Jorge Coelho, a entrada na maçonaria e a desilusão

Jorge Coelho é dos políticos mais influentes dos últimos 20 anos. Sim. É. Como em continua a ser. Ainda hoje tem uma capacidade de interferir em decisões das mais altas esferas do país que não está ao alcance de muitos. Por isso, o Fernando Esteves passou os últimos anos a investigar e a reconstruir a vida de um homem que para muitos continua a ser um mistério. Da infância à entrada na política, da passagem por Macau à doença que quase o matou, da maçonaria ao mundo dos negócios. Está lá tudo. O Todo-Poderoso é um livro incontornável para se conhecer não só o homem como também os bastidores de muitas decisões que influenciaram o país – incluindo a forma como José Sócrates chegou à liderança do PS. Digo isto com especial orgulho: para além de trabalhar com o Fernando há mais de 10 anos, ele é um dos meus amigos mais próximos. Talvez por isso me tenha permitido publicar aqui um dos capítulos da sua obra: sobre a entrada de Jorge Coelho na maçonaria. Leiam, avaliem e comprem. Vão ver que vale a pena.

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“Capítulo XIII

O MERGULHO NA MAÇONARIA

Sentado numa câmara exígua e sombria, Jorge Coelho reflectia. Olhava para as caveiras humanas desenhadas nas paredes gastas da sede do Grande Oriente Lusitano (GOL), em Lisboa, enquanto tentava encontrar as palavras certas para registar os seus últimos pensamentos na qualidade de membro da sociedade «profana». Tinha sido conduzido à sala com os olhos vendados, depois de ter sido obrigado a dar várias voltas pelo palácio maçónico. As curvas e contracurvas confundiram‑no ao ponto de não saber exactamente onde se encontrava. Era esse o objectivo. Se quisesse fugir, não sabia para que lado correr. Restava‑lhe continuar.

Tinha alguns minutos. Sistematizou ideias. Avançou para a folha em branco. Colou a ponta da caneta ao papel e fez o que tinha a fazer. O momento em que finalmente assinou o «testamento maçónico» simbolizou a sua morte profana. O mestre‑de‑cerimonias – uma espécie de mordomo numa loja maçónica, encarregado de fazer cumprir escrupulosamente o ritual – surgiu à porta. Pediu‑lhe o testamento. Precisava de o partilhar com os seus irmãos, no sentido de perceber se Jorge Coelho reunia condições para ser aceite na família maçónica. Seguiram‑se mais uns instantes de reclusão. Até que o mestre‑de‑cerimonias voltou ao seu encontro.

Minutos depois, novamente de venda negra a cobrir‑lhe os olhos, com a perna esquerda das calças arregaçada e uma parte do peito completamente exposta, Jorge Coelho conseguia apenas distinguir sons, vozes e instruções dadas pelo Venerável Mestre – que presidia à cerimónia – da loja a que estava prestes a aderir como aprendiz. O cenário era intimidatório.

Na derradeira prova antes de poder ser membro de pleno direito do GOL, fizeram‑no dar três voltas completas ao templo. Sempre acompanhado pelo mestre‑de‑cerimonias, superou o teste. Pelo caminho, teve de ouvir barulhos violentos de espadas contra o chão e de malhetes a martelar em madeiras. Sentiu o calor do fogo nas mãos e a temperatura fria da água no corpo. Já com os percursos feitos – sempre da esquerda para a direita da loja, que é como quem diz das trevas para a luz –, mas ainda de olhos vendados, foi conduzido ao altar. Estava na altura de ser finalmente iluminado pela figura do Venerável. Tiraram‑lhe a venda.

O cenário era impressionante: dezenas de homens ornamentados com aventais de cores e disposições variadas, alinhados como numa parada militar, olhavam para si. Estavam ansiosos por recebe‑lo. Identificou algumas figuras que lhe eram familiares: João Cravinho, que foi seu colega no Governo; José Miguel Boquinhas, ex‑secretario de Estado da Saúde e seu grande amigo, ou Maldonado Gonelha, ex‑ministro da Saúde. Depois disso ainda apareceria João Soares, ex‑presidente da Câmara Municipal de Lisboa. À sua frente, o Venerável Mestre – Luís Nunes de Almeida, ex‑presidente do Tribunal Constitucional, entretanto morto – levantou uma espada que atravessava o testamento maçónico que o neófito escrevera antes de entrar. Acto contínuo, pegou‑lhe fogo.

Ficaram todos a assistir à transformação dos pensamentos do aprendiz em cinzas. O socialista era oficialmente membro de pleno direito de uma das organizações mais discretas do mundo. Jorge Coelho foi um maçon tardio. Seduzido a entrar no GOL, a maior e mais tradicional obediência maçónica portuguesa, por Maldonado Gonelha, nunca foi um «irmão» exemplar. Apesar do entusiasmo inicial, a sua taxa de comparência nas reuniões da loja sempre foi muito baixa. «Não tinha muito tempo. Entrei porque tinha curiosidade. Os meus amigos que lá estavam diziam‑me maravilhas da instituição e comecei a desenvolver a vontade de participar, na perspectiva do aperfeiçoamento pessoal.»

Ao contrário do que acontece com muitos dos aderentes à maçonaria, naquela altura Jorge Coelho não precisava da organização para nada. Já tinha sido tudo o que queria na política. Mas o contrário não era verdade: alguns membros da organizaçãoprecisavam de si, nem que fosse para ostentar – e tirar disso proveito junto de outros, quer no plano político quer no campo empresarial – a alegada «influência» que o estatuto de «irmandade» com o dirigente socialista lhes proporcionava.

Em Fevereiro de 2005, José Sócrates venceu, como se esperava, as eleições legislativas, derrotando um Santana Lopes profundamente desgastado pela sucessão de escândalos que ditou a convocação de eleições antecipadas por Jorge Sampaio. Com a maioria absoluta que obteve Sócrates, poderia fazer literalmente o que quisesse. O seu estado de graça era total.

No processo de formação de Governo deu que falar a alegada «varridela» sofrida pela ala maçónica do partido, na qual se incluía Jorge Coelho. Novas figuras como Pedro Silva Pereira, Freitas do Amaral (convidado para ministro dos Negócios Estrangeiros) ou Mário Lino estavam distantes de quaisquer rituais relacionados com a utilização de aventais e outro tipo de parafernália pouco ortodoxa. À boca fechada, os pedreiros livres criticavam o processo.

Numa escuta telefónica do Caso Portucale (uma investigação ao alegado tráfico de influências, dentro do Governo PSD/CDS, para a aprovação de um projecto imobiliário do grupo Espírito Santo), o dirigente do CDS Abel Pinheiro (responsável pelas finanças do partido e proprietário do telefone sob escuta) e Rui Gomes da Silva (ex‑ministro do Governo cessante de Santana Lopes), concordavam que os maçons estavam sob fogo cerrado de José Sócrates, que supostamente se encontraria empenhado em afrontar os «irmãos» do GOL.

Para Abel Pinheiro e Rui Gomes da Silva, as nomeações para o Governo deveriam respeitar uma quota maçónica. E, garantiu Abel Pinheiro, as escolhas de Sócrates mereciam a censura de muitos, incluindo a de Jorge Coelho. A transcrição da escuta, realizada no dia 6 de Março de 2005 entre as 16h15 e as 16h36, é reveladora sobre dois fenómenos: a leviandade com que dois maçons falam entre si sobre assuntos do Estado e a tentação da utilização do nome de outros para insinuar uma influência e um acesso ao poder que é muitas vezes ilusório:

Rui Gomes da Silva: Tou!

Abel Pinheiro: Rui!

Rui Gomes da Silva: Abel, como está?

Abel Pinheiro: Você está a descansar, já?

Rui Gomes da Silva: Tou, tou, estou a descansar.

(…)

Abel Pinheiro: Eles [o PS] vão dar cabo disto tudo, não é? (…)

Quando o professor Freitas [do Amaral] é ministro dos Negócios

Estrangeiros, isto revela variadíssimas coisas.

Rui Gomes da Silva: É.

Abel Pinheiro: Revela que o PS comprou um ministro.

Rui Gomes da Silva: Sim.

Abel Pinheiro: Comprou, como se compra… vá lá, o queijo limiano, isto é o queijo limiano elevado ao cubo, não é?

Rui Gomes da Silva: Exactamente. Isto é o queijo limiano.

Abel Pinheiro: Bom, eu acho que isto é mau porque ninguém tem coragem de dizer que o Freitas é um vigarista! Tem de se dizer com todas as letras: «É um vigarista!» (…) E segundo: um ministério, um ministério, que um sujeito aceita ser ministro e faz as declarações que fez ao Expresso.

Rui Gomes da Silva: Ah, da carta a dizer que isto…

Abel Pinheiro: Aceitei ser ministro depois de saber a lista dos outros.

Rui Gomes da Silva: Sim.

Abel Pinheiro: Quer dizer, isto é uma vergonha para um primeiro‑ministro! Logo à cabeça.

Rui Gomes da Silva: É, é uma vergonha.

Abel Pinheiro: Quer dizer, um primeiro‑ministro que aceita um senhor ser ministro, diga «Diga cá os nomes a ver se me servem.» Ó meu caro amigo! Bom, isto é para pôr de lado, o senhor. Depois, quando você vê – disse‑me o Miguel Relvas que falou ontem… falou… falou‑me ontem, que tinha falado na sexta‑feira com o Jorge Coelho, que está em Paris a fazer tratamento.

Rui Gomes da Silva: O senhor está em que estado? Ai está pior, não é?

Abel Pinheiro: Ele foi fazer aquilo… não sei se está pior, mas tem… aquilo é recidivante, tem de fazer… pronto, coitado, tem de fazer o tratamento. E diz que o Coelho estava de cabeça perdida! Disse uma coisa logo. «Eles que não pensem que o Seguro vai ficar como líder parlamentar!»

Rui Gomes da Silva: Pois, porque ele… mas ouça lá! Ele fez isto como? Este Governo? Este Governo é uma vergonha, porque não (imperceptível) ninguém…

Abel Pinheiro: Mas ouça, eu acho o Governo, como disse o António José… como é que se chama? O gajo do Noticias do Porto?

Rui Gomes da Silva: António José Teixeira, sim.

Abel Pinheiro: Que não é do nosso lado, é do lado deles.

Rui Gomes da Silva: Sim.

Abel Pinheiro: Disse aquilo que é definitivo: «Isto não é um Governo do PS, é um Governo do Engenheiro Sócrates.»

Rui Gomes da Silva: É, sim.

(…)

Abel Pinheiro: Quer dizer, isto é um Governo em que quem tem na prática o poder é o preto [António Costa], não é?

Rui Gomes da Silva: É, é.

Abel Pinheiro: O resto são histórias.

Rui Gomes da Silva: Olhe uma coisa, e maçonaria, não entra ninguém, pois não? Ele…

Abel Pinheiro: Quem?

Rui Gomes da Silva: Os gajos da maçonaria [estão] todos fora.

(…)

Abel Pinheiro: Dizia o Nobre Guedes ontem lá no Conselho Nacional que este é o Governo mais anti‑clerical desde o 25 de Abril!

Rui Gomes da Silva: Eu acho… é o mais anti‑clerical e anti‑maconaria. O gajo mete os gajos da Igreja todos fora e da maçonaria todos fora.

(…)

Abel Pinheiro: [o] que o torna muito vulnerável, não é!

Rui Gomes da Silva: Claro, sim.

Sobre esta escuta, Jorge Coelho limita‑se a dizer que «o senhor Abel Pinheiro tem uma imaginação muito fértil. Nunca disse nada daquilo, como é óbvio!»

Na Camões, o socialista era a figura mais proeminente. Ao contrário do que seria expectável, não foi colocado numa das lojas mais importantes do GOL. Poderia ter escolhido estruturas tradicionalmente ligadas ao poder, como as lojas Convergência, Universalis, República ou outras. Nelas poderia privar com figuras como Rui Pereira, ex‑ministro da Administração Interna; Miguel Relvas, ex‑ministro do PSD; ou Armando Vara, ex‑presidente da Caixa Geral de Depósitos. Não escolheu. Mais do que esticar o seu poder, procurava a afirmação de uma certa espiritualidade laica. Que acabou por não encontrar nos corredores do velho palacete situado no Bairro Alto. «Foi uma desilusão.» Resultado: actualmente não pertence à maçonaria. Pediu o «atestado de quite» há cerca de dois anos. “

António Guterres missionário na Mocidade Portuguesa

Ontem foi lançada a biografia de António Guterres. A obra foi escrita pelo meu amigo Adelino Cunha. Além de jornalista, ele é historiador e professor universitário. E uma das melhores “cabeças políticas” que conheço. Nos últimos dias tenho visto vários artigos mais ou menos destrutivos sobre o livro. Que tem erros. Omissões. Falhas. Claro que tem. Só quem já tentou escrever um livro é que o pode compreender. Não há obras perfeitas. Livros sem falhas. Às vezes são simples gralhas. Outras são erros graves que escaparam ao mais meticuloso processo de confirmação. Porque é assim: os livros são o resultado do trabalho de pessoas. Por definição, falíveis.

Aqui prefiro centrar-me nos méritos deste livro. Desde logo na ideia: ao fim de todo este tempo ainda ninguém se tinha debruçado desta forma sobre a vida de António Guterres. O Adelino tem depois o mérito de trazer para a praça pública uma história que há muito corria nas redacções e nos partidos políticos: a famosa frase do “é fazer as contas”, que se colou à pele de António Guterres, foi proferida num contexto muito especial – e dramático. O estado de saúde da sua mulher piorara e o ex-primeiro-ministro tinha acabado de receber a notícia. Este é o caso paradigmático de que o lado pessoal que Guterres tanto se esforçou por manter influencia o político. Há ainda muitas outras histórias aqui contadas. Como a de que António Guterres teria escolhido José Sócrates para lhe suceder em 2001, caso não tivessem havido eleições. Ou esta, da passagem do ex-primeiro-ministro pela Mocidade Portuguesa, que o Adelino amavelmente permitiu que aqui publicasse.

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“Missionário na Mocidade Portuguesa

Guterres aproxima-se da entrada principal do Palácio da Independência guiado pelo hábito dos pés. O jovem finalista do IST (1970) entra no imponente edifício da Praça dos Restaurantes e informa sem chama interior que tem uma audiência marcada com o padre António Alves de Campos. A Igreja anda a farejar estudantes universitários com potencial de persuasão para prescrever a cartilha do Estado Novo aos jovens ligeiramente mais novos.
Indicam‑lhe um gabinete onde o Assistente Nacional da Mocidade Portuguesa o espera para uma conversa plena de expectativas. “Guterres foi-me indicado por ser um rapaz muito bem formado, com profundos valores religiosos e de trato fácil com os outros jovens”, recorda António Alves de Campos.
A obra voluntarista desenvolvida por Guterres nos seus tempos livres rende frutos na colheita primaveril de Caetano e o regime tenta deitar a mão ao jovem missionário. António Alves de Campos, nomeado directamente pelo cardeal Cerejeira, deixa‑se emocionar pelo desfiar da conversa com o jovem e convida‑o para ajudar na catequização dos jovens lusitanos abençoados por um regime inspirado por Nossa Senhora de Fátima e temperado pela nostalgia do fado.

“Ele já tinha dado provas do seu empenhamento como bom cristão e, acima de tudo, como bom católico, no apostolado da juventude e numa área tão sensível como a assistência nos bairros degradados através do CASU”.

Esse “notável trabalho” é destacado pelo Assistente Nacional da JUC. “O padre Alves de Campos solicitou-me informações sobre jovens que fossem capazes de ajudar nos cursos de formação moral. Não hesitei em indicar Guterres”. Ponces de Carvalho destaca ainda o “brilhantismo intelectual” e o “imenso mérito” nos trabalhos de apoio social. Acrescenta um dado curricular que não é despiciendo: “Não se metia nas coisas da política e a Mocidade não gostava dessas pessoas que estavam conotadas com os partidos”.
A meio da conversa, “muito agradável”, surge um elo emocional que suscita ainda mais a admiração de António Alves de Campos. Guterres recordava em palavras soltas as suas raízes beirãs em Donas e confessava a admiração pelo pároco Alfredo Fernandes de Brito. É a divina providência que se manifesta no instante. Este padre, falecido quando desempenhava funções de vigário episcopal em Setúbal, era natural de Vila Cova à Coelheira e estudara no seminário no Fundão na mesma altura do próprio António Alves de Campos, natural de Torrosêlo, concelho de Seia. Duas aldeias separadas por escassos quilómetros. Mais do que naturais da mesma região, os ex-seminaristas do Fundão eram amigos.

“Guterres disse-me nessa conversa que o padre Alfredo Brito era uma pessoa que muita estimava e com quem tinha convivido muito perto na sua aldeia”. O destino juntava-os em toda a sua magnificência. “Ganhei imediatamente uma estima acrescida por ele”, confessa Alves de Campos.
O Portugal salazarista continuava assim nas boas graças de Deus. “Com todos estes pormenores fiquei completamente convencido de todas as suas qualidades para monitor do curso anual de formação moral e religiosa”.
Guterres mostra-se agora mais pragmático: “Fui convidado para essa iniciativa, mas antes de aceitar perguntei a opinião de um padre amigo. Disse-me: ‘A palavra de Deus deve florir em todo o lado’. Aceitei e fiz o meu ‘número’, mas não fiquei ‘freguês’. Não voltei a participar em mais nenhuma coisa da Assistência Nacional”, adverte em tom bíblico.

As iniciativas pastorais decorriam no âmbito dos gabinetes de formação moral. Segundo um documento interno da Mocidade Portuguesa ‑ Assistência Nacional para a Formação Moral, estas estruturas constituía “uma máquina de mentalização e de acção em condições de atingirem a maior parte da juventude no âmbito escolar” no continente e no ultramar.
Os cursos de base realizavam-se até às férias do Carnaval, os cursos distritais durante as férias da Páscoa e os de âmbito nacional em pleno Verão. A ascensão pelos vários graus dependia, obviamente, da prestação catequista dos iniciáticos.
“Jovens de variados ramos de ensino, incluindo mesmo seminaristas e dos mais diversos meios sociais, passam pelos cursos, afirmando‑se como germens de genuínas novas comunidades juvenis, que, pela tónica dos mesmos cursos e pelo clima de autêntica comunhão juvenil e participação activa na definição da sua dinâmica, bem se poderão considerar comunidades a equacionar em quatro dimensões: comunidade que crê e canta, comunidade que estuda e pensa, comunidade que trabalha e serve, comunidade que cria e vive na amizade”.

Alves de Campos acrescenta: “Estávamos a formar homens, mas, acima de tudo, estávamos a formar homens cristãos, homens católicos de acordo com a doutrina da Igreja. Queríamos que fossem uma elite social”.

Os cursos iniciaram‑se em 1967, em Sagres, com trinta e quatro participantes. No ano seguinte foram reunidos cinquenta e sete jovens no Sameiro. Em 1969, o rebanho já chegava aos sessenta e dois formandos.
O curso 1970 realizou‑se em Ponta Delgada e a missão foi sabiamente delegada em Guterres, na altura com 21 anos. A delegação parte para a aventura açoriana a bordo do Carvalho Araújo, um navio hidrográfico construído em 1930 nos estaleiros italianos de Monfalcone. “Aqueles dias longe de casa eram uma oportunidade única de divertimento para muitos de nós”, recorda Pedro Mourão, participante desse curso.
A Mocidade Portuguesa esperava a continuidade do vigorante sucesso dos anteriores cursos. “Jovens que se colocam inteiramente ao serviço dos outros jovens numa doação que, por vezes, surpreende e outras vezes ultrapassa todas as expectativas”, segundo a orientação dos ideólogos da Igreja.
Os jovens assistem às palestras e são avaliados pelos conteúdos dos cadernos que usam para tirar notas e para acrescentar opiniões pessoais. Têm de entregá-los para posterior avaliação. Pedro Mourão atreveu-se a fazer uma referência no seu caderno ao escândalo Ballet Rose. Os padres que avaliam os alunos registam o desafio e classificam-no em primeiro lugar do curso. “Devem ter interpretado como um acto de irreverência e de alguma coragem, ainda que inconsciente, por parte de um jovem”, explica Mourão.

Guterres cumpre a sua parte como monitor. “Revelou um dinamismo fora do vulgar. Entregou-se aos jovens de alma e coração e deu uma enorme colaboração a transmitir uma mensagem espiritual e também política”, recorda Alves de Campos. Pedro Mourão regista alguma sintonia. “Os padres eram uns ‘trutas’ e debaixo da capa da ditadura conseguiam patrocinar algumas acções críticas”.
A Assistência Nacional funcionava como um importante departamento oficial do Estado Novo e gozava de alguma autonomia dentro da estrutura da Mocidade Portuguesa. Esta organização pretendia formar os jovens portugueses segundo os valores do catolicismo tradicional e impregnava os valores patrióticos através do seu carácter para-militar. Os jovens aprendiam a retórica do regime e declamavam mecanicamente invocações inflamadas sobre o heroísmo imperial português.
A Assistência tinha como “finalidade expressa” garantir a “formação moral e espiritual dos jovens, quando empenhados e livremente inscritos nas suas actividades” dentro da Mocidade. Esta organização foi criada em Maio de 1936 e agregava uma direcção de serviços de formação moral, mais tarde transformada em Assistência Nacional.
O primeiro responsável foi o cónego Francisco Maria da
Silva, nos anos 50, futuro arcebispo de Braga.
O Ministério da Educação Nacional definia os gabinetes de formação moral como “uma máquina de mentalização e de acção” preparada para “atingir a maior parte da juventude no âmbito escolar. O trabalho desenvolvido ao longo dos anos levaria à apresentação de uma proposta junto do governo para criar uma estrutura totalmente nova, edificada a partir dos chamados círculos de formação juvenil. O sucesso prescrito pela evangelização parecia evidente.

Um documento de Alves Campos sobre o papel da Assistência refere que o governo teria já aprovado as bases de uma nova associação nacional de juventude, autónoma da Mocidade Portuguesa, designada por Movimento Nacional de Formação Juvenil (MONAFE). O MONAFE teria como base o trabalho desenvolvido pelos alunos e monitores que, como António Guterres, participaram nos cursos iniciais. Esta nova organização juvenil do Estado acabou por ser condenada devido à queda do Estado Novo.
Tratava ‑se de um projecto para criar uma organização de “reconhecida utilidade pública” orientada para os problemas em geral da juventude do nosso país, com relevância particular para a sua formação moral orientação e integração social”. O mesmo documento acrescenta que “nas actuais circunstâncias sociais e políticas, uma tal iniciativa mantém idêntica actualidade, se é que não maior e
mais premente necessidade”.
Os mentores destas organizações do Estado Novo pretendiam absorver os jovens que tivessem frequentado com sucesso os cursos de formação juvenil, previamente seleccionados pelos centros existentes em todas as escolas públicas e em muitas particulares. Exigia-se aos distintos universitários finalistas capacidade de liderança para pastorear os valores católicos por um rebanho de jovens recrutados entre os melhores alunos do ensino secundário de Portugal e do Ultramar. Jovens promissores escolhidos pelos assistentes entre os melhores participantes a nível local, distrital e nacional.

Apesar do empenho substantivo, Guterres criou vários incidentes durante o curso em que desempenhou funções de liderança enquanto monitor. Pretendia “marcar posições políticas ainda que de acordo com a doutrina social da Igreja”, absolve o antigo dirigente António Alves Campos. Não esconde a sensibilidade que o problema suscitou na altura em que exercia o cargo de “representante directo da hierarquia da Igreja na Mocidade Portuguesa”.
Revolta contra o visconde
O anfiteatro engalanado da Universidade dos Açores começa por encher ‑se de estudantes aprumados em trajes domingueiros. Chegam depois as éminences grises da pedagogia local e os tradicionais representantes do dinheiro, da política e da religião. É o típico dia solene em que se reivindica direito à glorificação.
O escritor açoriano Vitorino Nemésio tinha sido convidado como orador principal para abrir os trabalhos do IV Curso Nacional da Assistência Nacional da Mocidade Portuguesa, seguindo ‑se a intervenção de um plenipotenciário da região, o visconde do Botelho.
Trata ‑se de José Gago da Câmara de Medeiros, um armador que enriquecera com negócios na marinha mercante e na construção naval e que o historiador José Freire Antunes identifica como um “franco‑atirador” dos corredores diplomáticos. Usufruía de “multifacetados contactos internacionais”. Representou o governo em comissões da NATO, foi procurador à Câmara Corporativa e ainda conselheiro oficioso de Marcelo Caetano.

No final das palestras, Guterres, monitor do curso, deixa que os alunos terminem as suas perguntas pacíficas aos dois oradores e inicia por sua conta e risco um raid sobre o visconde. Bombardeia o ilustre açoreano com perguntas incómodas com a determinação de quem se tinha preparado para uma batalha. Guterres sentia‑se um homem da doutrina social da Igreja e convivia mal com a fama de José Gago da Câmara de Medeiros, titulado como um avarento e explorador.
“Aquilo acabou por ser ostensivo demais. Não podia ser feito publicamente”, lamenta Alves de Campos, mas já sem esconder uma certa simpatia pela determinação revelada diante toda a elite regional que assistia à referencial cerimónia do Estado Novo em plena universidade.
Pedro Mourão destaca a “camaradagem” que Guterres conseguia estabelecer com os mais novos. “Era brilhante na oratória e cativava os mais jovens quebrando as barreiras da distância. Guterres gostava da proximidade e, apesar de ser monitor, nós víamo-lo como um dos nossos. Não se envolvia directamente nas nossas brincadeiras, mas também não tentava controlá‑las”, sintetiza. A intervenção crítica contra o visconde demonstrou coragem. “Era um provocador que sabia criticar sem extravasar”. Os laços entre os jovens ficam mais fortes.
Perante a estupefacção de Alves de Campos, Guterres tomara‑se de coragem para enfrentar o homem a quem algum povo açoriano não poupava críticas surdas. “Ele reagiu com um profundo incómodo por saber que as pessoas acusavam o visconde de ser um explorador. Eu queria isentar os cursos de mensagem política, mas ele não resistiu. Foi mais forte do ele”, recorda o padre.

Os protestos não ficaram por aqui. O Assistente Nacional solicitou depois autorização para celebrar uma missa na capela particular da sua quinta. O visconde não só aceitou de imediato ser o anfitrião dessa cerimónia religiosa como decidiu convidar todos os alunos do curso para um reconfortante repasto depois do cerimonial religioso. Alves de Campos comunicou a Guterres o roteiro das actividades espirituais e pediu-lhe que informasse todos os outros jovens de que haveria uma missa para a qual estavam todos convidados. “Eles não eram obrigados. Podiam participar ou não, mas eu esperava que fossem”, recorda o religioso. Aquele dia tinha reservado mais uma desagradável surpresa. Guterres iria aproveitar o facto de ser “um líder natural que impunha facilmente a sua mensagem” para forçar mais um incidente com José Gago da Câmara de Medeiros.
Devidamente paramentado, Alves de Campos manda um acólito espreitar a capela para saber se podia iniciar a celebração. No entanto, à hora combinada não está um único jovem dentro da capela. O padre fica estarrecido com a desobediência organizada. Guterres tinha mobilizado o grupo como sinal de protesto.
“Fiquei espantadíssimo com aquilo!”.
O Assistente percebeu a tentativa de insurreição e, incomodado com o constrangimento que o caso já estava a provocar nas relações com o anfitrião, mandou chamar o inconfesso contestatário.
“Confrontei‑o com a capela vazia e Guterres respondeu que ninguém era obrigado a assistir. Os rapazitos lá acabaram por ir e fingimos todos não ter percebido a intenção dele. Guterres era um rapaz muito determinado e inconformado com as injustiças. Tinha uma visão correcta da doutrina social da Igreja e fez bem o casamento entre o ideal cristão e católico e a política. Teve coragem para fazer aquilo porque sempre acreditou nas causas sociais”.

Estes cursos da Mocidade mudavam anualmente de monitores e mesmo os sentidos elogios à forma como Guterres encarnava a doutrina social da Igreja foram insuficientes para justificar futuras participações suas nas actividades docentes. “É natural que tenham tentado ‘apanhar’ um jovem crente brilhante e levá‑lo para a militância católica, mas dificilmente ele iria fazer carreira porque nunca se comprometeu com a estrutura da Mocidade Portuguesa”, afirma Pedro Mourão. “Guterres era um progressista com uma linguagem ousada e a conflitualidade era inevitável”, acrescenta.
Alves de Campos justifica que a estrutura do seu gabinete era constituída por padres de carreira que exerciam funções de assistentes religiosos e aos leigos estavam destinadas apenas funções administrativas. “Acabou por ser uma colaboração eventual, mas muito do meu agrado”. Guterres guarda desta colaboração a ideia de que, de facto, conseguiu dar um sinal, mas um “sinal de ruptura”.
O episódio fica encerrado com o necessário ritual post mortem. “O curso não era uma coisa inocente, eles não gostaram do que eu disse, e eu não gostei daquilo. Nunca mais me convidaram. Foi uma participação inofensiva e sem consequências”, garante Guterres.”

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Os segredos do poder de António Guterres

Hoje, às 18h30, no Teatro São Carlos, é lançada (mas não ao ar) a biografia de António Guterres. O livro é do Adelino Cunha e é o resultado final de um trabalho de vários anos. Ainda não o li. Mas li a biografia que ele escreveu sobre Álvaro Cunhal. E li os muitos textos que ele escreveu quando privámos na redacção de O Independente. Por isso, sem ter folheado António Guterres – Os segredos do poder, tenho a certeza de duas coisas: está bem escrito e fundamentado. Nos últimos dias têm saído algumas notícias sobre a obra. E as revelações prometem. Como esta.

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A passagem de Rui Machete pelo Bloco Central – segundo a biografia de Mário Soares

O passado de Rui Machete continua a levantar polémica. Não só pelo que foi divulgado pelo wikileaks sobre os anos do novo ministro dos Negócios Estrangeiros à frente da Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento mas, sobretudo, pelas suas ligações ao BPN e ao BPP.

No entanto, Rui Machete tem um passado rico, cheio de episódios que vale a pena recordar. Como estes, relatados por Joaquim Vieira na biografia Mário Soares, Uma Vida. O primeiro deu-se em fins de Janeiro de 1984. Rui Machete era ministro da Justiça e o governo do bloco central, liderado por Mota Soares, tinha feito aprovar uma nova lei do aborto, que permitia a interrupção da gravidez em casos de violação, doença congénita da mãe ou da criança e ainda de possível morte da mulher. No entanto, a Igreja Católica não tinha ficado satisfeita com a iniciativa. O que testou a lealdade de Machete: entre o governo de que fazia parte e a Igreja, quem escolheu? Conta Joaquim Vieira:

“Soares ficou contudo preocupado com as implicações negativas que a adoção do diploma viesse a ter nas relações entre a área socialista e a Igreja: estava em causa, além do mais, a preservação da sua imagem como futuro candidato presidencial. (…)

Bernardino Gomes, que também assistiu ao desenvolvimento da querela à volta da lei do aborto, contará que o chefe do governo teria logo apreendido as consequências mais profundas da decisão: ≪Soares percebeu que tinha de gerir o pós‑aprovação da lei. Disse‑me: “Você pergunte ao nosso embaixador no Vaticano se é possível arranjar uma coisa qualquer em Roma. Eu podia lá ir e talvez conseguisse falar com alguém do Vaticano. Peguei no telefone e liguei ao embaixador, que era o Hélder Mendonça e Cunha [1921‑1992], um homem muito engraçado, um gay divertido, que tinha uma grande paixão pelo doutor Soares – o Soares fazia‑lhe sempre uma coisa qualquer, dizia‑lhe “ó senhor embaixador, a sua gravata e lindíssima”, e ele ficava derretido, perdido para o dia inteiro. E era também muito eficiente. Digo‑lhe: “Ó Hélder, você veja‑me lá esta coisa – o doutor Soares gostava de ir ai a Roma.” Uma hora depois ele telefona‑me: “Falei com o cardeal Casaroli [então secretário de Estado do Vaticano] e ele diz que sim senhor, não só ele tem muito prazer em recebê‑lo mas que Sua Santidade o recebe em visita oficial.” E.eu disse: “Ó Hélder, mas isso é assim?” “Exatamente assim.” Eu vou ao Soares e digo‑lhe: “Ó Mário, o Hélder ligou de volta e diz que Sua Santidade o papa [João Paulo II (1920‑2005)] o recebe em visita oficial.” “Você tem a certeza?” “Tenho a certeza que ele me disse. Calculo que seja verdade.” “Telefone‑lhe lá.” Fazemos a ligação e diz‑lhe o embaixador: “O cardeal Casaroli é um grande amigo do doutor Soares, diz os maiores elogios a seu respeito, que é uma pessoa que ele admira muito, e com certeza que vem de visita.” Era inimaginável. Acontece que eles fazem este convite sem avisar a Igreja portuguesa. E há um certo momento em que o cardeal‑patriarca percebeu, e vai para Roma tentar impedir a audiência com o papa. É uma coisa de doido, completamente de doido.≫

Confirmará Soares a tentativa de impedir in extremis o seu encontro com João Paulo II: ≪O cardeal Antonio Ribeiro e o bispo de Aveiro [Manuel de Almeida Trindade (1918‑2008), então presidente da Conferência Episcopal Portuguesa] resolveram ir a Roma para convencer o papa a nao me receber. Eu só soube isso no dia em que estava a entrar para o avião. Eu tinha dito antes no Conselho de Ministros: “Vou amanhã visitar Sua Santidade o papa a convite dele.” Ficou tudo banzado na sala. Acrescentei: “Acho que um dos senhores ministros me deve acompanhar, e acho que não deve ser o ministro dos Negócios Estrangeiros mas sim o da Justiça, porque há essa tradição em Portugal – o ministro da Justiça e dos Cultos, pasta dos tempos da monarquia. O Rui Machete disse: “Ó senhor doutor, com a maior das honras. Quando e que vamos?” “Vamos amanhã as 11h00.”

Na manhã seguinte telefona‑me ele as 9h00 a dizer: “Senhor doutor, eu não posso acompanhá‑lo.” “Mas porquê? Está doente?” “Não senhor doutor, é que o senhor cardeal proibiu‑me de ir.” “Então você é um gajo que em politica segue as orientações do cardeal em vez de ser do seu primeiro‑ministro?” Fiquei lixado com ele. “Bem, não venha que eu não preciso de si para nada.” Isso ficou‑me sempre atravessado até hoje.≫ (Machete explicará que recuou quando soube que a viagem fora tratada à margem da Igreja portuguesa.)

O segundo episódio contado por Joaquim Vieira que envolve Rui Machete deu-se uns meses depois, em Junho de 1984, durante uma visita de Mário Soares ao Japão. O testemunho aqui é de Alfredo Barroso. E o novo ministro é retratado como um homem hesitante. 

“No Japão, Soares foi alertado por um problema doméstico, relacionado com a organização terrorista de extrema‑esquerda Forças Populares 25 de Abril (FP‑25) que a Policia Judiciária estava a tentar desmantelar, depois de alguns anos de atentados, assaltos e assassínios. Alfredo Barroso recordará o momento: ≪Num Conselho de Ministros, discute‑se mais uma vez se é o momento de avançar e prender os suspeitos das FP‑25. A PJ reportava ao ministro da Justiça, Rui Machete, que era um hesitante: “Não é oportuno, não chegou o momento, é o que eles nos dizem, mas dizem também que, se a gente lhes der cobertura, seguramente avancam.” Várias pessoas achavam que se devia avançar, como Eduardo Pereira e Jaime Gama, e quem estava nas encolhas era Machete. Mesmo Mota Pinto achava que se devia avançar, mas não quis autorizar. Houve uma ronda, decide‑se por fim avançar, mas é preciso consultar antes o primeiro‑ministro, que estava em viagem no Japão. Quem vai falar com ele é Mota Pinto: “A maioria acha que é altura, se não isto nunca mais.” E Soares manda avançar. Correu bem ao governo, correu bem ao Soares.≫

O terceiro episódio explica como Rui Machete ficou na história ao assinar o Tratado de Adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia, a 12 de Junho de 1985. O governo do bloco central estava em crise. Oito dias antes da adesão, o PSD liderado por Cavaco silva tinha denunciado a coligação. No entanto, após longas negociações, foi acordado que os ministros social-democratas só apresentariam a demissão a 13 de Junho, um dias depois do acordo. Mário Soares recorda o episódio a Joaquim Vieira:

“Os ministros do PSD concordaram assim em pedir a demissão apenas a 13 de junho, para permitir a assinatura do tratado de adesão no dia anterior. Para Soares, era suficiente: ≪Eu no governo já tinha conseguido o que queria, incluindo entrarmos na CEE.≫ Mas, mesmo assim, estava ainda por resolver uma exigência social‑democrata: ≪Cavaco quis que entrasse o Machete nas assinaturas do tratado: “Se vocês não põem o Machete pelo PSD, então o PSD retira‑se da coligação, o governo cai.”≫

O primeiro‑ministro viu‑se obrigado a ceder: ≪Quem negociara tudo, no meu governo, fora uma equipa coesa constituída pelo ministros das Finanças, Ernâni Lopes, por Jaime Gama, titular dos Negócios Estrangeiros, e, finalmente, pelo economista António Marta [1946‑, então presidente da Comissão para a Integração Europeia]. Eram estes que deviam, portanto, assinar comigo. Segundo as regras da CEE, por Portugal só poderiam figurar quatro assinaturas, no máximo. Assim, para meter Rui Machete, foi necessário eliminar António Marta, o que considerei uma injustiça.≫

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As melhores histórias de Marcelo Rebelo de Sousa

Ao longo dos últimos anos, vi o Vitor Matos passar as horas de almoço agarrado ao computador portátil. Sei que nas férias e aos fins-de-semana ele se refugiava no Alentejo para escrever a biografia de Marcelo Rebelo de Sousa – quando não estava a fazer entrevistas ou enfiado na hemeroteca e na Torre do Tombo. Agora, finalmente, o livro está aí para ser lido. E mais do que uma biografia exaustiva que revela muito sobre um dos homens mais mediáticos do país (o que já de si é um feito), é também um retrato do Portugal contemporâneo. Hoje, ao fim da tarde, a obra (editada pela Esfera dos Livros) é apresentada na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa por Leonor Beleza e Vicente Jorge Silva. O Vitor está de parabéns. Para aguçar o apetite, ficam aqui algumas das histórias publicadas na última edição da Sábado.

O dia em que descobriu que Snu e Sá Carneiro eram amantes

(…) Marcelo tem apenas 27 anos, mas Snu Abecassis empenha-se na publicação de um primeiro volume das suas memórias políticas. Embora fosse demasiado novo para publicar qualquer tipo de autobiografia, tinha conhecido o salazarismo por dentro e vivera o marcelismo, lançara o Expresso, estivera na fundação do PPD e vivera a constituinte. Tinha histórias para contar. Quando amadurecer terá dificuldade em compreender essa «originalidade» de querer escrever memórias antes dos 30 anos.

Se Francisco Pinto Balsemão não leva a sério aquele projeto precoce, o jornalista Vicente Jorge Silva apercebe-se da bizarria do livro e comenta com perplexidade:

– Mas você está a fazer uma autobiografia com menos de 30 anos?

O autor, convencido da sua razão, responde com uma pergunta:

– Mas você acha que eu não tenho uma história para contar?

Marcelo escreve o livro e entrega-o a Snu. O volume chega a ser anunciado nos panfletos da Feira do Livro e aparece no catálogo da D. Quixote. Em março, na entrevista que dera a Pinto Balsemão no jornal da Costa do Sol, a publicação do livro faz título: «Marcelo Rebelo de Sousa (27 anos): Sairá dentro de dois meses o primeiro volume das minhas Memórias Políticas.» (…)

Para rever as provas do livro, o autor começa a reunir-se com a editora nos escritórios da D. Quixote, na Rua Luciano Cordeiro, em Lisboa. Snu senta-se e põe sobre a mesa o original datilografado de Marcelo, com apontamentos a lápis nas margens. A maioria das sugestões, no entanto, era para cortar partes da prosa porque era demasiado cedo para falar do que se passara em 1974 e 1975. Ou então era melhor esperar uns tempos…

Marcelo começa a achá-la demasiado bem informada sobre o PPD e desconfia que afinal está interessada em não publicar o texto. Tudo se torna claro quando observa melhor as notas à margem do texto, escritas com aquela letra esguia, bem desenhada, inconfundível: «Reconheci a letra de Francisco Sá Carneiro a lápis.»

– Snu, já percebi. Ele não quer que o livro saia…

Nesse momento, descobriu que o líder do PPD tinha um caso com a editora. (…)

A «Gente» continua a ser alimentada pelo colunista a banhos, que dita as prosas ao telefone. Poucas coisas dão mais prazer a Marcelo do que realçar os pontos fracos dos outros, em privado, em público ou no jornal. Desta vez, conta a história de um sábado em que o Expresso esgotou no Algarve, em que toda a gente tentava comprar uma edição no quiosque, mas a jornalista Maria João Seixas – que gagueja – não conseguiu comprar o seu «exemplar porque se atrasou a pe-pe-pedir que-que-que lho man-man-mandassem.» (…)

Marcelo escreve que Balsemão é «lélé da cuca»

Em apenas cinco anos, o Expresso torna-se o jornal mais poderoso do país, embora mantenha um estigma de proximidade ao PSD cuja perceção é difícil mudar. Durante uma pausa no Pabe, Marcelo discute com Margarida Salema o problema da isenção do semanário. O jornalista argumenta que tem liberdade para fazer o que quiser, da análise política às puras notícias ou às bisbilhotices da «Gente», a sua liberdade é total.

– Não és capaz!… Não és capaz de dar uma porrada ao Balsemão… – desafia-o Margarida Salema.

Marcelo é capaz de qualquer patifaria inconsequente: costuma escrever frases desgarradas no meio dos textos da «Gente» que só os visados conseguem perceber. Sobre ele dissemina-se na linha Lisboa-Cascais mais uma frase reveladora: «Por uma boa piada não se importa de perder um amigo.» É tão capaz disso que volta para o jornal, pega nas provas da «Gente» e dá a «porrada» a Balsemão, enorme prova de liberdade senão de libertinagem. Inconsciente, irresponsável, pueril e divertido, Marcelo Rebelo de Sousa escreve na margem da prova de página, e a frase aparece descontextualizada dentro do texto. É suposto os gráficos enxertarem na prosa aquela coisa louca e sem sentido, rabiscada à mão sabe-se lá porquê, não era a primeira vez que o fazia, mas era a mais grave.

No dia 5 de agosto de 1978, o texto é publicado assim no jornal: Divergências: O Diário de Lisboa da quarta-feira passada titulava perentório, que Eanes, no seu discurso, não quisera ser o Sidónio Pais de Mateus. O Balsemão é lelé da cuca. (…)

Mas Balsemão não gosta de ser ridicularizado no seu próprio jornal. Está no Algarve de férias, quando lê a estranhíssima prosa sem ponta de humor. Pega no telefone e liga a Jorge Galamba Marques, diretor comercial, também com a incumbência de fechar as páginas do jornal na gráfica. Pergunta-lhe se tinha lido a «Gente». Mas Galamba Marques não se recordava daquele artigo. Então, pega no jornal com mais atenção e dá com aquilo. «Faça uma coisa, ó Jorge», diz-lhe Balsemão, «se isto não tem nada a ver com o Diário de Lisboa, vá lá acima procurar os originais e veja se é obra do Marcelo, mas acho isto muito estranho…»

Jorge Galamba Marques estava em casa, mas vai ao jornal, sobe ao arquivo procura as provas e encontra-as. «Foi fácil», conta Galamba Marques. «Tirei os originais da “Gente” e lá estava, tudo escrito à máquina pela secretária Assunção Charters. Vi uma chaveta lá no alto da página, escrita à mão, para inserir ali a frase “o Balsemão é lelé da cuca”.» E a letra de Marcelo era inconfundível. A seguir telefona a Balsemão: «Bom, tenho isto aqui à frente, estou a ler, e é a letra do Marcelo…» (…)

– Escreveu isto?

– Escrevi… É uma secção humorística…

– Mas eu acho demais! – acusaria rispidamente Balsemão. Acho que isto é uma coisa intolerável! O que é que você fazia na minha posição?

– Depende… Se tivesse sentido de humor aceitava. Mas não tendo sentido de humor, se acha que é intolerável, demita-me. Se é inaceitável só há um corolário lógico. Olhe, tenho muita pena porque terminamos uma relação de anos… Vou para a rua! Acho estranha e excessiva a reação, mas se me diz que está mortalmente ofendido…

«O Marcelo estava aflito por ter feito aquilo», resume Galamba Marques. «Pediu desculpa ao Balsemão, disse que lhe deu “um vaipe”. O texto foi assim para a gráfica e eu não dei conta, naquele dia não li, se tivesse lido aquela frase não saía…» Balsemão manda-o então sair do gabinete mas não o despede do jornal. Não é homem de virar a mesa e Marcelo é demasiado valioso para o Expresso. (…)

De diretor do Expresso à separação de Cristina

Enquanto a vida profissional continua a subir, a vida pessoal e familiar inclina-se num plano descendente, irreversível. O afastamento entre Marcelo e Cristina é irrecuperável. Veem-se pouco mais do que uma hora por dia. Ela está farta da solidão e das refeições sozinha, esperando um marido que chega tarde ou de madrugada anos a fio. Mais que discussões há silêncios. Ela não o estimula intelectualmente, não consegue acompanhar a velocidade infernal daquela máquina devoradora de informação. Não há química nem projeto comum, e a mulher desconfia que Marcelo não esteja isento de pecadilhos fora do matrimónio nos últimos anos. Tem fama de ter namoradas, há muitos comentários mas ele não confirma que tivesse. Havia mulheres interessadas nele, com quem nada teria e outras sobre quem descrevia aventuras detalhadas. Os amigos não acreditavam.

Cristina só vai ao cinema ou ao teatro acompanhada, porque nunca sabe se vai ficar pendurada por Marcelo não aparecer à última hora. A tudo isto soma-se a falta de dinheiro. Ela valoriza uma certa vida social e o marido não liga a contas, gasta tudo o que ganha, compra livros às dezenas, por impulso, mas há contas a pagar na mercearia. De vez em quando, os amigos emprestam-lhe, depois ele paga.  (…)

Cristina não gosta de o ver horas trancado no escritório a preparar o currículo para o doutoramento com a assistente de Direito e vizinha do lado Margarida Salema, irmã de Helena Roseta, com quem desconfia que o marido tem um romance clandestino. A criada da casa espicaça-a: «A menina é tapadinha, tapadinha!» Anos mais tarde Cristina pensará que uma eventual paixão por Guida Salema seria mais platónica do que outra coisa qualquer. Marcelo admite apenas «uma relação de muita amizade alargada à sua família e afins. Eis o que aconteceu.»

Pelo menos neste aspeto do casamento há uma certa simetria. A Marcelo também não agrada a aproximação da mulher a um amigo que aparece no grupo de Cascais, um engenheiro chamado Jorge Lagrifa, cujo primeiro casamento é um desastre ainda pior. A solidão de ambos e as respetivas relações falhadas acabam por os juntar. O preço que Marcelo paga por nunca ter alimentado o matrimónio é a traição da mulher. É Cristina que põe fim à relação e sai de casa.

Preocupado com os filhos, abatido com o fim do casamento, com o orgulho ferido por ter sido trocado, derrotado porque falhou num aspeto essencial da vida, Marcelo desabafa com o vizinho José Germano:

– A Cristina deixou-me…

Passados poucos meses, Cristina Motta Veiga estaria a viver com Jorge Lagrifa na mesma casa. Casariam três anos depois. (…)

Os anos passam. Entre fins de 2004 e início de 2005, em plena crise política do Governo de Santana Lopes, Marcelo terá um gesto de generosidade extrema – a generosidade é a sua maior qualidade a seguir à inteligência, apontam-lhe os amigos. Quando Jorge Lagrifa cai doente com cancro, todas as semanas Rebelo de Sousa o visita no IPO. Entra no quarto onde estão outros doentes, sempre ansiosos pela visita otimista do «professor», que conversa com Lagrifa como se ainda houvesse um futuro para lá daquele quarto. Marcelo desenvolve um dom notável para falar com pessoas à beira da morte, que olham para os seus olhos azuis e não veem a gravidade da sua saúde refletida, como quando encaram a maioria dos amigos e familiares aflitos. Isso fá-los sentir melhor. Rebelo de Sousa e Jorge Lagrifa chegam a combinar um passeio de barco. Nunca o farão.

O dia em que recebeu o embaixador do Irão em cuecas

Quase com 50 anos, continua com uma síndroma de Peter Pan irreprimível. Conta-se uma história, com algumas variações, que revela aquilo de que é capaz. Tem uma lata suprema e um instinto de desenrascanço difícil de ultrapassar.

Um dia, estava à espera da visita do embaixador do Irão na sede da Rua de São Caetano, quando, por acidente, molha as calças com o diplomata quase a entrar. Perante aquela emergência, despe-as. Não há tempo para vestir umas secas. Ainda tenta convencer José Luís Arnaut a despir as suas para ele usar, mas a proposta não é aceite. Enquanto José Luís Arnaut empata o embaixador, Marcelo espera-o de cuecas e peúgas, com o seu fato muito bem ajeitado, sentado com as pernas escondidas atrás da mesa. Arnaut tenta ultrapassar a situação, evitando um embaraço ainda maior, e instrui o iraniano sobre o protocolo seguido na sede do partido: o líder está sentado e não se levanta, é assim uma espécie de costume da casa.

Rebelo de Sousa recebe o diplomata que não parece estranhar aquela especificidade, sem desconfiar que está a ser recebido por um líder partidário seminu. (…)

O fim da AD: uma questão de matar ou morrer

Depois do comício, Paulo Portas está com a adrenalina em alta, como os animais acossados que batalham para viver. Ele só existe como líder há escassos dois meses, não vai entregar tudo a uma raposa manhosa sem uma luta feroz. Paulo torna-se tanto mais perigoso quanto mais Marcelo o subestima, ao esperar que ele se retire de cena sozinho por achar que não tem condições para continuar. Hospedado no Hotel Grão Vasco, em Viseu, Paulo Portas chama um jornalista que conhece há anos e desabafa: diz que a AD vai estoirar e não passa daquela semana. O que acontecera no comício era o descrédito total da coligação e queixa-se de Rebelo de Sousa andar a meter coisas nos jornais contra ele: a última edição do Semanário trazia em manchete «Portas sem fuga», e um artigo a sugerir que o líder do PP tinha beneficiado de «receitas ilegítimas da Amostra», aludindo a «documentos que provam gestão danosa e enriquecimento sem causa». Para Portas, a impressão digital da notícia é de Marcelo ou de alguém próximo. Está em marcha um processo irreversível. Se Rebelo de Sousa não mata vai morrer. Portas planeia a morte política de Marcelo para lhe sobreviver.

No dia seguinte, o líder popular vai a Cascais para mais uma conversa em casa do líder social-democrata. Marcelo tinha-lhe dito depois do comício que precisavam de falar. Podia ser que recuasse na intenção de acabar tudo. Segundo Rebelo de Sousa, Paulo Portas queixa-se do PSD:

– Que há reações já se percebeu desde Tavira. O meu papel tem sido superar isso: já superei em Tavira, no congresso, agora supero nas listas. Eh pá, você tem de aguentar!… – diz-lhe Marcelo.

Portas admite que é difícil.

– Difícil é, mas tem de aguentar como eu aguento. Quem apanha a pancada toda não é você, não é você que vai às reuniões do partido nem ao Conselho Nacional, nem ao congresso… (…)

A agenda é apertadíssima: a seguir à reunião com Giscard, Marcelo parte para Milão, onde tem um almoço em casa de Silvio Berlusconi, líder da oposição de direita italiana, para discutir as eleições europeias. Continua à espera do telefonema de Portas. O milionário italiano tinha enviado um helicóptero para transportar Marcelo do aeroporto, para o levar a sua casa. «Aterrámos e nada do telefonema do Portas.» Com tantos voos pelo meio, não era fácil apanhá-lo.

O almoço na mansão de Berlusconi é numa sala com as paredes pintadas pela mulher. Comem uma massa tricolor, magnificamente apresentada, com as cores da bandeira de Itália: uma parte encarnada com molho de tomate; outra branca, com natas; e outra verde, de pesto. É a ementa de Berlusconi para todas as suas visitas. A meio da refeição, Carlos Horta e Costa recebe uma chamada e dá sinal a Marcelo, era Portas ao telefone. «Ele está a acabar o almoço e liga assim que seja possível…» No fim da refeição, Silvio, sempre muito expansivo, faz questão de mostrar os últimos spots publicitários do seu partido. Marcelo gosta.

– Olha, vou ter eleições lá em Portugal, não te importas de me emprestar a tua equipa?…

– Não, porque não podes pagar, é demasiado caro para ti.

– Mas eu não quero pagar um centavo, quero que tu mos dês…

– O único problema é que sou eu que faço tudo, o script, o casting e a realização… não podes pagar, ah, ah, ah!

Berlusconi mostrava os filmes com orgulho porque era o seu brinquedo e esperava por aplauso e aprovação. Os dois homens despediram-se e o helicóptero transportou Marcelo, Mário David e Horta e Costa de volta ao aeroporto de Milão. Só fala com Paulo Portas enquanto espera o avião para Roma. No dia seguinte tem um almoço com Romano Prodi, recém-designado presidente da Comissão Europeia.

– Estou, Paulo? Fala Marcelo Rebelo de Sousa… diga…

– Sabe que hoje vou ao programa da Margarida Marante?…

– Não, não sabia, ai vai? Então como é que vai ser?

– Vou aproveitar para explicar a posição do CDS relativamente às europeias e à AD, tem de ser uma coisa muito clara…

– Pois… E a reunião do partido, como foi?

– Correu bem… tal como eu esperava… Mas depois eu ligo no fim da Margarida Marante…

– Olhe, eu agora vou para Roma, ligo assim que chegar ao hotel… está bem?

Marcelo pressente o perigo: «Afinal o homem não explicou o que se passou na reunião do partido…» Para complicar, naquele dia havia mais uma frente de preocupação. Estava muita coisa a acontecer ao mesmo tempo. A NATO preparava-se para intervir na Sérvia e António Guterres chamava os partidos a São Bento para falar da intervenção na antiga Jugoslávia. Marcelo manda Leonor Beleza ao encontro do primeiro-ministro e combina o que ela há de dizer. Aterra em Roma, segue para o hotel e encontra uma jornalista da RTP à sua espera para lhe fazer perguntas sobre a NATO. Sobe para o quarto, prepara-se para jantar. Nem passa uma hora. Mário David diz-lhe que a jornalista ainda está à espera para fazer mais umas perguntas que lhe pediram agora mesmo de Lisboa.

O sinal de alarme é dado por um take da Lusa, a anunciar a entrevista de Portas para essa noite. Parte da notícia tinha sido dada no Jornal da Noite, uma vez que a entrevista tinha sido gravada, não seria emitida em direto. Apreensivo, Marcelo cancela o jantar que ia ter com os dirigentes do PPE e fica à espera de saber o que se passa. Liga para a Rita:

– Oiça por favor essa entrevista…

Paulo Portas tinha ido para os estúdios da televisão em grande desespero, num estado de nervos incrível, a pensar que a sua carreira política estava em risco de acabar às mãos de Marcelo. Enquanto são emitidas as imagens de Portas a responder a Margarida Marante no programa Esta Semana, da SIC, na noite de 25 de março de 1999, alguém narra a Rebelo de Sousa o que Portas diz. Provavelmente é Rita Amaral Cabral, ao telefone, que reproduz a entrevista: Portas está a dizer que propõe uma cimeira de clarificação para ver se o PSD ainda tinha vontade e confiança para fazer a coligação… Agora ataca sem piedade, diz que no domingo depois do comício de Viseu, Marcelo Rebelo de Sousa lhe disse que a maioria da comissão permanente do PSD considera que ele não era uma pessoa de bem nem uma pessoa honrada… E que Leonor Beleza até tinha insistido para não fazer campanha ao lado dele… E também diz que a comissão diretiva do PP colocou a rutura em cima da mesa… e agora revela que a maioria da direção do PSD era a favor do fim da coligação… Ele pede e exige ao PSD a lealdade que ele próprio deu… Diz que o PSD quer evacuá-lo… Se o PSD duvida e hesita, então cada um segue o seu caminho… O PSD que diga se confia ou não no líder do PP… Era a segunda vez na vida que Paulo Portas tramava Rebelo de Sousa na televisão. Desta vez o caso seria mais definitivo e grave que o da vichyssoise.

Ao saber disto, Marcelo congela. «O PSD deve estar por esta altura aos urros, completamente ululante…», pensa. Não lhe tendo explicado à tarde ao telefone o que era a «clarificação», o líder do PSD sente-se traído. «Era contar aquilo que ele interpretava como sendo a conversa que tínhamos tido. Tornava impossível a confiança recíproca entre as duas direções, entre os dois partidos e os dois líderes.

Estava encurralado. A estocada de Portas tinha sido mortal. «Mas vamos imaginar que eu lhe disse, sem nomear pessoas, que havia gente que tinha dúvidas sobre como ia acabar o caso da Moderna e se aquilo não ia atingir a honra dele. É uma conversa privada, que tenho com base de uma reserva, no pressuposto de que o estou a ajudar, a puxar por ele e ele sabe disso. Sem me dizer que vai dizer isso, afirma-o publicamente.» Se Portas lhe tivesse comunicado o que ia revelar da conversa, Marcelo tentava travá-lo. «É para matar a coligação porque a partir daquele momento eu fico sem espaço para intervir na direção política do partido.» Se o espaço de Marcelo no PSD já era reduzido para defender Portas, agora era impossível.

A intriga tinha atingido níveis insustentáveis. Se no PP se dizia que Marcelo conspirava para derrubar Portas, no PSD circulava a teoria – havia-as para todos os gostos – de que havia um pacto entre Jorge Coelho e Paulo Portas para o preservar e não o atacar, no pressuposto de a coligação acabar. Anos depois, numa sessão do julgamento do caso em Monsanto, o vice-reitor da Moderna, António de Sousa Lara, contará uma conversa com Nuno Gonçalves, ex-chefe de gabinete de Portas: este ter-lhe-á dito, em plena convulsão noticiosa sobre o caso, que «o Governo socialista tinha elementos muito comprometedores sobre o líder do CDS-PP».

A decisão de Marcelo é automática e solitária. «A única solução é ir-me embora…» Tinha defendido Paulo Portas até às últimas consequências. Convencera o partido de que se podia confiar nele. Dramatizara. Pedira maiorias reforçadas que o partido lhe deu contrariado e no limite. Levara a sua melhor amiga a perdoar em público a uma das pessoas que mais a tinha prejudicado na vida. Marcelo está derrotado, mas lúcido. Vê que não tem cara para ficar à frente do partido sem AD, não pode encarar José Manuel Durão Barroso num congresso e dizer, olhe, Zé Manel, enganei-me, você tinha razão, mas eu quero continuar à frente do partido porque acho que devo continuar à frente do partido, apesar de ter falhado em tudo o que prometi. Perdera a face.

Perdera o partido. Perdera a oportunidade da sua vida. Tinha-se aliado a um jovem que ajudara a crescer no jornalismo e na política, mas o Paulinho tinha crescido e desenvolvera mais jogo de cintura. Afinal, Portas tinha sido mais rápido a intrigar do que a própria sombra de Marcelo.