Um banco, uma história

>
20140623-103547-38147175.jpg
O Central Park, em NY, tem de tudo um pouco: muito turistas, norte americanos a correr (ou melhor, a praticar running), bancas de comida, locais de homenagem a John Lennon, charretes puxadas por cavalos, lagos (que na verdade cheiram um bocado mal), ratos, diversões, artistas de rua, empregadas a passear crianças e animais, mendigos, miúdos em excursão, um zoo e até tipos a escrever posts em blogues no telemóvel. Mas é também um local que os nova iorquinos podem chamar de seu. E nenhuma zona deste grande parque transmite melhor esse sentimento do que uma pequena rua localizada junto à entrada sudeste do jardim. É um caminho empedrado, ladeado a todo o comprimento por centenas de bancos verdes que contam, cada um, uma história.
Como? Um olhar mais atento repara em pequenas placas afixadas no centro desses bancos que marcam ocasiões especiais: homenagens a familiares desaparecidos, pedidos de casamento, celebrações de aniversário, histórias de amor ou apenas os locais favoritos onde foram passadas dezenas de horas ao longo de vidas inteiras.
Está lá o banco de William e Katherine, o banco das muchachas Beverly, Maria Helena, Marlene, Pepita e Sheila, o banco de homenagem ao antigo presidente do banco da reserva federal de NY, William J. McDonough, o banco onde Ruben inscreveu o pedido de casamento a Bláthnaid, o banco onde Tucker disse pela primeira vez a Tara que a amava e onde mais tarde lhe pediu que casasse com ele, o banco que marca os 70 anos de união entre Ginger e Arthur Grossman, o banco da Mimi (assim baptizado pelos seus filhos Wendy e Lynn) e também o banco cuja placa diz apenas Melania e Donald J. Trump.
Há mais. Muitos mais. Símbolos, marcas de vidas, histórias passadas, que fazem com que o Central Park – e a cidade – possa ser considerado um local daqueles que nele vivem. À sua maneira.

20140623-103545-38145735.jpg<br /

O plano quase perfeito para derrotar os EUA

O plano era perfeito. Saía de Lisboa às 13h20 e chegava ao aeroporto de Newark às 16h20 locais. Mesmo a tempo de ver o jogo entre Portugal e os Estados Unidos. Maravilhas da diferença horária. Estava tudo previsto: apanhava um taxi para Manhatan, deixava a mala no hotel, seguia de metro até Times Square e via a partida num ecrã gigante, pronto para agitar o cachecol e gritar alto e bom som quando aviássemos os gringos. Afinal, eles acham que futebol é um jogo que se joga com as mãos e o corpo.
Mas – há sempre um mas – nada aconteceu conforme planeado. A começar em Lisboa. Não, não houve um furacão. Não, não houve uma erupção vulcânica que cobriu os céus com uma cinza assassina. O avião nem sequer se atrasou vindo de outro local qualquer. Aliás, quando cheguei à porta de embarque com a antecedência necessária ele já lá estava estacionado. Só que ao contrário do que seria expectável não partiu à hora prevista. Passava das 15h30 quando o voo levantou – sem grandes explicações por parte da TAP.
Times Square estava fora de jogo. Restava um ecrã qualquer. Pouco depois da aterragem o comandante informava – com “honra” – que Portugal ganhava um a zero. Entre saír, atravessar os controlos fronteiriços, recolher a bagagem e apanhar um taxi a segunda parte estava a começar. A meio do caminho o motorista resolve alterar o preço e parou na berma da auto-estrada para eu decidir se continuava ou voltava para trás – claro que teria que pagar a corrida de regresso. Estávamos a discutir se as portagens estariam incluídas no preço quando os EUA empataram o jogo. A notícia chegou por SMS. Ao que parecia, não estava a perder grande coisa.
Acabei por fazer as pazes com o motorista, um haitiano simpático chamado Serge que vive há 29 anos nos EUA. Tinha acabado de regressar do seu país onde passou duas semanas numa reunião alargada de família. Viajou com a mulher, filhos, sobrinhos, cunhados e irmãos. A mãe, de 84 anos, também foi. Para a proteger, não lhe contaram que um sobrinho que vive no país morreu recentemente. Disseram-lhe que ele estava a tirar um curso de formação no Canadá. Ela acreditou: “não vale a pena preocupá-la”.
Quando lhe contei que vinha de Portugal, ele disse duas coisas. A primeira: “O jogo está empatado a um.” A segunda: “Tenho um sobrinho que casou com uma portuguesa e vive em Portugal. Conheceram-se na República Dominicana. Estavam os dois a dar lá aulas.”
Entre o transito para atravessar o Lincoln Tunnel não parecia haver muita gente interessada no jogo. Nem o Serge. Sem notícias do que se passava acabámos por ser informados através de um telefonema. A mãe do motorista ligou-lhe para lhe dizer que a partida tinha acabado com um empate a dois golos. Sem honra nem glória. Quando me deixou à porta do hotel, Serge despediu-se com um amigável “até à próxima”. Eu também. Sem grande convicção. O cachecol nem chegou a sair da mala. Só vi os golos mais tarde. Cruzei-me com americanos com a bandeira pintada na cara. O plano revelou-se tudo menos perfeito.

20140623-082807-30487046.jpg