A vida no Gulag norte-coreano

As imagens que a Coreia do Norte quer manter em segredo

O fotógrafo Eric Lafforgue esteve seis vezes na Coreia do Norte. Em todas tirou fotografias que lhe pediram que apagasse. Segundo os guias, podiam dar uma imagem enganadora do país ou, simplesmente, porque não é permitido tirá-las. E as circunstâncias proibidas são muitas: não se podem registar imagens de soldados, de pobres, de casas degradadas, de luxo ou de pessoas com fome. Sobretudo, não se podem divulgar imagens da vida comum dos norte-coreanos. Estas são apenas algumas delas.

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Muitas outras imagens, com as respectivas explicações, estão aqui.

Coreia do Norte: um murro no estômago (parte três)

Além da Human Rights Watch, também a Amnistia Internacional divulgou esta semana um vídeo a propósito das violações dos direitos humanos cometidos na Coreia do Norte e divulgados por um relatório do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas. Os depoimentos são, também eles, um verdadeiro murro no estômago.

Coreia do Norte: um murro no estômago (parte dois)

No mesmo dia em que o relatório da comissão de inquérito da Organização das Nações Unidas à situação dos direitos humanos na República Popular Democrática da Coreia – ou simplesmente Coreia do Norte – foi divulgado, a Human Rights Watch apresentou um vídeo feito com base no testemunho de vítimas e dissidentes. São relatos impressionantes.

Coreia do Norte: um relatório que é um murro no estômago

O Estado decide o que um cidadão pode ter, onde pode viver, para onde pode viajar, o que pode ler, qual a classe social a que pertence, o que pode comer e em que quantidades, com quem se pode casar e de quem é permitido ter filhos. Quem violar as regras pode sofrer uma de duas consequências: desaparecer sem deixar rasto ou ser preso. No caso da segunda opção restam alguns destinos: ser torturado ou condenado a trabalhos forçados, ser executado ou morrer à fome e, no caso das mulheres, serem violadas, obrigadas a abortar ou a assassinar os próprios filhos. O país onde isto acontece: a Coreia do Norte.

As conclusões constam do relatório da comissão de inquérito à situação dos direitos humanos no país líderado por Kim Jong-un. Ao todo terão morrido centenas de milhares de pessoas nos inúmeros campos de concentração espalhados pelo país. Estarão ainda detidos entre 80 mil e 120 mil pessoas. Entre os testemunhos incluídos no relatório destaca-se o de Jee Heon, uma mulher que foi enviada para um campo de concentração depois de ser repatriada da China e que recorda a história de uma mulher que conseguiu dar à luz apesar de ter engravidado de um chinês (normalmente elas são obrigadas a abortar para manter a pureza da raça):

“…there was this pregnant woman who was about 9 months pregnant. She worked all day. The babies who were born were usually dead, but in this case the baby was born alive. The baby was crying as it was born; we were so curious, this was the first time we saw a baby being born. So we were watching this baby and we were so happy. But suddenly we heard the footsteps. The security agent came in and this agent of the Bowibu said that… usually when a baby is born we would wash it in a bowl of water, but this agent told us to put the baby in the water upside down. So the mother was begging. ‘I was told that I would not be able to have the baby, but I actually got lucky and got pregnant so let me keep the baby, please forgive me’, but this agent kept beating this woman, the mother who just gave birth. And the baby, since it was just born, it was just crying. And the mother, with her shaking hands she picked up the baby and she put the baby face down in the water. The baby stopped crying and we saw this water bubble coming out of the mouth of the baby. And there was an old lady who helped with the labour, she picked up the baby from the bowl of water and left the room quietly. So those kind of things repeatedly happened. That was in the detention centre in the city of Chongjin of Hamgyong Province.”

Para a ONU, as atrocidades cometidas pelo regime norte coreano são crimes contra a humanidade pelos quais os seus responsáveis devem ser julgados. Até quando o mundo vai ficar calado?

Desenho do antigo prisioneiro Kim Kwang-il

Desenho do antigo prisioneiro Kim Kwang-il

A Mata Hari norte-coreana

Aos 17 anos,  Kim Hyon Hui destacava-se na sua escola na Coreia do Norte. Pela beleza e pela capacidade em falar japonês perfeitamente. Um dia, um carro apareceu à porta do estabelecimento. Disseram-lhe que tinha sido escolhida pelo líder do regime, Kim Il-Sung para uma missão: ser espia. Passou os oito anos seguintes a treinar artes marciais, uso de armas e a aprender técnicas de espionagem. Até que, em 1987, foi-lhe dada uma missão de alto risco: fazer explodir um avião de passageiros sul-coreano – o que ela conseguiu. Agora, nesta entrevista exclusiva dada à ABC Austrália, Kim Hyon Hui recorda essa missão que matou 115 pessoas, como engoliu uma cápsula de cianeto, como foi julgada e condenada à pena de morte e mais tarde perdoada pelo regime sul-coreano. Para além disso, diz o que pensa sobre o terceiro líder da dinastia norte-coreana e da actual crise.

Os limites da liberdade de imprensa

Um repórter da BBC fez-se passar por aluno da London School of Economics para entrar na Coreia do Norte. O caso está a causar polémica no Reino Unido porque a universidade quer que a televisão não emita a reportagem e exige um pedido de desculpas. Por cá, o Daniel Oliveira publicou no Expresso online um artigo que diz tudo sobre esse e outros assuntos relacionados com a liberdade de imprensa e os seus limites.

“Liberdade de imprensa: uma lição inglesa na Coreia do Norte

Um repórter da prestigiada BBC integrou uma delegação de alunos da prestigiada London School of Economics (LSE), numa visita à Coreia do Norte. Repito “prestigiada” para deixar claro que estamos perante duas instituições respeitadas. Ou seja, a polémica que aqui trato está depurada do lixo que exista na comunicação social e na academia. E isso ajuda à clareza do que está em causa.

Os estudantes da LSE sabiam da presença do jornalista e a maioria concordou, diz a BBC. Um aluno garantiu que, quando embarcaram para Pyongyang os alunos não sabiam que ali ia um repórter e julgavam que John Sweeney trabalhava na LSE. Desconheciam a presença de repórteres de imagem e ele, quando se apresentou à autoridades norte-coreanas deu um dado falso: disse que era estudante de doutoramento da LSE.

O jornalista fez uma reportagem para o programa Panorama e, agora, a BBC está a ser pressionada para não a transmitir e apresentar desculpas à LSE. Tendo sido jornalista por muitos anos, sou muito sensível à oportunidade de entrar num país vedado aos olhares externos e relatar o que se passa naquela brutal ditadura. Um assunto especialmente importante numa altura em que a retórica belicista cria um ambiente escaldante naquela parte do mundo. O interesse público e jornalístico é evidente e a legitimidade para entrar no País usando um disfarce indiscutível. Mas sou obrigado a reconhecer, no entanto, que a LSE tem toda a razão.

Sim, a BBC pôs em risco a segurança dos alunos da LSE. Mas o mais grave nem é isso. Ao apresentar-se como estudante de doutoramento, sem autorização da instituição (ou mesmo que a tivesse), o jornalista pôs em risco todas as futuras delegações de todas as universidades que se desloquem a todas as ditaduras.

Várias vezes, agentes de serviços de informação usaram como disfarce a função de jornalistas. Independentemente da bondade dos seus atos, o que fizeram pôs em risco centenas de jornalistas a operar em cenário de guerra ou em ditaduras, retirando a legitimidade de lhes dar um tratamento excepcional. Da mesma forma, a mistura entre atividades humanitárias e militares põe em perigo os que trabalham em ONG em países em conflito. Ou a utilização de ambulâncias para funções militares põe em perigo todos os profissionais de saúde que trabalhem em zonas de conflito e os doentes que estes tentem socorrer. Ou seja, a utilização de um tratamento especial dado a outros para objetivos próprios, mesmo que seja compreensível em cada momento específico, cria uma confusão entre funções que pode ser perigosa não apenas para aqueles que são usados naquele momento, mas para todos os que desempenhem atividades similares noutros lugares.

Resumindo: sendo justificável pelo interesse público e sendo, ao limite, aceitável do ponto de vista deontológico, o comportamento da BBC foi irresponsável e desleal. E nada mudaria se a London School of Economics tivesse autorizado tal disfarce. Porque estaria, ela própria, a pôr em risco qualquer estudante que em qualquer parte do mundo se desloque a um regime com esta natureza e se apresente como mero doutorando em busca de informação. Dificultando assim o trabalho académico sobre este tipo de países. E o trabalho académico não merece menor respeito e proteção do que o trabalho jornalístico. Assim como nenhum profissional da comunicação social aceita que alguém se faça passar por jornalista para recolher informações, os restantes profissionais de outras atividades têm direito ao mesmo respeito.

A única importância desta história tem a ver com a forma como os jornalistas, mesmo os mais sérios, olham para o seu próprio estatuto. Sim, ele é a vários títulos excecional: pelo serviço que presta a um valor fundamental para as democracias – o direito à informação – e pelos riscos que comporta. Mas essa excecionalidade não esgota os direitos de outros. É por isso que, mesmo quando estão em causa informações da máxima importância, não se tolera que a comunicação social se socorra de escutas telefónicas ou da violação de correspondência para as recolher. Porque o direito à informação não é o único direito que as democracias devem proteger. Neste caso, o direito à investigação académica e à segurança de quem a faz não pode ser subalternizado. Nem mesmo quando quem faz a investigação o faz para o excelente programa Panorama da não menos excelente BBC.

Claro que adorava que o estado da arte no debate sobre a comunicação social e os seus limites estivesse neste ponto em Portugal. Aqui, tolera-se com a mesma bonomia que os tribunais tentem usar jornalistas para, violando o seu dever de confidencialidade, recolher informações e que jornalistas menos escrupulosos levem a cabo assassinatos cívicos sem quaisquer consequências profissionais. Que se use abuse do “direito ao bom nome” para tentar instaurar uma censura encapotada e que boatos sem confirmação sejam notícia nunca desmentida.

Não faltam abusos da comunicação social (de que o “News of the World” foi apenas o caso mais grotesco) e tentativas de censura no Reino Unido. Mas, com décadas de jornalismo livre, o difícil equilíbrio entre liberdade de imprensa e restantes direitos cívicos e valores fundamentais são por lá assunto de debate apaixonado. Por cá, ainda vivemos no reino da arbitrariedade, onde juízes tomam decisões sem qualquer coerência entre si, ao sabor do seu livre entendimento do que é o Estado Democrático, e os jornalistas são incapazes de criar uma verdadeira instância de autorregulação, permitindo que o poder político, através da ERC, tome conta dessas funções. E aceitam, sem violar de forma decidida uma imposição inaceitável numa democracia, assistir a conferências organizadas pelo governo, onde não podem citar os participantes. Aceitam blackouts seletivos de clubes de futebol. São reverentes com empresários, raramente lhes fazendo perguntas incómodas, enquanto fotografam, sem receios, os ecrãs dos computadores de deputados. O único critério vigente parece ser o da lei do mais forte.

Este debate entre instituições académicas e de media sérias no Reino Unido seria uma quase aberração em Portugal. Estamos, nesta matéria, na pré-história da comunicação social. Não é difícil de perceber: temos menos de 40 anos de liberdade de imprensa. Ainda nos faltam umas décadas de abusos de parte a parte.”

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Os mísseis norte-coreanos não chegam aqui – mas fariam muitos estragos

A falta de informação sobre a Coreia do Norte torna difícil dizer quão real é a ameaça do regime de Kim Jong-un. Sabe-se que os critérios que regem as relações entre os Estados não se aplicam ao reino heremita. Em Portugal estamos seguros. Mas esta infografia calcula o alcance dos mísseis norte-coreanos e mostra as zonas de perigo – bem como as datas mais significativas da recente escalada.

Os fugitivos do reino heremita

Enquanto Kim Jong-un continua a espiral de loucura na Coreia do Norte, milhares de pessoas continuam a passar fome e a viver sem o mínimo de condições. Muitas delas tentam em desespero atravessar a fronteira com a China em busca de uma vida melhor. Arriscam a vida para o conseguir. Mas assim que deixam o país, passam a viver na clandestinidade, sem documentos e num receio constante de serem deportados – o que seria a morte certa. Ao todo, há 300 mil norte-coreanos nesta situação em solo chinês. Para mostrar ao mundo esta realidade a realizadora canadiana com origens coreanas conseguiu acompanhar Dragon, um fugitivo norte-coreano que se dedica a ajudar compatriotas a conseguir a liberdade e dois dos seus clientes. O trabalho deu origem ao documentário The Defector. Este é um trailer do filme de 71 minutos. No blogue encontram ainda um documentário interactivo que explica o que é ser um fugitivo.