“Não temos medo. Somos livres”

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Nicolas Appert morreu em 1841. Deixou como legado uma invenção que perdura até hoje: a conserva alimentar. E foi na rua com o seu nome, no 11o bairro de Paris, que a direcção do Charlie Hebdo decidiu instalar o jornal satírico a 1 de Julho de 2014. À porta do número 10 nada indica a sua presença: desde o atentado sofrido em Novembro de 2011 que a localização do semanário era mantida em segredo. Quase clandestino. Até agora.
Dois dias após o atentado que vitimou 12 pessoas, a rua Nicolas Appert continua vedada pela polícia. Os seus acessos foram ocupados por jornalistas. Muitos turistas fazem questão de passar pelo local. E o início e rua, foi transformado numa espécie de santuário improvisado por todos aqueles que querem prestar homenagem às vítimas do terrorismo. Há quem deixe flores, acenda uma vela ou coloque um desenho junto ao edifício.

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Para além da frase “Je suis Charlie”, as paredes do número um da rua Nicolas Appert, encheram-se de mensagens de solidariedade. Raquel, de Portugal, escreveu: “os meus pensamentos estão contigo”. Casey, dos Estados Unidos, preferiu um tom diferente: “Nunca desistir e nunca baixar os braços”. Isabel, da Noruega, quis que os parisienses soubessem que “não estão sozinhos”. Mas foi Patricia, de Espanha, quem escreveu a mensagem que talvez mais agradasse a Charb, o director da publicação: “Não temos medo, somos livres”.

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O atraso pró-activo da implementação da energia

Procrastinar* é uma arte. E eu estou a tornar-me um perito nisso. Este post, por exemplo. Depois de abrir o documento não descansei enquanto não fiz uma série de coisas antes de escrever a primeira palavra. Procrastinar, claro. Fui ao email, verifiquei o lixo e o spam, respondi a mensagens antigas, apaguei outras inúetis, dei uma vista de olhos no Facebook, distribuí uns quantos likes (contive-me nos comentários), fui às mensagens enviadas para ver se o destinatário as tinha recebido, espreitei o que se passa no grupo dos jornalistas do facebook, abri uns links que me pareceram interessantes e li a história do jornalista vencedor de um pulitzer que é na verdade um imigrante ilegal, fiquei deprimido com as estatísticas das visitas dos últimos dias a este blogue, fiz uma lista das coisas que tenho para fazer hoje,  fui falar com os directores para decidir o que irá ser feito esta semana e nas próximas, comentei o que foi publicado nos jornais de hoje, fiz piadas sobre o fecho da edição de ontem, levantei-me da cadeira, fui buscar mais um café, liguei a televisão, fiz um zapping, abri um ficheiro PDF para preparar uma entrevista, apaguei coisas antigas do computador, arrumei a secretária, fiz um telefonema, enviei alguns SMS e finalmente lá voltei ao teclado para escrever sobre um assunto importante. Temas não faltam. A crise no BES, a liderança no PS, a entrada da Guiné Equatorial na CPLP, a crise em Gaza, o BES, a dívida da Câmara de Lisboa, o tráfico de raparigas nigerianas através de Portugal, a nomeação de uma nova superpolícia, o BES, a saída do dia no Benfica, a manifestação de advogados, o BES, o Ricardo Salgado e o José Maria Ricciardi. Mas não. Saiu isto. Não disse que procrastinar é uma arte?

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*Procrastinar = deixar para depois, adiar.

Uma longa viagem

Portugal, 1964. A crise sísmica dos Rosais deixou muitos habitantes da ilha de S. Jorge, nos Açores com uma alternativa: a imigração. Muitos foram para os Estados Unidos. Mas, por pressão do Estado Novo, 21 famílias foram enviadas para Angola onde formaram o colonato de S. Jorge em Cela. Entre elas estava um rapaz de seis anos. Luís Pedroso viajava para África pela primeira vez com o pai, a mãe, a irmã mais velha, a irmã gémea e ao irmão mais novo. Não se adaptaram. Ao fim de um ano regressaram aos Açores. E em 1969 partiram para a Califórnia. Viviam numa quinta, onde o pai de Luís Pedroso trabalhava como leiteiro. Pareciam ter estabilizado. Até que, quatro anos depois, uma visita do seu pai ao médico terminou num diagnóstico arrasador: leucemia.

A mãe optou por não lhe dizer o que tinha. “Ele sabia que era mau, mas não sabia o que era”, recorda Luís Pedroso à SÁBADO sentado no seu gabinete na Accutronics, a firma de componentes electrónicos que criou há 10 anos para dar emprego à família. Doente, o pai decidiu voltar aos Açores. No dia seguinte à chegada, foi internado no hospital de Angra do Heroísmo. Morreu 30 dias depois. Sozinha, com quatro filhos, a mãe de Luís Pedroso concordou em ir para Angola, onde os seus pais tinham ficado. Não contava com a revolução de 25 de Abril de 1974. Um contacto para São Jorge não podia ser mais explícito: “pegue nos seus filhos e vá para os Estados Unidos. Não há nada aí para si”.

Como grande parte dos açorianos, tinham família nos EUA. “A minha mãe escreveu a uma prima a perguntar-lhe se havia fábricas onde as mulheres pudessem trabalhar e se ela nos ajudava. Ela disse-lhe que sim”, conta Luís Pedroso. Um mês depois chegavam a Lowell, no Massachusetts, sem falar uma palavra de inglês. “A minha mãe e a minha irmã que já tinha 16 anos foram trabalhar para uma fábrica de sapatos dois dias depois, nós fomos para a escola”, continua.

Luís Pedroso fez o liceu mas decidiu não ir para a faculdade por não saber exactamente o que queria. Acabou a trabalhar numa fábrica de montagem de placas de computadores com a mãe e a irmã mais velha. Esteve lá um ano. Demitiu-se, arranjou emprego como caixa num banco, não gostou, voltou a despedir-se e regressou à electrónica. Foi contratado por uma empresa que produzia equipamentos electrónicos. Começou no armazém. Passados dois anos e meio tinha responsabilidades nas áreas da documentação, inspecção, montagem e inventário.

A empresa estava a crescer. Começaram a introduzir máquinas na produção para trabalho industrial. E iam deixar de produzir para algumas companhias. “Vi aí uma oportunidade”, recorda. “Falei com um colega que lidava com os clientes e disse-lhe que se conseguisse trazer um deles nós podíamos começar algo”. Após várias tentativas uma das empresas disse que sim. “Um mês depois demiti-me. Três semanas despediu-se ele. Começámos a Qualitronics”, conta.

Na época (em 1984) não era preciso muito capital para montar uma empresa. Era tudo feito à mão. Bastavam algumas mesas e ferramentas. A mãe e os irmãos despediram-se e foram trabalhar com ele. Dois anos depois comprou a parte do sócio na firma. O negócio cresceu. Todos os anos. Tornou-se avassalador. O trabalho era tanto que Luís Pedroso teve um esgotamento. No ano 2000 a firma tinha 165 empregados e facturava 25 milhões de dólares por ano. “Decidi vender a uma empresa que por sua vez fazia 800 milhões em vendas”, conta. Não revela o valor do negócio. Mas sabe que o timing foi perfeito. A crise afectou a área profundamente e essa firma acabou por ser vendida a outra que facturava oito mil milhões.

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Aos 42 anos estava reformado. Tinha uma vida tranquila. Mas quando a companhia decidiu levar as instalações para o México e para outros Estados, o irmão e as duas irmãs ficaram desempregadas. Pediram-lhe para os ajudar a começar algo. A primeira resposta foi não. “Só que acho que a minha irmã mais velha pediu à minha mãe para falar comigo”, ri-se. Criaram a Accutronics em Janeiro de 2004. Luís Pedroso concordou em financiar o negócio e ajudá-los durante cinco anos. Contratou duas pessoas, um engenheiro e um vendedor, sob condições muito específicas: só seriam pagos quando o negócio lhes pudesse pagar. “Era o incentivo deles”, diz.

Não resultou. Durante dois anos a empresa perdeu dinheiro todos os meses. “Essas duas pessoas saíram e nessa altura tive de entrar a tempo inteiro”, recorda. Foi o suficiente. Seis meses depois atingiram o equilíbrio financeiro e desde então que a firma dá lucro. A reputação que detinha no mercado terá ajudado. Os clientes começaram a aparecer. Hoje emprega 102 pessoas e estão a expandir-se para novas instalações. Produzem todo o tipo de equipamentos que tenha um circuito e que não compensa aos fabricantes produzirem devido ao nível de especialização necessária: impressoras de 3D, estúdios de televisão, scanners médicos, aparelhos rebóticos, componente de aviões, lasers, etc. Facturam cerca de 14 milhões por ano e, com a expansão, quer aproximar-se dos 30 milhões em cinco anos.

É Luís Pedroso quem gere o negócio. Mas é também accionista minoritário. Criou a empresa para os irmãos. E tem por objectivo trabalhar em part-time, apenas a olhar para os números. “Dei-lhes cinco anos e já vou em 10. Não me importo, mas quero libertar-me”, diz. Está profundamente envolvido na comunidade. Para além de benemérito, é consultor da Parker Foundation. Durante vários anos esteve na administração da Greater Lowell Community Foundation que apoia organizações não governamentais locais. Saiu recentemente porque foi nomeado para a administração do maior banco da cidade. Vai longe o tempo em que se sentia intimidado pelos engenheiros e vice-presidentes que tinham um diploma universitário. “Comecei a perceber que nem todos sabem tudo. Às tantas eles começaram a fazer-me perguntas e eu pensava: ‘esperem aí, vocês é que deviam saber isso’. A faculdade é importante e ajuda a quebrar barreiras, mas o senso comum não é assim tão comum. O tipo que inventou a expressão enganou-se: devia ser o senso incomum”.

A SÁBADO viajou para os Estados Unidos com o apoio da FLAD.

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A rainha da Graciosa

Elísia Saab percorre os corredores da Vention Medical, uma empresa dedicada à produção de componentes para a indústria médica, como quem está em casa. Conhece todos os cantos. E todos os funcionários. Apesar de já estar afastada da gestão da firma sedeada em New Hampshire, nos Estados Unidos, continua a ser acolhida como se fosse da família, não fosse ela uma das fundadoras de um grupo que reuniu três das mais inovadoras companhias do ramo: a TDC Medical, a The MedTech Group e a Advanced Polymers. Enquanto vai fazendo uma visita guiada às instalações, é inevitável trocar algumas palavras em português com os funcionários que encontra pelo caminho. A maioria originários da ilha Graciosa, nos Açores. Tal como ela.

Chegou aos Estados Unidos na década de 1960. Tinha quatro anos. Cresceu, estudou e durante um casamento conheceu aquele que seria o amor da sua vida: Mark Saab, um norte-americano de origem libanesa licenciado em engenharia plástica. Os dois acabaram por se casar no início da década de 1980. Cada um mantinha o seu emprego. Ela geria a contabilidade e os recursos humanos de uma companhia que produzia placas para computadores. Ele era o principal engenheiro da empresa que o tinha contratado e onde tinha desenvolvido um dos primeiros balões para cateteres angiográficos, usado para desentupir artérias. O produto foi um sucesso. Mas pela patente, Mark recebeu apenas um dólar.

Durante dois anos tentou convencer a mulher a aventurarem-se por conta própria. Ela resistiu. Até ao dia em que ele lhe disse que os responsáveis do marketing é que estavam a ganhar dinheiro com a sua invenção. “Dá-me um ano e se não resultar acabou-se”, pediu-lhe. Ela concordou. Em 1989 criaram a Advanced Polymers. Elísia abdicou de fins-de-semana e feriados, acumulou o emprego que já tinha com o trabalho na nova empresa e criou as duas filhas. “Aos sete dias a primeira foi comigo para o trabalho. Tínhamos lá o berço e tudo”, conta Elísia. Enquanto isso, Mark dedicava-se exclusivamente à criação de novos produtos para a indústria médica. Sobretudo um, que ninguém estava a fazer: um tubo médico ultra-fino e altamente resistente que encolhia quando exposto ao calor.

É um produto difícil de explicar. Imaginem uma palhinha ultrafina que encolhe com o calor e serve para apertar aquilo que está no interior. “Temos um que é mais fino do que um cabelo mas com um buraco no interior e ultraresistente”, diz Elísia. Fazem todos os tamanhos. Alguns só por encomenda. Ao contrário de muitos outros produtos – como os balões médicos, cateteres, etc – nunca o patentearam. Teriam de revelar o segredo. “Mais ninguém no mundo produz este tubo. Só o Mark conhece exactamente todo o processo”, conta Elísia.

Os primeiros funcionários chegaram dos Açores. Da Graciosa, claro. Tiveram formação e muitos ainda hoje se mantém na empresa. Em poucos anos a firma estava a dar lucro. Mark criou inúmeras soluções para problemas médicos e tem mais de 30 patentes em seu nome. Elísia era a gestora da companhia. O sucesso foi tão grande que rapidamente começaram a ser cobiçados. Resistiram sempre. Até que há quatro anos receberam uma proposta irrecusável e foram comprados pela Vention Capital.

Esta companhia adquiriu várias outras firmas e foi criado o conglomerado Vention Medical. Para além de ficarem na administração da nova empresa, que tem uma facturação de várias centenas de milhões de dólares, Mark e Elísia mantiveram a propriedade do edifício onde a companhia está instalada. Ou seja, recebem uma renda mensal. Hoje, Mark continua a dedicar-se à criação de novos produtos. “Conseguimos ter um protótipo cá fora em seis semanas”, diz Elísia. Ela dedica-se à família e à solidariedade social. Criaram a Fundação da Família Saab – gerida pela sua filha, Analise – que apoia organizações de caridade e distribui bolsas de estudo a pessoas carenciadas.

Em 2012 o casal tornou-se o maior doador individual da Universidade de Lowell no Massachusetts (onde Mark se licenciou) e em reconhecimento desse compromisso de vários milhões, a instituição baptizou o edifício de 80 milhões onde está instalado o centro de novas tecnologias e inovação de Mark and Elisia Saab Center. Ainda assim, mantém a simplicidade e simpatia. Guia o próprio carro pelas ruas de Lowell, fala com os vizinhos que encontra, continua a dar-se com a comunidade portuguesa e emprega várias pessoas da Graciosa. Tem uma casa na ilha, que faz questão de mostrar na fotografia que tem no enorme salão da sua vivenda com vista para o rio. “Vamos lá todos os anos. É casa”, diz.

A SÁBADO viajou para os EUA com o apoio da FLAD

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A algarvia que deixa todos a sorrir

Liliana de Sousa é uma algarvia de sorriso fácil e contagiante. Nascida em Olhão em 1959, imigrou para os Estados Unidos quando tinha 12 anos. Foi morar para Provincetown, uma localidade piscatória na costa leste dos Estados Unidos. “Na altura isto era quase tudo de portugueses. Cerca de 80% dos três mil habitantes”, diz à SÁBADO, no último dia do festival português de Provincetown.

Tal como a maioria dos filhos dos imigrantes que quiseram estudar, acabou por deixar a localidade e mudar-se para Boston. Tirou um curso universitário e tornou-se administradora da TAP quando a companhia aérea portuguesa ainda tinha voos directos para a capital do estado norte-americano do Massachusetts. Hoje dirige uma clínica.

Apesar de já não ter casa na localidade, passa muitas vezes o fim-de-semana junto ao local onde cresceu e que se transformou num destino de artistas e escritores. Liliana recorda-se de se cruzar diariamente com o actor Richard Gere (com quem uma amiga dela garante ter tido um namoro) ou com o escritor Norman Mailler. “Ele estava sempre bêbado. Frequentava um pub no centro da cidade onde só vão os locais e sentava-se ao balcão onde acabava com a cabeça apoiada nos braços. Andava sempre descalço, excepto no Inverno, altura em que calçava umas sandálias”, recorda.

O estilista Marc Jacobs tem lá uma casa (e uma loja). O apresentador de televisão Anthon Bourdain também. “Ele foi chef num restaurante que já fechou”, conta num português perfeito onde ainda se nota o sotaque algarvio.  Fala da evolução da cidade com paixão. “Dizem que os gays vieram para cá por causa dos portugueses. Ao contrário de outros povos não se importavam com eles desde que não chateassem”, afirma. “No Verão, os artistas acampavam nos nossos terraços e os pescadores davam-lhes baldes com peixes”, lembra.

Juntamente com mais seis pessoas, é Liliana quem organiza o festival ano após ano. Na verdade, ela é considerada a alma do evento. Para além de ser a única portuguesa do grupo, é com ela que os participantes gostam de falar. Ela conhece-os. Depois de liderar o desfile do passado sábado, ficou à espera que os últimos elementos percorressem a Comercial Street – a principal da cidade. Cumprimentou-os quase todos pelo primeiro nome. Deu indicações. Dançou melodias tradicionais. E foi a ela que os visitantes da cidade se dirigiram para dar os parabéns pela organização do evento. Ela agradeceu a todos com um sorriso: “Obrigado. Não sabe o que isso significa para mim”.

Ela sabe. Todos os anos pensa que não consegue mais. Os preparativos para o ano seguinte começam em Setembro. “Quando chego a Maio digo que já não aguento e que não vou fazer nada. Mas depois acabo por mudar de ideias e é muito gratificante”, diz. Até ao próximo. Sempre com um sorriso.

A SÁBADO viajou para os EUA com o apoio da FLAD

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O santo e os pecadores de mãos dadas

Todos os anos, no último domingo de Junho, a imagem de S. Pedro deixa a igreja de Provincetown, em Cape Cod, na costa leste dos Estados Unidos, e atravessa as ruas da cidade. Carregado por quatro voluntários de origem portuguesa, o andor com o santo lidera uma procissão rumo ao cais de onde, desde o século XIX, navios com marinheiros lusos partem para dias, semanas ou meses de pesca nos mares do Atlântico. Junto ao mar, a imagem é colocada no chão para uma primeira benção em terra. Em seguida sobe a bordo de um navio que encabeça um cortejo de embarcações adornadas com bandeiras de Portugal e dos EUA que também recebem a benção católica.

A cerimónia é o último grande evento do festival português de Provincetown. Durante quatro dias a localidade fica coberta de bandeiras nacionais, é palco de promoções gastronómicas, espectáculos musicais e de uma parada que atravessa a Commercial Street, a principal avenida da cidade. Nela desfilam  ex-militares que combateram na guerra colonial, imigrantes que mantém vivas as tradições das suas regiões – como os ranchos folclóricos -, e também luso-descendentes que fazem questão de afirmar as suas origens.

Todo o evento é uma forma de assinalar a importante presença portuguesa na região. Os primeiros a chegar foram pescadores recrutados sobretudo nos Açores, mas também em Portugal continental, para trabalhar na indústria pesqueira norte-americana no início do século XIX. Por volta de 1890, a vila teve um rápido crescimento e devido às suas praias e belezas naturais começou a ser frequentada por artistas e escritores e a desenvolver uma pequena indústria turística – sobretudo homossexual. O grande boom de popularidade deu-se na década de 1960. Os preços baixos, o ambiente informal e libertino, os cafés, bares e restaurantes junto à praia atraíram uma clientela cada vez mais endinheirada que fizeram os preços das propriedades crescer brutalmente. Hoje, tem uma população de cerca de 3000 pessoas que no Verão cresce para os 60 mil e que a tornam no principal destino gay da costa leste dos Estados Unidos.

O contraste entre a tradição e libertinagem é enorme. No desfile do passado sábado, homens e mulheres com trajes minhotos acenavam a varandas cheias de grupos de homens em tronco nu e camisolas de alças, a casais de mulheres com um aspecto másculo ou drag queens que promoviam os eventos dessa noite. Já durante a procissão do dia seguinte, a imagem de São Pedro percorreu as ruas estreitas ladeadas por moradias de um ou dois andares que, na véspera, foram palco de festas e actos muito pouco católicos. Cruza-se com casais de homens de trocam carícias. Mulheres que se beijam na rua. Sempre num ambiente de grande tolerância. Vão de mãos dadas. Santos e pecadores.

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O fotógrafo tarado por cuequinhas

Os norte-americanos são uma caixinha de surpresas. O país que quase demitiu um presidente por alegadamente ter tido sexo com uma estagiária na sala oval enfrenta uma nova ameaça sexual. Chamam-lhe “upskirting”. Não me parece que haja uma expressão em português para esta forma de assédio. Mas a definição é simples: o usar um telemóvel ou de um tablet para fotografar disfarçadamente a roupa interior de uma mulher que use saias.
Sim. É verdade. Pelo menos no estado do Massachusetts, parece que há uma onda de paparazzos amadores que se dedicam a tirar retratos pirata da roupa interior das mulheres em plena rua. A ameaça é tão grande que, em Março, o congresso estadual aprovou uma lei que ilegalizou o “upskirting”. Podia ser mais uma lei ridícula que nunca seria aplicada. Mas não foi.
Na passada terça-feira, às 17h45, uma mulher estava na estação de autocarros de Forest Hill, quando sentiu algo estranho. Um homem, que estava sentado num banco, tinha acabado de esticar o braço para apontar a câmara de um iPad na direcção das suas coxas. Depois entrou num autocarro e desapareceu.
De acordo com o chefe da polícia de trânsito, Paul MacMillan, citado pelo The Boston Globe, a vítima chamou as autoridades e indicou-lhes o veículo em que o fotógrafo amador tinha entrado. Eles pararam o autocarro, viram um homem com um iPad na mão que correspondia à descrição, e levaram-no de volta à estação. Segundo as autoridades, nessa altura, o suspeito disse-lhes que tinha visto nas notícias que não era ilegal fotografar a roupa interior de uma mulher e que, por isso, não só achava que era permitido fazê-lo, como o tem vindo a fazer. Nem valia a pena dizer que estavam a confundi-lo com outra pessoa: quando estava a entrar no autocarro, a vítima usou o seu próprio telemóvel para o fotografar.
Já na esquadra, tornou-se o primeiro norte-americano a ser preso e acusado pela prática de “upskirting”. Mas afinal o que é que isso nos interessa? Quando se identificou às autoridades, o suspeito mostrou um bilhete de identidade com o nome de Joshua Gonsalves. Não sei se o paparazzo amador será luso-descendente. Mas num estado com uma das maiores comunidades portuguesas dos Estados Unidos, a probabilidade é grande.
Para já, Gonsalves saiu em liberdade com uma fiança de 150 dólares e a proibição de se aproximar da estação de comboios. Mas no próximo dia 22 de Agosto voltará a tribunal para ser julgado. Se, até lá, forem encontradas mais imagens do género no seu iPad e no seu iPhone, o número de acusações poderá subir. De qualquer o primeiro acusado de “upskirting” ficará na história com um nome português.

Nuno Tiago Pinto, nos Estados Unidos

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