Obrigado, Jorge

Caro Jorge,

Agora que já passou algum tempo desde as emoções de domingo e todos tivemos tempo para festejar e reflectir, quis escrever-te novamente para te deixar uma palavra que, acredito, não esperarias ouvir de um benfiquista nesta altura da época: obrigado.

Não, não estou a agradecer-te pelo que fizeste nos seis anos em que foste treinador do meu clube, tu sabes, aquele que é o maior do mundo e que tu tiveste o privilégio de treinar. Por isso já te agradecemos na altura devida, com aplausos, merecidos, em vitórias gloriosas: o campeonato e o bicampeonato. No entanto, ao contrário do que possas pensar, os agradecimentos não foram só para ti: foram para um conjunto de pessoas, entre as quais te incluias, que tinham o privilégio (sim, outra vez) de exibir o simbolo da águia ao peito.

Na verdade, quero mesmo agradecer-te por teres tomado a decisão que tomaste no Verão do ano passado. Graças a isso, o ar do Estádio da Luz tornou-se um pouco mais saudável. O ambiente menos pesado. As pessoas voltaram a sorrir. Não apenas nas vitórias, mas também nas derrotas. Sobretudo nas derrotas.

Quero agradecer-te por nos permitires voltar a ter um treinador que representa genuinamente os valores do Benfica: a humildade, a união, a lealdade, o companheirismo, o cavalheirismo, a solidariedade e o respeito – e que ainda por cima ganha jogos na Champions.

Quero agradecer-te porque, com a tua decisão, deste esperança a toda uma geração de jovens que sabiam que contigo por perto a esperança era a primeira coisa a morrer. Agora eles sabem que aquele sonho de criança, de ouvirem os aplausos do terceiro anel enquanto seguram o troféu de campeão nacional, é possível. E bastou-lhes nascer uma vez – mas na altura certa.

Quero agradecer-te também por seres quem és. Por não teres fugido à tua verdadeira essência e por não teres conseguido nem sabido respeitar teu próprio passado. O clube que te deu muito mais do que tu alguma vez lhe poderias dar.

Quero agradecer-te muito por isso. Por não conseguires conter-te nas palavras. Foram elas que nos deram a força necessária para enfrentar as contrariedades iniciais. Foram elas que fizeram os sócios unir-se em torno de um treinador que no início não era consensual mas que, em fez de fragilizado, saiu reforçado graças a ti. Sim, a ti. Porque de cada vez que lançavas uma farpa em direcção ao teu sucessor, os aplausos dos benfiquistas ganhavam cada vez mais fervor. Os jogadores colocavam o pé na bola com mais determinação. Rematavam com mais arte e engenho. Em vez de destruires o teu anterior clube, contribuiste para a construção de verdadeiro campo de forças que levou a equipa ao colo pelos estádios do país, de vitória em vitória – e foram muitas seguidas – até regressarmos pela terceria vez consecutiva ao Marquês de Pombal. Sim, Jorge, o tri também é graças a ti.

Por fim, quero também agradecer-te por seres um visionário. Por teres razão antes de tempo. Ninguém o diria melhor que tu. Por isso vou apropriar-me das tuas palavras, proferidas no início deste ano: “Não acredito que quem esteja em segundo ou em terceiro jogue melhor do que quem está em primeiro. As equipas que estão em primeiro são as melhores equipas”. Para o ano poderá ser diferente. Logo se verá. E nesse caso cá estaremos para felicitar o vencedor.

Mas por enquanto é só isto: obrigado, Jorge.

jj

O regresso à normalidade

Caro Rui,

Escrevo-te esta carta apesar de saber que não és adepto de grandes protagonismos. Para ti, a equipa está sempre à frente de quem quer que seja. Se havia dúvidas em relação a isso, elas ontem ficaram desfeitas. No final, depois de todas as polémicas e críticas, quanto te perguntaram pelo jogo, respondeste simplesmente que o mérito é da qualidade da equipa e dos jogadores. É isso mesmo. Um bom treinador não é aquele que chama para si a responsabilidade das vitórias e atira para os outros a culpa das derrotas. É ao contrário. É aquele que assume as culpas das más decisões quando um jogo corre mal e deixa para os verdadeiros ídolos os louros das vitórias. Sim, as estrelas do futebol são os jogadores. Basta olhares para as bancadas para o perceberes. Por mais polémicas em que se envolva, está para chegar o dia em que os adeptos benfiquistas vão entrar no Estádio da Luz com o nome de um treinador nas camisolas.

Ontem gostei de muitas coisas. Gostei de ver a equipa calma, sem entrar no desespero do balão para a área à espera de um ressalto que decidisse o jogo, gostei da paciência com que enfrentaram a pressão de uma equipa que não foi à Luz estacionar o autocarro e, quase sem me aperceber, gostei de uma coisa que há muito não via: já perto do final, a estatística dizia que o Benfica tinha feito cinco faltas contra 15 do adversário. Cinco faltas em 90 minutos – e uma delas que deu direito a cartão amarelo nem sequer existiu. Poderão dizer que somos uma equipa menos agressiva. Eu prefiro pensar que deixámos de ser um grupo de caceteiros e passámos a ser inteligentes na procura da bola. Talvez por isso tenhamos chegado ao fim do jogo e continuássemos a correr como se estivéssemos no início.

Gostei de ver o Lisandro López, que há vários anos era classificado de jogador sem nível para o Benfica, assumir-se como patrão da defesa ao lado do Luisão. Gostei da classe do Júlio César. Gostei (gosto sempre) do talento do Gaitán. Gostei do golo do Mitroglou (que deixou de parecer apenas um personagem do filme 300 para se tornar um ponta-de-lança a sério). Gostei da aposta no Nelson Semedo e claro, do golo do miúdo. Mas sabes do que eu gostei mesmo? Gostei de ver a forma como o Victor Andrade celebrou o terceiro golo da equipa. Vai lá ver as imagens. Elas dizem tudo. Está o Jonas a celebrar do outro lado do campo e vê-se o miúdo, sozinho, de punhos cerrados, cabeça erguida, a desferir um grito que parece um misto de revolta, alegria e concretização de um sonho. Ele tinha acabado de fazer um centro perfeito, de primeira, após um passe do Nélson Semedo (que celebrava da mesma maneira), que foi teleguiado para a cabeça do Jonas. Tal como o do Gaitan tinha ido para a cabeça do Mitroglou. Não foi por acaso que em vez de ir festejar com o Jonas, o argentino tenha sido o primeiro a ir felicitar o “menino”. Mais: ele voltou a repetir o festejo minutos depois, quando o amigo Nelson fez o 4 a 0 na jogada que ele começou. Como se ele próprio tivesse marcado.

Sim, é verdade. Os jovens jogadores do Benfica não precisam de nascer 10 vezes para ganharem um lugar na equipa. Precisam de quem lhes “faça o parto” e os faça crescer, devagarinho, passo a passo, etapa a etapa. Porque eles não são piores do que os carregamentos de estrangeiros que têm chegado ao clube ao longo dos anos. Apenas dão menos dinheiro a intermediários, empresários e agentes que fazem fortuna à conta do futebol. Mas têm uma coisa fundamental que os outros não têm: o amor ao clube que os educou como homens e jogadores e que se torna uma parte do seu próprio ADN. Isso é algo que não tem preço. É algo pelo qual vão ser sempre acarinhados e aplaudidos pelos sócios. Porque eles não são apenas mais um jogador que chega a caminho de um qualquer lugar. Eles são como filhos. Os filhos que todos nós temos ou gostávamos de ter e que após anos de viagens até ao centro de estágio concretizam o sonho de vestir a camisola da equipa principal.

Isso leva-me à última coisa de que gostei: as tuas palavras acertadas no final. Não vamos pensar que o “Nelsinho” e o Victor já são estrelas. Não são. Como bem disseste, ainda são “protótipos” de jogadores. Projectos que precisam de crescer e aprender para se afirmarem. É que, sabes, nós já estamos fartos de estrelas instantâneas que não vão a lado nenhum. Assim de repente vieram-me à memória o Pepe, o Hugo Leal, o Bruno Caires, o Edgar, o Akwa, o Mawete e até o Nélson Oliveira. Elevados a estrelas imediatas, acabaram por nunca ter direito a um lugar na história do Benfica. Talvez o último ainda tenha uma hipótese. Cabe-te a ti dá-la – e a ele, aproveitá-la. Agora, #rumoao35

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O Rúben devia ser capitão, mas está a treinar sozinho

O Jorge saiu? Ok, tudo bem. O Maxi quis ganhar mais? Tranquilo. O Lima foi vendido? Percebe-se. O Artur não renovou? Ninguém deu por isso. O Rúben Amorim está a treinar sozinho no Jamor? Pára tudo.

Um clube como o Benfica distingue-se pela forma como trata os seus. E o Rúben é um dos nossos. Além de um grande benfiquista é um jogador da casa. Foi formado no Benfica, dispensado, afirmou-se no Belenenses e quando chegou a hora de escolher entre as diversas propostas que tinha, decidiu voltar a casa. Foi em 2008. Nessa época foi titular em grande parte dos jogos. No ano seguinte foi campeão nacional e ganhou a Taça da Liga. Depois lesionou-se nos dois joelhos.

Já em Outubro, de 2011, durante um estágio da selecção nacional, teve um desabafo que lhe trouxe dissabores: criticou as escolhas do treinador Jorge que, na maior parte dos jogos, fazia a equipa sem um único português. E não era por eles não terem valor ou capacidade para serem titulares. A solução encontrada foi o empréstimo ao Braga (onde também ganhou a Taça da Liga). Curiosamente, durante o tempo em que esteve fora, o Benfica não voltou a ser campeão.

Regressou no início da época 2013-2014. Ano histórico, com a conquista do Campeonato, Taça e Taça da Liga. Faltou a Liga Europa. Em 2014-2015, voltou a ser campeão e a ganhar a Taça da Liga. É, portanto, um dos jogadores com mais troféus no actual plantel. Um dos mais experientes. Um dos que melhor conhece a casa. A famosa mística benfiquista, que lhe vem desde pequeno, e que tem de ser transmitida aos que chegam. É um dos que podia envergar a braçadeira de capitão.

O Rúben Amorim pode não ser um génio. Mas aos 30 anos está longe de estar acabado. Tem muito para dar ao Benfica. Aos mais novos. Aos estrangeiros. Um clube com a grandeza do Benfica distingue-se também pela forma como trata os seus. O Rúben é um dos nossos – e não merece ser tratado desta forma.

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Maxi: o emplastro, o golaço e a decisão

Caro Maxi,

Como estás concentrado na Copa América, não sei se tens lido os jornais e visto televisão. Desde ontem que a imprensa diz que te preparas para trocar a Luz pelo Dragão. Não sei se é verdade. Há cerca de semana e meia as mesmas notícias indicavam que tinhas renovado por três anos. Portanto, até à confirmação oficial, acredito que ainda não tomaste aquela que seria a pior decisão da tua vida.

O que não me impede de ter umas coisas para te dizer. Quando chegaste a Lisboa, no Verão de 2007, vinhas rotulado de extremo. Raçudo. Lembro-me de olhar para ti e pensar “este gajo não tem pinta de jogador, é parecido com o emplastro”. Os primeiros tempos pareciam confirmar essa ideia. Sim, eras raçudo. Mas de extremo tinhas pouco. A técnica não era a melhor. O drible não saia. Velocidade? Assim-assim. A cabeça? Sempre apontada para o chão. Confesso, era um sofrimento ver-te no lugar que já tinha sido de Vitor Paneira, Karel Poborsky e muitos outros.

Até que marcaste aquele golo contra o Milão. Golo, não, golaço. Fora da área, passaste a bola para o pé esquerdo, sim o esquerdo, e remataste ao ângulo. Estava atrás dessa baliza e, a partir daí, cada vez que olhava para ti lembrava-me desse golo. Cada vez que fazias uma asneira, lembrava-me do Dida, sentado no chão, impotente para travar aquele remate demolidor. Definitivamente, não eras um extremo. Mas tinhas qualquer coisa.

Acho que nessa época, o lateral direito titular era o Nélson. E quando ele foi vendido para Espanha, alguém teve a brilhante ideia de te colocar a jogar na defesa. Não eras brilhante a atacar. Mas tinhas tudo para ser bom a defender. Não desistias. Eras raçudo. E se fosse preciso desistir da bola para apanhar o jogador, estavas disposto a fazê-lo. Foi o melhor que te podia ter acontecido. Nessa altura não te apercebeste, mas estavas num momento determinante da tua carreira: ou continuavas um médio medíocre que acabaria num qualquer clube menor; ou te tornavas num lateral direito de eleição. Escolheste a segunda opção. Ou melhor, alguém escolheu por ti. No Benfica. O Benfica.

É por isso que és hoje, aos 31 anos, o lateral direito titular da selecção do Uruguai. É por isso que és, hoje, oito anos depois, um dos capitães do Benfica. Um dos jogadores mais queridos da massa associativa apesar de não seres um génio com a bola nos pés. És a prova de que o querer e a capacidade de trabalho conta tanto ou mais do que o talento para se ser um profissional bem sucedido. Ok, admito, nestes últimos anos, não houve muitos laterais talentosos a disputar contigo um lugar. Mas sabes porquê? Porque todos os treinadores sabiam que podiam estar descansados contigo. Tal como os adeptos. Sabiam que ias correr até ao último minuto, até que as pernas não aguentassem mais e que ias dar tudo pelo emblema que te pesava no peito. Mesmo que não fosse suficiente – como por vezes não foi.

Passaste a carregar aquilo que se chama de “mística” do clube. Não é só um dos mais velhos, como és um dos mais antigos. Em Portugal ganhaste tudo o que havia para ganhar. Pelo que tenho lido, o Benfica quer que continues e tu queres continuar. Já não é a primeira vez que isto acontece – e tal como há três ou quatro anos parece haver um empresário que está mais interessado nele próprio do que em ti. Lembras-te do teu amigo Christian Rodriguez? Pois.

É isso que te quero dizer. Tens 31 anos e duas opções. Continuares no clube que te deu tudo – e que te quer continuar a dar – ou optares por uma mudança. Percebo o que te vai na cabeça. Estás a aproximar-te do fim da carreira e tens uma agremiação a acenar-te com um salário milionário. Pelo que vem nas notícias, quer mesmo fazer de ti o jogador mais bem pago do País. Por isso, se achas que três milhões de euros por três anos não é suficiente para garantires o teu sustento para o resto da vida e que só o conseguirás fazer com oito milhões em quatro anos, aceita. Vai. Junta-te ao emplastro. Será como uma facada. Tornará este defeso ainda mais parecido com o Verão quente de 1993 – e as vitórias da época que aí vem ainda mais saborosas.

Nunca te esqueças. Uma agremiação será sempre uma agremiação e o Benfica será sempre o Benfica: o maior clube do mundo. Agora decide de que lado queres estar. No lado mau da força ou a lutar pelo #rumoao35

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O Rui e o Vitória

Caro Rui,

Espero que esta carta te encontre bem. Desculpa, não espero. Sei que te encontras bem. Acabaste de dar o maior passo da tua carreira. Imagino que estejas eufórico, entusiasmado, ansioso por começar a trabalhar. Espero que estejas demasiado ocupado com relatórios de jogadores, estatísticas e com o planeamento da próxima temporada que não te resta tempo para leres esta carta. Ainda assim, decidi escrevê-la. Porquê? Por isto.

Nesta altura os teus amigos devem estar todos a dar-te os parabéns e a dizer-te como as coisas vão correr bem. A maioria vai dizer-te que vais ganhar tudo no Benfica. Que vais ficar na história. Melhor, que vais fazer história. Eu não estou aqui para te dizer isto. Pelo contrário. Escrevo-te esta carta para que dizer que, provavelmente, as coisas não vão correr tão bem assim.

Os problemas vão começar logo no teu primeiro dia. Sei que sabes disso, mas nunca é demais lembrar. Chegas ao Benfica numa posição difícil: suceder ao treinador mais bem sucedido das últimas décadas. Muitos vão olhar para ti de lado. Alguns vão dizer que não tens currículo. Que és um nome fraco. Que ainda não provaste nada. Outros vão dizer que foste uma má escolha. Que a correcta seria ir buscar um nome consagrado ao estrangeiro ou contratar o Marco Silva. Aprende a lidar com isso.

Quando entrares pela primeira vez nos balneários, os jogadores mais antigos vão olhar para ti de uma de duas formas: como a segunda escolha que sucedeu ao treinador campeão; ou como o treinador que os vai voltar a fazer campeões. Não percas a oportunidade de os conquistar logo no primeiro dia. Ganha-lhes o respeito, conquista-lhes a lealdade. Não te esqueças: tu dependes mais deles do que eles de ti.

Quando entrares pela primeira vez no Estádio da Luz e o speaker anunciar o teu nome, vais ter uma das maiores ovações da tua carreira. Mas não te iludas. Esses aplausos iniciais não são para ti. São contra o teu antecessor. O ídolo que agora é adversário. Quando as palmas pararem, todos os olhos vão estar postos no banco. Todas as tuas opções vão ser escrutinadas. Até a tua postura vai ser analisada: gritas? Gesticulas? Corres? Mascas pastilha? Tira-la da boca e voltas a pô-la lá dentro? Usa essa atenção em benefício da equipa. Dá o peito às balas e protege os jogadores – eles farão o mesmo por ti.

Ao contrário dos últimos anos, os jogos da pré-temporada serão importantes. Eles vão marcar o ambiente com que vamos chegar ao início do campeonato. Não os descures, nem desvalorizes. Porque deles depende o que os jornais – e logo depois os sócios – vão dizer de ti. Deles depende a atmosfera com que vamos iniciar a competição: confiantes e dominadores ou nervosos e amedrontados. Uma onda transformada em tsunami ou um rio que está a perder o caudal.

Após os primeiros jogos, a tua cara vai aparecer em todos os jornais e televisões. Serás herói ou vilão. Serás o novo Mourinho ou o novo “Lotopegui”. Serão dedicadas dezenas de páginas às tuas opções. Serão dedicadas horas de antena às tuas decisões. E como já percebeste, terás sempre um fantasma a pairar sobre a tua cabeça. Ele chama-se Jorge.

Será com ele que vão ser feitas todas as comparações. As do passado e as do presente. Por jogadores, adeptos, dirigentes e comentadores. Vão comparar os resultados, as estatísticas, os golos marcados e os sofridos, a forma física, o estado anímico e um sem número de outras coisas relacionadas com a teoria da bola que serve para entreter as conversas de café. Não queiras ser ele. Sê tu próprio. Trata os jogadores com respeito e eles respeitar-te-ão. Trata os funcionários do clube com simpatia e eles farão tudo por ti. Partilha os méritos das vitórias e assume os erros das derrotas. Põe os interesses do clube à frente dos teus. Não te julgues mais inteligente do que todos os outros. Estabelece empatia com os adeptos porque vão ser eles a levar-te ao colo no estádio. Tem a humildade de reconheceres os teus erros, porque vais cometê-los – mas não insistas neles por teimosia.

No meio disso tudo, se puderes, espreita as imagens das festas dos últimos anos no Marquês e imagina-te lá daqui a um ano. Nessa altura já ninguém te irá tratar por Rui: serás o Vitória. Então sim, as palmas já serão para ti. Mas mesmo nessa altura, nunca te esqueças de uma coisa: no fim da linha, és apenas um treinador. Mais um dos que vão ter direito a algumas linhas na História do Benfica. Repito: a História do Benfica.

Como disse no início, preparas-te para dar o maior passo da tua carreira. Mas não é apenas isso. Provavelmente, este será o maior passo que alguma vez darás. Porque não há um clube maior do que este. Será difícil. Muito mais do que possas pensar ou eu te possa dizer. Mas isso também significa que pode saber melhor. Espero que fiques muitos e bons anos. Será um bom sinal. Para ti – e, sobretudo, para nós. #rumoao35

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Jorge Jesus e o Benfica

Caro Jorge,

(Ia chamar-te Jesus mas agora que pareces estar prestes a trocar as forças do bem pelas do mal estás a perder a tua divindade)

Entraste como um furacão. Na tua primeira conferência de imprensa com o símbolo sagrado ao peito prometeste que, contigo, o Benfica ia jogar “pelo menos o dobro”. Tinhas razão. Contigo, o Benfica não jogou apenas o dobro. Jogou o triplo, quem sabe o quádruplo. Naquela época de 2009/2010 a onda vermelha varreu os campos do país como um rolo compressor. O Cardozo parecia um velocista. O Di Maria finalmente explodiu. O Aimar, bom, era o Aimar. O Saviola voltou à vida. Havia ainda o Ramirez, o Luisão, o Maxi, o David Luiz, o Nuno Gomes e outros. Talvez um dos melhores planteis dos últimos anos. Mas não importa. Tu eras o capitão aos comandos do navio. Melhor: o comandante aos gritos no navio. Confesso que sempre me fez impressão a forma como falavas – ou melhor insultavas – com jogadores da craveira de Aimar e Saviola. Mas não importava. A equipa ganhava. Ganhou.

O teu segundo ano já foi diferente. Ainda antes de o campeonato começar, já mostravas o que podia acontecer: com uma proposta daquele clube cujo nome não deve ser mencionado, obrigaste o presidente do Benfica a aumentar-te o salário para os famosos quatro milhões. Nos bastidores futebolísticos consta mesmo que falaste com Pinto da Costa, com o telefone em voz alta, à frente de Luís Filipe Vieira. O presidente do Benfica, com medo de repetir o erro de Manuel Vilarinho  com Mourinho, cedeu. Tornou-te o treinador mais bem pago da história do futebol  português. Mas tu não eras o mesmo. Primeiro perdeste a equipa. Começaste a fazê-lo quando trataste de forma inacreditável o guarda-redes titular da equipa. Chama-se Quim, lembras-te? Dispensaste-o para contratar um que “desse pontos”. Chamava-se Roberto, lembras-te? Ora o Quim era um elemento querido no plantel. Respeitado. Alguém que nunca abriu a boca em protesto apesar de todos os insultos que foste fazendo ao seu profissionalismo. Fizeste também umas maldades ao Nuno Gomes, outro de quem nunca ouviste uma crítica. Os jogadores percebem essas coisas. Tu gritavas, mas eles já não te ouviam. Nem respeitavam. Todos sabemos o que aconteceu nesse ano. Incluindo a eliminação humilhante da Taça de Portugal, em casa, que meteu uma festa do adversário às escuras.

No teu terceiro ano voltaste a falhar. Mas no quarto reinventaste-te. Prometeste uma época de sonho. Campeonato, Taça, Taça da Liga e Liga Europa – sim, porque a Liga dos Campeões nunca foi contigo. A equipa, renovada, jogava que se fartava outra vez. Prometeste ganhar o campeonato – e ajoelhaste-te no Dragão. Prometeste a Liga Europa – e falhaste outra vez. Prometeste a Taça de Portugal – e foste empurrado pelo Cardozo. Nessa altura tiveste um grande mérito: resististe aos insultos, aos palavrões, aos empurrões para sair. Ficaste. Renovaste o contrato. Resististe. E mostraste a todos que és um belo treinador. No ano seguinte voltaste a todas as finais em que tinhas estado e só perdeste a Liga Europa – outra vez. Calaste tudo e todos. Com a mesma equipa.

Este ano temia-se o pior. Saíram muitos jogadores bons, entraram outros de qualidade duvidosa. Mas tu definiste um objectivo – a conquista do bicampeonato – e conseguiste-o. Tudo o resto ficou para segundo plano. Com uma competência interna que nunca tinhas mostrado. Pela primeira vez em seis anos, não perdeste um jogo com os principais rivais. Um mérito que ninguém te tira. Tal como os 10 títulos em seis anos.

Foram anos bons. Contigo aos gritos no comando, o Benfica voltou ao lugar que é seu por direito. Esse mérito ninguém te tira. Independentemente de, nestes seis anos, o Benfica ter tido os melhores jogadores das últimas duas décadas. Independentemente dos autocarros de atletas que chegaram da América do Sul e que tão depressa apareciam como desapareciam. Independentemente de nunca teres apostado num único jogador da casa. E não, o André Gomes não é exemplo porque, contigo, raramente jogava. Independentemente dos gestos deselegantes que foste tendo e que não dignificam o clube: recordas-te dos cinco dedos apontados ao Manuel Machado? Recordas-te da cena insólita em Guimarães? Recordas-te dos três dedos ao treinador do Tottenham? Recordas-te de tentares aprender inglês porque querias ir para uma grande equipa europeia?

Todos os anos, no Verão, era a mesma coisa: sucediam-se as notícias de que ias para o Chelsea, Real Madrid ou Manchester City. Afinal, vais ali para o outro lado da Segunda Circular. Talvez vás ganhar mais dinheiro, talvez vás para o teu clube do coração. Mas o que te quero dizer é apenas isto. Afinal, vais para pior.

Saíste como entraste. Como um furacão. Agora, os sportinguistas que te insultavam vão idolatrar-te. Os benfiquistas que te idolatravam vão insultar-te. Os que gozavam com a tua forma pouco ortodoxa de lidar com o português vão defender-te. Os que te defendiam, vão gozar-te. Aqueles que toleravam a tua presença porque tinhas uma aura vitoriosa vão lavar a roupa suja em público. Os que diziam mal de ti sem tu saberes vão dar-te palmadinhas nas costas. É pouco racional, mas é a natureza humana quando aplicada ao futebol.

No fim da linha és só um treinador. Mais um dos muitos que passaram pelo clube. Sim, os últimos seis anos foram mais bons do que maus. Pelos vistos, acabaram. Mas só para ti. Perguntas-me se estou triste com a tua partida? Nem por isso. Sabes, é que o Benfica é maior do que qualquer treinador. Tu terás o teu lugar na história, no museu do clube. Mas nunca terás uma estátua à porta do estádio. #rumoao35

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Um ano sem o King

Portugal sem Eusébio, ano um.

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O problema de ter memória: a lenda dos milagres de Jesus

Nos últimos tempos, as palavras que mais temos ouvido dos jogadores que chegam ao Benfica é “quero aprender com o mister Jesus” ou “quero crescer com Jesus”. Foi o que disse Bebé, o mais recente reforço benfiquista, depois de quatro anos emprestado pelo Manchester United, onde se celebrizou pelos cruzamentos para a bancada. Mas não é isso que interessa. O que é verdadeiramente importante é que foi criada à volta de Jorge Jesus uma aura milagrosa de formador e potenciador de talentos futebolísticos. Chamo-lhe o síndrome Coentrão. Diz a lenda que, de fracasso em potência, o Fábio de Caxinas transformou-se no melhor lateral esquerdo português. Graças a Jesus. É o que diz a lenda. Mas a lenda não resiste à memória. Nem aos factos.

Em 2009/2010, Jorge Jesus não queria Fábio Coentrão no plantel. O destino era um novo empréstimo. À sua frente, para o treinador, estavam César Peixoto, Jorge Ribeiro e até David Luiz. Terá sido Luís Filipe Vieira a obrigar o técnico a ficar com a jovem promessa portuguesa. O seu destino: o banco ou a bancada. Até que, numa determinada fase da época, os dois laterais e o central estavam lesionados. E Jesus foi obrigado a colocar Coentrão em campo. Correu bem. E Jesus – como sempre acontece quando as coisas correm bem – reclamou os louros. Nascia a lenda da aura milagrosa de potenciador de talentos.

O problema é que, mais uma vez, a lenda não resiste a um exercício de memória. Eu ainda me lembro quando Jesus disse que ia fazer de Yannick Djaló um grande jogador. Alguém sabe onde ele joga hoje? Mas depois de me lembrar do ex-marido de Luciana Abreu resolvi fazer um exercício de memória. E encontrei um camião de talento que Jesus contratou mas não foi capaz de transformar em jogadores de futebol. Preparados? Respirem fundo:

Éder Luís, Keirrison, Roberto, Jara, Élvis (quem?), Carole, José Fernandez (quem?), Leo Kanu (quem?), Derlis Gonzalez (quem?), Bruno César, Wass (quem?), Rodrigo Mora, Melgarejo, Nuno Coelho, Roderick, Mika, Capdevilla, Júlio César, César Peixoto, Shaffer, Airton (quem?), Filipe Menezes, Weldon (quem?), Kardec, Fábio Faria, Yannick Djaló, Urreta, Olá John, Luisinho, Sidnei, Émerson, Luís Martins, Lisandro Lopez, Steven Vitória, Stefan Mitrovic (quem?), Bruno Cortez, Victor Nilsson-Lindelof (quem?), Filip Djuricic, Luís Fariña, Diego Lopes, Michel (quem?) e Funes Mori.

Pronto, confesso. Não me lembrava de todos. A internet é uma coisa maravilhosa. Muitos nem chegaram a vestir o manto vermelho. Simplesmente desapareceram. Ou andam por aí. São 42. E posso ter-me esquecido de algum. Acredito que os contratados deste ano – César, Loris Benito, Djavan, Talisca, Luís Filipe, Eliseu, Victor Andrade, Derley e Bebé – também querem “crescer” com Jesus. Vamos ver onde estarão no fim do ano. Se se juntam ao camião de talento ou se se tornam a excepção.

Foto: Lindsey Parnavy/EPA

Foto: Lindsey Parnavy/EPA

 

Jorge Jesus e os três dedos mostrados ao treinador do Tottenham

Jorge Jesus dá hoje uma entrevista ao Sol, que faz a capa da revista Tabu. É uma leitura imperdível para quem quer conhecer melhor o treinador do Benfica: no futebol e fora dele. Tem também o grande mérito de ser lida e dar a sensação de que JJ está a falar directamente com o leitor. Há várias partes da destacar – sobretudo aquela em que ele diz que no final da época passada teve tudo acertado com aquele clube cujo nome não deve ser mencionado e que só não saiu do Benfica por causa de Luís Filipe Vieira e de dois jovens sócios -, mas não resisto a partilhar a descrição que ele faz do “incidente” com o treinador do Tottenham, Tim Sherwood, durante o jogo do Benfica em Londres.

“Sabia que o André [Vilas-Boas] tinha sofrido com ele e tinha-lhe dito: ‘Se eliminarmos o Tottenham, vou-lhe chegar a roupa ao pêlo na conferência de imprensa’. Ia dizer que o Tottenham jogava muito mais com o André, que agora era zero tacticamente. Já tinha isso na minha cabeça e, durante o jogo, entrei sem querer no espaço dele. Olhou-me assim de cima para baixo, à inglês, como quem diz ‘ouve lá, portuga, o teu lugar é ali, põe-te ali quietinho que tu és muita pequenino’. Percebi aquele olhar e a seguir entrou ele no meu espaço. Então disse-lhe para saír dali. ‘Back, back, back’. Mas ele aguentou-se e ficou ali comigo. Fiquei com aquilo na cabeça e, quando marcámos o golo, nem sei porquê, foi instintivo, fiz aquele gesto da dança. Como quem diz: ‘Tás a levar um baile e não tás a ver nada’. Isto aconteceu no um a zero e lembrei-me que ainda faltavam muitos minutos, que ainda não tinha acabado. E virei-me ao contrário: ‘Tá mas é caladinho que isto aindap ode mudar.’ Quando fizemos o três a um é que lhe disse: ‘My name is André. One, two, three’. E aí ele ficou louco: ‘Fuck you’. E eu: ‘Fuck a p…’ bem, disse-lhe tudo e o árbitro ali no meio de nós. Mas eu estavaa ganhar; por isso estava tranquilo. E pensei: ‘Este gajo vai dar-me um soco’ Mas não. Ele é um atrevido, atenção. Fiquei a gostar dele. Num jogo depois desse, do campeonato inglês, o Tottenham ganhou 3-2 após ter estado a perder 2-0 e dei umsalto quando fizeram o três a dois.

Porque ficou a gostar dele?

Porque o achei um homem destemido. Não teve medo nenhum de mim. Se fosse preciso dar-,e uma cabeçada ali, dava-me. O que ele estava a dizer era: ‘Não tenho medo nenhum de ti. Estás a levantar cabelo e daqui a um bocado ainda te bato’. Gosto de gente assim.”

É de homem. Foi isto:

O esloveno honesto e o português matreiro

Ao fim de duas horas todos os olhos estavam postos neles. No gigante esloveno e no baixote português. O primeiro, vestido de amarelo, com o número 41 nas costas, parecia um bloco de gelo. Passou os 120 minutos anteriores a resolver o que lhe aparecia pela frente como se estivesse num treino. Nada de especial. O segundo, vestido de laranja, com o 13 estampado no equipamento, era o oposto: cabelo espetado, ar rebelde, esteve duas horas a defender tudo e mais alguma coisa. A cada bola afastada da baliza soltava gritos de raiva que contagiavam a equipa. E agora estavam ali os dois. Não frente-a-frente, mas prestes a enfrentar a toda a equipa adversária.

No primeiro penálti, o baixote português, tirou as medidas ao árbitro. Quando Lima corria para a bola deu uns passos discretos para a frente. A bola entrou. Mas ele, matreiro, percebeu com o que podia contar. A seguir, foi a vez do esloveno honesto pisar a linha de baliza. Diz a lei do jogo que, num penálti, o guarda-redes não pode afastar-se daquela marca antes de a bola ser pontapeada. E o gigante de amarelo assim fez. Posicionou-se, adivinhou o lado para onde a bola ia, atirou-se, mas não chegou lá. Um a um.

Depois, o baixote português enfrentou outro gigante, mas paraguaio. Só que tinha um truque na manga. Quando Cardozo avançava para a bola ele aproveitou a corda que o árbitro lhe tinha dado e deu um passo para a frente e para o lado. Depois outro. E outro. Ao terceiro, já estava mais de um metro à frente da baliza e com isso conseguia reduzir o ângulo de remate. Assim, mesmo sendo baixote, era-lhe possível chegar a qualquer ponto da baliza. Atirou-se para o lado direito. E com uma mão afastou a bola. Depois foi para a zona lateral ver o esloveno honesto adivinhar outra vez o lado para onde o remate seguiu. Mas como não saiu da linha, mesmo sendo um gigante, não lhe conseguiu chegar.

Ao terceiro penálti, o baixote português sabia que podia fazer o que quisesse. Voltou a dar um, dois, três passos para a frente. Desta vez atirou-se para a esquerda e defendeu um novo remate. Cerrou os punhos, virou-se para os adeptos e gritou como se fosse um toureiro espanhol. Quando o gigante de amarelo continuou a cumprir as regras e a ver o adversário marcar, pela quarta vez, o baixote vestido de laranja foi abraçado pelos companheiros. Continuo a gostar mais do esloveno honesto. Mas foi o português matreiro quem levou a taça.

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Está na hora de acabar com a maldição. Hoje.

Não acredito em maldições. O máximo a que consigo chegar é à classificação de azar quando uma bola bate na trave e não entra na baliza. Ou à de sorte quando acerta em três jogadores, faz um efeito esquisito e dá três voltas antes de se desviar do guarda-redes e ultrapassar a linha de golo. Maldições? Não. Mas parece que há muita gente que acredita. Há demasiado tempo. 

Isto porque há 50 anos um talentoso treinador húngaro terá dito que nos próximos 100 anos o Benfica não voltaria a ganhar uma competição europeia. No Portugal salazarento da triologia Fado, Futebol e Fátima, a expressão “a maldição de Bélla Guttmann” pegou. E ganhou força à medida que o maior clube do mundo foi perdendo finais à velocidade da luz. Ao todo, em nove presenças no jogo decisivo, o Benfica só ganhou duas. Nenhuma depois da suposta maldição. E está na hora de isso acabar. Hoje. Com talento, garra, competência e ambição.

Mas até para quem acredita em sinais e maldições esta é a altura certa. Vejamos.

  • Primeiro, tal como em todos os jogos este ano, vamos ter 11 Eusébios em campo e mais uns quantos no banco. E quando assim é o adversário não tem hipótese. Nenhum adversário.
  • Segundo, para além de ser conhecido por matar dragões, São Jorge é também padroeiro de Portugal. Não é por acaso que D. Nuno Álvares Pereira acreditava que tinha sido ele, o santo, o responsável pela vitória dos portugueses frente aos espanhóis na batalha de Aljubarrota. Ora, nós temos um treinador que pode não ser santo mas é Jorge e um adversário espanhol. Nem vai ser preciso uma padeira.
  • Terceiro, para acabar com a suposta maldição de um treinador chamado Bélla Guttmann (que raio de nome é esse?) não haverá melhor do que um treinador que além de (S.) Jorge também se chama Jesus. Preocupava-me, sim, uma maldição de alguém com o nome do filho de Deus. Agora de um Guttmann? Não tem hipótese.

Tragam mas é a Taça e não se fala mais nisso. Pelo King. Por vocês. Por nós.

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Está na hora de matar o borrego

Olá rapazes,

No próximo domingo vocês vão ter o jogo das vossas vidas. Não é contra o Real Madrid. Nem contra o Bayern de Munique. Nem sequer contra o Barcelona. É contra o Olhanense. Sim. Contra a equipa que ocupa o último lugar do campeonato, que tem menos 41 pontos que vocês, mais 28 golos sofridos e menos 36 golos marcados. O Olhanense. Ainda assim, esse é o jogo das vossas vidas.

Não sei o que o Jorge Jesus vos vai dizer antes de entrarem em campo. Não sei se vos vai mostrar algum vídeo. Presumo que vá falar do adversário. Das qualidades e das fraquezas. Dos pontos fortes e das vulnerabilidades. Mas eu gostava mesmo é que ele vos mostrasse algumas imagens em vídeo. Não estou a falar das obras de arte Markovic e do Gaitan. Da técnica superior do Enzo. Dos cortes e golos do Luisão e do Garay. Das arrancadas portentosas do Salvio e do Rodrigo. Da artilharia do Lima e do Cardozo. Das defesas do Oblak e do Artur. Da maravilha do André Gomes.

O que eu gostava mesmo que ele vos mostrasse eram as imagens do golo do Kelvin. Do vosso treinador de joelhos. Da cabeçada do Ivanovic. Das lágrimas do Enzo, do Rodrigo e do Artur. Do desespero do Cardozo. Dos milhares de pessoas que vos seguiram pelos estádios do país e que acabaram lavadas em lágrimas devido à desilusão do ano horrível de 2013. Gostava que revivessem no vosso interior cada um daqueles momentos. Para vos lembrar aquilo por que passaram. Por que nós passámos. E não queremos voltar a passar.

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Gostava que ele vos mostrasse as imagens de Eusébio. O homem que se tornou um mito. Um símbolo do querer, da vontade, do sacrifício e do talento que faz com que essa camisola vermelha só possa ser merecida por alguns. O único homem que teve direito a uma estátua em frente ao estádio e por quem vocês usam essas faixas negras no equipamento. Porque, onde quer que esteja, ele vai estar a olhar para vocês junto a nós. Nós que vamos estar nas bancadas, em frente ao televisor ou com os ouvidos colados à rádio. Sim, no domingo, às 18h, um pouco por todo o mundo, milhões de pessoas vão estar de olhos postos nos ecrãs de cachecóis enrolados ao pescoço e com o coração nas mãos à espera daquele momento em que vamos poder saltar, gritar e chorar de alegria com um ano de atraso.

Mas para isso é preciso que vocês, os nossos soldados, vençam mais uma batalha. Já o fizeram vezes sem conta este ano. No início da época, contra tudo e contra todos, vocês foram capazes de se levantarem das cinzas e voltar a voar até ao lugar que é nosso por direito. Sim, nosso. Dos adeptos. Nós que todos os anos, jogo após jogo, enchemos o estádio. Nós que percorremos quilómetros e guardamos horas da nossa vida para vos ver usar essa camisola vermelha. Nós que nos emocionamos em frente ao televisor com uma jogada, um golo, uma vitória. Nós que passamos noites em claro quando as coisas não correm bem. Nós que passamos horas em filas para comprar bilhete para os grandes jogos. Nós que gastamos parte do nosso salário para pagar quotas. Nós que vos vamos aplaudir à saída do centro de estágio. Nós que vos vamos apoiar durante um treino. Nós que vos pedimos um autógrafo ou uma camisola. Nós. Os adeptos.

Ontem foi mais um exemplo do que acabei de dizer. Quando alguns julgaram que tinham voltado a cair no tapete, vocês deram uma enorme demonstração de talento e alma. E nós, nas bancadas em casa, nos cafés ou nos automóveis, nunca deixámos de vos apoiar. Nunca desistimos. Porque um benfiquista nunca desiste. Mesmo quando está em causa apenas um jogo. Sim, porque ontem não se passou nada de especial. Foi apenas mais uma partida. Ganhámos e isso significa que vocês vão ter mais um jogo pela frente. Para lutar. Por vocês. Por nós.

No domingo é diferente. Tudo aquilo por que, vocês, nós, passámos trouxe-nos aqui. Às 18h do próximo domingo de Páscoa. Durante 90 minutos vocês vão ter a possibilidade de ficar na História deste grande clube. De serem recordados para sempre como parte de um todo. Como os soldados de uma nação. Não percam esta oportunidade. A História está a passar à vossa frente. Vão agarrá-la. Por vocês. Por nós.

O Benfica e o Capitão que não devia estar fora de jogo

Olá Capitão,

Vi a reportagem que a SIC emitiu sobre ti na semana passada com um aperto no coração. Chamaram-lhe Fora de Jogo. É um bom título. Mas demorei quase uma semana a digeri-la. Não só por ti e pelo dramatismo a situação em que te encontras. Mas também pela forma como o meu clube tem tratado os poucos símbolos que lhe restam.

Vi-te com uma profunda tristeza. Recordo-me bem de ti. Da forma como honravas aquela camisola. Do teu ar altivo e imponente. E como te tornaste o “eterno” dono do número 2 ao longo de 15 anos. De certeza que não eras dos mais bem pagos do plantel. Mas não passavas necessidades. Pelo contrário. O dinheiro que ganhaste nesses anos dava para teres uma vida perfeitamente desafogada. Infelizmente acreditaste em pessoas que se diziam tuas amigas. Diziam. Não eram. A prova está à vista.

Tiveste ainda um azar supremo: foste uma vítima de um ser chamado Artur Jorge que afastou todos aqueles que podiam ter algum peso no clube. Naquela época chamavam-lhe mística. Hoje poucos sabem o que isso é. Ainda regressaste ao clube com o teu amigo Toni. Mas claro que não durou. Nem chegou.

Ao contrário do que acontece, por exemplo, naquela organização de malfeitores do norte do país, o Benfica nunca se celebrizou por tratar bem as velhas glórias. Os seus símbolos. Até o King enfrentou um período difícil. Lá no norte, alguns antigos jogadores, alguns, aqueles com história, acabam por ser integrados na estrutura do clube. Seja nas camadas jovens ou na equipa principal. Para além dos ensinamentos práticos, transmitem um modo de estar no futebol – no caso deles, o pior de todos, claro. Mas isso não importa.

Tu foste um dos últimos jogadores do Benfica que podia ostentar o título de símbolo. E deixaste de jogar há quase 20 anos. Depois de ti só três outros futebolistas poderiam chegar ao teu estatuto: João Vieira Pinto, Rui Costa e Nuno Gomes. O primeiro foi durante muito tempo o nosso “menino de ouro”. Mas foi expulso do clube por um malfeitor que conseguiu chegar à presidência e cujo nome não deve ser pronunciado. O segundo é o último verdadeiro produto da formação. Na verdade passou poucos anos de sénior no clube. Mas nunca escondeu o benfiquismo, acabou cá a carreira e, apesar de ter sido diversas vezes usado pela actual direcção como escudo protector, mantém um lugar na SAD. O último teve um azar semelhante ao teu: foi maltratado por um treinador que tem um qualquer problema com os jogadores portugueses e acabou por sair por uma porta que não era aquela que ele merecia.

Numa época em que a falta de referências para os jovens jogadores é tão grande, a presença de símbolos como tu é fundamental para aquilo que parece estar na moda: o desejo de ascensão de jogadores portugueses. Porque símbolos como tu sabem o que é preciso fazer para lá chegar. E podem transmitir aos mais novos o orgulho que é vestir aquela camisola vermelha.

Se eu fosse presidente do Benfica, em vez de dizer que tu não pediste ajuda, no dia seguinte à emissão da reportagem estava tocar à campaínha da tua casa (ou a telefonar-te, pronto) para te perguntar o que querias fazer. Porque não é por teres ido umas vezes ao estádio ali do lado ver os jogos do teu filho, que acabou por te abandonar, que o teu passado pode ser apagado. Para citar um benfiquista respeitável, tu foste daqueles poucos jogadores que honraram a camisola do Benfica tanto quanto ela te honrou a ti. Erros todos cometemos. E quem pode censurar-te por apoiares o rapaz, teu filho, que foi desdenhado pelo nosso clube? Eu não. Para mim nunca serás apenas o António Veloso. Serás sempre “O Capitão”. O último da tua espécie. E o teu lugar é no Estádio da Luz. Dentro do jogo. 

Eu e o King. Porque todos temos uma história com os nossos heróis

Olá King,

Foda-se. Morreste. Não posso dizer que tenha sido uma surpresa. Mas mesmo assim: foda-se. Morreste. Ontem de manhã, quando soube da notícia, fiquei sem reacção. Como muitos, fui seguindo o desfile de personalidades e declarações que surgiam em catadupa nas televisões. Umas atrás das outras. Todos pareciam ter alguma coisa a dizer. Uma história para contar. Como li hoje escrito por aí, é isso que distingue os heróis. Todos temos uma história com eles para contar. Mesmo que não os tenhamos conhecido ou com eles privado. E se dúvidas houvesse, elas acabaram: tu és um deles. Dos bons. Dos heróis.

Sim, também eu tenho histórias contigo. Nenhuma é de um grande feito. E tenho a certeza que tu, onde quer que estejas, não tens a mais pequena memória delas. São histórias de um miúdo que aos fins-de-semana ia para a catedral assistir aos jogos e que lá chegava com muita antecedência. Um miúdo que ia com o tio, que era o médico do Benfica, a tia e o primo mais novo. Um miúdo que adorava aquela sensação de poder atravessar o gradeamento por onde poucos passavam e entrar no estádio pela porta principal. Depois esperava. Pelos jogadores. Pelos treinadores. Por ti.

Tu chegavas sempre com o teu sorriso humilde e cumprimentavas-nos. “Como está doutor?” “Olá miúdo, estás bom?”. Eu lá abanava a cabeça. Eras o Eusébio. E estavas a falar comigo. Como podia dizer que não? Nunca te vi jogar. Ao vivo, pelo menos. Mas ouvi vezes sem conta a descrição da forma como corrias, como inclinavas o corpo para a frente quando rematavas a bola, como a tua perna ficava esticada a apontar para a baliza, como deixavas os braços perfeitamente equilibrados junto ao corpo, como os teus remates tinham uma potência incrível numa época em que as bolas de futebol, molhadas, deviam pesar uns três quilos – ao contrário dos balões com que hoje se joga futebol.

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Durante anos guardei uma bola do Benfica onde, junto ao símbolo, só havia espaço para um único autógrafo: o teu. Os dos outros jogadores da equipa estavam à volta. Guardei-a até o passar dos anos vencer a teimosia da tinta e as assinaturas desaparecerem. Mas havia um motivo para a tua ser a única junto ao símbolo da águia. Foi graças a ti, acima de todos os outros, que o Benfica, o meu clube, se tornou no maior clube do mundo. Que me fez chorar de alegria e de tristeza. Me fez celebrar. Por isso, mesmo sem te ter visto jogar, foi também graças a ti que festejei bastante.

Mas isso agora não importa. Acho que os meus amigos nunca acreditaram muito quando lhes contava que tinha estado contigo. Nem mesmo quando lhes descrevia que tinhamos ido jantar a um restaurante chamado “Petiscaqui” e nos tínhamos sentado na tua mesa. Ouvia-te com atenção contar histórias do tempo de jogador ou de quando tinhas ido com o Benfica a qualquer lado. Normalmente acabavam com uma gargalhada. Comias bem. Bebias melhor. Pedias sempre mais picante. Jindungo, de preferência.

Naqueles anos tu fazias parte da equipa técnica do Benfica. Alternavas entre adjunto e treinador de guarda-redes. E mesmo com mais de 40 anos batias aos pontos muitos dos avançados que faziam parte da equipa. Na potência de remate. Na colocação. No jeito. Hoje, quem revê os teus golos percebe facilmente porque eras idolatrado. Está lá tudo. A força, a garra, a alegria, a forma como festejavas todos os golos como se fosse o mais importante da tua vida. Em campo, tudo em ti era puro. Como se a beleza do futebol assumisse uma forma humana. Muito diferente dos ídolos de hoje, em que a humildade foi substuída pela arrogância. Em que o prazer da vitória foi trocado pela satisfação da derrota do adversário. Tu, mais do que qualquer outro, querias ganhar. Mas eras capaz de o fazer e, ao mesmo tempo, aplaudir uma defesa do guarda-redes adversário. Da bancada via-te sentado em todos os jogos ao lado do banco de suplentes. Tinhas o teu lugar reservado. A tua toalha branca sempre a postos. Só a tua presença deixava os adversários em sentido.

Durante muitos anos não te voltei a ver. Sim, ouvi muitas histórias tuas. Algumas boas. Muitas más. Bastantes, verdadeiras. É um lado teu que, mais tarde ou mais cedo, terá de ser contado. É inevitável. Porque todos os heróis tem um lado negro. E o teu era bastante. Ainda assim, hoje, o que importa é recordar o lado bom da força. E essa, tinhas muita. A última vez que voltei a estar contigo foi em 2008, na Suíça. Portugal tinha acabado de ser eliminado pela Alemanha no Campeonato Europeu. Eu desci para a zona mista e quando estava a chegar vi um vulto a cair e a apoiar-se num automóvel. Eras tu. Corri, ajudei-te a levantar e a encostar ao carro e, instintivamente, tratei-te como muitos dos que te eram próximos faziam: “King, estás bem?”

Lembro-me que olhaste para mim com uma expressão de desespero enquanto passavas a mão pela perna. Explicaste que tinhas muitas dores no joelho esquerdo por causa das operações e que às vezes as forças faltavam. Eu disse que sabia e não resisti em contar-te a minha história contigo quando era miúdo. E tu sorriste. Como se te lembrasses mesmo de mim. Perguntaste pelo meu tio, como ele estava e pediste-me para lhe enviar um abraço. Não sei se o cheguei a fazer. Provavelmente, não.

Nos últimos anos, as notícias que me chegavam sobre ti eram quase sempre más. Os internamentos sucessivos deviam ter-nos preparado para isto. Mas nada prepara. Morreste. Foda-se. Só hoje, quando vinha para a redacção, que fica junto ao estádio, é que caí em mim. Foda-se. Morreste. As milhares de pessoas que estavam à volta do estádio provavam-no. Tal como os cachecóis, bandeiras e flores deixados junto à tua estátua. Foda-se. Morreste.

À hora de almoço, como muitos, acabei por ir ao estádio despedir-me de ti. Durante a tua última volta à Catedral lembrei-me de muitas coisas. Algumas deixo-as aqui. Sei que não têm importância nenhuma. Mas deixo-as na mesma. É que, mais uma vez, é isso que define os heróis: as pequenas histórias que temos com eles; as lágrimas derramadas por estranhos. Ao cumprires o teu último desejo nós batemos palmas. Gritámos o teu nome. Cantámos o hino nacional. Chorámos. E entoámos o hino do Benfica. Porque tu mereces. Mas sabes uma coisa? Dificilmente a letra e a voz do Luís Piçarra voltarão a soar tão tristes como hoje. Morreste. Foda-se. O King morreu. Viva o King.

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The King is dead. Long live the King!

Eusébio da Silva Ferreira (1942-2014)

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Sim, aconteceu. Agora é hora de nos levantarmos

Não. Isto não está a acontecer. Estávamos destinados à glória. Chegámos a Amesterdão para assumir o papel de David contra o Golias dos milhões russos, campeão europeu em título. E ao contrário do que se esperava, parecia que estávamos a jogar em casa. Desde o primeiro momento que aquela onda vermelha prenunciava algo de bom. Algo de histórico. Tinha sido uma caminhada imaculada. Sim, é verdade, os franceses do Bordéus não representaram grande desafio. Mas nesse percurso tínhamos feito história e ganho na Alemanha ao Leverkussen. Demos uma lição aos ingleses do Newcastle. E frente ao Fenerbahçe mostrámos todo o poder do nosso futebol. O rolo compressor que nos últimos anos ganhou corpo no Estádio da Luz atingiu o máximo expoente contra os turcos nos golos de Gaitán e Cardozo. Ontem parecia que estávamos de volta a esse jogo. Fomos dominadores. Autoritários. Encostámos os azuis às cordas. As bolas divididas eram nossas. Os sprints eram ganhos com surpreendente facilidade. Os dribles saiam a uma velocidade tal que alguns ingleses ainda devem estar à procura dos rapazes de vermelho. Sim, a certa altura parecia que os papéis se tinham invertido. Que nós éramos o Golias e os outros o David. Só faltava o toque final. Aquele que nos permitiu marcar 74 golos em 29 jogos no campeonato. Sim, 74. Por várias vezes esse toque esteve ao nosso alcance. Nos pés do Sálvio. Do Rodrigo. Do Gaitán. Do Cardozo. Da armada sul-americana que apoiada por um tanque sérvio destruiu um conjunto de porta-aviões construído com petrodólares de uma província russa. Nas bancadas, as caras dos adeptos vestidos de azul reflectiam o que se passava em campo. Ao mesmo tempo, as vozes portuguesas entoavam cânticos tantas vezes ouvidos em Portugal que davam asas aos nossos jogadores. Mesmo quando sofremos o primeiro golo parecia que o jogo era nosso. O empate estava destinado a ser apenas o primeiro passo rumo a um destino manifesto. Quando aconteceu, foi com naturalidade. Era uma questão de minutos. Em breve estaríamos a rir-nos na cara da maldição do húngaro. Até que uma queda sem bola atirou ao fundo um dos nossos pilares. E nós abanámos. As lágrimas do Garay sentado junto à linha lateral por sentir que não poderia continuar em campo diziam tudo. Ainda assim, continuámos por cima. Estávamos a preparar-nos para o prolongamento quando aquele golo nos gelou da cabeça aos pés. O ritmo acelerado a que o coração tinha batido na última hora e meia abrandou para um estado de quase suspensão  O último lance quase nos reanimou. Só que não havia mais tempo. O apito final do árbitro soltou as lágrimas que nunca esperámos derramar. De derrota. Tristeza. Injustiça. Caímos. De pé, mas caímos. É verdade. Isto está mesmo a acontecer. Agora, é hora de nos voltarmos a levantar.

Francois Lenoir/Reuters

Francois Lenoir/Reuters

Ganhem. Por vocês. Por nós.

Tudo se resume a 90 minutos. As vitórias passadas. Os golos marcados. As defesas. Os aplausos. As horas de treino. Os sacrifícios. As dores suportadas. Os festejos. O favoritismo está do outro lado. Mas a diferença estará em quem estiver disposto a fazer tudo pelo colega do lado. Em quem disputar cada bola como se fosse a última da sua vida. Em quem correr mais. No final, ficarão na história como uma equipa ou serão recordados como meros indivíduos. É a diferença entre a imortalidade dos heróis e o anonimato dos vencidos. Logo, ganhem. Por vocês. Por nós.

Começou num “grupo nobre e brioso”. Hoje é uma nação com 109 anos. Parabéns Benfica

Faz hoje, 28 de Fevereiro de 2013, 109 anos que um grupo nobre e brioso, de jovens rapazes, se reuniu, na Farmácia Franco, em Lisboa, para fundar o Clube, cujos nomes constam na lista da acta de constituição do Sport Lisboa e Benfica. A ideia tinha-se desenvolvido nos dois meses anteriores, seguindo-se,  posteriormente, a definição dos três símbolos – emblema, nome e equipamento – que permitiram o nascimento do Glorioso…

Belém o dia 28 de Fevereiro amanheceu com a expectativa, entre alguns rapazes do bairro da criação de um novo clube desportivo. É uma ideia que foi reforçada nos últimos dias. Este bairro da cidade vai finalmente ter um grupo de futebol em condições de lançar reptos e aceitar desforras em jogos com outros grupos da cidade. Os preparativos decorreram com entusiasmo no sentido de dotar este grupo com condições para vingar. Desde há alguns dias que foi marcado para este domingo a sua constituição. Para contrariar as dificuldades em encontrar um espaço próprio, os proprietários da Farmácia Franco, Sr. Inácio José Franco, ilustre 2.º Conde do Restelo, e seu irmão Pedro Augusto Franco cederam uma das dependências da Farmácia para a dita reunião. (…)

Após o almoço, os vários elementos dirigem-se para a Farmácia Franco. A atmosfera é a dos grandes dias. Algo de grandioso está a ser feito. A glória de um clube de futebol vai ter o seu início.

Os fundadores reúnem-se à volta da mesa. Cosme Damião tem junto a si um rectângulo de papel branco, para escrever a primeira acta do clube, onde começa a anotar: Grupo Sport Lisboa. 28/2/904. Funda-se em Belém este grupo… Cosme Damião prossegue anotando os sócios fundadores por ordem alfabética: Abílio Meireles, Amadeu Rocha, António Rosa Rodrigues, António Severino, Cândido Rosa Rodrigues, Carlos França, Daniel Brito, Eduardo Corga, Francisco Calisto, Francisco Reis, João Ignácio Gomes, João Goulão, Joaquim Almeida, Joaquim Ribeiro, Jorge Augusto Sousa, Jorge da Costa Afra, José Linhares, José Rosa Rodrigues, Manuel Gourlade, Manuel França, Raul Empis, Henrique Teixeira, Virgílio Cunha. São 24 os magníficos, sabe-se que nos próximos dias muitosmais se seguirão, em particular os ex-casapianos da Associação do Bem.(…)”

O paraguaio perigoso e os 200 golos no campeonato

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Não gosto de homenagens antes dos grandes jogos. Percebo-as. Massajam o ego dos atletas e servem para unir o público em torno da equipa. Mesmo assim, continuo a não gostar delas. Aumentam a pressão sobre os jogadores e se o jogo não lhes correr bem o homenageado torna-se rapidamente num vilão.

Lembrei-me disso ontem quando, no final do aquecimento, vi o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, a esticar-se para dar uns “calduços” no Óscar Cardozo depois de lhe entregar um pequeno troféu comemorativo dos 100 golos no campeonato nacional. O paraguaio encolheu-se, riu-se e voltou aos balneários com o pescoço mais quente do que estava à espera. E eu, que tinha estado a observá-lo no aquecimento, pensei que dali não podíamos esperar grande coisa.

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O jogo já ia longo – com dois grandes golos do Benfica e duas ofertas àquela agremiação de malfeitores cujo nome não deve ser pronunciado nesta página – quando, por alguns segundos, achei que ia estar enganado. Corria o minuto 77, quando Nico Gaitan, com um passe subtil e cheio de intenção, conseguiu a proeza de isolar Óscar Cardozo, o avançado mais lento do Benfica. Foi mesmo à minha frente. Estava tão perto que só não conseguia ver o suor a escorrer da cabeça do paraguaio porque ela estava enfaixada, depois de ter sido partida por uma entrada na primeira parte que nem sequer mereceu ser considerada falta. A verdade é que o melhor marcador do Benfica foi por ali fora, rematou ao ângulo mais difícil e a bola só não entrou porque o guarda-redes da tal agremiação de malfeitores conseguiu desviá-la para o poste. E saiu pela linha de fundo.

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Afinal, não estava enganado. O paraguaio perigoso olhou para o céu. Nós olhámos para o chão. Como se desviar os olhos do relvado fizesse o tempo recuar. E parecia que ali, entre as cadeiras e o cimento estavam milhentos troféus dos 100 golos de Cardozo no campeonato. O jogo dele resumiu-se àquele falhanço. Nem mais um remate. Só um passe a isolar Aimar. E nem me lembro de o ver ganhar uma bola de cabeça (com o devido desconto de a ter partida).

O jogo acabou aí. Faltavam 17 minutos (incluindo os quatro de tempo suplementar). Houve mais uns cantos, uns livres e umas entradas que até podiam ter dado expulsão. Não deram. Agora, fico à espera que o golo 200º do Óscar Cardozo aconteça durante um jogo com a tal agremiação malfeitora. Prometo que no fim fazemos a melhor de todas as homenagens. Mas só depois. Nunca antes.

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Caro Luís Filipe Vieira

Você não me conhece. Não pode. É impossível conhecer todos os sócios do Sport Lisboa e Benfica, apesar de me dirigir regularmente cartas personalizadas e por si assinadas como presidente do meu clube. Sou sócio efectivo desde 1994. Como muitos outros benfiquistas habituei-me a ir ao antigo Estádio da Luz assistir a tardes de glória, de derrota, de alegria e também de tristezas, todas aquelas emoções em que o futebol é farto e que só os verdadeiros adeptos compreendem. Vi jogar com a aquela camisola vermelha jogadores como Bento, Veloso, Carlos Manuel, Shéu, Silvino, Nené, Diamantino, Chalana, Vítor Paneira, Rui Águas, Pacheco, Álvaro Magalhães, César Brito, Neno, Rui Costa, João Vieira Pinto, Paulo Sousa, Futre, Nuno Gomes, Simão Sabrosa, Petit, Manuel Fernandes, Quim e muitos outros. E não enumero estes nomes por acaso.

Desde que tenho idade para votar que não falto a umas eleições. Nas últimas votei em si. Reconheci o trabalho que fez na recuperação da credibilidade do Sport Lisboa e Benfica depois do desastre da gestão daquele cujo nome não devia ser pronunciado junto às palavras “ex-presidente do Benfica”. Você construiu um estádio novo – que apesar de não parecer acabado por fora é o único que, por dentro, tem um ambiente de nível mundial –, fez um centro de estágio no Seixal, recuperou a credibilidade financeira de um clube que não tinha dinheiro para pagar salários e, em algumas fases, desafiou a supremacia da agremiação de malfeitores localizada no Norte do País.

O problema é que há sempre um “mas”. E neste caso há vários. Desde que é presidente do Sport Lisboa e Benfica que você, caro Luís Filipe Vieira, quando se aproximam as eleições, lança para o ar chavões como “por um Benfica europeu” e mais recentemente “em quatro anos o Benfica tem de ser três vezes campeão e ir a uma final europeia”. A verdade é que já é presidente desde a época 2002/2003 e para além de não ter ido a uma única final europeia, o Sport Lisboa e Benfica ganhou dois campeonatos, uma taça de Portugal e três taças da liga.

Durante a maior parte do seu mandato você foi um triturador de treinadores. E pior: nunca assumiu as suas responsabilidades. Preferiu escudar-se com aqueles que reuniam o consenso dos sócios. Eu não me esqueço que você, caro Luís Filipe Vieira, para se proteger da contestação, a meio da época 2007/2008, anunciou que Rui Costa seria o director desportivo na temporada seguinte. E isso destruiu o equilíbrio no balneário. Também não me esqueço, caro Luís Filipe Vieira, que, mais uma vez para se proteger, anunciou que iria preparar o Rui Costa para ser o seu sucessor – só para voltar com a palavra atrás. Por todos os motivos, nós não merecíamos isso, e o Rui Costa também não.

Mas, caro Luís Filipe Vieira, do que eu não me esqueço mesmo é de certas atitudes inaceitáveis que têm sido tomadas nos últimos anos (porque são esses que estão em causa) e que têm tido a sua protecção. Depois daquela primeira época fantástica de Jorge Jesus como treinador, em que o Sport Lisboa e Benfica dominou e triturou adversários uns atrás dos outros, você devia ter tido a capacidade de perceber com quem estava a lidar. Porque é isso que se exige de um líder. Quando o treinador campeão telefonou para o presidente daquela agremiação de malfeitores do norte do país à sua frente, para lhe mostrar que estava disposto a trocar de clube, em vez de lhe oferecer um salário milionário, você, Luís Filipe Vieira, devia tê-lo deixado ir. Porque isso mostra o carácter daquele que está à frente da nossa equipa.

Depois, caro Luís Filipe Vieira, quando o seu treinador recentemente aumentado exigiu contratar um guarda-redes para “dar pontos” e dispensar o guarda-redes campeão e titular da selecção nacional, Quim, você devia ter dito “não”. Tal como fez quando o mesmo treinador quis emprestar o Fábio Coentrão e você o obrigou a ficar com ele na equipa – com os resultados que se sabem. Você não devia ter compactuado com as sucessivas faltas de respeito a que o capitão da nossa equipa, Nuno Gomes, foi sujeito durante dois anos – como, por exemplo, ser posto a treinar com os lesionados, quando estava perfeitamente apto, para não ter de justificar a sua não utilização num jogo com o Braga. Você não devia ter permitido a dispensa de jogadores como Rúben Amorim, Carlos Martins e este ano do Nelson Oliveira. Nos últimos anos você não devia ter permitido a contratação de toneladas de jogadores sul-americanos oriundos das divisões secundárias, que fazem lembrar as épocas daquele cujo nome não deve ser pronunciado junto às palavras “ex-presidente do Benfica”. Sim, porque há anos que o ouço dizer que o Sport Lisboa e Benfica deve apostar na formação e quando olho para a equipa principal só vejo jogadores que arranham o português com alguma dificuldade. Pelo contrário, vejo os atletas portugueses com qualidade a saírem uns atrás dos outros ou a não terem oportunidades – e não é por serem piores do que os outros que lá estão.

Por último, caro Luís Filipe Vieira, custa-me olhar para a sua comissão de honra e ver lá juízes, magistrados do Ministério Público e actuais e ex-inspectores da Polícia Judiciária, incluindo o responsável pela equipa especial encarregue de investigar o processo Apito Dourado. Isto explica muito do que se passou nos últimos anos. E tudo o que acabei de escrever, em conjunto, explica porque razão, provavelmente, hoje não vou exercer o meu direito de voto. O outro candidato é um motivo menor.

Adenda: também não gostei de ver na televisão a equipa de futebol a ir votar em massa. Obrigar os jogadores a serem sócios e a fazerem campanha – porque é disso que se trata – durante umas eleições não é próprio de um presidente sério.