O problema de ter memória: a lenda dos milagres de Jesus

Nos últimos tempos, as palavras que mais temos ouvido dos jogadores que chegam ao Benfica é “quero aprender com o mister Jesus” ou “quero crescer com Jesus”. Foi o que disse Bebé, o mais recente reforço benfiquista, depois de quatro anos emprestado pelo Manchester United, onde se celebrizou pelos cruzamentos para a bancada. Mas não é isso que interessa. O que é verdadeiramente importante é que foi criada à volta de Jorge Jesus uma aura milagrosa de formador e potenciador de talentos futebolísticos. Chamo-lhe o síndrome Coentrão. Diz a lenda que, de fracasso em potência, o Fábio de Caxinas transformou-se no melhor lateral esquerdo português. Graças a Jesus. É o que diz a lenda. Mas a lenda não resiste à memória. Nem aos factos.

Em 2009/2010, Jorge Jesus não queria Fábio Coentrão no plantel. O destino era um novo empréstimo. À sua frente, para o treinador, estavam César Peixoto, Jorge Ribeiro e até David Luiz. Terá sido Luís Filipe Vieira a obrigar o técnico a ficar com a jovem promessa portuguesa. O seu destino: o banco ou a bancada. Até que, numa determinada fase da época, os dois laterais e o central estavam lesionados. E Jesus foi obrigado a colocar Coentrão em campo. Correu bem. E Jesus – como sempre acontece quando as coisas correm bem – reclamou os louros. Nascia a lenda da aura milagrosa de potenciador de talentos.

O problema é que, mais uma vez, a lenda não resiste a um exercício de memória. Eu ainda me lembro quando Jesus disse que ia fazer de Yannick Djaló um grande jogador. Alguém sabe onde ele joga hoje? Mas depois de me lembrar do ex-marido de Luciana Abreu resolvi fazer um exercício de memória. E encontrei um camião de talento que Jesus contratou mas não foi capaz de transformar em jogadores de futebol. Preparados? Respirem fundo:

Éder Luís, Keirrison, Roberto, Jara, Élvis (quem?), Carole, José Fernandez (quem?), Leo Kanu (quem?), Derlis Gonzalez (quem?), Bruno César, Wass (quem?), Rodrigo Mora, Melgarejo, Nuno Coelho, Roderick, Mika, Capdevilla, Júlio César, César Peixoto, Shaffer, Airton (quem?), Filipe Menezes, Weldon (quem?), Kardec, Fábio Faria, Yannick Djaló, Urreta, Olá John, Luisinho, Sidnei, Émerson, Luís Martins, Lisandro Lopez, Steven Vitória, Stefan Mitrovic (quem?), Bruno Cortez, Victor Nilsson-Lindelof (quem?), Filip Djuricic, Luís Fariña, Diego Lopes, Michel (quem?) e Funes Mori.

Pronto, confesso. Não me lembrava de todos. A internet é uma coisa maravilhosa. Muitos nem chegaram a vestir o manto vermelho. Simplesmente desapareceram. Ou andam por aí. São 42. E posso ter-me esquecido de algum. Acredito que os contratados deste ano – César, Loris Benito, Djavan, Talisca, Luís Filipe, Eliseu, Victor Andrade, Derley e Bebé – também querem “crescer” com Jesus. Vamos ver onde estarão no fim do ano. Se se juntam ao camião de talento ou se se tornam a excepção.

Foto: Lindsey Parnavy/EPA

Foto: Lindsey Parnavy/EPA

 

Jorge Jesus e os três dedos mostrados ao treinador do Tottenham

Jorge Jesus dá hoje uma entrevista ao Sol, que faz a capa da revista Tabu. É uma leitura imperdível para quem quer conhecer melhor o treinador do Benfica: no futebol e fora dele. Tem também o grande mérito de ser lida e dar a sensação de que JJ está a falar directamente com o leitor. Há várias partes da destacar – sobretudo aquela em que ele diz que no final da época passada teve tudo acertado com aquele clube cujo nome não deve ser mencionado e que só não saiu do Benfica por causa de Luís Filipe Vieira e de dois jovens sócios -, mas não resisto a partilhar a descrição que ele faz do “incidente” com o treinador do Tottenham, Tim Sherwood, durante o jogo do Benfica em Londres.

“Sabia que o André [Vilas-Boas] tinha sofrido com ele e tinha-lhe dito: ‘Se eliminarmos o Tottenham, vou-lhe chegar a roupa ao pêlo na conferência de imprensa’. Ia dizer que o Tottenham jogava muito mais com o André, que agora era zero tacticamente. Já tinha isso na minha cabeça e, durante o jogo, entrei sem querer no espaço dele. Olhou-me assim de cima para baixo, à inglês, como quem diz ‘ouve lá, portuga, o teu lugar é ali, põe-te ali quietinho que tu és muita pequenino’. Percebi aquele olhar e a seguir entrou ele no meu espaço. Então disse-lhe para saír dali. ‘Back, back, back’. Mas ele aguentou-se e ficou ali comigo. Fiquei com aquilo na cabeça e, quando marcámos o golo, nem sei porquê, foi instintivo, fiz aquele gesto da dança. Como quem diz: ‘Tás a levar um baile e não tás a ver nada’. Isto aconteceu no um a zero e lembrei-me que ainda faltavam muitos minutos, que ainda não tinha acabado. E virei-me ao contrário: ‘Tá mas é caladinho que isto aindap ode mudar.’ Quando fizemos o três a um é que lhe disse: ‘My name is André. One, two, three’. E aí ele ficou louco: ‘Fuck you’. E eu: ‘Fuck a p…’ bem, disse-lhe tudo e o árbitro ali no meio de nós. Mas eu estavaa ganhar; por isso estava tranquilo. E pensei: ‘Este gajo vai dar-me um soco’ Mas não. Ele é um atrevido, atenção. Fiquei a gostar dele. Num jogo depois desse, do campeonato inglês, o Tottenham ganhou 3-2 após ter estado a perder 2-0 e dei umsalto quando fizeram o três a dois.

Porque ficou a gostar dele?

Porque o achei um homem destemido. Não teve medo nenhum de mim. Se fosse preciso dar-,e uma cabeçada ali, dava-me. O que ele estava a dizer era: ‘Não tenho medo nenhum de ti. Estás a levantar cabelo e daqui a um bocado ainda te bato’. Gosto de gente assim.”

É de homem. Foi isto:

O esloveno honesto e o português matreiro

Ao fim de duas horas todos os olhos estavam postos neles. No gigante esloveno e no baixote português. O primeiro, vestido de amarelo, com o número 41 nas costas, parecia um bloco de gelo. Passou os 120 minutos anteriores a resolver o que lhe aparecia pela frente como se estivesse num treino. Nada de especial. O segundo, vestido de laranja, com o 13 estampado no equipamento, era o oposto: cabelo espetado, ar rebelde, esteve duas horas a defender tudo e mais alguma coisa. A cada bola afastada da baliza soltava gritos de raiva que contagiavam a equipa. E agora estavam ali os dois. Não frente-a-frente, mas prestes a enfrentar a toda a equipa adversária.

No primeiro penálti, o baixote português, tirou as medidas ao árbitro. Quando Lima corria para a bola deu uns passos discretos para a frente. A bola entrou. Mas ele, matreiro, percebeu com o que podia contar. A seguir, foi a vez do esloveno honesto pisar a linha de baliza. Diz a lei do jogo que, num penálti, o guarda-redes não pode afastar-se daquela marca antes de a bola ser pontapeada. E o gigante de amarelo assim fez. Posicionou-se, adivinhou o lado para onde a bola ia, atirou-se, mas não chegou lá. Um a um.

Depois, o baixote português enfrentou outro gigante, mas paraguaio. Só que tinha um truque na manga. Quando Cardozo avançava para a bola ele aproveitou a corda que o árbitro lhe tinha dado e deu um passo para a frente e para o lado. Depois outro. E outro. Ao terceiro, já estava mais de um metro à frente da baliza e com isso conseguia reduzir o ângulo de remate. Assim, mesmo sendo baixote, era-lhe possível chegar a qualquer ponto da baliza. Atirou-se para o lado direito. E com uma mão afastou a bola. Depois foi para a zona lateral ver o esloveno honesto adivinhar outra vez o lado para onde o remate seguiu. Mas como não saiu da linha, mesmo sendo um gigante, não lhe conseguiu chegar.

Ao terceiro penálti, o baixote português sabia que podia fazer o que quisesse. Voltou a dar um, dois, três passos para a frente. Desta vez atirou-se para a esquerda e defendeu um novo remate. Cerrou os punhos, virou-se para os adeptos e gritou como se fosse um toureiro espanhol. Quando o gigante de amarelo continuou a cumprir as regras e a ver o adversário marcar, pela quarta vez, o baixote vestido de laranja foi abraçado pelos companheiros. Continuo a gostar mais do esloveno honesto. Mas foi o português matreiro quem levou a taça.

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Está na hora de acabar com a maldição. Hoje.

Não acredito em maldições. O máximo a que consigo chegar é à classificação de azar quando uma bola bate na trave e não entra na baliza. Ou à de sorte quando acerta em três jogadores, faz um efeito esquisito e dá três voltas antes de se desviar do guarda-redes e ultrapassar a linha de golo. Maldições? Não. Mas parece que há muita gente que acredita. Há demasiado tempo. 

Isto porque há 50 anos um talentoso treinador húngaro terá dito que nos próximos 100 anos o Benfica não voltaria a ganhar uma competição europeia. No Portugal salazarento da triologia Fado, Futebol e Fátima, a expressão “a maldição de Bélla Guttmann” pegou. E ganhou força à medida que o maior clube do mundo foi perdendo finais à velocidade da luz. Ao todo, em nove presenças no jogo decisivo, o Benfica só ganhou duas. Nenhuma depois da suposta maldição. E está na hora de isso acabar. Hoje. Com talento, garra, competência e ambição.

Mas até para quem acredita em sinais e maldições esta é a altura certa. Vejamos.

  • Primeiro, tal como em todos os jogos este ano, vamos ter 11 Eusébios em campo e mais uns quantos no banco. E quando assim é o adversário não tem hipótese. Nenhum adversário.
  • Segundo, para além de ser conhecido por matar dragões, São Jorge é também padroeiro de Portugal. Não é por acaso que D. Nuno Álvares Pereira acreditava que tinha sido ele, o santo, o responsável pela vitória dos portugueses frente aos espanhóis na batalha de Aljubarrota. Ora, nós temos um treinador que pode não ser santo mas é Jorge e um adversário espanhol. Nem vai ser preciso uma padeira.
  • Terceiro, para acabar com a suposta maldição de um treinador chamado Bélla Guttmann (que raio de nome é esse?) não haverá melhor do que um treinador que além de (S.) Jorge também se chama Jesus. Preocupava-me, sim, uma maldição de alguém com o nome do filho de Deus. Agora de um Guttmann? Não tem hipótese.

Tragam mas é a Taça e não se fala mais nisso. Pelo King. Por vocês. Por nós.

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Está na hora de matar o borrego

Olá rapazes,

No próximo domingo vocês vão ter o jogo das vossas vidas. Não é contra o Real Madrid. Nem contra o Bayern de Munique. Nem sequer contra o Barcelona. É contra o Olhanense. Sim. Contra a equipa que ocupa o último lugar do campeonato, que tem menos 41 pontos que vocês, mais 28 golos sofridos e menos 36 golos marcados. O Olhanense. Ainda assim, esse é o jogo das vossas vidas.

Não sei o que o Jorge Jesus vos vai dizer antes de entrarem em campo. Não sei se vos vai mostrar algum vídeo. Presumo que vá falar do adversário. Das qualidades e das fraquezas. Dos pontos fortes e das vulnerabilidades. Mas eu gostava mesmo é que ele vos mostrasse algumas imagens em vídeo. Não estou a falar das obras de arte Markovic e do Gaitan. Da técnica superior do Enzo. Dos cortes e golos do Luisão e do Garay. Das arrancadas portentosas do Salvio e do Rodrigo. Da artilharia do Lima e do Cardozo. Das defesas do Oblak e do Artur. Da maravilha do André Gomes.

O que eu gostava mesmo que ele vos mostrasse eram as imagens do golo do Kelvin. Do vosso treinador de joelhos. Da cabeçada do Ivanovic. Das lágrimas do Enzo, do Rodrigo e do Artur. Do desespero do Cardozo. Dos milhares de pessoas que vos seguiram pelos estádios do país e que acabaram lavadas em lágrimas devido à desilusão do ano horrível de 2013. Gostava que revivessem no vosso interior cada um daqueles momentos. Para vos lembrar aquilo por que passaram. Por que nós passámos. E não queremos voltar a passar.

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Gostava que ele vos mostrasse as imagens de Eusébio. O homem que se tornou um mito. Um símbolo do querer, da vontade, do sacrifício e do talento que faz com que essa camisola vermelha só possa ser merecida por alguns. O único homem que teve direito a uma estátua em frente ao estádio e por quem vocês usam essas faixas negras no equipamento. Porque, onde quer que esteja, ele vai estar a olhar para vocês junto a nós. Nós que vamos estar nas bancadas, em frente ao televisor ou com os ouvidos colados à rádio. Sim, no domingo, às 18h, um pouco por todo o mundo, milhões de pessoas vão estar de olhos postos nos ecrãs de cachecóis enrolados ao pescoço e com o coração nas mãos à espera daquele momento em que vamos poder saltar, gritar e chorar de alegria com um ano de atraso.

Mas para isso é preciso que vocês, os nossos soldados, vençam mais uma batalha. Já o fizeram vezes sem conta este ano. No início da época, contra tudo e contra todos, vocês foram capazes de se levantarem das cinzas e voltar a voar até ao lugar que é nosso por direito. Sim, nosso. Dos adeptos. Nós que todos os anos, jogo após jogo, enchemos o estádio. Nós que percorremos quilómetros e guardamos horas da nossa vida para vos ver usar essa camisola vermelha. Nós que nos emocionamos em frente ao televisor com uma jogada, um golo, uma vitória. Nós que passamos noites em claro quando as coisas não correm bem. Nós que passamos horas em filas para comprar bilhete para os grandes jogos. Nós que gastamos parte do nosso salário para pagar quotas. Nós que vos vamos aplaudir à saída do centro de estágio. Nós que vos vamos apoiar durante um treino. Nós que vos pedimos um autógrafo ou uma camisola. Nós. Os adeptos.

Ontem foi mais um exemplo do que acabei de dizer. Quando alguns julgaram que tinham voltado a cair no tapete, vocês deram uma enorme demonstração de talento e alma. E nós, nas bancadas em casa, nos cafés ou nos automóveis, nunca deixámos de vos apoiar. Nunca desistimos. Porque um benfiquista nunca desiste. Mesmo quando está em causa apenas um jogo. Sim, porque ontem não se passou nada de especial. Foi apenas mais uma partida. Ganhámos e isso significa que vocês vão ter mais um jogo pela frente. Para lutar. Por vocês. Por nós.

No domingo é diferente. Tudo aquilo por que, vocês, nós, passámos trouxe-nos aqui. Às 18h do próximo domingo de Páscoa. Durante 90 minutos vocês vão ter a possibilidade de ficar na História deste grande clube. De serem recordados para sempre como parte de um todo. Como os soldados de uma nação. Não percam esta oportunidade. A História está a passar à vossa frente. Vão agarrá-la. Por vocês. Por nós.

O Benfica e o Capitão que não devia estar fora de jogo

Olá Capitão,

Vi a reportagem que a SIC emitiu sobre ti na semana passada com um aperto no coração. Chamaram-lhe Fora de Jogo. É um bom título. Mas demorei quase uma semana a digeri-la. Não só por ti e pelo dramatismo a situação em que te encontras. Mas também pela forma como o meu clube tem tratado os poucos símbolos que lhe restam.

Vi-te com uma profunda tristeza. Recordo-me bem de ti. Da forma como honravas aquela camisola. Do teu ar altivo e imponente. E como te tornaste o “eterno” dono do número 2 ao longo de 15 anos. De certeza que não eras dos mais bem pagos do plantel. Mas não passavas necessidades. Pelo contrário. O dinheiro que ganhaste nesses anos dava para teres uma vida perfeitamente desafogada. Infelizmente acreditaste em pessoas que se diziam tuas amigas. Diziam. Não eram. A prova está à vista.

Tiveste ainda um azar supremo: foste uma vítima de um ser chamado Artur Jorge que afastou todos aqueles que podiam ter algum peso no clube. Naquela época chamavam-lhe mística. Hoje poucos sabem o que isso é. Ainda regressaste ao clube com o teu amigo Toni. Mas claro que não durou. Nem chegou.

Ao contrário do que acontece, por exemplo, naquela organização de malfeitores do norte do país, o Benfica nunca se celebrizou por tratar bem as velhas glórias. Os seus símbolos. Até o King enfrentou um período difícil. Lá no norte, alguns antigos jogadores, alguns, aqueles com história, acabam por ser integrados na estrutura do clube. Seja nas camadas jovens ou na equipa principal. Para além dos ensinamentos práticos, transmitem um modo de estar no futebol – no caso deles, o pior de todos, claro. Mas isso não importa.

Tu foste um dos últimos jogadores do Benfica que podia ostentar o título de símbolo. E deixaste de jogar há quase 20 anos. Depois de ti só três outros futebolistas poderiam chegar ao teu estatuto: João Vieira Pinto, Rui Costa e Nuno Gomes. O primeiro foi durante muito tempo o nosso “menino de ouro”. Mas foi expulso do clube por um malfeitor que conseguiu chegar à presidência e cujo nome não deve ser pronunciado. O segundo é o último verdadeiro produto da formação. Na verdade passou poucos anos de sénior no clube. Mas nunca escondeu o benfiquismo, acabou cá a carreira e, apesar de ter sido diversas vezes usado pela actual direcção como escudo protector, mantém um lugar na SAD. O último teve um azar semelhante ao teu: foi maltratado por um treinador que tem um qualquer problema com os jogadores portugueses e acabou por sair por uma porta que não era aquela que ele merecia.

Numa época em que a falta de referências para os jovens jogadores é tão grande, a presença de símbolos como tu é fundamental para aquilo que parece estar na moda: o desejo de ascensão de jogadores portugueses. Porque símbolos como tu sabem o que é preciso fazer para lá chegar. E podem transmitir aos mais novos o orgulho que é vestir aquela camisola vermelha.

Se eu fosse presidente do Benfica, em vez de dizer que tu não pediste ajuda, no dia seguinte à emissão da reportagem estava tocar à campaínha da tua casa (ou a telefonar-te, pronto) para te perguntar o que querias fazer. Porque não é por teres ido umas vezes ao estádio ali do lado ver os jogos do teu filho, que acabou por te abandonar, que o teu passado pode ser apagado. Para citar um benfiquista respeitável, tu foste daqueles poucos jogadores que honraram a camisola do Benfica tanto quanto ela te honrou a ti. Erros todos cometemos. E quem pode censurar-te por apoiares o rapaz, teu filho, que foi desdenhado pelo nosso clube? Eu não. Para mim nunca serás apenas o António Veloso. Serás sempre “O Capitão”. O último da tua espécie. E o teu lugar é no Estádio da Luz. Dentro do jogo. 

Eu e o King. Porque todos temos uma história com os nossos heróis

Olá King,

Foda-se. Morreste. Não posso dizer que tenha sido uma surpresa. Mas mesmo assim: foda-se. Morreste. Ontem de manhã, quando soube da notícia, fiquei sem reacção. Como muitos, fui seguindo o desfile de personalidades e declarações que surgiam em catadupa nas televisões. Umas atrás das outras. Todos pareciam ter alguma coisa a dizer. Uma história para contar. Como li hoje escrito por aí, é isso que distingue os heróis. Todos temos uma história com eles para contar. Mesmo que não os tenhamos conhecido ou com eles privado. E se dúvidas houvesse, elas acabaram: tu és um deles. Dos bons. Dos heróis.

Sim, também eu tenho histórias contigo. Nenhuma é de um grande feito. E tenho a certeza que tu, onde quer que estejas, não tens a mais pequena memória delas. São histórias de um miúdo que aos fins-de-semana ia para a catedral assistir aos jogos e que lá chegava com muita antecedência. Um miúdo que ia com o tio, que era o médico do Benfica, a tia e o primo mais novo. Um miúdo que adorava aquela sensação de poder atravessar o gradeamento por onde poucos passavam e entrar no estádio pela porta principal. Depois esperava. Pelos jogadores. Pelos treinadores. Por ti.

Tu chegavas sempre com o teu sorriso humilde e cumprimentavas-nos. “Como está doutor?” “Olá miúdo, estás bom?”. Eu lá abanava a cabeça. Eras o Eusébio. E estavas a falar comigo. Como podia dizer que não? Nunca te vi jogar. Ao vivo, pelo menos. Mas ouvi vezes sem conta a descrição da forma como corrias, como inclinavas o corpo para a frente quando rematavas a bola, como a tua perna ficava esticada a apontar para a baliza, como deixavas os braços perfeitamente equilibrados junto ao corpo, como os teus remates tinham uma potência incrível numa época em que as bolas de futebol, molhadas, deviam pesar uns três quilos – ao contrário dos balões com que hoje se joga futebol.

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Durante anos guardei uma bola do Benfica onde, junto ao símbolo, só havia espaço para um único autógrafo: o teu. Os dos outros jogadores da equipa estavam à volta. Guardei-a até o passar dos anos vencer a teimosia da tinta e as assinaturas desaparecerem. Mas havia um motivo para a tua ser a única junto ao símbolo da águia. Foi graças a ti, acima de todos os outros, que o Benfica, o meu clube, se tornou no maior clube do mundo. Que me fez chorar de alegria e de tristeza. Me fez celebrar. Por isso, mesmo sem te ter visto jogar, foi também graças a ti que festejei bastante.

Mas isso agora não importa. Acho que os meus amigos nunca acreditaram muito quando lhes contava que tinha estado contigo. Nem mesmo quando lhes descrevia que tinhamos ido jantar a um restaurante chamado “Petiscaqui” e nos tínhamos sentado na tua mesa. Ouvia-te com atenção contar histórias do tempo de jogador ou de quando tinhas ido com o Benfica a qualquer lado. Normalmente acabavam com uma gargalhada. Comias bem. Bebias melhor. Pedias sempre mais picante. Jindungo, de preferência.

Naqueles anos tu fazias parte da equipa técnica do Benfica. Alternavas entre adjunto e treinador de guarda-redes. E mesmo com mais de 40 anos batias aos pontos muitos dos avançados que faziam parte da equipa. Na potência de remate. Na colocação. No jeito. Hoje, quem revê os teus golos percebe facilmente porque eras idolatrado. Está lá tudo. A força, a garra, a alegria, a forma como festejavas todos os golos como se fosse o mais importante da tua vida. Em campo, tudo em ti era puro. Como se a beleza do futebol assumisse uma forma humana. Muito diferente dos ídolos de hoje, em que a humildade foi substuída pela arrogância. Em que o prazer da vitória foi trocado pela satisfação da derrota do adversário. Tu, mais do que qualquer outro, querias ganhar. Mas eras capaz de o fazer e, ao mesmo tempo, aplaudir uma defesa do guarda-redes adversário. Da bancada via-te sentado em todos os jogos ao lado do banco de suplentes. Tinhas o teu lugar reservado. A tua toalha branca sempre a postos. Só a tua presença deixava os adversários em sentido.

Durante muitos anos não te voltei a ver. Sim, ouvi muitas histórias tuas. Algumas boas. Muitas más. Bastantes, verdadeiras. É um lado teu que, mais tarde ou mais cedo, terá de ser contado. É inevitável. Porque todos os heróis tem um lado negro. E o teu era bastante. Ainda assim, hoje, o que importa é recordar o lado bom da força. E essa, tinhas muita. A última vez que voltei a estar contigo foi em 2008, na Suíça. Portugal tinha acabado de ser eliminado pela Alemanha no Campeonato Europeu. Eu desci para a zona mista e quando estava a chegar vi um vulto a cair e a apoiar-se num automóvel. Eras tu. Corri, ajudei-te a levantar e a encostar ao carro e, instintivamente, tratei-te como muitos dos que te eram próximos faziam: “King, estás bem?”

Lembro-me que olhaste para mim com uma expressão de desespero enquanto passavas a mão pela perna. Explicaste que tinhas muitas dores no joelho esquerdo por causa das operações e que às vezes as forças faltavam. Eu disse que sabia e não resisti em contar-te a minha história contigo quando era miúdo. E tu sorriste. Como se te lembrasses mesmo de mim. Perguntaste pelo meu tio, como ele estava e pediste-me para lhe enviar um abraço. Não sei se o cheguei a fazer. Provavelmente, não.

Nos últimos anos, as notícias que me chegavam sobre ti eram quase sempre más. Os internamentos sucessivos deviam ter-nos preparado para isto. Mas nada prepara. Morreste. Foda-se. Só hoje, quando vinha para a redacção, que fica junto ao estádio, é que caí em mim. Foda-se. Morreste. As milhares de pessoas que estavam à volta do estádio provavam-no. Tal como os cachecóis, bandeiras e flores deixados junto à tua estátua. Foda-se. Morreste.

À hora de almoço, como muitos, acabei por ir ao estádio despedir-me de ti. Durante a tua última volta à Catedral lembrei-me de muitas coisas. Algumas deixo-as aqui. Sei que não têm importância nenhuma. Mas deixo-as na mesma. É que, mais uma vez, é isso que define os heróis: as pequenas histórias que temos com eles; as lágrimas derramadas por estranhos. Ao cumprires o teu último desejo nós batemos palmas. Gritámos o teu nome. Cantámos o hino nacional. Chorámos. E entoámos o hino do Benfica. Porque tu mereces. Mas sabes uma coisa? Dificilmente a letra e a voz do Luís Piçarra voltarão a soar tão tristes como hoje. Morreste. Foda-se. O King morreu. Viva o King.

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