta é a nova realidade. Só não se sabe onde nem quando. Haja ou não reivindicação

Paris transformada em zona de guerra.

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Passavam poucos minutos das 19h quando os jornalistas que aguardavam por notícias sobre o que se passava junto no supermercado junto à Porte de Vincennes, em Paris, tiveram um dos primeiros relatos dos acontecimentos por uma testemunha ocular. Alexi, um jovem de 21 anos, tinha acabado de atravessar o cordão policial que desde o início da tarde vedava os acessos de populares e jornalistas à zona onde Amedy Coulibaly tinha feito mais de 10 reféns.
Aparentemente calmo, o jovem, que vive mesmo em frente ao supermercado começou a responder a todas as perguntas sobre o que tinha visto. “Estava à janela quando vi dois carros a parar na parte de trás do edifício. Depois vi policias a chegar. Fiquei intrigado. Mas depois começaram os tiros. Houve troca de tiros e os policias dirigiram-se para o supermercado”, começou por contar. “Os reforços chegaram, havia muitos policias à civil, que se posicionaram em. Arroz por baixo de mim. Pensei que aquilo ia durar umas horas”.

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Tinha razão. Pouco depois, as autoridades disseram-lhe que não podia sair de casa. Ficou a acompanhar tudo pela janela – enquanto na televisão passavam imagens a uma distância de segurança do aparato policial montado na Av. de Vincennes. Parecia uma zona de guerra. Uma barreira policial tinha sido montada. Agentes fortemente armados guardavam todas as passagens, enquanto dezenas de ambulâncias, carros de polícia e outros veículos de emergência ocupavam o local. Os repórteres eram mantidos à distancia. Por precaução e para impedir a divulgação de imagens potencialmente chocantes. Dezenas de anónimos registavam o que se passava através de fotografias e vídeos tirados com os telemóveis e tablets.
Os relatos até então chegaram de testemunhas que tinham conseguido sair da zona. Como Marilyne Baranes. “Tinha ido almoçar com os meus filhos quando ouvi tiros e depois o pânico das pessoas”, recorda à SABADO. “Depois apareceram os helicópteros e polícia proibiu as pessoas de sair dos locais onde estavam e pediu para se afastarem das janelas”, conta. Aquela é uma zona movimentada. “Todas as sextas-feiras as lojas estão cheias”, diz. Marilyne não conseguiu ver os filhos, de 24 e 21 anos. Quando falou com a SABADO eles ainda não tinham saído do local onde se encontravam quando o ataque começou.
Por volta das 17h as autoridades entraram em acção. “Começou com o que me pareceram três ou quatro petardos, ou morteiros, depois a polícia de intervenção foi em direcção ao supermercado, os reféns saíram e os tiros começaram. Foi tudo muito rápido. Sei que a polícia atirou mas nada mais”, recordou Alexis. “Pelo menos um polícia foi evacuado ferido porque dois colegas o tiraram do chão. Não sei se houve mais”, continua.
Já em segurança junto aos amigos, Alexis desdobrou-se em entrevistas. Depois ficou por ali, a aguardar por autorização para regressar a casa. Diz que não teve medo, nem se sentiu inseguro: “Estava em casa, por trás da minha janela”. No entanto, tem um sentimento semelhante ao de todos os franceses: “estou ainda em choque. É difícil interiorizar o que se passou.

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O atentado à liberdade

Este texto podia ser satírico das políticas do governo. Seria liberdade de expressão. Este texto podia ser uma dissertação sobre as origens da humanidade. Seria liberdade de pensamento. Este texto poderia ser uma convocatória para uma manifestação. Seria liberdade de reunião. Este texto poderia transcrever textos bíblicos, corânicos ou hindus. Seria liberdade religiosa. Este texto poderia ser muitas coisas. Seria sempre um acto de liberdade – um dos bens mais preciosos da humanidade mas não acessível, nem entendível, por todos.

O atentado desta manhã ao semanário satírico Charlie Hebdo – que matou 10 jornalistas e dois polícias – é um ataque odioso a todas essas liberdades. É um ataque a todos nós. Que as prezamos, defendemos e que delas beneficiamos. É um ataque com o mesmo objectivo de todos os outros: fazer calar pelo medo. A melhor resposta é não permitir que tenha sucesso.

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Sem palavras

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“Para mim era só um tipo excitado, não parecia ter bebido ou tomado drogas”

Ingrid Loyau-Kennett foi a mulher que ficou a falar com os dois assassinos do soldado britânico em Woolwich até à chegada da polícia. A calma desta antiga professora impressionou o país e, como é normal, ela multiplicou-se em entrevistas a contar a história. No programa Daybreak da ITV, contou como se decidiu aproximar e o que um dos homens lhe disse quando estava a chegar perto da vítima:

“Bom, vi um homem na estrada que evidentemente estava ferido e um carro danificado. Por isso, pensei que se tratasse de um acidente rodoviário. Quando ali cheguei, estava uma mulher ao pé, e o homem mais excitado dizia: ‘não se chegue ao pé perto do corpo. Porque estava em baixo conseguia ver um revólver e uma faca do talho, um cutelo, sim era o que ele tinha. E estava cheio de sangue. O que é que se passou aqui, questionei-me. Bom, ele está muito excitado vou ter que falar com ele, pensei.”

(…)

“- Não lhe mexam, matei-o’, disse-me. ‘É um soldado britânico ele matou muçulmanos em países muçulmanos e não tem nada a fazer aqui’. Por isso eu tentei falar com ele sobre o que ele sentia.

– Não teve receio estando naquela situação?

– Não.

– Como não?

– Melhor eu do que uma criança, por que infelizmente havia cada vez mais mães a pararem por ali, daí ter sido cada vez mais importante falar com ele e perguntar o que é que ele queria.”