Obrigado, Jorge

Caro Jorge,

Agora que já passou algum tempo desde as emoções de domingo e todos tivemos tempo para festejar e reflectir, quis escrever-te novamente para te deixar uma palavra que, acredito, não esperarias ouvir de um benfiquista nesta altura da época: obrigado.

Não, não estou a agradecer-te pelo que fizeste nos seis anos em que foste treinador do meu clube, tu sabes, aquele que é o maior do mundo e que tu tiveste o privilégio de treinar. Por isso já te agradecemos na altura devida, com aplausos, merecidos, em vitórias gloriosas: o campeonato e o bicampeonato. No entanto, ao contrário do que possas pensar, os agradecimentos não foram só para ti: foram para um conjunto de pessoas, entre as quais te incluias, que tinham o privilégio (sim, outra vez) de exibir o simbolo da águia ao peito.

Na verdade, quero mesmo agradecer-te por teres tomado a decisão que tomaste no Verão do ano passado. Graças a isso, o ar do Estádio da Luz tornou-se um pouco mais saudável. O ambiente menos pesado. As pessoas voltaram a sorrir. Não apenas nas vitórias, mas também nas derrotas. Sobretudo nas derrotas.

Quero agradecer-te por nos permitires voltar a ter um treinador que representa genuinamente os valores do Benfica: a humildade, a união, a lealdade, o companheirismo, o cavalheirismo, a solidariedade e o respeito – e que ainda por cima ganha jogos na Champions.

Quero agradecer-te porque, com a tua decisão, deste esperança a toda uma geração de jovens que sabiam que contigo por perto a esperança era a primeira coisa a morrer. Agora eles sabem que aquele sonho de criança, de ouvirem os aplausos do terceiro anel enquanto seguram o troféu de campeão nacional, é possível. E bastou-lhes nascer uma vez – mas na altura certa.

Quero agradecer-te também por seres quem és. Por não teres fugido à tua verdadeira essência e por não teres conseguido nem sabido respeitar teu próprio passado. O clube que te deu muito mais do que tu alguma vez lhe poderias dar.

Quero agradecer-te muito por isso. Por não conseguires conter-te nas palavras. Foram elas que nos deram a força necessária para enfrentar as contrariedades iniciais. Foram elas que fizeram os sócios unir-se em torno de um treinador que no início não era consensual mas que, em fez de fragilizado, saiu reforçado graças a ti. Sim, a ti. Porque de cada vez que lançavas uma farpa em direcção ao teu sucessor, os aplausos dos benfiquistas ganhavam cada vez mais fervor. Os jogadores colocavam o pé na bola com mais determinação. Rematavam com mais arte e engenho. Em vez de destruires o teu anterior clube, contribuiste para a construção de verdadeiro campo de forças que levou a equipa ao colo pelos estádios do país, de vitória em vitória – e foram muitas seguidas – até regressarmos pela terceria vez consecutiva ao Marquês de Pombal. Sim, Jorge, o tri também é graças a ti.

Por fim, quero também agradecer-te por seres um visionário. Por teres razão antes de tempo. Ninguém o diria melhor que tu. Por isso vou apropriar-me das tuas palavras, proferidas no início deste ano: “Não acredito que quem esteja em segundo ou em terceiro jogue melhor do que quem está em primeiro. As equipas que estão em primeiro são as melhores equipas”. Para o ano poderá ser diferente. Logo se verá. E nesse caso cá estaremos para felicitar o vencedor.

Mas por enquanto é só isto: obrigado, Jorge.

jj

O regresso à normalidade

Caro Rui,

Escrevo-te esta carta apesar de saber que não és adepto de grandes protagonismos. Para ti, a equipa está sempre à frente de quem quer que seja. Se havia dúvidas em relação a isso, elas ontem ficaram desfeitas. No final, depois de todas as polémicas e críticas, quanto te perguntaram pelo jogo, respondeste simplesmente que o mérito é da qualidade da equipa e dos jogadores. É isso mesmo. Um bom treinador não é aquele que chama para si a responsabilidade das vitórias e atira para os outros a culpa das derrotas. É ao contrário. É aquele que assume as culpas das más decisões quando um jogo corre mal e deixa para os verdadeiros ídolos os louros das vitórias. Sim, as estrelas do futebol são os jogadores. Basta olhares para as bancadas para o perceberes. Por mais polémicas em que se envolva, está para chegar o dia em que os adeptos benfiquistas vão entrar no Estádio da Luz com o nome de um treinador nas camisolas.

Ontem gostei de muitas coisas. Gostei de ver a equipa calma, sem entrar no desespero do balão para a área à espera de um ressalto que decidisse o jogo, gostei da paciência com que enfrentaram a pressão de uma equipa que não foi à Luz estacionar o autocarro e, quase sem me aperceber, gostei de uma coisa que há muito não via: já perto do final, a estatística dizia que o Benfica tinha feito cinco faltas contra 15 do adversário. Cinco faltas em 90 minutos – e uma delas que deu direito a cartão amarelo nem sequer existiu. Poderão dizer que somos uma equipa menos agressiva. Eu prefiro pensar que deixámos de ser um grupo de caceteiros e passámos a ser inteligentes na procura da bola. Talvez por isso tenhamos chegado ao fim do jogo e continuássemos a correr como se estivéssemos no início.

Gostei de ver o Lisandro López, que há vários anos era classificado de jogador sem nível para o Benfica, assumir-se como patrão da defesa ao lado do Luisão. Gostei da classe do Júlio César. Gostei (gosto sempre) do talento do Gaitán. Gostei do golo do Mitroglou (que deixou de parecer apenas um personagem do filme 300 para se tornar um ponta-de-lança a sério). Gostei da aposta no Nelson Semedo e claro, do golo do miúdo. Mas sabes do que eu gostei mesmo? Gostei de ver a forma como o Victor Andrade celebrou o terceiro golo da equipa. Vai lá ver as imagens. Elas dizem tudo. Está o Jonas a celebrar do outro lado do campo e vê-se o miúdo, sozinho, de punhos cerrados, cabeça erguida, a desferir um grito que parece um misto de revolta, alegria e concretização de um sonho. Ele tinha acabado de fazer um centro perfeito, de primeira, após um passe do Nélson Semedo (que celebrava da mesma maneira), que foi teleguiado para a cabeça do Jonas. Tal como o do Gaitan tinha ido para a cabeça do Mitroglou. Não foi por acaso que em vez de ir festejar com o Jonas, o argentino tenha sido o primeiro a ir felicitar o “menino”. Mais: ele voltou a repetir o festejo minutos depois, quando o amigo Nelson fez o 4 a 0 na jogada que ele começou. Como se ele próprio tivesse marcado.

Sim, é verdade. Os jovens jogadores do Benfica não precisam de nascer 10 vezes para ganharem um lugar na equipa. Precisam de quem lhes “faça o parto” e os faça crescer, devagarinho, passo a passo, etapa a etapa. Porque eles não são piores do que os carregamentos de estrangeiros que têm chegado ao clube ao longo dos anos. Apenas dão menos dinheiro a intermediários, empresários e agentes que fazem fortuna à conta do futebol. Mas têm uma coisa fundamental que os outros não têm: o amor ao clube que os educou como homens e jogadores e que se torna uma parte do seu próprio ADN. Isso é algo que não tem preço. É algo pelo qual vão ser sempre acarinhados e aplaudidos pelos sócios. Porque eles não são apenas mais um jogador que chega a caminho de um qualquer lugar. Eles são como filhos. Os filhos que todos nós temos ou gostávamos de ter e que após anos de viagens até ao centro de estágio concretizam o sonho de vestir a camisola da equipa principal.

Isso leva-me à última coisa de que gostei: as tuas palavras acertadas no final. Não vamos pensar que o “Nelsinho” e o Victor já são estrelas. Não são. Como bem disseste, ainda são “protótipos” de jogadores. Projectos que precisam de crescer e aprender para se afirmarem. É que, sabes, nós já estamos fartos de estrelas instantâneas que não vão a lado nenhum. Assim de repente vieram-me à memória o Pepe, o Hugo Leal, o Bruno Caires, o Edgar, o Akwa, o Mawete e até o Nélson Oliveira. Elevados a estrelas imediatas, acabaram por nunca ter direito a um lugar na história do Benfica. Talvez o último ainda tenha uma hipótese. Cabe-te a ti dá-la – e a ele, aproveitá-la. Agora, #rumoao35

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O Rúben devia ser capitão, mas está a treinar sozinho

O Jorge saiu? Ok, tudo bem. O Maxi quis ganhar mais? Tranquilo. O Lima foi vendido? Percebe-se. O Artur não renovou? Ninguém deu por isso. O Rúben Amorim está a treinar sozinho no Jamor? Pára tudo.

Um clube como o Benfica distingue-se pela forma como trata os seus. E o Rúben é um dos nossos. Além de um grande benfiquista é um jogador da casa. Foi formado no Benfica, dispensado, afirmou-se no Belenenses e quando chegou a hora de escolher entre as diversas propostas que tinha, decidiu voltar a casa. Foi em 2008. Nessa época foi titular em grande parte dos jogos. No ano seguinte foi campeão nacional e ganhou a Taça da Liga. Depois lesionou-se nos dois joelhos.

Já em Outubro, de 2011, durante um estágio da selecção nacional, teve um desabafo que lhe trouxe dissabores: criticou as escolhas do treinador Jorge que, na maior parte dos jogos, fazia a equipa sem um único português. E não era por eles não terem valor ou capacidade para serem titulares. A solução encontrada foi o empréstimo ao Braga (onde também ganhou a Taça da Liga). Curiosamente, durante o tempo em que esteve fora, o Benfica não voltou a ser campeão.

Regressou no início da época 2013-2014. Ano histórico, com a conquista do Campeonato, Taça e Taça da Liga. Faltou a Liga Europa. Em 2014-2015, voltou a ser campeão e a ganhar a Taça da Liga. É, portanto, um dos jogadores com mais troféus no actual plantel. Um dos mais experientes. Um dos que melhor conhece a casa. A famosa mística benfiquista, que lhe vem desde pequeno, e que tem de ser transmitida aos que chegam. É um dos que podia envergar a braçadeira de capitão.

O Rúben Amorim pode não ser um génio. Mas aos 30 anos está longe de estar acabado. Tem muito para dar ao Benfica. Aos mais novos. Aos estrangeiros. Um clube com a grandeza do Benfica distingue-se também pela forma como trata os seus. O Rúben é um dos nossos – e não merece ser tratado desta forma.

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Maxi: o emplastro, o golaço e a decisão

Caro Maxi,

Como estás concentrado na Copa América, não sei se tens lido os jornais e visto televisão. Desde ontem que a imprensa diz que te preparas para trocar a Luz pelo Dragão. Não sei se é verdade. Há cerca de semana e meia as mesmas notícias indicavam que tinhas renovado por três anos. Portanto, até à confirmação oficial, acredito que ainda não tomaste aquela que seria a pior decisão da tua vida.

O que não me impede de ter umas coisas para te dizer. Quando chegaste a Lisboa, no Verão de 2007, vinhas rotulado de extremo. Raçudo. Lembro-me de olhar para ti e pensar “este gajo não tem pinta de jogador, é parecido com o emplastro”. Os primeiros tempos pareciam confirmar essa ideia. Sim, eras raçudo. Mas de extremo tinhas pouco. A técnica não era a melhor. O drible não saia. Velocidade? Assim-assim. A cabeça? Sempre apontada para o chão. Confesso, era um sofrimento ver-te no lugar que já tinha sido de Vitor Paneira, Karel Poborsky e muitos outros.

Até que marcaste aquele golo contra o Milão. Golo, não, golaço. Fora da área, passaste a bola para o pé esquerdo, sim o esquerdo, e remataste ao ângulo. Estava atrás dessa baliza e, a partir daí, cada vez que olhava para ti lembrava-me desse golo. Cada vez que fazias uma asneira, lembrava-me do Dida, sentado no chão, impotente para travar aquele remate demolidor. Definitivamente, não eras um extremo. Mas tinhas qualquer coisa.

Acho que nessa época, o lateral direito titular era o Nélson. E quando ele foi vendido para Espanha, alguém teve a brilhante ideia de te colocar a jogar na defesa. Não eras brilhante a atacar. Mas tinhas tudo para ser bom a defender. Não desistias. Eras raçudo. E se fosse preciso desistir da bola para apanhar o jogador, estavas disposto a fazê-lo. Foi o melhor que te podia ter acontecido. Nessa altura não te apercebeste, mas estavas num momento determinante da tua carreira: ou continuavas um médio medíocre que acabaria num qualquer clube menor; ou te tornavas num lateral direito de eleição. Escolheste a segunda opção. Ou melhor, alguém escolheu por ti. No Benfica. O Benfica.

É por isso que és hoje, aos 31 anos, o lateral direito titular da selecção do Uruguai. É por isso que és, hoje, oito anos depois, um dos capitães do Benfica. Um dos jogadores mais queridos da massa associativa apesar de não seres um génio com a bola nos pés. És a prova de que o querer e a capacidade de trabalho conta tanto ou mais do que o talento para se ser um profissional bem sucedido. Ok, admito, nestes últimos anos, não houve muitos laterais talentosos a disputar contigo um lugar. Mas sabes porquê? Porque todos os treinadores sabiam que podiam estar descansados contigo. Tal como os adeptos. Sabiam que ias correr até ao último minuto, até que as pernas não aguentassem mais e que ias dar tudo pelo emblema que te pesava no peito. Mesmo que não fosse suficiente – como por vezes não foi.

Passaste a carregar aquilo que se chama de “mística” do clube. Não é só um dos mais velhos, como és um dos mais antigos. Em Portugal ganhaste tudo o que havia para ganhar. Pelo que tenho lido, o Benfica quer que continues e tu queres continuar. Já não é a primeira vez que isto acontece – e tal como há três ou quatro anos parece haver um empresário que está mais interessado nele próprio do que em ti. Lembras-te do teu amigo Christian Rodriguez? Pois.

É isso que te quero dizer. Tens 31 anos e duas opções. Continuares no clube que te deu tudo – e que te quer continuar a dar – ou optares por uma mudança. Percebo o que te vai na cabeça. Estás a aproximar-te do fim da carreira e tens uma agremiação a acenar-te com um salário milionário. Pelo que vem nas notícias, quer mesmo fazer de ti o jogador mais bem pago do País. Por isso, se achas que três milhões de euros por três anos não é suficiente para garantires o teu sustento para o resto da vida e que só o conseguirás fazer com oito milhões em quatro anos, aceita. Vai. Junta-te ao emplastro. Será como uma facada. Tornará este defeso ainda mais parecido com o Verão quente de 1993 – e as vitórias da época que aí vem ainda mais saborosas.

Nunca te esqueças. Uma agremiação será sempre uma agremiação e o Benfica será sempre o Benfica: o maior clube do mundo. Agora decide de que lado queres estar. No lado mau da força ou a lutar pelo #rumoao35

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O Rui e o Vitória

Caro Rui,

Espero que esta carta te encontre bem. Desculpa, não espero. Sei que te encontras bem. Acabaste de dar o maior passo da tua carreira. Imagino que estejas eufórico, entusiasmado, ansioso por começar a trabalhar. Espero que estejas demasiado ocupado com relatórios de jogadores, estatísticas e com o planeamento da próxima temporada que não te resta tempo para leres esta carta. Ainda assim, decidi escrevê-la. Porquê? Por isto.

Nesta altura os teus amigos devem estar todos a dar-te os parabéns e a dizer-te como as coisas vão correr bem. A maioria vai dizer-te que vais ganhar tudo no Benfica. Que vais ficar na história. Melhor, que vais fazer história. Eu não estou aqui para te dizer isto. Pelo contrário. Escrevo-te esta carta para que dizer que, provavelmente, as coisas não vão correr tão bem assim.

Os problemas vão começar logo no teu primeiro dia. Sei que sabes disso, mas nunca é demais lembrar. Chegas ao Benfica numa posição difícil: suceder ao treinador mais bem sucedido das últimas décadas. Muitos vão olhar para ti de lado. Alguns vão dizer que não tens currículo. Que és um nome fraco. Que ainda não provaste nada. Outros vão dizer que foste uma má escolha. Que a correcta seria ir buscar um nome consagrado ao estrangeiro ou contratar o Marco Silva. Aprende a lidar com isso.

Quando entrares pela primeira vez nos balneários, os jogadores mais antigos vão olhar para ti de uma de duas formas: como a segunda escolha que sucedeu ao treinador campeão; ou como o treinador que os vai voltar a fazer campeões. Não percas a oportunidade de os conquistar logo no primeiro dia. Ganha-lhes o respeito, conquista-lhes a lealdade. Não te esqueças: tu dependes mais deles do que eles de ti.

Quando entrares pela primeira vez no Estádio da Luz e o speaker anunciar o teu nome, vais ter uma das maiores ovações da tua carreira. Mas não te iludas. Esses aplausos iniciais não são para ti. São contra o teu antecessor. O ídolo que agora é adversário. Quando as palmas pararem, todos os olhos vão estar postos no banco. Todas as tuas opções vão ser escrutinadas. Até a tua postura vai ser analisada: gritas? Gesticulas? Corres? Mascas pastilha? Tira-la da boca e voltas a pô-la lá dentro? Usa essa atenção em benefício da equipa. Dá o peito às balas e protege os jogadores – eles farão o mesmo por ti.

Ao contrário dos últimos anos, os jogos da pré-temporada serão importantes. Eles vão marcar o ambiente com que vamos chegar ao início do campeonato. Não os descures, nem desvalorizes. Porque deles depende o que os jornais – e logo depois os sócios – vão dizer de ti. Deles depende a atmosfera com que vamos iniciar a competição: confiantes e dominadores ou nervosos e amedrontados. Uma onda transformada em tsunami ou um rio que está a perder o caudal.

Após os primeiros jogos, a tua cara vai aparecer em todos os jornais e televisões. Serás herói ou vilão. Serás o novo Mourinho ou o novo “Lotopegui”. Serão dedicadas dezenas de páginas às tuas opções. Serão dedicadas horas de antena às tuas decisões. E como já percebeste, terás sempre um fantasma a pairar sobre a tua cabeça. Ele chama-se Jorge.

Será com ele que vão ser feitas todas as comparações. As do passado e as do presente. Por jogadores, adeptos, dirigentes e comentadores. Vão comparar os resultados, as estatísticas, os golos marcados e os sofridos, a forma física, o estado anímico e um sem número de outras coisas relacionadas com a teoria da bola que serve para entreter as conversas de café. Não queiras ser ele. Sê tu próprio. Trata os jogadores com respeito e eles respeitar-te-ão. Trata os funcionários do clube com simpatia e eles farão tudo por ti. Partilha os méritos das vitórias e assume os erros das derrotas. Põe os interesses do clube à frente dos teus. Não te julgues mais inteligente do que todos os outros. Estabelece empatia com os adeptos porque vão ser eles a levar-te ao colo no estádio. Tem a humildade de reconheceres os teus erros, porque vais cometê-los – mas não insistas neles por teimosia.

No meio disso tudo, se puderes, espreita as imagens das festas dos últimos anos no Marquês e imagina-te lá daqui a um ano. Nessa altura já ninguém te irá tratar por Rui: serás o Vitória. Então sim, as palmas já serão para ti. Mas mesmo nessa altura, nunca te esqueças de uma coisa: no fim da linha, és apenas um treinador. Mais um dos que vão ter direito a algumas linhas na História do Benfica. Repito: a História do Benfica.

Como disse no início, preparas-te para dar o maior passo da tua carreira. Mas não é apenas isso. Provavelmente, este será o maior passo que alguma vez darás. Porque não há um clube maior do que este. Será difícil. Muito mais do que possas pensar ou eu te possa dizer. Mas isso também significa que pode saber melhor. Espero que fiques muitos e bons anos. Será um bom sinal. Para ti – e, sobretudo, para nós. #rumoao35

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Jorge Jesus e o Benfica

Caro Jorge,

(Ia chamar-te Jesus mas agora que pareces estar prestes a trocar as forças do bem pelas do mal estás a perder a tua divindade)

Entraste como um furacão. Na tua primeira conferência de imprensa com o símbolo sagrado ao peito prometeste que, contigo, o Benfica ia jogar “pelo menos o dobro”. Tinhas razão. Contigo, o Benfica não jogou apenas o dobro. Jogou o triplo, quem sabe o quádruplo. Naquela época de 2009/2010 a onda vermelha varreu os campos do país como um rolo compressor. O Cardozo parecia um velocista. O Di Maria finalmente explodiu. O Aimar, bom, era o Aimar. O Saviola voltou à vida. Havia ainda o Ramirez, o Luisão, o Maxi, o David Luiz, o Nuno Gomes e outros. Talvez um dos melhores planteis dos últimos anos. Mas não importa. Tu eras o capitão aos comandos do navio. Melhor: o comandante aos gritos no navio. Confesso que sempre me fez impressão a forma como falavas – ou melhor insultavas – com jogadores da craveira de Aimar e Saviola. Mas não importava. A equipa ganhava. Ganhou.

O teu segundo ano já foi diferente. Ainda antes de o campeonato começar, já mostravas o que podia acontecer: com uma proposta daquele clube cujo nome não deve ser mencionado, obrigaste o presidente do Benfica a aumentar-te o salário para os famosos quatro milhões. Nos bastidores futebolísticos consta mesmo que falaste com Pinto da Costa, com o telefone em voz alta, à frente de Luís Filipe Vieira. O presidente do Benfica, com medo de repetir o erro de Manuel Vilarinho  com Mourinho, cedeu. Tornou-te o treinador mais bem pago da história do futebol  português. Mas tu não eras o mesmo. Primeiro perdeste a equipa. Começaste a fazê-lo quando trataste de forma inacreditável o guarda-redes titular da equipa. Chama-se Quim, lembras-te? Dispensaste-o para contratar um que “desse pontos”. Chamava-se Roberto, lembras-te? Ora o Quim era um elemento querido no plantel. Respeitado. Alguém que nunca abriu a boca em protesto apesar de todos os insultos que foste fazendo ao seu profissionalismo. Fizeste também umas maldades ao Nuno Gomes, outro de quem nunca ouviste uma crítica. Os jogadores percebem essas coisas. Tu gritavas, mas eles já não te ouviam. Nem respeitavam. Todos sabemos o que aconteceu nesse ano. Incluindo a eliminação humilhante da Taça de Portugal, em casa, que meteu uma festa do adversário às escuras.

No teu terceiro ano voltaste a falhar. Mas no quarto reinventaste-te. Prometeste uma época de sonho. Campeonato, Taça, Taça da Liga e Liga Europa – sim, porque a Liga dos Campeões nunca foi contigo. A equipa, renovada, jogava que se fartava outra vez. Prometeste ganhar o campeonato – e ajoelhaste-te no Dragão. Prometeste a Liga Europa – e falhaste outra vez. Prometeste a Taça de Portugal – e foste empurrado pelo Cardozo. Nessa altura tiveste um grande mérito: resististe aos insultos, aos palavrões, aos empurrões para sair. Ficaste. Renovaste o contrato. Resististe. E mostraste a todos que és um belo treinador. No ano seguinte voltaste a todas as finais em que tinhas estado e só perdeste a Liga Europa – outra vez. Calaste tudo e todos. Com a mesma equipa.

Este ano temia-se o pior. Saíram muitos jogadores bons, entraram outros de qualidade duvidosa. Mas tu definiste um objectivo – a conquista do bicampeonato – e conseguiste-o. Tudo o resto ficou para segundo plano. Com uma competência interna que nunca tinhas mostrado. Pela primeira vez em seis anos, não perdeste um jogo com os principais rivais. Um mérito que ninguém te tira. Tal como os 10 títulos em seis anos.

Foram anos bons. Contigo aos gritos no comando, o Benfica voltou ao lugar que é seu por direito. Esse mérito ninguém te tira. Independentemente de, nestes seis anos, o Benfica ter tido os melhores jogadores das últimas duas décadas. Independentemente dos autocarros de atletas que chegaram da América do Sul e que tão depressa apareciam como desapareciam. Independentemente de nunca teres apostado num único jogador da casa. E não, o André Gomes não é exemplo porque, contigo, raramente jogava. Independentemente dos gestos deselegantes que foste tendo e que não dignificam o clube: recordas-te dos cinco dedos apontados ao Manuel Machado? Recordas-te da cena insólita em Guimarães? Recordas-te dos três dedos ao treinador do Tottenham? Recordas-te de tentares aprender inglês porque querias ir para uma grande equipa europeia?

Todos os anos, no Verão, era a mesma coisa: sucediam-se as notícias de que ias para o Chelsea, Real Madrid ou Manchester City. Afinal, vais ali para o outro lado da Segunda Circular. Talvez vás ganhar mais dinheiro, talvez vás para o teu clube do coração. Mas o que te quero dizer é apenas isto. Afinal, vais para pior.

Saíste como entraste. Como um furacão. Agora, os sportinguistas que te insultavam vão idolatrar-te. Os benfiquistas que te idolatravam vão insultar-te. Os que gozavam com a tua forma pouco ortodoxa de lidar com o português vão defender-te. Os que te defendiam, vão gozar-te. Aqueles que toleravam a tua presença porque tinhas uma aura vitoriosa vão lavar a roupa suja em público. Os que diziam mal de ti sem tu saberes vão dar-te palmadinhas nas costas. É pouco racional, mas é a natureza humana quando aplicada ao futebol.

No fim da linha és só um treinador. Mais um dos muitos que passaram pelo clube. Sim, os últimos seis anos foram mais bons do que maus. Pelos vistos, acabaram. Mas só para ti. Perguntas-me se estou triste com a tua partida? Nem por isso. Sabes, é que o Benfica é maior do que qualquer treinador. Tu terás o teu lugar na história, no museu do clube. Mas nunca terás uma estátua à porta do estádio. #rumoao35

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Um ano sem o King

Portugal sem Eusébio, ano um.

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