“Não temos medo. Somos livres”

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Nicolas Appert morreu em 1841. Deixou como legado uma invenção que perdura até hoje: a conserva alimentar. E foi na rua com o seu nome, no 11o bairro de Paris, que a direcção do Charlie Hebdo decidiu instalar o jornal satírico a 1 de Julho de 2014. À porta do número 10 nada indica a sua presença: desde o atentado sofrido em Novembro de 2011 que a localização do semanário era mantida em segredo. Quase clandestino. Até agora.
Dois dias após o atentado que vitimou 12 pessoas, a rua Nicolas Appert continua vedada pela polícia. Os seus acessos foram ocupados por jornalistas. Muitos turistas fazem questão de passar pelo local. E o início e rua, foi transformado numa espécie de santuário improvisado por todos aqueles que querem prestar homenagem às vítimas do terrorismo. Há quem deixe flores, acenda uma vela ou coloque um desenho junto ao edifício.

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Para além da frase “Je suis Charlie”, as paredes do número um da rua Nicolas Appert, encheram-se de mensagens de solidariedade. Raquel, de Portugal, escreveu: “os meus pensamentos estão contigo”. Casey, dos Estados Unidos, preferiu um tom diferente: “Nunca desistir e nunca baixar os braços”. Isabel, da Noruega, quis que os parisienses soubessem que “não estão sozinhos”. Mas foi Patricia, de Espanha, quem escreveu a mensagem que talvez mais agradasse a Charb, o director da publicação: “Não temos medo, somos livres”.

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O atraso pró-activo da implementação da energia

Procrastinar* é uma arte. E eu estou a tornar-me um perito nisso. Este post, por exemplo. Depois de abrir o documento não descansei enquanto não fiz uma série de coisas antes de escrever a primeira palavra. Procrastinar, claro. Fui ao email, verifiquei o lixo e o spam, respondi a mensagens antigas, apaguei outras inúetis, dei uma vista de olhos no Facebook, distribuí uns quantos likes (contive-me nos comentários), fui às mensagens enviadas para ver se o destinatário as tinha recebido, espreitei o que se passa no grupo dos jornalistas do facebook, abri uns links que me pareceram interessantes e li a história do jornalista vencedor de um pulitzer que é na verdade um imigrante ilegal, fiquei deprimido com as estatísticas das visitas dos últimos dias a este blogue, fiz uma lista das coisas que tenho para fazer hoje,  fui falar com os directores para decidir o que irá ser feito esta semana e nas próximas, comentei o que foi publicado nos jornais de hoje, fiz piadas sobre o fecho da edição de ontem, levantei-me da cadeira, fui buscar mais um café, liguei a televisão, fiz um zapping, abri um ficheiro PDF para preparar uma entrevista, apaguei coisas antigas do computador, arrumei a secretária, fiz um telefonema, enviei alguns SMS e finalmente lá voltei ao teclado para escrever sobre um assunto importante. Temas não faltam. A crise no BES, a liderança no PS, a entrada da Guiné Equatorial na CPLP, a crise em Gaza, o BES, a dívida da Câmara de Lisboa, o tráfico de raparigas nigerianas através de Portugal, a nomeação de uma nova superpolícia, o BES, a saída do dia no Benfica, a manifestação de advogados, o BES, o Ricardo Salgado e o José Maria Ricciardi. Mas não. Saiu isto. Não disse que procrastinar é uma arte?

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*Procrastinar = deixar para depois, adiar.

Uma longa viagem

Portugal, 1964. A crise sísmica dos Rosais deixou muitos habitantes da ilha de S. Jorge, nos Açores com uma alternativa: a imigração. Muitos foram para os Estados Unidos. Mas, por pressão do Estado Novo, 21 famílias foram enviadas para Angola onde formaram o colonato de S. Jorge em Cela. Entre elas estava um rapaz de seis anos. Luís Pedroso viajava para África pela primeira vez com o pai, a mãe, a irmã mais velha, a irmã gémea e ao irmão mais novo. Não se adaptaram. Ao fim de um ano regressaram aos Açores. E em 1969 partiram para a Califórnia. Viviam numa quinta, onde o pai de Luís Pedroso trabalhava como leiteiro. Pareciam ter estabilizado. Até que, quatro anos depois, uma visita do seu pai ao médico terminou num diagnóstico arrasador: leucemia.

A mãe optou por não lhe dizer o que tinha. “Ele sabia que era mau, mas não sabia o que era”, recorda Luís Pedroso à SÁBADO sentado no seu gabinete na Accutronics, a firma de componentes electrónicos que criou há 10 anos para dar emprego à família. Doente, o pai decidiu voltar aos Açores. No dia seguinte à chegada, foi internado no hospital de Angra do Heroísmo. Morreu 30 dias depois. Sozinha, com quatro filhos, a mãe de Luís Pedroso concordou em ir para Angola, onde os seus pais tinham ficado. Não contava com a revolução de 25 de Abril de 1974. Um contacto para São Jorge não podia ser mais explícito: “pegue nos seus filhos e vá para os Estados Unidos. Não há nada aí para si”.

Como grande parte dos açorianos, tinham família nos EUA. “A minha mãe escreveu a uma prima a perguntar-lhe se havia fábricas onde as mulheres pudessem trabalhar e se ela nos ajudava. Ela disse-lhe que sim”, conta Luís Pedroso. Um mês depois chegavam a Lowell, no Massachusetts, sem falar uma palavra de inglês. “A minha mãe e a minha irmã que já tinha 16 anos foram trabalhar para uma fábrica de sapatos dois dias depois, nós fomos para a escola”, continua.

Luís Pedroso fez o liceu mas decidiu não ir para a faculdade por não saber exactamente o que queria. Acabou a trabalhar numa fábrica de montagem de placas de computadores com a mãe e a irmã mais velha. Esteve lá um ano. Demitiu-se, arranjou emprego como caixa num banco, não gostou, voltou a despedir-se e regressou à electrónica. Foi contratado por uma empresa que produzia equipamentos electrónicos. Começou no armazém. Passados dois anos e meio tinha responsabilidades nas áreas da documentação, inspecção, montagem e inventário.

A empresa estava a crescer. Começaram a introduzir máquinas na produção para trabalho industrial. E iam deixar de produzir para algumas companhias. “Vi aí uma oportunidade”, recorda. “Falei com um colega que lidava com os clientes e disse-lhe que se conseguisse trazer um deles nós podíamos começar algo”. Após várias tentativas uma das empresas disse que sim. “Um mês depois demiti-me. Três semanas despediu-se ele. Começámos a Qualitronics”, conta.

Na época (em 1984) não era preciso muito capital para montar uma empresa. Era tudo feito à mão. Bastavam algumas mesas e ferramentas. A mãe e os irmãos despediram-se e foram trabalhar com ele. Dois anos depois comprou a parte do sócio na firma. O negócio cresceu. Todos os anos. Tornou-se avassalador. O trabalho era tanto que Luís Pedroso teve um esgotamento. No ano 2000 a firma tinha 165 empregados e facturava 25 milhões de dólares por ano. “Decidi vender a uma empresa que por sua vez fazia 800 milhões em vendas”, conta. Não revela o valor do negócio. Mas sabe que o timing foi perfeito. A crise afectou a área profundamente e essa firma acabou por ser vendida a outra que facturava oito mil milhões.

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Aos 42 anos estava reformado. Tinha uma vida tranquila. Mas quando a companhia decidiu levar as instalações para o México e para outros Estados, o irmão e as duas irmãs ficaram desempregadas. Pediram-lhe para os ajudar a começar algo. A primeira resposta foi não. “Só que acho que a minha irmã mais velha pediu à minha mãe para falar comigo”, ri-se. Criaram a Accutronics em Janeiro de 2004. Luís Pedroso concordou em financiar o negócio e ajudá-los durante cinco anos. Contratou duas pessoas, um engenheiro e um vendedor, sob condições muito específicas: só seriam pagos quando o negócio lhes pudesse pagar. “Era o incentivo deles”, diz.

Não resultou. Durante dois anos a empresa perdeu dinheiro todos os meses. “Essas duas pessoas saíram e nessa altura tive de entrar a tempo inteiro”, recorda. Foi o suficiente. Seis meses depois atingiram o equilíbrio financeiro e desde então que a firma dá lucro. A reputação que detinha no mercado terá ajudado. Os clientes começaram a aparecer. Hoje emprega 102 pessoas e estão a expandir-se para novas instalações. Produzem todo o tipo de equipamentos que tenha um circuito e que não compensa aos fabricantes produzirem devido ao nível de especialização necessária: impressoras de 3D, estúdios de televisão, scanners médicos, aparelhos rebóticos, componente de aviões, lasers, etc. Facturam cerca de 14 milhões por ano e, com a expansão, quer aproximar-se dos 30 milhões em cinco anos.

É Luís Pedroso quem gere o negócio. Mas é também accionista minoritário. Criou a empresa para os irmãos. E tem por objectivo trabalhar em part-time, apenas a olhar para os números. “Dei-lhes cinco anos e já vou em 10. Não me importo, mas quero libertar-me”, diz. Está profundamente envolvido na comunidade. Para além de benemérito, é consultor da Parker Foundation. Durante vários anos esteve na administração da Greater Lowell Community Foundation que apoia organizações não governamentais locais. Saiu recentemente porque foi nomeado para a administração do maior banco da cidade. Vai longe o tempo em que se sentia intimidado pelos engenheiros e vice-presidentes que tinham um diploma universitário. “Comecei a perceber que nem todos sabem tudo. Às tantas eles começaram a fazer-me perguntas e eu pensava: ‘esperem aí, vocês é que deviam saber isso’. A faculdade é importante e ajuda a quebrar barreiras, mas o senso comum não é assim tão comum. O tipo que inventou a expressão enganou-se: devia ser o senso incomum”.

A SÁBADO viajou para os Estados Unidos com o apoio da FLAD.

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A rainha da Graciosa

Elísia Saab percorre os corredores da Vention Medical, uma empresa dedicada à produção de componentes para a indústria médica, como quem está em casa. Conhece todos os cantos. E todos os funcionários. Apesar de já estar afastada da gestão da firma sedeada em New Hampshire, nos Estados Unidos, continua a ser acolhida como se fosse da família, não fosse ela uma das fundadoras de um grupo que reuniu três das mais inovadoras companhias do ramo: a TDC Medical, a The MedTech Group e a Advanced Polymers. Enquanto vai fazendo uma visita guiada às instalações, é inevitável trocar algumas palavras em português com os funcionários que encontra pelo caminho. A maioria originários da ilha Graciosa, nos Açores. Tal como ela.

Chegou aos Estados Unidos na década de 1960. Tinha quatro anos. Cresceu, estudou e durante um casamento conheceu aquele que seria o amor da sua vida: Mark Saab, um norte-americano de origem libanesa licenciado em engenharia plástica. Os dois acabaram por se casar no início da década de 1980. Cada um mantinha o seu emprego. Ela geria a contabilidade e os recursos humanos de uma companhia que produzia placas para computadores. Ele era o principal engenheiro da empresa que o tinha contratado e onde tinha desenvolvido um dos primeiros balões para cateteres angiográficos, usado para desentupir artérias. O produto foi um sucesso. Mas pela patente, Mark recebeu apenas um dólar.

Durante dois anos tentou convencer a mulher a aventurarem-se por conta própria. Ela resistiu. Até ao dia em que ele lhe disse que os responsáveis do marketing é que estavam a ganhar dinheiro com a sua invenção. “Dá-me um ano e se não resultar acabou-se”, pediu-lhe. Ela concordou. Em 1989 criaram a Advanced Polymers. Elísia abdicou de fins-de-semana e feriados, acumulou o emprego que já tinha com o trabalho na nova empresa e criou as duas filhas. “Aos sete dias a primeira foi comigo para o trabalho. Tínhamos lá o berço e tudo”, conta Elísia. Enquanto isso, Mark dedicava-se exclusivamente à criação de novos produtos para a indústria médica. Sobretudo um, que ninguém estava a fazer: um tubo médico ultra-fino e altamente resistente que encolhia quando exposto ao calor.

É um produto difícil de explicar. Imaginem uma palhinha ultrafina que encolhe com o calor e serve para apertar aquilo que está no interior. “Temos um que é mais fino do que um cabelo mas com um buraco no interior e ultraresistente”, diz Elísia. Fazem todos os tamanhos. Alguns só por encomenda. Ao contrário de muitos outros produtos – como os balões médicos, cateteres, etc – nunca o patentearam. Teriam de revelar o segredo. “Mais ninguém no mundo produz este tubo. Só o Mark conhece exactamente todo o processo”, conta Elísia.

Os primeiros funcionários chegaram dos Açores. Da Graciosa, claro. Tiveram formação e muitos ainda hoje se mantém na empresa. Em poucos anos a firma estava a dar lucro. Mark criou inúmeras soluções para problemas médicos e tem mais de 30 patentes em seu nome. Elísia era a gestora da companhia. O sucesso foi tão grande que rapidamente começaram a ser cobiçados. Resistiram sempre. Até que há quatro anos receberam uma proposta irrecusável e foram comprados pela Vention Capital.

Esta companhia adquiriu várias outras firmas e foi criado o conglomerado Vention Medical. Para além de ficarem na administração da nova empresa, que tem uma facturação de várias centenas de milhões de dólares, Mark e Elísia mantiveram a propriedade do edifício onde a companhia está instalada. Ou seja, recebem uma renda mensal. Hoje, Mark continua a dedicar-se à criação de novos produtos. “Conseguimos ter um protótipo cá fora em seis semanas”, diz Elísia. Ela dedica-se à família e à solidariedade social. Criaram a Fundação da Família Saab – gerida pela sua filha, Analise – que apoia organizações de caridade e distribui bolsas de estudo a pessoas carenciadas.

Em 2012 o casal tornou-se o maior doador individual da Universidade de Lowell no Massachusetts (onde Mark se licenciou) e em reconhecimento desse compromisso de vários milhões, a instituição baptizou o edifício de 80 milhões onde está instalado o centro de novas tecnologias e inovação de Mark and Elisia Saab Center. Ainda assim, mantém a simplicidade e simpatia. Guia o próprio carro pelas ruas de Lowell, fala com os vizinhos que encontra, continua a dar-se com a comunidade portuguesa e emprega várias pessoas da Graciosa. Tem uma casa na ilha, que faz questão de mostrar na fotografia que tem no enorme salão da sua vivenda com vista para o rio. “Vamos lá todos os anos. É casa”, diz.

A SÁBADO viajou para os EUA com o apoio da FLAD

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A algarvia que deixa todos a sorrir

Liliana de Sousa é uma algarvia de sorriso fácil e contagiante. Nascida em Olhão em 1959, imigrou para os Estados Unidos quando tinha 12 anos. Foi morar para Provincetown, uma localidade piscatória na costa leste dos Estados Unidos. “Na altura isto era quase tudo de portugueses. Cerca de 80% dos três mil habitantes”, diz à SÁBADO, no último dia do festival português de Provincetown.

Tal como a maioria dos filhos dos imigrantes que quiseram estudar, acabou por deixar a localidade e mudar-se para Boston. Tirou um curso universitário e tornou-se administradora da TAP quando a companhia aérea portuguesa ainda tinha voos directos para a capital do estado norte-americano do Massachusetts. Hoje dirige uma clínica.

Apesar de já não ter casa na localidade, passa muitas vezes o fim-de-semana junto ao local onde cresceu e que se transformou num destino de artistas e escritores. Liliana recorda-se de se cruzar diariamente com o actor Richard Gere (com quem uma amiga dela garante ter tido um namoro) ou com o escritor Norman Mailler. “Ele estava sempre bêbado. Frequentava um pub no centro da cidade onde só vão os locais e sentava-se ao balcão onde acabava com a cabeça apoiada nos braços. Andava sempre descalço, excepto no Inverno, altura em que calçava umas sandálias”, recorda.

O estilista Marc Jacobs tem lá uma casa (e uma loja). O apresentador de televisão Anthon Bourdain também. “Ele foi chef num restaurante que já fechou”, conta num português perfeito onde ainda se nota o sotaque algarvio.  Fala da evolução da cidade com paixão. “Dizem que os gays vieram para cá por causa dos portugueses. Ao contrário de outros povos não se importavam com eles desde que não chateassem”, afirma. “No Verão, os artistas acampavam nos nossos terraços e os pescadores davam-lhes baldes com peixes”, lembra.

Juntamente com mais seis pessoas, é Liliana quem organiza o festival ano após ano. Na verdade, ela é considerada a alma do evento. Para além de ser a única portuguesa do grupo, é com ela que os participantes gostam de falar. Ela conhece-os. Depois de liderar o desfile do passado sábado, ficou à espera que os últimos elementos percorressem a Comercial Street – a principal da cidade. Cumprimentou-os quase todos pelo primeiro nome. Deu indicações. Dançou melodias tradicionais. E foi a ela que os visitantes da cidade se dirigiram para dar os parabéns pela organização do evento. Ela agradeceu a todos com um sorriso: “Obrigado. Não sabe o que isso significa para mim”.

Ela sabe. Todos os anos pensa que não consegue mais. Os preparativos para o ano seguinte começam em Setembro. “Quando chego a Maio digo que já não aguento e que não vou fazer nada. Mas depois acabo por mudar de ideias e é muito gratificante”, diz. Até ao próximo. Sempre com um sorriso.

A SÁBADO viajou para os EUA com o apoio da FLAD

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O santo e os pecadores de mãos dadas

Todos os anos, no último domingo de Junho, a imagem de S. Pedro deixa a igreja de Provincetown, em Cape Cod, na costa leste dos Estados Unidos, e atravessa as ruas da cidade. Carregado por quatro voluntários de origem portuguesa, o andor com o santo lidera uma procissão rumo ao cais de onde, desde o século XIX, navios com marinheiros lusos partem para dias, semanas ou meses de pesca nos mares do Atlântico. Junto ao mar, a imagem é colocada no chão para uma primeira benção em terra. Em seguida sobe a bordo de um navio que encabeça um cortejo de embarcações adornadas com bandeiras de Portugal e dos EUA que também recebem a benção católica.

A cerimónia é o último grande evento do festival português de Provincetown. Durante quatro dias a localidade fica coberta de bandeiras nacionais, é palco de promoções gastronómicas, espectáculos musicais e de uma parada que atravessa a Commercial Street, a principal avenida da cidade. Nela desfilam  ex-militares que combateram na guerra colonial, imigrantes que mantém vivas as tradições das suas regiões – como os ranchos folclóricos -, e também luso-descendentes que fazem questão de afirmar as suas origens.

Todo o evento é uma forma de assinalar a importante presença portuguesa na região. Os primeiros a chegar foram pescadores recrutados sobretudo nos Açores, mas também em Portugal continental, para trabalhar na indústria pesqueira norte-americana no início do século XIX. Por volta de 1890, a vila teve um rápido crescimento e devido às suas praias e belezas naturais começou a ser frequentada por artistas e escritores e a desenvolver uma pequena indústria turística – sobretudo homossexual. O grande boom de popularidade deu-se na década de 1960. Os preços baixos, o ambiente informal e libertino, os cafés, bares e restaurantes junto à praia atraíram uma clientela cada vez mais endinheirada que fizeram os preços das propriedades crescer brutalmente. Hoje, tem uma população de cerca de 3000 pessoas que no Verão cresce para os 60 mil e que a tornam no principal destino gay da costa leste dos Estados Unidos.

O contraste entre a tradição e libertinagem é enorme. No desfile do passado sábado, homens e mulheres com trajes minhotos acenavam a varandas cheias de grupos de homens em tronco nu e camisolas de alças, a casais de mulheres com um aspecto másculo ou drag queens que promoviam os eventos dessa noite. Já durante a procissão do dia seguinte, a imagem de São Pedro percorreu as ruas estreitas ladeadas por moradias de um ou dois andares que, na véspera, foram palco de festas e actos muito pouco católicos. Cruza-se com casais de homens de trocam carícias. Mulheres que se beijam na rua. Sempre num ambiente de grande tolerância. Vão de mãos dadas. Santos e pecadores.

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O fotógrafo tarado por cuequinhas

Os norte-americanos são uma caixinha de surpresas. O país que quase demitiu um presidente por alegadamente ter tido sexo com uma estagiária na sala oval enfrenta uma nova ameaça sexual. Chamam-lhe “upskirting”. Não me parece que haja uma expressão em português para esta forma de assédio. Mas a definição é simples: o usar um telemóvel ou de um tablet para fotografar disfarçadamente a roupa interior de uma mulher que use saias.
Sim. É verdade. Pelo menos no estado do Massachusetts, parece que há uma onda de paparazzos amadores que se dedicam a tirar retratos pirata da roupa interior das mulheres em plena rua. A ameaça é tão grande que, em Março, o congresso estadual aprovou uma lei que ilegalizou o “upskirting”. Podia ser mais uma lei ridícula que nunca seria aplicada. Mas não foi.
Na passada terça-feira, às 17h45, uma mulher estava na estação de autocarros de Forest Hill, quando sentiu algo estranho. Um homem, que estava sentado num banco, tinha acabado de esticar o braço para apontar a câmara de um iPad na direcção das suas coxas. Depois entrou num autocarro e desapareceu.
De acordo com o chefe da polícia de trânsito, Paul MacMillan, citado pelo The Boston Globe, a vítima chamou as autoridades e indicou-lhes o veículo em que o fotógrafo amador tinha entrado. Eles pararam o autocarro, viram um homem com um iPad na mão que correspondia à descrição, e levaram-no de volta à estação. Segundo as autoridades, nessa altura, o suspeito disse-lhes que tinha visto nas notícias que não era ilegal fotografar a roupa interior de uma mulher e que, por isso, não só achava que era permitido fazê-lo, como o tem vindo a fazer. Nem valia a pena dizer que estavam a confundi-lo com outra pessoa: quando estava a entrar no autocarro, a vítima usou o seu próprio telemóvel para o fotografar.
Já na esquadra, tornou-se o primeiro norte-americano a ser preso e acusado pela prática de “upskirting”. Mas afinal o que é que isso nos interessa? Quando se identificou às autoridades, o suspeito mostrou um bilhete de identidade com o nome de Joshua Gonsalves. Não sei se o paparazzo amador será luso-descendente. Mas num estado com uma das maiores comunidades portuguesas dos Estados Unidos, a probabilidade é grande.
Para já, Gonsalves saiu em liberdade com uma fiança de 150 dólares e a proibição de se aproximar da estação de comboios. Mas no próximo dia 22 de Agosto voltará a tribunal para ser julgado. Se, até lá, forem encontradas mais imagens do género no seu iPad e no seu iPhone, o número de acusações poderá subir. De qualquer o primeiro acusado de “upskirting” ficará na história com um nome português.

Nuno Tiago Pinto, nos Estados Unidos

A SABADO viajou para os EUA com o apoio da FLAD

A maior ponte do mundo

A noite de 6 de Dezembro de 1941 foi animada para Charles M. Braga. O marinheiro de 22 anos, filho de imigrantes portugueses da região de Fall River, estava colocado na base de Pearl Harbor. Fazia parte da tripulação do navio Pensilvânia. Era jovem. Tinha uma farda. Boa voz para cantar. Jeito para a dança. Para além disso, parecia ser um rapaz decente: entre os colegas era conhecido pela boa disposição e pela capacidade de sanar conflitos. Chamavam-lhe o “peacemaker”.

Todas somadas, estas características aumentavam-lhe as hipóteses de sucesso entre as mulheres. Nessa noite terá sido assim. Charles só regressou as camaratas depois de varias horas a dançar com as jovens da região. Mal sabia que na manhã seguinte seria uma das milhares de vítimas do ataque japonês à base naval norte-americana no pacífico: uma bomba explodiu no navio e o seu corpo nunca foi encontrado.

No início da década de 1950, as autoridades do Massachusetts começaram a planear a construção de uma ponte que atravessasse o rio Tauton. No entanto, o projecto só avançou com construção da auto-estrada 195 que liga Providence a New Bedford. A estrutura demorou sete anos a ser construída. E quando foi inaugurada, em 1966, ligava as cidades de Somerset e Fall River – cada uma na sua margem do rio. Foi baptizada de Charles M. Braga Jr. Memorial Bridge, em homenagem ao militar luso-descendente.

Entre os locais rapidamente começou a ser conhecida apenas como a Braga Bridge. Com pouco mais de um quilómetro, é uma das maiores pontes do Massachusetts. E, segundo se conta, é a mais longa do mundo. Maior mesmo do que a ponte Danyang-Kunshan que, com 164 quilómetros, faz parte do viaduto que liga Pequim a Shangai, na República Popular da China. Motivo: na verdade, ela “atravessa” o Atlântico e “liga” os Estados Unidos (Somerset) aos Açores, de onde é originária a esmagadora maioria dos 49% de luso-americanos que constituem a população Fall River.

Nuno Tiago Pinto

Nota: A SÁBADO viajou para os EUA com o apoio da FLAD

O poder em casa

António Cabral é uma figura importante da comunidade portuguesa do Massachusetts, nos Estados Unidos. Eleito pela primeira vez para a Câmara dos Representantes estadual – o parlamento local – em 1990, está neste momento a cumprir o 11o mandato em representação da cidade de New Bedford. Nessa qualidade lidera o comité de gastos financeiros e bens estaduais. Ou seja, tem poder. E é muito respeitado. Sobretudo na comunidade portuguesa.
Percorreu um longo caminho desde que, em 1969, quando tinha 14 anos, a sua família imigrou da ilha do Pico para os Estados Unidos. Como a maioria dos imigrantes portugueses, nenhum sabia dizer uma palavra em inglês. Anos depois, “Tony” Cabral não só dominava a língua como dava aulas nas escolas públicas de Tauton, Plymouth e Carver. Daí à Câmara dos Representantes foi um passo.
Em 2011, candidatou-se a Mayor – presidente da Câmara – de New Bedford. Concorreu e perdeu (por pouco mais se 800 votos) contra Jon Mitchell que, para além de procurador adjunto dos EUA, é… o seu vizinho do lado. “Foi estranho”, diz à SÁBADO Jessica Cabral, a mulher do político luso-americano.
O casal recebeu a SÁBADO na passada segunda-feira num jantar informal com o presidente da Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento (FLAD), Vasco Rato, e o cônsul português em New Bedford, Pedro Carneiro. Tony e Jessica vivem com a filha de cinco anos, Victoria, numa moradia de três andares numa zona nobre de New Bedford. Como a maioria das casas, tem uma bandeira norte-americana pendurada no alpendre. No piso térreo Tony Cabral faz questão de mostrar os inúmeros sinais da herança portuguesa: quadros, cerâmica e, sobretudo, a fotografia a preto e branco do seu avô, de charuto na boca, que imigrou duas vezes para os EUA e acabou por morrer nos Açores.
O próprio edifício tem uma história que o casal faz questão de conhecer – e contar. Construída por um senhor chamado Walter Spooner no início do século XX, tinha um objectivo particular: conseguir que a filha do proprietário se casasse. Para além de não ter arranjado marido, a jovem desafiou as convenções da época e mudou-se para lá com uma companheira. Quando ela morreu, o edifício foi vendido a um advogado, depois a um casal de professores e, finalmente, a outro de artistas peculiares. “Ele fazia esculturas, ela pintava. E eram muito, mas muito, explícitos”, diz Jessica no final de um jantar americano servido no alpendre: churrasco, batata assada com creme, espargos e salada temperada com azeite especial. “É produzido pela minha irmã que vive em Itália”, diz Tony Cabral.
O político habituou-se a estar rodeado por mulheres: cresceu com sete irmãs e vive com outras duas. Victoria é a menina dos seus olhos. Como a mãe, não fala português. Isso não o impede de lhe responder aos pedidos constantes com uns carinhosos “yes amor” ou “I’m going amor”. Ele é o deputado estadual. Mas, em casa, elas é que têm o poder.

Nota: A SÁBADO viajou para os EUA com o apoio da FLAD

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O esloveno honesto e o português matreiro

Ao fim de duas horas todos os olhos estavam postos neles. No gigante esloveno e no baixote português. O primeiro, vestido de amarelo, com o número 41 nas costas, parecia um bloco de gelo. Passou os 120 minutos anteriores a resolver o que lhe aparecia pela frente como se estivesse num treino. Nada de especial. O segundo, vestido de laranja, com o 13 estampado no equipamento, era o oposto: cabelo espetado, ar rebelde, esteve duas horas a defender tudo e mais alguma coisa. A cada bola afastada da baliza soltava gritos de raiva que contagiavam a equipa. E agora estavam ali os dois. Não frente-a-frente, mas prestes a enfrentar a toda a equipa adversária.

No primeiro penálti, o baixote português, tirou as medidas ao árbitro. Quando Lima corria para a bola deu uns passos discretos para a frente. A bola entrou. Mas ele, matreiro, percebeu com o que podia contar. A seguir, foi a vez do esloveno honesto pisar a linha de baliza. Diz a lei do jogo que, num penálti, o guarda-redes não pode afastar-se daquela marca antes de a bola ser pontapeada. E o gigante de amarelo assim fez. Posicionou-se, adivinhou o lado para onde a bola ia, atirou-se, mas não chegou lá. Um a um.

Depois, o baixote português enfrentou outro gigante, mas paraguaio. Só que tinha um truque na manga. Quando Cardozo avançava para a bola ele aproveitou a corda que o árbitro lhe tinha dado e deu um passo para a frente e para o lado. Depois outro. E outro. Ao terceiro, já estava mais de um metro à frente da baliza e com isso conseguia reduzir o ângulo de remate. Assim, mesmo sendo baixote, era-lhe possível chegar a qualquer ponto da baliza. Atirou-se para o lado direito. E com uma mão afastou a bola. Depois foi para a zona lateral ver o esloveno honesto adivinhar outra vez o lado para onde o remate seguiu. Mas como não saiu da linha, mesmo sendo um gigante, não lhe conseguiu chegar.

Ao terceiro penálti, o baixote português sabia que podia fazer o que quisesse. Voltou a dar um, dois, três passos para a frente. Desta vez atirou-se para a esquerda e defendeu um novo remate. Cerrou os punhos, virou-se para os adeptos e gritou como se fosse um toureiro espanhol. Quando o gigante de amarelo continuou a cumprir as regras e a ver o adversário marcar, pela quarta vez, o baixote vestido de laranja foi abraçado pelos companheiros. Continuo a gostar mais do esloveno honesto. Mas foi o português matreiro quem levou a taça.

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Está na hora de acabar com a maldição. Hoje.

Não acredito em maldições. O máximo a que consigo chegar é à classificação de azar quando uma bola bate na trave e não entra na baliza. Ou à de sorte quando acerta em três jogadores, faz um efeito esquisito e dá três voltas antes de se desviar do guarda-redes e ultrapassar a linha de golo. Maldições? Não. Mas parece que há muita gente que acredita. Há demasiado tempo. 

Isto porque há 50 anos um talentoso treinador húngaro terá dito que nos próximos 100 anos o Benfica não voltaria a ganhar uma competição europeia. No Portugal salazarento da triologia Fado, Futebol e Fátima, a expressão “a maldição de Bélla Guttmann” pegou. E ganhou força à medida que o maior clube do mundo foi perdendo finais à velocidade da luz. Ao todo, em nove presenças no jogo decisivo, o Benfica só ganhou duas. Nenhuma depois da suposta maldição. E está na hora de isso acabar. Hoje. Com talento, garra, competência e ambição.

Mas até para quem acredita em sinais e maldições esta é a altura certa. Vejamos.

  • Primeiro, tal como em todos os jogos este ano, vamos ter 11 Eusébios em campo e mais uns quantos no banco. E quando assim é o adversário não tem hipótese. Nenhum adversário.
  • Segundo, para além de ser conhecido por matar dragões, São Jorge é também padroeiro de Portugal. Não é por acaso que D. Nuno Álvares Pereira acreditava que tinha sido ele, o santo, o responsável pela vitória dos portugueses frente aos espanhóis na batalha de Aljubarrota. Ora, nós temos um treinador que pode não ser santo mas é Jorge e um adversário espanhol. Nem vai ser preciso uma padeira.
  • Terceiro, para acabar com a suposta maldição de um treinador chamado Bélla Guttmann (que raio de nome é esse?) não haverá melhor do que um treinador que além de (S.) Jorge também se chama Jesus. Preocupava-me, sim, uma maldição de alguém com o nome do filho de Deus. Agora de um Guttmann? Não tem hipótese.

Tragam mas é a Taça e não se fala mais nisso. Pelo King. Por vocês. Por nós.

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O “ratinho branco” e os “senhores do FMI”

A crónica pode ser um instrumento poderoso da imprensa escrita. Ainda para mais quando é escrita com o brilhantismo do Ferreira Fernandes. Hoje, bo Diário de Notícias, o alvo são os senhores do FMI.

“Carta aberta a uns pedaços de merda

Olá, amiguinhos do FMI. Eu sou o ratinho branco. Desculpem estar a incomodar-vos agora que vocês estão com stress pós-traumático por terem lixado isto tudo. Concluíram vocês, depois do leite derramado: “A austeridade pode ser autodestrutiva.” E: “O que fizemos foi contraproducente.” Quem sou eu para desmentir, eu que, no fundo, só fiquei com o canto dos lábios caídos, sem esperança? O que é isso comparado com a vossa dor?! Eu só estiquei o pernil ou apanhei três tipos de cancro, mas é para isso que servimos nos laboratório: somos baratos e dóceis. Já vocês não têm esses estados de alma (ficar sem emprego, que mau gosto…), vocês são deuses com fatos de alpaca e gravata vermelha como esses três novos que acabam de desembarcar para nos analisar os reflexos. “Corre, ratinho branco!”, e eu corro. Vocês cortam-me as patas: “Corre, ratinho branco!”, e eu não corro. E vocês apontam nos vossos canhenhos sábios: “Os ratos sem pernas ficam surdos.” Como vocês são sábios! E humildes. Fizeram-nos uma experiência que falhou e fazem um relatório: olha, falhou. Que lição de profissionalismo, deixam-nos na merda e assumem. Assumir quer dizer “vamos mudar-lhes as doses”, não é? E, amanhã, se falhar, outro relatório: olha, falhou. O vosso destino, amiguinhos do FMI, eu compreendo. Vocês são aves de arribação, falham aqui, partem para ali. Entendo menos o dos vossos kapos locais: em falhando e ficando, porque continuam seguros no laboratório?”

Crónica sobre uma lei que pede: “vá, torce-me toda”

O Ferreira Fernandes é, indiscutivelmente, um dos melhores cronistas da imprensa portuguesa. Talvez seja mesmo o melhor de uma espécie em vias de extinção. Mais impressionante do que a qualidade das suas crónicas, é a regularidade com que nos deixa a sorrir no final de cada texto e a pensar “este gajo [normalmente o termo é outro] é mesmo bom”. Hoje, o “Ferfer” escreve sobre a confusão provocada pela lei de limitação de mandatos. E mais uma vez, é na mouche.

Um dó li tá e impugnado tu tá…

Eu não pugno, impugno. Lutar, pugnar, cansa. Por isso eu impugno. Na boa tradição portuguesa. Em exame ou concurso, concorrem uns e outros, uns melhores que outros, e eu só me inscrevo. Vem o resultado e, caso não aconteça o milagre de eu ter ganho, impugno. E uma e outra e outra vez, até que os outros desistam. E sabem porque os outros desistem? Porque eles pugnam, e isso quer dizer, lutam. Dá cansaço e suor. A mim, não. Só acrescento um prefixo de negação ao pugnar deles. Impugno. Há sempre um atraso, uma vírgula mal colocada – à impugnação nunca lhe falta motivo. É isto que se faz desde sempre neste país de especialistas de torcer leis. E eis agora que a febre da impugnação dos concursos para porteiro ou catedrático saltou para a eleição dos alcaides. A base das impugnações tradicionais, já o disse, está no torcer das leis. Ora, agora, temos melhor: uma lei feita torta de propósito. Uma lei viciosa, sempre a pedir: vá, torce-me toda… Para as autárquicas os deputados inventaram uma lei com um penduricalho (uma mudança de “presidente da câmara” para “presidente de câmara”) ávido de pareceres. No princípio do ano, a 30 de janeiro, alertei aqui para a confusão que se instalaria. Estamos, agora, a um mês das eleições. Os tribunais parecem baratas tontas. E os partidos, à falta de terem resolvido o penduricalho, partem para a impugnação. Preferem a negação (“im”) ao trabalho (“pugnação”). Do que estávamos à espera?”