Mitos sobre os atentados do Estado Islâmico na Europa

Publicado originalmente aqui.

“O Estado Islâmico reivindica tudo e mais alguma coisa”
Nem por isso. Por norma, o autoproclamado Estado Islâmico (EI) reivindica apenas aqueles atentados com os quais teve algum tipo de ligação, por mais ténue que seja. Normalmente acaba por apresentar provas: geralmente um vídeo dos autores dos atentados a declarar a sua fidelidade a Abu Bakr al-Baghdadi. Foi assim, por exemplo, com Anis Amri, o autor do ataque ao mercado de Natal, em Berlim, ou com os dois terroristas que, em Julho de 2016, degolaram um padre no norte de França. Até agora não foi divulgado qualquer vídeo do género relacionado com o atentado desta quarta-feira, em Londres. Se tal vier a acontecer, poderemos distinguir entre um ataque “inspirado” e um ataque “dirigido”, mesmo que à distância.

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“Estes tipos são uns amadores”
Não importa. A maioria dos atentados ocorridos nos últimos anos na Europa foi realizada por terroristas que nunca estiveram na Síria ou no Iraque mas que se prepararam através da internet. Como tal, não têm a mesma eficácia do grupo que, por exemplo, em Novembro de 2015 realizou os atentados de Paris. No entanto, quase sempre os autores receberam instruções sobre como agir do chamado serviço de informações externo do EI: a Amn al-Kharji. Um relatório da Henry Jackson Society, divulgado esta semana, conclui que 75% dos 148 atentados realizados na Europa e nos Estados Unidos entre 2002 e 2016 foram de alguma forma dirigidos por responsáveis ou intermediários do EI. Apenas 15% (22 ataques) foram cometidos pelos chamados lobos solitários.

“Esta é uma nova realidade”
Nem por isso. Em Setembro de 2014, o então porta-voz do EI, Abu Muhammad Al-Adnani, num discurso áudio partilhado na internet, já apelava a ataques indiscriminados contra cidadãos ocidentais. Pedia-o de uma forma bastante explicita:

“Se não forem capazes de encontrar um EEI [Engenho Explosivo Improvisado] ou uma bala, então ataquem os infiéis directamente – sejam americanos, franceses ou qualquer dos seus aliados. Esmaguem a cabeça [dos infiéis] com uma pedra, cortem-lhes a garganta com uma faca, ou atropelem-nos com o vosso carro, ou atirem-nos de um lugar alto, ou sufoquem-nos ou envenenem-nos. (…) Se não forem capazes de fazer isso, então incendeiem as suas casas, carros ou negócios. Ou destruam as suas colheitas. Se não forem capazes de fazer isso, então [pelo menos] cuspam na sua face.”
A ideia geral era a de que era dever de todos os muçulmanos fazerem a hijra (migração) para o Califado. Todos aqueles que não fossem capazes de o fazer deviam atacar os ocidentais onde quer que estivessem. Desde então que este apelo é repetido incessantemente, seja em discursos, seja nas publicações oficiais do EI.

“A maioria dos terroristas vieram da Síria”
Nem por isso. Pelo contrário. A maioria nasceu na Europa. Khalid Masood, o responsável pelo atentado de Londres, é apenas o último exemplo. Junta-se aos autores dos atentados terroristas de Londres, em 2005; ao responsável pelo ataque ao museu judaico de Bruxelas, em Maio de 2014; ao homem que decapitou o patrão em Saint-Quentin-Fallavier, perto de Lyon, em Junho de 2015; à dupla que degolou o padre da igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, na Normandia, em Julho de 2016; ao assassino de um casal de polícias na véspera do Euro 2016, nos arredores de Paris; aos responsáveis pelo ataque ao Charlie Hebdo e ao Hiper Cashier, em Paris, em Janeiro de 2015; aos autores dos atentados ao Bataclan, ao Stade de France e a dois cafés de Paris, em Novembro de 2015; e aos suicidas que levaram a cabo os atentados no aeroporto de Bruxelas e na estação de Maalbeek, em Março de 2016.“As polícias e os serviços de informações falharam”
Nem por isso. É fácil apontar o dedo a uma instituição quando algo falha. Sobretudo quando é divulgado que o responsável por um ataque era “conhecido das autoridades”. No entanto, se mais de cinco mil cidadãos ocidentais viajaram para a Síria e para o Iraque, muitos outros ficaram nos países de origem. Seja como apoiantes, seja como voluntários para realizar atentados futuros. É impossível às forças de segurança seguir todos os potenciais suspeitos 24h por dia. Fazê-lo implicaria ter uma equipa de 20 agentes permanentemente dedicada a apenas uma pessoa (com seguimentos físicos e monitorização telefónica e electrónica). A perspectiva é a oposta: com tantos apoiantes, o surpreendente é que não haja mais atentados – e aqui o mérito é das polícias e dos serviços de informações.

“Os terroristas são uns desgraçados com problemas mentais”
É duvidoso. A grande dificuldade do combate à radicalização é que não existe um perfil de um terrorista. Qualquer um pode ser aliciado. Seja um estudante universitário, um adolescente, um desempregado ou um médico. Existem todo o tipo de casos e os mais variados motivos para alguém decidir tornar-se um terrorista. No entanto, existem alguns indícios. Há estudos que indicam que existe uma relação entre a radicalização e o crime. Mais que isso: jovens com problemas com a lei são muitas vezes os alvos preferidos das redes jihadistas que lhes apresentam a radicalização como uma oportunidade de redenção. Nos últimos anos as prisões tornaram-se, com sucesso, autênticos pontos de recrutamento.

“A capacidade de propaganda do Estado Islâmico diminuiu”.
Nem por isso. Apesar de as redes sociais como o Twitter e o Facebook terem encerrado milhares de contas de jihadistas e apoiantes do EI nos últimos anos, elas continuam a surgir. Mais do que isso, os terroristas direccionaram a sua actividade para canais encriptados no Telegram. É aí que as organizações oficiais do grupo terrorista continuam a fazer as reivindicações, a divulgar vídeos de propaganda e é também aí que os apoiantes do EI partilham imagens a apelar a novos atentados. Se dúvidas houvesse em relação à vitalidade mediática do grupo, o atentado de ontem em Londres voltou a recordar que ela está para durar.

O terror no meio de nós VI

Em resumo: há muito que as autoridades alertam para o risco de atentados na Europa; o auto-proclamado Estado Islâmico (EI) tem inserido nas suas mensagens de propaganda sucessivas ameaças aos países europeus; o conflito com este grupo terrorista já dura há 13 anos; a guerra na Síria tornou-se o maior palco de mobilização de combatentes terroristas estrangeiros desde o fim da II Guerra Mundial; e um número inédito de cidadãos nacionais ou luso-descendentes juntaram-se a uma organização jihadista que tem por fim último a destruição da sociedade ocidental. A pergunta seguinte é: há um risco de atentados em Portugal? A resposta genérica é: “há, como em todos os outros países europeus”. Mas se a questão for mais específica, por exemplo, vão acontecer ataques terroristas em Portugal? A resposta honesta será: “talvez sim, talvez não. Ninguém sabe”.

No fundo, é tudo uma questão de probabilidades. Portugal está inserido no espaço europeu, faz parte da NATO, ocupa um território que integrou o longínquo Al Andalus e participa na coligação internacional que combate o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. É por isso natural que o nosso país esteja entre os alvos potenciais do terrorismo jihadista. É também natural que aqui e ali surjam referências a Portugal nos meios de propaganda oficiais do grupo terrorista (sem contar com afirmações esporádicas dos combatentes portugueses). E não é de agora, ao contrário do que tem sido escrito e dito nos últimos dias.

A primeira vez que tal aconteceu terá sido em Outubro do ano passado, no 11º número da revista Dabiq, num artigo de 10 páginas que comparava a luta de Maomé, em Medina, contra uma aliança entre judeus e tribos árabes à actual situação em que o EI enfrenta uma coligação internacional. De acordo com a crença islâmica, nessa batalha de Al-Ahzab os muçulmanos resistiram a um cerco entre Janeiro e Fevereiro do ano 627 e, apesar de estarem em minoria, saíram vitoriosos. O mesmo, escreveram, acontecerá agora. Em seguida, a revista enumerou os países e organizações empenhados na luta contra o EI – lista onde estava Portugal.

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Um mês depois, em Novembro de 2015, houve uma nova referência a Portugal, agora num vídeo de propaganda. Divulgado em contas do grupo terrorista no Twitter e no Telegram, alguns dias após os atentados terroristas de Paris, o vídeo foi produzido pelo Al Hayat Media Center – o departamento de comunicação destinado maioritariamente ao público ocidental – tinha a duração de quatro minutos e o título de “No Respite” (Sem tréguas, numa tradução livre).

Apesar de recorrer apenas a animações gráficas e a fotografias – em vez de imagens reais – o vídeo desafia os membros da coligação internacional a lançarem tudo o que tiverem contra o grupo terrorista. É aí que a bandeira portuguesa surge entre as dos 60 países que formam a coligação internacional que enfrenta o EI.

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A 29 de Janeiro, o EI colocou na internet um novo vídeo em que cinco prisioneiros são acusados no meio de ruínas no norte do Iraque. O único terrorista que fala para a câmara exprime-se em francês e ameaça sobretudo a França – mas também o Al Andalus, Portugal e Espanha. A referência ao nosso país, entre ameaças de novos atentados que farão esquecer o 11 de Setembro e os ataques de Paris e promessas de reconquista da Península Ibérica, é exactamente esta: “tenham paciência por Alá, vocês não são espanhóis nem portugueses, são muçulmanos do Al Andalus”. Apesar de não o confirmarem oficialmente, as autoridades portuguesas acreditam que existe uma forte probabilidade de o homem que surge encapuçado a falar para a câmara é o luso-descendente com passaporte português, Steve Duarte. No entanto, não há certezas. Há probabilidades.

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Na passada terça-feira, dia 29 de Março, o jornal norte-americano The Washington Times publicou uma notícia em que afirma que o Estado Islâmico, através do departamento de média Al Wafa, terá feito uma ameaça directa aos Estados Unidos e também a Portugal e à Hungria. A publicação cita um relatório do Middle East Media Research Institute (MEMRI), que se dedica a monitorar as comunicações jihadistas, que especifica que o comunicado do grupo garante que “Hoje foi Bruxelas e o seu aeroporto, amanhã poderá ser Portugal ou a Hungria”. A notícia do The Washington Times foi depois reproduzida na imprensa portuguesa – e húngara – e levou as autoridades a afirmarem que “tinham conhecimento” do caso e que o “estavam a acompanhar” .

Contudo, depois de aceder ao relatório original do MEMRI, pude confirmar que a ameaça não era tão certa. O instituto cita uma série de artigos, em árabe, colocados no Twitter por vários autores que pertencem à citada Al Wafa, que não é um departamento de média do Estado Islâmico mas sim um grupo de apoiantes da organização terrorista. É por isso que o título do relatório especifica: “Apoiantes do ISIS depois dos ataques de Bruxelas: América é a próxima; Londres vai tornar-se uma província do ISIS; a Europa enfrenta um futuro negro”. Talvez isso explique porque mais nenhum país do mundo – além de Portugal e da Hungria – tenha replicado a história. Ou seja, a ameaça não tinha credibilidade. São “vozes” anónimas na internet.

A conta de Twitter onde os textos foram publicados (@alwafa014794755) já não está activa. A maioria dos artigos ameaçava países como os Estados Unidos e o Reino Unido na sequência dos atentados de Bruxelas. Um deles tinha realmente como título a frase “Hoje foi Bruxelas e o seu aeroporto, amanhã poderá ser Portugal ou a Hungria”. No entanto, o texto assinado por um Al-Qurtubi Al-Qurashi, entre elogios aos jihadistas que atacaram Bruxelas, não faz qualquer referência a Portugal. Para os analistas do MEMRI o significado do título é apenas simbólico – o que não impediu o alarmismo generalizado da semana passada.

Apesar de todas estas referências, como dizia, é tudo uma questão de probabilidades. Se o risco de atentados em Portugal existe – é por isso que a ameaça terrorista é alvo de especial atenção por parte das autoridades, como se pode ler no Relatório Anual de Segurança Interna relativo a 2015 – a probabilidade de tal acontecer é incomparavelmente menor do que em outros países europeus, como a França, a Bélgica, o Reino Unido ou a Alemanha.

Em primeiro lugar por uma questão de mediatismo: um ataque em Portugal teria menos impacto do que um atentado numa grande capital europeia. Em segundo, por uma questão de apoio: eventuais células terroristas terão uma maior base de suporte em países onde existe uma grande comunidade islâmica, radicalizada, do que em Portugal, onde a população muçulmana é relativamente pequena e, sobretudo, moderada. Não é por acaso que todos os portugueses que se deslocaram para a Síria se radicalizaram no estrangeiro. Em terceiro, pelos próprios números de combatentes estrangeiros que cada país tem na Síria: a probabilidade de um atentado é maior em países com centenas ou milhares de voluntários jihadistas do que em Estados onde esse numero não ultrapassa as duas dezenas. Para contrariar esta última fragilidade, o Estado Islâmico estará a preparar unidades capazes de realizar ataques em qualquer Estado da Europa. A lógica é simples: será mais difícil às autoridades, por exemplo, portuguesas, detectarem jihadistas cipriotas do que os próprios cidadãos nacionais que estão perfeitamente identificados. Mas isso não muda a questão essencial: é tudo uma questão de probabilidades. E em Portugal, apesar do natural e saudável mediatismo da questão, ela é, até ver, reduzida – mas não pode ser descartada.

Esse é o grande problema do terrorismo: pode acontecer a qualquer altura, em qualquer lugar. As autoridades têm um papel fundamental na redução dos riscos – das probabilidades – mas esse papel cabe-nos também a nós, cidadãos. Tentar compreender um fenómeno que, aparentemente não é compreensível, é apenas o primeiro passo. Os restantes passam por estarmos conscientes de que esta é uma realidade com a qual teremos de viver, provavelmente, durante muito tempo e por tentarmos reduzir os factores de risco que levam alguém a decidir aderir a uma organização terrorista.

Ao longo dos últimos dois anos, falei com muitas pessoas que conheceram os portugueses que se juntaram ao Estado Islâmico ou a grupos como a Jabhat Al Nusra. A maioria, para não dizer todas, reagiu com surpresa ao saber onde estavam aquelas pessoas com quem tinham privado de perto. “Nunca imaginei” foi talvez a expressão mais usada. “Era um tipo tão porreiro” foi outra. Nós não pensamos neles desta forma mas, geralmente, os terroristas  não são indivíduos estranhos, são pessoas como nós. Podem ser os nossos vizinhos, amigos de infância, companheiros de equipa, colegas de escola e universidade, familiares ou apenas conhecidos de uma noite de copos que, por qualquer razão, enveredaram por aquele caminho. E isso é verdadeiramente assustador.

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ilustração é do Vasco Gargalo

O terror no meio de nós II

A realização de atentados terroristas na Europa não devia ser surpresa para ninguém. Não só por causa dos alertas das autoridades mas, sobretudo, por causa das ameaças dos próprios terroristas. Isso mesmo. Há muito que os líderes e membros do auto-proclamado Estado Islâmico (EI) exprimem abertamente a sua intenção de realizar atentados terroristas em solo europeu. Um objectivo que se intensificou no último ano e meio, na sequência dos bombardeamentos da coligação internacional na Síria e no Iraque.

Numa primeira fase, logo após a proclamação do Califado, no Verão de 2014, as comunicações mediática dos líderes do grupo terrorista centravam-se em dois grandes temas: a dinâmica de vitória dos seus combatentes, cujo expoente máximo foi a conquista de Mossul, e um apelo constante à migração dos muçulmanos para a terra prometida. No seu discurso já como “Califa Ibrahim”, Abu Bakr al Baghdadi dedicou uma boa parte da sua declaração a este apelo:

“Por isso, apressem-se, ó muçulmanos, para o vosso Estado. Sim, é o vosso Estado. Apressem-se, porque a Síria não é para os sírios e o Iraque não é para os iraquianos. A terra é de Alá. O Estado é um Estado para todos os muçulmanos. A terra é para os muçulmanos, todos os muçulmanos. (…)

Fazemos um apelo especial aos clérigos, fuqaha (peritos em jurisprudência islâmica), especialmente aos juízes, bem como às pessoas com competências militares, administrativas e de serviços, e médicos e engenheiros de todas as diferentes especializações e campos. Apelamos-lhes e lembramos-lhes para temerem Alá, porque a sua emigração é wajib’ayni (uma obrigação individual), para que eles possam responder às necessidades dos muçulmanos. As pessoas são ignorantes sobre a sua religião e estão sedentas daqueles que as podem ensinar e ajudar a compreendê-la Por isso temam Alá, ó escravos de Alá.”

Este apelo foi repetido vezes sem conta por combatentes estrangeiros em vídeos de propaganda colocados online. Alguns foram mesmo filmados a queimar os seus passaportes. Mas aos poucos, esta narrativa foi sendo complementada por outra: aqueles que, por qualquer motivo não fossem capazes de realizar a hijrah, a migração, não tinham desculpa para não levar a jihad onde quer que estivessem. No 11º número da revista Dabiq, publicada em Outubro do ano passado, há uma passagem esclarecedora sobre esta matéria:

“Quanto aos Muçulmanos incapazes de fazer a hijrah das terras infiéis para o Califado, há muitas oportunidades para eles atacarem os inimigos do Estado Islâmico. Há mais de 70 nações cruzadas, regimes ilegítimos, exércitos apóstatas, e facções para ele escolher. Os seus interesses estão espalhados por todo o mundo. Ele não deve hesitar em os atacar onde puder. Além disso, para além de matar cidadãos cruzados em qualquer ponto da terra o que é que, por exemplo, o impede de atacar comunidades em Dearborn (Michigan), Los Angeles e Nova Iorque?”

Há uma particularidade neste excerto. Ele aparecia num artigo de 10 páginas no qual os autores comparavam a luta de Maomé, em Medina, contra uma aliança entre judeus e tribos árabes à actual situação em que o EI enfrenta uma coligação internacional. De acordo com a crença islâmica, nessa batalha de Al-Ahzab os muçulmanos resistiram a um cerco entre Janeiro e Fevereiro do ano 627 e, apesar de estarem em menor número, saíram vitoriosos. O mesmo, escreveram, acontecerá agora. Em seguida, a revista enumerou os países e organizações empenhados na luta contra o EI – lista onde estava Portugal. Terá sido a primeira vez que o nosso país surgiu mencionado numa publicação jihadista.

Os avisos não foram apenas lançados em publicações oficiais. Em Julho de 2014, o luso-descendente (com passaporte português) Mickael dos Santos, começou a receber mais atenção por parte dos serviços secretos franceses e das autoridades portuguesas depois de escrever no Twitter: “Anuncio oficialmente e com toda a franqueza: estão a ser preparados dois atentados em França. Tenham paciência.” Mickael fazia parte de um grupo de combatentes que, após a proclamação do califado, tinha trocado a Jabhat al Nutra pelo Estado Islâmico. Era então conhecido pelas fotografias extremamente violentas que colocava no twitter, algumas delas a segurar ou com o pé sobre cabeças humanas. Como recém-convertido, parecia ser dos mais determinados  – e violentos. E a ameaça foi levada a sério.

Nos últimos seis meses, o nível de ameaça subiu. Incapaz de obter ganhos territoriais na Síria e no Iraque, acossado pelos bombardeamentos da coligação internacional e da aviação russa, estrangulado nas suas fontes de financiamento – que já levaram ao corte de 50% do salário dos combatentes – o EI terá visto na realização de atentados fora da Síria e do Iraque uma forma de desviar as atenções dos fracassos internos e manter a narrativa de vitória mediática que é tão importante para instigar medo nos adversários e recrutar novos voluntários. Não será por acaso que, no comunicado em que reivindica a autoria dos atentados em Bruxelas, o EI tenha frisado que a Bélgica é “um país que participa na coligação internacional contra o Estado Islâmico”.

Se antes as suas forças estavam concentradas na consolidação do poder no interior do território por elas controlado, agora uma parte desse foco ter-se-á movido para o exterior. Começou em Outubro de 2015, com a bomba que derrubou um avião russo na península do Sinai. Continuou depois em Beirute, Paris, Istambul, Jacarta e agora Bruxelas. Uma tendência que não dá sinais de parar.

(Continua)

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Ilustração do Vasco Gargalo

Donald Trump em vídeo do Estado Islâmico sobre atentados de Bruxelas

A Al Battar Media, um grupo ligado ao Estado Islâmico (ou seja, não é um meio de comunicação oficial) acabou de divulgar um vídeo de 9 minutos sobre os ataques de Bruxelas. Dado relevante: não há imagens novas, nem dos autores do ataque. É sobretudo um trabalho de edição de vídeos antigos e uso de grafismos animados. Outro aspecto importante: no plano de abertura vê-se a imagem de Donald Trump e ouve-se a sua recente frase sobre os atentados.

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O medo

Tinha acabado de escrever este texto e estava à conversa com um camarada brasileiro num café nas imediações do Bataclan quando, de repente, comecei a ver pela janela gente a correr. Ao mesmo tempo, o meu telefone tocou. Um amigo com família em Paris ligava-me de Lisboa a avisar que havia tiroteio na capital francesa. Por instinto, levantei-me e fui até à porta ver o que se passava. Havia gritos. O proprietário do estabelecimento, que não consegue esconder o cansaço e o stress provocado pelos acontecimentos dos últimos dias, pareceu ter um pico de adrenalina e saltou detrás do balcão para lançar ordens aos clientes: “depressa, para a cave”.

Nessa altura, já uma funcionária tinha destrancado a porta verde que dá acesso a um armazém para onde, um a um, aqueles que estavam no interior do estabelecimento começaram a dirigir-se. Também ela tremia. Voltei atrás, fechei o computador e preparei-me para o pior. Então era aquilo, a sensação de que algo terrível estaria prestes a acontecer. O medo.

O dono do café não parava. Ora saía para tentar perceber o que estava a acontecer, ora trancava a porta da rua, ora a abria para deixar entrar mais algumas pessoas que corriam rua abaixo em busca de um local onde se proteger. Minutos antes, um falso alarme tinha lançado o pânico na Place de la Republique, a algumas centenas de metros de distância.

A questão é que ninguém sabia que tinha sido um falso alarme. Aliás, ninguém sabia nada. Apenas que havia gente a correr em pânico e polícias que gritavam: “dispersem, dispersem”. Homens e mulheres choravam. Alguns agarrados. Outros enquanto caminhavam sozinhos sem direcção definida. Alguns repórteres de imagem arriscaram sair até à esquina mais próxima e tentar registar o que se passava em segurança. As possibilidades eram muitas. Na mente de cada um estava a hipótese de algo voltar a acontecer. Enquanto espreitava pelas janelas, escondido atrás de um pilar, recordo-me de pensar que aquela porta de vidro que o dono do café insistia em trancar e destrancar não serviria de muito perante um terrorista armado com uma Kalashnikov – e  que a cave que se queria um local seguro seria apenas um beco sem saída. Avaliei a resistência dos vidros que protegem a esplanada. Quebrar-se-iam facilmente com uma cadeira caso fosse necessário? Ou era melhor sair dali o quanto antes na direcção oposta?

Não houve tempo para decidir. Apesar de ter parecido uma eternidade, o pânico durou poucos minutos. Mas foram os suficientes para perceber que, em Paris, os nervos continuam à flor da pele perante a possibilidade de um novo atentado. A notícia de que tudo não tinha passado de um falso alarme chegou através do Twitter que tem sido a melhor forma de obter informação sobre o que se passa em Paris. O telefone voltou a tocar. Estava tudo bem. O dono do café abriu as portas e saiu para a rua para fumar um cigarro. Um cliente ainda lhe disse que nestas alturas devia poder fumar lá dentro. Mas nem isso lhe arrancou um sorriso. E assim que toda a gente saiu da cave anunciou: “Por hoje chega. Vou fechar”.

De Beirute a Paris

Ali tem 40 anos. É dono de vários restaurantes libaneses em Paris. Um deles fica a cerca de 100 metros do Bataclan, a sala de espectáculos que esta sexta-feira, 13 de Novembro, foi alvo de um atentado terrorista que matou mais de 80 pessoas que assistiam a um espectáculo da banda Eagles of Death Metal. Nos últimos dois dias uma boa parte dos seus clientes têm sido jornalistas. A cada um diz que tem informações importantes. Mas que cobra 150 euros por cada resposta.

A cada olhar incrédulo responde com um grande sorriso, enquanto prepara mais um falafel ou serve um chá verde (deve ser o único nas redondezas que não vende café). Não estava no restaurante na noite dos ataques. Mas assim que ouviram os primeiros tiros, os seus funcionários fecharam a porta. Só puderam sair às 5h da madrugada.

Também ele está chocado com o que aconteceu. Mas encara-o de uma forma diferente da maioria dos franceses. “Isto foi terrível, mas se me perguntar se tenho medo, respondo que não. Isto não é a guerra, é um acontecimento fora do normal em Paris. Guerra é o que vivi toda a minha vida no Líbano, onde cresci habituado a ver corpos nas ruas e a ouvir tiros e explosões.”

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Nem de propósito. Na véspera dos ataques em França, Beirute foi alvo de um enorme ataque do auto-proclamado Estado Islâmico. Ao todo, 43 pessoas morreram e 239 ficaram feridas quando dois bombistas suicidas se fizeram explodir com cerca de cinco minutos de diferença, a pouco mais de 150 metros um do outro, num mercado ao ar livre. Um bombista que sobreviveu e foi capturado pela polícia disse às autoridades que o grupo tinha entrado no país a partir da Síria dois dias antes.

De volta a França, uma enorme onda de solidariedade varreu as redes sociais com milhões de pessoas a cobrirem as suas fotografias no Facebook com as cores da bandeira francesa. Edifícios icónicos em todo o mundo foram iluminados de azul, branco e encarnado. Mas quantos usaram o vermelho, verde e branco da bandeira libanesa? Ou o encarnado e branco da bandeira turca, quando o EI realizou um atentado pouco antes das eleições do mês passado? Ou o vermelho, negro, branco e verde da bandeira iraquiana praticamente todos os dias dos últimos anos? Ou as cores de todos os outros locais afectados pelo terror indiscriminado ao longo da última década?

Sim, devemos ser solidários quando um atentado terrorista acontece num país que nos é próximo. Sim, devemos ser Charlie. Sim, devemos ser Paris. Mas também devemos ser Beirute, Ancara, Kobane ou Bagdade. Porquê? Ali tem a resposta: “Podia ser o meu filho ali dentro, isso é que é assustador. Isto não é uma questão de religião, de muçulmanos, cristãos ou judeus. É um problema político”.

A reivindicação dos atentados pelo Estado Islâmico

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Paris não é uma cidade em guerra

A 11 de Janeiro milhões de pessoas concentraram-se na Praça da República, em Paris, numa manifestação em nome da liberdade de expressão e contra a violência, na sequência dos atentados ao semanário satírico Charlie Hebdo e ao Hiper Casher. Dez meses depois, o mesmo sentimento de repulsa ocupa o pensamento daqueles que rumaram ao mesmo local para prestar homenagem às vítimas daquele que já é considerado o maior atentado terrorista da história da França. Aí, bem na base da estátua, alguém escreveu num graffiti gigante: “Não matarás”.

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A mensagem é para aqueles – bem como para os seus “inspiradores” – que, esta sexta-feira, 13 de Novembro, lançaram o pânico na capital francesa e causaram mais de 128 mortos e centenas de feridos. O centro da carnificina foi ali perto, no Teatro do Bataclan, entre a Boulevard Voltaire e a Boulevard Richard Lenoir, onde cerca de 1500 pessoas assistiam a um concerto dos Eagles of Death Metal.

Um dia depois do massacre, as ruas em redor continuam bloqueadas ao trânsito. Em alguns locais espalham-se ramos de flores e mensagens como “Os franceses combatem os ladrões de vidas. Saibam-no terroristas.”

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Jornalistas e populares são mantidos a uma distância de segurança. Na verdade, a maioria são repórteres que partiram de todo o mundo assim que as notícias da dimensão do ataque se espalharam a toda a velocidade. Os outros são anónimos que ali se deslocaram para prestar a sua homenagem em silêncio. Alguns, como Phillipe, cujo amigo ficou ferido durante os ataques e está internado, mas estável. Outras, como Reem e Arline, duas amigas que vivem na zona e que foram deixar uma rosa branca e não conseguem esconder a perturbação. Ou ainda como Donate e o marido que estão de férias em Paris e que não quiseram deixar de passar pelo local da tragédia, fotografá-lo, ver com os próprios olhos as imagens do terror.

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Entre eles o sentimento é unânime. “A França não pode ter medo. Isso é o que os terroristas querem.” Talvez por isso, para além das zonas em redor dos atentados, a vida em Paris parece continuar normalmente. Apesar da atmosfera pesada, de cinemas, grandes lojas e serviços públicos que estão fechados, os cafés e os restaurantes continuam abertos a funcionar. Paris não é uma cidade em guerra. De todo. Apesar de ser nisso que alguns a querem tornar.

Sem desculpas para faltar

Manifestação pela liberdade e pela República: hoje, todos os transportes públicos em Paris são grátis.

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“Devemos poder viver livres e tranquilos, não queremos ser protegidos.”

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Quando este domingo milhares de pessoas se juntarem na Place de la République, em Paris, para uma marcha em homenagem às vítimas dos atentados terroristas da última semana e pela liberdade de expressão, Samuel Njoh vai estar entre elas. No entanto, estará lá por outro motivo: “vou manifestar-me pela pena de morte”, diz à SABADO junto ao Hyper Casher, o supermercado atacado esta sexta-feira por Amedy Coulibaly onde morreram cinco pessoas – além do terrorista.

Para que não houvesse dúvidas sobre o que acabara de dizer, Samuel Njoh voltou a repetir: “vou manifestar-me pela pena de morte”. Alto, negro, o homem nascido nos Camarões não parece exactamente um apoiante da Frente Nacional de Marine Le Pen que, na sequência dos atentados ao jornal satírico Charlie Hebdo, defendeu um referendo à pena capital. “Não, sou republicano, e cristão praticante. Mas é altura de dizer às pessoas que é necessário justiça. É precisa a pena de morte”, diz. O argumento é simples: “olhe para as pessoas que foram assassinadas. Morreram por nada. Se o Coulibaly tivesse sido apanhado vivo era julgado, cumpria 20 ou 40 anos e depois voltava ao mesmo. Não, é necessário lançar o debate.” Nem a própria contradição entre os princípios cristãos, que diz praticar, e o que acabou de defender o demove. “Nos Camarões há cristãos e muçulmanos mas se eu matar um polícia vou a tribunal militar e levo a pena de morte”, garante.

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A ideia expressa por Samuel Njoh (e os aplausos que recebeu de quem o ouviu) parece mostrar que, após um primeiro momento de união total, a sociedade francesa começa a expressar as suas divisões. Bastou que o terceiro atacante tenha decidido invadir um supermercado apenas por um motivo: era um estabelecimento judeu. O que até aí era visto como um atentado à liberdade de expressão passou também a ser encarado como um crime de ódio. “É preciso dizer que quem fez isto é uma minoria. Mas o problema é que as minorias podem fazer muito mal. Esta matou 17 pessoas e feriu muitas outras”, diz à SABADO Samuel Elbase, residente nos arredores do Hyper Casher. “Nós, judeus, quando uma criança faz alguma coisa de mal, dizemos-lhe que a vamos denunciar. Fazemos isso para a proteger. O problema são os muçulmanos cúmplices que não fizeram nada. É preciso denunciar isto mesmo que se trate do nosso filho”, continua.

As vozes minoritárias que tentam explicar que este não foi um ataque a judeus nem a cristãos, que foi um ataque aos franceses e à própria liberdade, não conseguem fazer ver os seus pontos de vista. Pelo menos no dia seguinte aos ataques. Os ânimos estão revoltados. A polícia continua a isolar o estabelecimento que fica numa esquina de um bloco de apartamentos, entre uma rotunda e uma bomba de gasolina, nos limites de Paris.

Tal como aconteceu junto à redacção do Charlie Hebdo, a população começou a depositar flores, mensagens e velas junto às barreiras da polícia. Samuel Njoh foi lá colocar um ramo. Yoav, de 27 anos, também se deslocou ao local para prestar homenagem às vítimas. E como a maioria dos que aceitam dar uma opinião sobre os acontecimentos, não tem dúvidas sobre o que é preciso fazer para evitar novos atentados. “Cabe aos muçulmanos colocar as coisas no seu devido lugar e dizer que isto não é o Islão. É preciso educar as crianças na ideia de que somos todos iguais: judeus, cristãos e muçulmanos”, diz à SABADO. Com o dedo da mão direita espetado e a mão esquerda a segurar a trela do pequeno cão preto que passeia, diz: “devemos poder viver livres e tranquilos, não queremos ser protegidos.” Samuel Njoh concorda. “Assim não temos total liberdade. Eu vivo ao fim da rua. Ontem sai do trabalho e vi isto. Pensei na minha filha e fiquei doente. Também por isso vou manifestar-me”, diz.

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Do choque ao medo das consequências

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Maimouna Diallo tinha acabado de acordar. Era quarta-feita, 7 de Janeiro. Como em todos os outros dias, ligou a televisão para ver as notícias e saber o que se passava no mundo. “A primeira coisa que me perguntei foi: porque é que estas pessoas fizeram isto?”, recorda à SÁBADO, à porta da grande mesquita de Paris, localizada no quinto bairro da capital francesa. Depois percebeu: os autores do atentado ao jornal satírico Charlie Hebdo diziam estar a agir para vingar as ofensas dos caricaturistas ao profeta Maomé. “Não compreendo como alguém pode fazer uma coisa destas”, diz. “Muito menos um muçulmano.”
Aos 19 anos, tem opiniões bem vincadas. Sabe exactamente o que responder às perguntas que os jornalistas lhe fizeram nessa manhã. Tinha acabado de dar uma entrevista para um jornal norueguês quando foi abordada pela SABADO. Após as apresentações esboçou um longo sorriso e disse num português com sotaque francês: “aí és português. A minha mãe é portuguesa.”
A mãe, Diamilatou Diallo, chegou a Portugal em 1998, oriunda da Guiné Conacry. Ficou 13 anos. Obteve a nacionalidade antes de partir para França. Maimouna nunca viveu em Portugal. Estudou no Senegal e está em Paris para completar os estudos. Mas as visitas a Lisboa e a Armação de Pêra, no Algarve, permitem-lhe compreender e falar um pouco de português.
Esta sexta-feira, deslocou-se à mesquita para uma das cinco orações diárias. Não chegou a tempo da oração do meio-dia para ouvir o Íman local condenar os atentados e afirmar que “o Islão não é isto”. Mas não precisa. “Um bom muçulmano não faria isto. Os muçulmanos não praticam a violência. É-nos interdito. A nossa vida é rezar, trabalhar e cuidar da família. Não nos é permitido matar inocentes. Só se formos atacados, em legítima defesa”, explica.

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Dois dias após o massacre, ainda não consegue compreender o que leva alguém a fazer algo do género. Apesar de não gostar do que os responsáveis do Charlie Hebdo faziam com o jornal. “O Charlie desrespeitava a comunidade muçulmana. Eles tocavam no sagrado. O profeta é sagrado para nós. Tem de haver respeito na liberdade de expressão”, diz. “Podemos ter opiniões sobre as pessoas, mas não devemos ser ofensivos. Não se ataca assim de forma gratuita as crenças sagradas”, continua. Contudo, frisa, nada justifica o que aconteceu: “estamos tão chocados como vocês”.
Agora teme as consequências. Sabe que toda a sociedade é afectada. “O problema é que as pessoas começam a olhar para os muçulmanos como terroristas. Há uma islamofobia instalada”, diz. Ela sabe do que fala. No dia-a-dia cobre o cabelo com o hijab. Veste-se de acordo com as suas crenças. “As pessoas olham para mim na rua. Mas o que é que eu posso fazer? É a minha religião”.

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Leitura para o fim-de-semana: inferno em Benghazi

A 11 de Setembro de 2012, um ataque terrorista ao consulado dos Estados Unidos em Benghazi, na Líbia, provocou a morte ao embaixador norte-americano Christopher Stevens. Quase três anos depois, a 3 de Setembro, será publicado nos EUA o primeiro livro com um relato minuto a minuto do atentado. A obra chama-se UNDER FIRE: The Untold Story of the Attack on Benghazi, e foi escrita pelos especialistas em segurança Fred Burton (que é também vice-presidente da Strattfor) e Samuel M. Katz. No último número, a Vanity Fair publica uma adaptação do livro.  Aqui podem ainda ler uma entrevista com Fred Burton.

Foto: Esam Omran Al-Fetori/Ruters/Landov

Foto: Esam Omran Al-Fetori/Ruters/Landov

“40 Minutes In Benghazi

When U.S. ambassador J. Christopher Stevens was killed in a flash of hatred in Benghazi, Libya, on September 11, 2012, the political finger-pointing began. But few knew exactly what had happened that night. With the ticktock narrative of the desperate fight to save Stevens, Fred Burton and Samuel M. Katz provide answers.

“The Libyan security guard at the compound’s main gate, Charlie-1, sat inside his booth happily earning his 40 Libyan dinars ($32 U.S.) for the shift. It wasn’t great money, clearly not as much as could be made in the gun markets catering to the Egyptians and Malians hoping to start a revolution with coins in their pockets, but it was a salary and it was a good job in a city where unemployment was plague-like. The guards working for the Special Mission Compound tried to stay alert throughout the night, but it was easier said than done. To stay awake, some chain-smoked the cheap cigarettes from China that made their way to North Africa via Ghana, Benin, and Togo. The nicotine helped, but it was still easy to doze off inside their booths and posts. Sleeping on duty was risky. The DS agents routinely made spot checks on the guard force in the middle of the night. These unarmed Libyan guards were the compound’s first line of defense—the trip wire.

All appeared quiet and safe. The feeling of security was enhanced at 2102 hours when an SSC (Supreme Security Council—a coalition of individual and divergently minded Libyan militias) patrol vehicle arrived. The tan Toyota Hilux pickup, with an extended cargo hold, decorated in the colors and emblem of the SSC, pulled off to the side of the road in front of Charlie-1. The driver shut off the engine. He wasn’t alone—the darkened silhouette of another man was seen to his right. The pickup sported twin Soviet-produced 23-mm. anti-aircraft guns—the twin-barreled cannons were lethal against Mach 2.0 fighter aircraft and devastating beyond belief against buildings, vehicles, and humans. The two men inside didn’t come out to engage in the usual small talk or to bum some cigarettes from the guards or even to rob them. The Libyan guards, after all, were not armed.

Suddenly the SSC militiaman behind the steering wheel fired up his engine and headed west, the vehicle crunching the gravel with the weight of its tires.

Later, following the attack, according to the (unclassified) Accountability Review Board report, an SSC official said that “he ordered the removal of the car ‘to prevent civilian casualties.’ ” This hints that the SSC knew an attack was imminent; that it did not warn the security assets in the Special Mission Compound implies that it and elements of the new Libyan government were complicit in the events that transpired.

It was 2142 hours.

The attack was announced with a rifle-butt knock on the guard-booth glass.

Iftah el bawwaba, ya sharmout,” the gunman ordered, with his AK-47 pointed straight at the forehead of the Libyan guard at Charlie-1. “Open the gate, you fucker!” The guard, working a thankless job that was clearly not worth losing his life over, acquiesced. Once the gate was unhinged from its locking mechanism, armed men appeared out of nowhere. The silence of the night was shattered by the thumping cadence of shoes and leather sandals and the clanking sound of slung AK-47s and RPG-7s banging against the men’s backs.

Once inside, they raced across the compound to open Bravo-1, the northeastern gate, to enable others to stream in. When Bravo-1 was open, four vehicles screeched in front of the Special Mission Compound and unloaded over a dozen fighters. Some of the vehicles were Mitsubishi Pajeros—fast, rugged, and ever so reliable, even when shot at. They were a warlord’s dream mode of transportation, the favorite of Benghazi’s criminal underworld and militia commanders. The Pajeros that pulled up to the target were completely anonymous—there were no license plates or any other identifying emblems adorning them, and they were nearly invisible in the darkness, especially when the attackers disabled the light in front of Bravo-1.

Other vehicles were Toyota and Nissan pickups, each armed with single- and even quad-barreled 12.7-mm. and 14.5-mm. heavy machine guns. They took up strategic firing positions on the east and west portions of the road to fend off any unwelcome interference.

Each vehicle reportedly flew the black flag of the jihad.

Some of the attackers removed mobile phones from their pockets and ammunition pouches and began to videotape and photograph the choreography of the assault. One of the leaders, motioning his men forward with his AK-47, stopped to chide his fighters. “We have no time for that now,” he ordered, careful not to speak in anything louder than a coarse whisper. “There’ll be time for that later.” (Editor’s note: Dialogue and radio transmissions were re-created by the authors based on their understanding of events.)

Information Management Officer (IMO) Sean Smith was in his room at the residence, interfacing with members of his gaming community, when Charlie-1 was breached. The married father of two children, Smith was the man who had been selected to assist Ambassador Stevens in Benghazi with communications. An always smiling 34-year-old U.S. Air Force veteran and computer buff, he was ideally suited for the sensitive task of communicator. Earlier in the day, Smith had ended a message to the director of his online-gaming guild with the words “Assuming we don’t die tonight. We saw one of our ‘police’ that guard the compound taking pictures.” He was online when the enemy was at the gate, chatting with his guild-mates. Then suddenly he typed “Fuck” and “Gunfire.” The connection ended abruptly.

One of the gunmen had removed his AK-47 assault rifle from his shoulder and raised the weapon into the air to fire a round. Another had tossed a grenade. The Special Mission Compound was officially under attack.

R. sounded the duck-and-cover alarm the moment he realized, by looking at the camera monitors, that the post had been compromised by hostile forces. Just to reinforce the severity of the situation, he yelled “Attack, attack, attack!” into the P.A. system. From his command post, R. had an almost complete view of the compound thanks to a bank of surveillance cameras discreetly placed throughout, and the panorama these painted for him is what in the business they call an “oh shit” moment. He could see men swarming inside the main gate, and he noticed the Libyan guards and some of the February 17 Martyrs Brigade (a local Benghazi militia hired to protect the mission) running away as fast as they could. R. immediately alerted the embassy in Tripoli and the Quick Reaction Force (QRF) housed in the Annex, a covert C.I.A. outpost about a mile from the mission. The QRF was supposed to respond to any worst-case scenarios in Benghazi with at least three armed members. R.’s message was short and to the point: “Benghazi under fire, terrorist attack.”

O artigo completo está aqui.

O primeiro grande ataque de “A Base”

Há 15 anos, o mundo ouvia falar pela primeira vez na Al Qaeda. Eram 10h45m de 7 de Agosto de 1998 quando uma explosão destruiu a embaixada dos Estados Unidos em Nairobi. A investigação do FBI levou as autoridades norte-americanas a colocarem Osama Bin Laden na lista dos 10 fugitivos mais procurados. A reportagem Al Qaeda’s First reconstitui os acontecimentos através das memórias daqueles que sobreviveram.

As histórias dos ténis usados na maratona de Boston

Depois de, em três dias, ter desenhado uma capa totalmente nova (e fabulosa, já agora) e encontrado um novo ângulo para um feature sobre os atentados na maratona, a Boston Magazine publicou agora no site as histórias por detrás de cada par de ténis.

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