Leitura para o fim-de-semana: uma reportagem sobre exploração sexual em cartoon

Durante três meses, uma equipa de reportagem da Pública – Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo colocou um equipa a investigar a teia de exploração sexual que levou milhares de raparigas para os locais onde se ia realizar o Campeonato do Mundo de Futebol. O resultado dessa reportagem não foi um texto escrito. Ou um trabalho em vídeo. Na procura de novas formas de contar uma história, a Pública decidiu contar esta história numa banda desenhada em que o leitor acompanha a acção do repórter, as entrevistas, os locais. Ao todo são cinco capítulos para além do prólogo que deixo aqui.

Os restantes capítulos estão aqui. 

O vídeo perfeito

Se não viram, vale muito a pena ver.

O plano quase perfeito para derrotar os EUA

O plano era perfeito. Saía de Lisboa às 13h20 e chegava ao aeroporto de Newark às 16h20 locais. Mesmo a tempo de ver o jogo entre Portugal e os Estados Unidos. Maravilhas da diferença horária. Estava tudo previsto: apanhava um taxi para Manhatan, deixava a mala no hotel, seguia de metro até Times Square e via a partida num ecrã gigante, pronto para agitar o cachecol e gritar alto e bom som quando aviássemos os gringos. Afinal, eles acham que futebol é um jogo que se joga com as mãos e o corpo.
Mas – há sempre um mas – nada aconteceu conforme planeado. A começar em Lisboa. Não, não houve um furacão. Não, não houve uma erupção vulcânica que cobriu os céus com uma cinza assassina. O avião nem sequer se atrasou vindo de outro local qualquer. Aliás, quando cheguei à porta de embarque com a antecedência necessária ele já lá estava estacionado. Só que ao contrário do que seria expectável não partiu à hora prevista. Passava das 15h30 quando o voo levantou – sem grandes explicações por parte da TAP.
Times Square estava fora de jogo. Restava um ecrã qualquer. Pouco depois da aterragem o comandante informava – com “honra” – que Portugal ganhava um a zero. Entre saír, atravessar os controlos fronteiriços, recolher a bagagem e apanhar um taxi a segunda parte estava a começar. A meio do caminho o motorista resolve alterar o preço e parou na berma da auto-estrada para eu decidir se continuava ou voltava para trás – claro que teria que pagar a corrida de regresso. Estávamos a discutir se as portagens estariam incluídas no preço quando os EUA empataram o jogo. A notícia chegou por SMS. Ao que parecia, não estava a perder grande coisa.
Acabei por fazer as pazes com o motorista, um haitiano simpático chamado Serge que vive há 29 anos nos EUA. Tinha acabado de regressar do seu país onde passou duas semanas numa reunião alargada de família. Viajou com a mulher, filhos, sobrinhos, cunhados e irmãos. A mãe, de 84 anos, também foi. Para a proteger, não lhe contaram que um sobrinho que vive no país morreu recentemente. Disseram-lhe que ele estava a tirar um curso de formação no Canadá. Ela acreditou: “não vale a pena preocupá-la”.
Quando lhe contei que vinha de Portugal, ele disse duas coisas. A primeira: “O jogo está empatado a um.” A segunda: “Tenho um sobrinho que casou com uma portuguesa e vive em Portugal. Conheceram-se na República Dominicana. Estavam os dois a dar lá aulas.”
Entre o transito para atravessar o Lincoln Tunnel não parecia haver muita gente interessada no jogo. Nem o Serge. Sem notícias do que se passava acabámos por ser informados através de um telefonema. A mãe do motorista ligou-lhe para lhe dizer que a partida tinha acabado com um empate a dois golos. Sem honra nem glória. Quando me deixou à porta do hotel, Serge despediu-se com um amigável “até à próxima”. Eu também. Sem grande convicção. O cachecol nem chegou a sair da mala. Só vi os golos mais tarde. Cruzei-me com americanos com a bandeira pintada na cara. O plano revelou-se tudo menos perfeito.

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O resumo do Campeonato do Mundo

World Cup Brazil 2014

by sounas.
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Os números do campeonato que começa amanhã

A história animada de Espanha nos mundiais de futebol

O The Guardian está a apresentar uma série de histórias animadas sobre as selecções presentes no campeonato do mundo. Na falta de um vídeo (por enquanto) sobre a selecção nacional, fica aqui o trabalho sobre Espanha.

O campeonato do mundo está a chegar. Estes são apenas alguns factos interessantes

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Interesting Facts of FIFA World Cup 2014 Brazil

O melhor do mundo…

… vai ao mundial do Brasil. Cristiano Ronaldo. Como tinha que ser. Aqui, aqui e aqui.

Foto: MARIO CRUZ (EFE)

Foto: MARIO CRUZ (EFE)

Os preparativos para o campeonato do mundo continuam, sobretudo entre os traficantes de droga

Há medida que a data de início do campeonato do mundo de futebol no Brasil se aproxima, os traficantes do Rio de Janeiro estão a ficar cada vez mais ansiosos: para eles, se tudo correr bem, poderão duplicar o negócio com a chegada de 500 mil pessoas. Até lá tentam escapar aos raides policiais. Um repórter do Channel 4 News conseguiu acompanhar as patrulhas dos agentes e entrar em alguns esconderijos de traficantes – que dizem qual o ingrediente secreto usado no “corte” da droga.

Campeonato do Mundo do Qatar: escravidão e morte

O Qatar venceu a corrida à organização do campeonato do mundo de futebol de 2022 com acusações de pagamentos de subornos. Agora, que a construção dos estádios e infraestruturas já arrancou, uma investigação do The Guardian revelou que os trabalhadores – sobretudo imigrantes – estão sujeitos a um regime de quase escravatura. No Verão, morreu uma média de um por dia. A maioria são nepaleses. E as estimativas dizem que 4000 trabalhadores vão falecer até ao início do campeonato.

Revealed: Qatar’s World Cup ‘slaves’

Dozens of Nepalese migrant labourers have died in Qatar in recent weeks and thousands more are enduring appalling labour abuses, a Guardian investigation has found, raising serious questions about Qatar’s preparations to host the 2022 World Cup.

This summer, Nepalese workers died at a rate of almost one a day in Qatar, many of them young men who had sudden heart attacks. The investigation found evidence to suggest that thousands of Nepalese, who make up the single largest group of labourers in Qatar, face exploitation and abuses that amount to modern-day slavery, as defined by the International Labour Organisation, during a building binge paving the way for 2022.

According to documents obtained from the Nepalese embassy in Doha, at least 44 workers died between 4 June and 8 August. More than half died of heart attacks, heart failure or workplace accidents.

The investigation also reveals:

 Evidence of forced labour on a huge World Cup infrastructure project.

• Some Nepalese men have alleged that they have not been paid for months and have had their salaries retained to stop them running away.

• Some workers on other sites say employers routinely confiscate passports and refuse to issue ID cards, in effect reducing them to the status of illegal aliens.

• Some labourers say they have been denied access to free drinking water in the desert heat.

• About 30 Nepalese sought refuge at their embassy in Doha to escape the brutal conditions of their employment.

The allegations suggest a chain of exploitation leading from poor Nepalese villages to Qatari leaders. The overall picture is of one of the richest nations exploiting one of the poorest to get ready for the world’s most popular sporting tournament.

“We’d like to leave, but the company won’t let us,” said one Nepalese migrant employed at Lusail City development, a $45bn (£28bn) city being built from scratch which will include the 90,000-seater stadium that will host the World Cup final. “I’m angry about how this company is treating us, but we’re helpless. I regret coming here, but what to do? We were compelled to come just to make a living, but we’ve had no luck.”

The body tasked with organising the World Cup, the Qatar 2022 Supreme Committee, told the Guardian that work had yet to begin on projects directly related to the World Cup. However, it said it was “deeply concerned with the allegations that have been made against certain contractors/sub-contractors working on Lusail City’s construction site and considers this issue to be of the utmost seriousness”. It added: “We have been informed that the relevant government authorities are conducting an investigation into the allegations.”

The Guardian’s investigation also found men throughout the wider Qatari construction industry sleeping 12 to a room in places and getting sick through repulsive conditions in filthy hostels. Some say they have been forced to work without pay and left begging for food.

“We were working on an empty stomach for 24 hours; 12 hours’ work and then no food all night,” said Ram Kumar Mahara, 27. “When I complained, my manager assaulted me, kicked me out of the labour camp I lived in and refused to pay me anything. I had to beg for food from other workers.”

Almost all migrant workers have huge debts from Nepal, accrued in order to pay recruitment agents for their jobs. The obligation to repay these debts, combined with the non-payment of wages, confiscation of documents and inability of workers to leave their place of work, constitute forced labour, a form of modern-day slavery estimated to affect up to 21 million people across the globe. So entrenched is this exploitation that the Nepalese ambassador to Qatar, Maya Kumari Sharma, recently described the emirate as an “open jail”.

Nepal embassy recordRecord of deaths in July 2013, from all causes, held by the Nepalese embassy in Doha. Photograph: /guardian.co.uk

“The evidence uncovered by the Guardian is clear proof of the use of systematic forced labour in Qatar,” said Aidan McQuade, director of Anti-Slavery International, which was founded in 1839. “In fact, these working conditions and the astonishing number of deaths of vulnerable workers go beyond forced labour to the slavery of old where human beings were treated as objects. There is no longer a risk that the World Cup might be built on forced labour. It is already happening.”

Qatar has the highest ratio of migrant workers to domestic population in the world: more than 90% of the workforce are immigrants and the country is expected to recruit up to 1.5 million more labourers to build the stadiums, roads, ports and hotels needed for the tournament. Nepalese account for about 40% of migrant labourers in Qatar. More than 100,000 Nepalese left for the emirate last year.

The murky system of recruitment brokers in Asia and labour contractors in Qatar leaves them vulnerable to exploitation. The supreme committee has insisted that decent labour standards will be set for all World Cup contracts, but underneath it a complex web of project managers, construction firms and labour suppliers, employment contractors and recruitment agents operate.

According to some estimates, Qatar will spend $100bn on infrastructure projects to support the World Cup. As well as nine state-of-the-art stadiums, the country has committed to $20bn worth of new roads, $4bn for a causeway connecting Qatar to Bahrain, $24bn for a high-speed rail network, and 55,000 hotel rooms to accommodate visiting fans and has almost completed a new airport.

The World Cup is part of an even bigger programme of construction in Qatar designed to remake the tiny desert kingdom over the next two decades. Qatar has yet to start building stadiums for 2022, but has embarked on the big infrastructure projects likesuch as Lusail City that, according to the US project managers, Parsons, “will play a major role during the 2022 Fifa World Cup”. The British engineering company Halcrow, part of the CH2M Hill group, is a lead consultant on the Lusail project responsible for “infrastructure design and construction supervision”. CH2M Hill was recently appointed the official programme management consultant to the supreme committee. It says it has a “zero tolerance policy for the use of forced labour and other human trafficking practices”.

Halcrow said: “Our supervision role of specific construction packages ensures adherence to site contract regulation for health, safety and environment. The terms of employment of a contractor’s labour force is not under our direct purview.”

Some Nepalese working at Lusail City tell desperate stories. They are saddled with huge debts they are paying back at interest rates of up to 36%, yet say they are forced to work without pay.

“The company has kept two months’ salary from each of us to stop us running away,” said one man who gave his name as SBD and who works at the Lusail City marina. SBD said he was employed by a subcontractor that supplies labourers for the project. Some workers say their subcontrator has confiscated their passports and refused to issue the ID cards they are entitled to under Qatari law. “Our manager always promises he’ll issue [our cards] ‘next week’,” added a scaffolder who said he had worked in Qatar for two years without being given an ID card.

Without official documentation, migrant workers are in effect reduced to the status of illegal aliens, often unable to leave their place of work without fear of arrest and not entitled to any legal protection. Under the state-run kafala sponsorship system, workers are also unable to change jobs or leave the country without their sponsor company’s permission.

A third worker, who was equally reluctant to give his name for fear of reprisal, added: “We’d like to leave, but the company won’t let us. If we run away, we become illegal and that makes it hard to find another job. The police could catch us at any time and send us back home. We can’t get a resident permit if we leave.”

Other workers said they were forced to work long hours in temperatures of up to 50C (122F) without access to drinking water.

grieving parents NepalDalli Kahtri and her husband, Lil Man, hold photos of their sons, both of whom died while working as migrants in Malaysia and Qatar. Their younger son (foreground photo) died in Qatar from a heart attack, aged 20. Photograph: Peter Pattison/guardian.co.uk

The Qatari labour ministry said it had strict rules governing working in the heat, the provision of labour and the prompt payment of salaries.

“The ministry enforces this law through periodic inspections to ensure that workers have in fact received their wages in time. If a company does not comply with the law, the ministry applies penalties and refers the case to the judicial authorities.”

Lusail Real Estate Company said: “Lusail City will not tolerate breaches of labour or health and safety law. We continually instruct our contractors and their subcontractors of our expectations and their contractual obligations to both us and individual employees. The Guardian have highlighted potentially illegal activities employed by one subcontractor. We take these allegations very seriously and have referred the allegations to the appropriate authorities for investigation. Based on this investigation, we will take appropriate action against any individual or company who has found to have broken the law or contract with us.”

The workers’ plight makes a mockery of concerns for the 2022 footballers.

“Everyone is talking about the effect of Qatar’s extreme heat on a few hundred footballers,” said Umesh Upadhyaya, general secretary of the General Federation of Nepalese Trade Unions. “But they are ignoring the hardships, blood and sweat of thousands of migrant workers, who will be building the World Cup stadiums in shifts that can last eight times the length of a football match.”

• Read the official response to this story

Brasil: a copa dos protestos

O mundial das remoções forçadas, violência, exclusão e tráfico sexual

Falar do Brasil é falar de futebol – pronto, para além do samba, mulheres e Carnaval. Talvez por isso seja surpreendente para muitos que os recentes protestos contra o aumento dos preços dos transportes públicos se tenham transformado num grito generalizado de revolta contra o crime, a corrupção e… contra a realização do Campeonato do Mundo de Futebol de 20014 (e já agora dos Jogos Olímpicos de 2016) no Brasil.

O protesto não é contra o evento em si. Qualquer brasileiro é louco por bola. Eles são contra os investimentos monstruosos que, no futuro, não terão retorno (lembram-se dos estádios em Portugal?), contra as remoções forçadas sem aviso prévio, contra o aumento do tráfico e turismo sexual, contra a falta de diálogo e informação política, contra a violência policial, contra a legislação de excepção destinada a cumprir as exigências da FIFA e, também, contra uma Copa do Mundo (é assim que eles lhe chamam) onde a maioria dos brasileiros não vai poder ir ao estádio. Podem perceber tudo através deste texto da agência Pública, da qual o O Informador é parceiro.

POR QUE PROTESTAM CONTRA A COPA

Em Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba e Fortaleza protestos contra a Copa se misturam às bandeiras por participação política, transporte e serviços públicos de qualidade. Veja aqui 7 razões para que a festa esteja se transformando em manifestação. 

Por Marina Amaral

CUSTO X LEGADO Foto: Tasso Marcelo / AFP

Já foram gastos 27,4 bilhões de reais na Copa e a previsão atual é de custo total de 33 bilhões, uma quantia que se aproxima do total do orçamento federal em educação para este ano: 38 bilhões de reais. Uma priorização de recursos que a população questiona nas ruas, assim como a concentração do dinheiro público na construção de estádios, em muitos casos, como em Manaus e Cuiabá, “elefantes brancos” sem futuro aproveitamento.

Além disso, as obras de mobilidade urbana – apresentadas pelo governo como o principal legado para as cidades-sede – atualmente orçadas em 12 bilhões de reais – privilegiam os acessos viários para carros (viadutos, alargamentos de avenidas) e a rota aeroportos-hoteis-estádios que não é necessariamente a prioritária para a mobilidade urbana no cotidiano das cidades. Um exemplo claro é Itaquera, onde as obras reivindicadas pela comunidade foram suspensas enquanto se investe a todo vapor nas obras de acesso ao estádio. Promessas em investimento em transporte público, como a construção do metrô de Salvador e o Monotrilho da linha Ouro em São Paulo foram retiradas da Matriz de Responsabilidades (o orçamento federal para a Copa) e o transporte público chegou a ser prejudicado no Rio de Janeiro, onde os moradores e comércio sofrem com a falta do tradicional bondinho – que não circula desde 2011 – depois de um acidente denunciado pelos moradores como resultante de um projeto equivocado de modernização (que teve de ser refeito e ainda não está pronto)

Por fim, as obras de mobilidade urbana são as principais responsáveis pelas remoções de comunidades, ameaças ambientais e perda de equipamentos públicas.

REMOÇÕES VIOLENTAS E DEMOLIÇÕES INDESEJÁVEIS Foto: Reuters

Os movimentos sociais contabilizam 170 mil pessoas ameaçadas ou já removidas e/ou recebendo indenizações de 3 a 10 mil reais, para os que comprovam a propriedade do lote, e bolsas-aluguel de menos de 1 salário mínimo para os demais. Não raro os despejos são feitos de forma violenta, sem transparência nem diálogo entre poder público e moradores.  No morro da Providência no Rio de Janeiro, por exemplo, as pessoas descobriram que seriam expulsas quando suas casas apareciam marcadas, sem nenhuma negociação prévia.

Além das casas, os moradores perdem também suas comunidades, em alguns casos centenárias, amigos, vizinhos, tradições. Via de regra são enviados para longe de suas raízes e cotidiano e perdem a infraestrutura urbana dos bairros mais centrais, caso por exemplo, da ameaçada comunidade da Paz, em Itaquera, São Paulo. As indenizações recebidas são muito menores que os preços de aluguéis e imóveis nos bairros atingidos pelas obras da Copa, forçando a ida para longe também dos que podem decidir seu rumo. A especulação imobiliária em torno dos estádios e melhorias feitas para tornar a cidade mais atraente para os turistas expulsam moradores que seriam beneficiados pela evolução, dos morros  Rio de Janeiro à zona leste de São Paulo, agravando o problema extenso de carência de moradias nas grandes cidades brasileiras.

O patrimônio social e cultural também foi prejudicado, como mostrou a expulsão de representantes das etnias indígenas que ocupavam o antigo Museu do Índiono Rio de Janeiro,reconhecido pelos antropólogos como marco da relação entre indios e brancos no Brasil, o histórico estádio do Maracanã foi descaracterizado por uma reforma que já custou 1,2 bilhões aos cofres públicos e acompanhado da destruição de equipamentos públicos esportivos, como o ginásio Célio Barros para construir estacionamentos e acessos viários em torno do estádio.

LEGISLAÇÃO DE EXCEÇÃO PARA CUMPRIR AS EXIGÊNCIAS DA FIFA

Foto: Getty Images

Desde que o Brasil fechou o acordo com a FIFA, o governo vem criando leis por Medidas Provisórias para assegurar os interesses da FIFA e de seus parceiros (Lei Geral da Copa), permitir que Estados e Municípios se endividem além do exigido pela Lei de Responsabilidade Fiscal para investir em obras da Copa, abreviar licenciamento ambiental e dispensar licitações.

Alguns exemplos do prejuízo que essa legislação traz para a população:

– as zonas de exclusão: a FIFA estabelece uma área em um raio de até 2 quilômetros em volta do estádio –  a zona de exclusão –  como seu território. Ali controla a circulação de pessoas, a venda de produtos, fiscaliza o uso de marcas que considera suas – o próprio nome do evento Copa 2014 e o mascote, entre outros –  protege a exclusividade de venda dos produtos de seus patrocinadores – da cerveja ao hamburger – e se encarrega da segurança. Segundo a ONG Streetnet, na África do Sul 100 mil ambulantes perderam a fonte de renda durante a Copa e situação semelhante  – caracterizada como violação ao direito ao trabalho e perseguição por trabalhar em espaço público – está prevista no Brasil onde mais de mil ambulantes já perderam postos de trabalho por causa das obras da Copa, principalmente em Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Fortaleza e Porto Alegre

– isenções fiscais, exceções legais: a criação de punições e tipificação de crimes para proteger os interesses da FIFA e seus parceiros – que pune por exemplo, quem utiliza símbolos da Copa para promover eventos em bares e restaurantes ou que fere a exclusividade das marcas da FIFA – é um dos  abusos permitidos pela Lei Geral da Copa, que também isenta de impostos uma série de entidades e indivíduos indicados pela FIFA prejudicando as receitas do país que arca até com toda a responsabilidade jurídica em acidentes/incidentes, danos e processos, incluindo o pagamento dos advogados da FIFA e parceiros.

– obras estaduais e municipais faraônicas e/ou contra os interesses da população: o caso mais gritante é da construção de um Aquário em Fortaleza , sem laudo arqueológico e com diversas falhas no EIA-Rima, a um custo superior a 280 milhões de reais enquanto o Ceará vive uma de suas piores secas. Em São Paulo, no Rio de Janeiro, Salvador e outras cidades-sede os governos estaduais e municipais também participam do investimento em dinheiro público em estádios que serão posteriormente explorados pela iniciativa privada . Em Natal, a construção do estádio põe em risco as dunas, e em Recife uma área até então preservada está sendo completamente alterada para instalar equipamentos relacionados à Copa, como hotéis e centros de apoio ao estádio.

– superfaturamento, custos elevados e desvios de recursos públicos: as sete maiores empreiteiras do Brasil – que são também as principais doadoras de recursos eleitorais para os principais partidos e políticos – beneficiaram-se da Lei 12.462/2011 RDC – Regime Diferenciado de Contratações Públicas – para determinar preços, aumentá-los através de cláusulas e aditivos frequentemente justificados pelo ritmo das obras e pela reformulação de projetos equivocados. O TCU já comprovou irregularidades na arena Amazonas, na reforma do Maracanã, na construção do estádio em Brasília, no aeroporto de Manaus. O Ministério Público do Distrito Federal entrou com ação contra superfaturamento e outras irregularidades no VLT de Brasília.

VIOLAÇÃO AO DIREITO À INFORMAÇÃO E À PARTICIPAÇÃO POLÍTICA Imagem: divulgação ANCOP

Os movimentos sociais denunciam no Dossiê de Violações de Direitos Humanos que também o direito à informação e à participação nos processos decisórios são “atropelados por autoridades FIFA, COI e comitês locais” porque “projetos associados à Copa e às Olimpiadas não são objeto de debate público”. A falta de informações e debate sobre os projetos, que não raro desrespeitam os planos diretores aprovados nas câmaras municipais, que atingem comunidades e bairros é denunciada por movimentos sociais em todas as cidades-sede. Associações de moradores também se queixam de audiências públicas pró-forma e da inexistência de mecanismos mais eficazes para a participação da sociedade nos projetos que atingem suas casas, bairros, cidades.

RECRUDESCIMENTO DA VIOLÊNCIA POLICIAL E DOS SEGURANÇAS DA FIFA

Foto: Pedro Kirillos / OGlobo

O orçamento da área de segurança da Copa prevê investimentos de R$ 1,8 bilhão do governo federal. O Ministério da Justiça declara ter investido 562 milhões de reais até agora e o Ministério da Defesa, a 630 milhões de reais para gastos relativos ao evento. Por um total de 49,5 milhões, o governo federal fechou a compra de milhares de armamentos não-letais da empresa Condor – a mesma que forneceu as bombas usadas contra manifestantes – da Turquia às capitais brasileiras– para a Copa das Confederações, em andamento, e a Copa do Mundo de 2014

O contrato, com vigência até 31 de dezembro de 2014, prevê o fornecimento de 2,2 mil kits não-letais de curta distância (sprays de pimenta, granadas lacrimogêneas com chip de rastreabilidade, granadas de efeito moral para uso externo e indoors e granadas explosivas de luz e som); 449 kits não-letais de curta distância com cartuchos de balas de borracha e cartuchos de impacto expansível (balas que se expandem em contato com a pele, evitando a perfuração); 1,8 mil armas elétricas para lançamentos dardos energizados  (as pistolas “taser”), e mais 8,3 mil granadas de efeito moral, 8,3 mil granadas de luz e som, 8,3 mil granadas de gás lacrimogêneo fumígena tríplice e 50 mil sprays de pimenta. Dentro dos estádios e na zona de exclusão a segurança é privada, escolhida e orientada pela Fifa mas paga pelo governo federal. Nas recentes manifestações no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte a quantidade  de equipamentos e munição chamou a atenção, exatamente por já estar sendo usado o material de segurança da Copa das Confederações.

Além da legislação de exceção abordada no item anterior – que inclui a tipificação de novos crimes para proteger marcas e exclusividade dos parceiros da FIFA e a zona de exclusão – o PL 728/2011, no fim de sua tramitação, inclui a tipificação do crime de “terrorismo”, algo que não existe na nossa legislação desde a ditadura militar, e prevê penas duras para quem promover “o pânico generalizado” . Para os movimentos sociais, o texto do projeto, bastante vago, pode criminalizar as manifestações desde que essas sejam enquadradas como causadoras de pânico generalizado.

ELITIZAÇÃO DOS ESTÁDIOS E DOS INGRESSOS PARA OS JOGOS DA COPA 

Foto: Heuler Andrey / AGIF/AFP

As reformas nos estádios brasileiros para seguir as recomendações da FIFA reduziram ou extinguiram lugares populares nos estádios, ampliando a área de camarotes e lugares marcados, principalmente no Maracanã e no Mineirão, que perderam quase 50% da capacidade. Como resultado, o preço dos ingressos subiram mesmo nos jogos comuns – passando de 40 a 60 reais cobrados nas arquibancadas para preços mínimos de 160 reais no Maracanã, por exempo.

Quanto aos ingressos para a Copa 2014, enquanto 200 mil pessoas assistiram a partida final contra o Uruguai em 1950 no Maracanã, apenas 74 mil ingressos serão colocados à venda para a final no mesmo estádio em 2014. Em 1950, 80% dos ingressos eram populares (arquibancada e geral) extintas para dar lugar a assentos alcochoados nas área Vips.

A FIFA também impôs padrões de comportamento aos torcedores completamente avessos à cultura da alegria e da participação da torcida brasileira de futebol, com platéia sentada, sem as coreografias, as baterias percussivas, o baile das bandeiras a que estamos acostumados.

INCREMENTO AO TRÁFICO E VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES, ADOLESCENTES E CRIANÇAS

Foto: blog O Povo

Fortaleza, Natal e Salvador estão entre os principais destino do turismo sexual, que traz homens para o país em busca de mulheres, travestis, adolescentes e crianças, o que deve se agravar com a Copa. O Esplar, ONG que trabalha com mulheres cearenses e participa da Articulação dos Comitês Populares da Copa, lançou em parceria com a Fundação Heinrich Boll, um folheto informativo em um DVD para chamar a atenção para o esperado aumento do turismo sexual na Copa. Segundo a advogada Magnolia Said, que coordenou a produção desse material, já se detectou um aumento de tráfico interno (do interior para as capitais do Nordeste) de mulheres e adolescentes por causa dos preparativos da Copa do Mundo. Reportagem da agência Pública também detectou o trânsito de travestis de Fortaleza para São Paulo para colocar próteses de silicone em troca de trabalho gratuito para as cafetinas que bancam as cirurgias.

Ela não vai ao campeonato do mundo de futebol – mas podia ter ido às manifestações

O aumento dos preços dos bilhetes dos transportes públicos foi apenas a gota que fez transbordar o copo dos brasileiros. Neste vídeo – feito pouco antes dos protestos da última semana – a fotógrafa brasileira Carla Dauden explica a insatisfação de muitos brasileiros com as decisões dos seus governantes e porque é que ela não vai ao campeonato do mundo de futebol. Vejam. É muito bom.

“A polícia militar meteu o pé na minha porta e se não saísse eles iam me prender”

Enquanto Portugal luta para se qualificar para o campeonato do mundo de futebol de 2014, no Brasil, os preparativos seguem a grande velocidade. O maior espectáculo do mundo será, quase de certeza, um sucesso. Excepto para todos aqueles que estão a ser afectados pelos preparativos: de acordo com as contas de várias organizações não governamentais, cerca de 250 mil pessoas já foram obrigadas a deixar as suas casas, viram as suas residências destruídas e não mereceram qualquer respeito por parte das autoridades. São relatos de agressões policiais, remoções forçadas e depoimentos desesperados de cidadãos comuns – baixas colaterais para mostrar ao mundo um Brasil supostamente desenvolvido. Este vídeo foi recentemente exibido no Comité de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas.

O Rio de Janeiro, reconstruído à força para os turistas

Os preparativos para os Jogos Olimpicos e para o Campeonato do Mundo de Futebol, no Rio de Janeiro, estão a mudar a imagem da cidade. Estádios, avenidas, redes de transportes e novas atracções turísticas estão a ser preparadas para acolher os milhões de visitantes que se esperam nos dois eventos. Para isso, o governo municipal está a levar a cabo uma limpeza geral sem olhar aos que sofrem danos colaterais: a população.

Ao longo do último ano e meio, a agência Pública tem revelado uma série de violações de direitos, abusos de poder e negócios obscuros relacionados com o mundial de futebol através do projecto Copa Pública. Agora, o canal australiano SBS dedicou uma parte do programa Dateline à polémica reconstrução do Rio de Janeiro. Uma reportagem da jornalista Yaara Bou Melhem, premiada pelo seu trabalho na cobertura da primavera árabe.