O inimigo americano de Vladimir Putin

Em 1996 o empresário Bill Browder chegou a Moscovo para investir milhões de dólares num novo mercado. Decidiu afastar os dirigentes e funcionários corruptos das empresas que adquiriu. Fez inimigos. Muitos. Tantos quanto a sua fortuna cresceu. Em 2005 foi detido no aeroporto e deportado como uma ameaça para o Estado. As suas empresas foram-lhe retiradas e entregues a terceiros. Ele não desistiu. E começou a denunciar os esquemas de corrupção no país de Vladimir Putin. Hoje é procurado em Moscovo e foi alvo de inúmeras ameaças de morte. E conta tudo ao 60 Minutes.

Os Jogos Olimpicos de Inverno mais caros de sempre

Antes de começarem, os Jogos Olímpicos de Inverno, em Sochi, já tinham estabelecido um novo recorde: ao custarem 50 mil milhões de dólares, tornaram-se os mais caros da história. A Vice foi a Sochi ver onde foi gasto o dinheiro, falar com os residentes e investigar as alegações de subornos e corrupção. Este é o resultado, no dia em que começa a competição.

Portugal não tem uma estratégia anti-corrupção

Resumo da situação portuguesa, segundo o primeiro relatório anti-corrupção da União Europeia, apresentado hoje.

“In Portugal, although various anti-corruption initiatives have been implemented over the last decade, including new legislation, there is no comprehensive national anti-corruption strategy in place. In addition, effective prosecution of high-level corruption cases remains a challenge. In this report, the European Commission suggests that Portugal ensures that law enforcement, prosecution and judiciary are well equipped to effectively deal with complex corruption cases, and establishes a convincing track record of corruption cases. Further preventive action against corrupt practices in party funding should be undertaken, and codes of conduct for elected officials should be developed. The Commission is also suggesting that further efforts need to be made to adequately address conflicts of interests and asset disclosure of officials at local levels. Transparency and control mechanisms around public procurement procedures should be strengthened further. Moreover, Portugal should identify risk factors for corruption in local urban planning decisions.

Alongside an analysis of the situation in each EU Member State, the European Commission is also presenting two extensive opinion polls. More than three quarters of European citizens, and a full 90 percent of the Portuguese, agree that corruption is widespread in their home country. Portugal scores better than the EU average, however, when citizens are asked whether they have direct experience of corruption – fewer than one percent of the Portuguese say that they have been asked or expected to pay a bribe in the past year, while the European average is 4 percent. 36 percent of Portuguese citizens consider that they are affected by corruption in their everyday lives.”

Transparency-Korruptionsbericht

Corrupção em Portugal: 74% dos gestores dizem que é vulgar

A Ernst & Young fez um inquérito a 3000 membros de conselhos de administração, gestores e administradores de empresas de 36 países para avaliar os riscos e a pressão a que as firmas estão sujeitas. Desses, 100 eram portugueses. E as conclusões não podiam ser menos animadoras. Uma das questões era:

Q: Can you indicate whether you think the following applies, or does not apply, to your country or industry?

– Bribery/corrupt practices happen widely in business in this country. 

– In our sector, it is common practice to use bribery to win contracts. 

Em resposta à primeira situação, 72% dos inquiridos responderam que sim. Já à segunda, 24% disseram ser uma situação vulgar. É uma visão preocupante da corrupção que grassa no país. O relatório chama-se Navigating today’s complex business risks. Europe, Middle East, India and Africa Fraud Survey 2013. E tem outras coisas interessantes.

As suspeitas de corrupção entre Angola e a Rússia

Um grupo de activistas apresentou uma queixa-crime na Procuradoria-Geral Federal Suíça contra vários governantes angolanos com base num relatório publicado esta semana pela Corruption Watch UK e pela associação Mãos Livres. Em causa está um contrato entre Angola e a Rússia, assinado em 1996, para pagar 1.5 mil milhões de dólares de uma dívida de cinco mil milhões contraída durante o regime soviético.  “Em vez de pagar este dinheiro directamente, acreditamos que o Governo de Angola, incluindo altos funcionários que beneficiaram do contrato, arranjou forma de introduzir no acordo uma empresa intermediária, criada exclusivamente para esse objectivo”, explicou à Deutche Welle o director da Corruption Watch UK, Andrew Feinstein. “O presidente dos Santos beneficiou de mais de 36 milhões de dólares, segundo os registos que conseguimos reunir”, continua.

De acordo com o site Maka Angola, do jornalista e activista Rafael Marques, o advogado David Mendes apresentou também em Angola uma denúncia semelhante, “envolvendo os seguintes dirigentes: Joaquim Duarte da Costa David, antigo presidente do Conselho de Administração da Sonangol e ministro da Indústria; José Paiva da Costa Castro, membro do Conselho de Administração da Sonangol e anterior presidente da Sonangol Londres; José Leitão da Costa e Silva, ex-chefe da Casa Civil do Presidente da República; e Elísio de Figueiredo, ex-embaixador de Angola nas Nações Unidas e Singapura. Na mesma queixa são ainda denunciados os cidadãos russos Arcadi Gaymak e Vitaly Malkin, e o cidadão franco-argelino Pierre Falcone. Segundo David Mendes, os referidos governantes e seus parceiros estrangeiros alegadamente tinham montado um esquema, a partir de 1999, para o saque de fundos derivados da venda de petróleo, geridos pela Sonangol.”

O relatório completo está aqui.

A escolha errada de um presidente africano

Era uma vez um país africano que tem o mesmo presidente desde 1979. A partir dos anos 1990, esse país enriqueceu à custa da exploração do petróleo. Só que o dinheiro do petróleo não chegou à população: ficou com a família do presidente. Ele e os filhos fizeram vários negócios na Europa. Compraram carros, casas, constituíram empresas. Durante anos, o governo do país europeu tolerou este enriquecimento, ilícito de acordo com os seus próprios padrões. Até que um grupo de cidadãos e organizações não governamentais decidiu agir e apresentar queixa contra o presidente africano. Acusaram-no de se apropriar de dinheiro do estado para adquirir bens no tal país europeu. A justiça seguiu o seu caminho. Em Julho, um juiz emitiu um mandado de detenção contra o filho do presidente. E agora apreendeu-lhe milhões de euros em bens e propriedades.

Não, não estou a falar de Angola – mas podia. Não, não estou a falar de Portugal – se calhar não podia. Estou a falar da Guiné Equatorial e da França, país onde, durante anos, Teodoro Obiang Nguema e o filho, Teodoro Nguema Obiang, gastaram milhões de euros em propriedades, carros, vinhos raros e obras de arte. E onde agora estão os dois a ser procurados e, se forem detidos, serão julgados por crimes cometidos no seu próprio país. A história foi contada há poucos dias no The New York Times que descreveu a mansão comprada pelo filho do presidente, em Paris, por 180 milhões de dólares:

The building has 101 rooms, including a Turkish bath, a hair salon, two gym clubs, a nightclub and a movie theater. (…) In September, the French police seized 11 luxury cars belonging to Mr. Obiang’s son, including two Bugatti Veyrons, among the most powerful and expensive cars in the world; a Maybach; an Aston Martin; a Ferrari Enzo; a Ferrari 599 GTO; a Rolls-Royce Phantom; and a Maserati MC12.

 

Para além da apreensão, a justiça francesa emitiu um mandado de detenção contra Teodoro Nguema Obiang e acusou-o de abuso de dinheiros públicos e de bens do Estado, quebra de confiança e lavagem de dinheiro. Para o proteger com a imunidade diplomática, o presidente, Teodoro Obiang Nguema, nomeou-o vice presidente da Guiné Equatorial. No ano passado já o tinha nomeado delegado permanente junto da Unesco.

Fez a escolha errada. Tivesse Teodoro Obiang Nguema optado por Portugal para fazer os seus investimentos, ninguém se preocuparia em saber onde foi buscar o dinheiro para comprar lotes de vinhos ou colecções de arte nacionalizadas num qualquer banco obscuro. Além disso, provavelmente, há muito que já seria membro de pleno direito da CPLP e não apenas um observador incómodo que insiste em pedir a adesão mesmo que para isso tenha de decidir, por decreto, que o português é uma das línguas oficiais da Guiné Equatorial.