O jornal

Muitos antes de pensar em ser jornalista, habituei-me a folhear e a ler jornais. À cabeça estava, claro, o Jornal do Benfica que pedia à minha mãe para comprar todas as semanas. Havia também A Bola. Mas, na verdade, no que dizia respeito ao desporto, queria mesmo era ler a bíblia do glorioso. Era lá que encontrava os resultados de todas as modalidades e dos diferentes escalões. Cheguei a guardá-lo durante algum tempo. Mas isso é uma história para outra altura.

Nessa época, já havia um jornal que andava lá por casa e pelo qual ia passando os olhos. Tinha o pomposo e apelativo título de Diário de Notícias. O meu pai comprava-o (nem sempre) por motivos profissionais: tinha os melhores anúncios classificados de Lisboa. Eu ia vendo o resto, numa relação “vai não vai”. Depois comecei a ler outros títulos, como O Independente, o Público e o Expresso – e o Jornal do Benfica, claro. Só que, por qualquer razão, acabava por voltar sempre ao DN. Havia algo que não sabia bem explicar – e que ainda hoje não sei.

Talvez seja a história. Talvez seja o nome. Talvez o edifício sede, bem no coração de Lisboa, ali no Marquês de Pombal, palco de muitos, longos e bons festejos, com o título bem visível no topo. A verdade é que, quando me tornei jornalista, sempre estive convencido de que se um dia fosse trabalhar para um diário, esse jornal seria para o DN. Nunca aconteceu. E houve dias em que dei graças por isso. Ao longo dos últimos anos, o jornal mais emblemático do país atravessou períodos difíceis, com renovações sucessivas e mudanças de direcção e orientação que revelavam uma falta de rumo preocupante e que pareciam poder por em causa a sua própria sobrevivência. Muita gente sofreu com isso, incluindo alguns amigos que lá trabalham e trabalharam. Mas eis que o DN faz 150 anos. Será uma das empresas mais antigas do país. É altura para celebrar. Muito. Não sei se algum dia irei trabalhar no DN. Mas espero que ele me sobreviva (portanto, daqui a muitos e muitos anos) e continue a manter o peso que aquele título virado para a estátua do Marquês tem. Eu vou continuar a lê-lo. Parabéns.

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“Dias de queda”

A Fernanda Câncio, ontem, no Diário de Notícias. Tiro-lhe o chapéu.

“Dias de queda

Houve o deslumbrante, comovente até, elogio de Teresa Leal Coelho ao Tribunal Constitucional, em forma de milagre das rosas: a maioria confessando que quis e acreditou nomear comissários políticos descobrindo, atónita e vingativa, que lhe saíram juízes do regaço. Houve a reação vagal de quem há muito vagou o lugar e que, 20 minutos de ausência depois, achou, apesar (por causa?) dos diretos de todas as TV, não dever uma palavra, uma justificação, um módico de boa educação, ao País no dia dele – decerto crendo que, neste caso como nos outros, se fingir que não se passou nada, é como se nada se tivesse passado.

Tanta coisa nesta semana. Mas não vou, como o desmaiado vacante, retomar o discurso como se não tivesse caído. Os nomes das pessoas que esta semana receberam notificação de despedimento no grupo editorial do DN ocupariam esta coluna toda – pensei usá-la assim. Mas seria uma outra forma de não me obrigar a falar sobre isso. De guardar o silêncio envergonhado, embaraçado, que os jornalistas guardam sobre as suas tragédias, nós que corremos a “cobrir” as dos outros, os despedimentos dos outros, as lágrimas, desalento e desespero dos outros, para fazer delas posto de espreita sobre o mundo.

Somos isso, temos essa missão: espécie de guarda avançada, cega, lenta, à procura de sinais. De vez em quando, os sinais vêm ter connosco. Abalroam-nos. Inevitável, diz a gestão deste grupo: que é “a única forma”. Posso vir a acreditar nisso. Mas preciso que me expliquem. Que me demonstrem. Que me oiçam; quem sabe tenho, temos, ideias para ajudar a resolver o problema. A lei, esse tão infrequentável luxo nos tempos que correm, diz que os jornalistas “têm o direito de participar na orientação editorial do órgão de comunicação social para que trabalhem, bem como a pronunciar-se sobre todos os aspectos que digam respeito à sua actividade profissional”. A lei diz isto porque reconhece aos jornalistas uma natureza específica, especial: somos fundamentais para a democracia. Mas poderemos sê-lo, com o que isso implica de independência, de segurança, de intrepidez e resistência, se formos tratados, nós que somos supostos averiguar sobre tudo, investigar sobre tudo, ter uma perspetiva sobre tudo, uma narrativa sobre tudo, afrontar tudo e todos, como se não tivéssemos capacidade de perceber o que nos acontece e porquê, riscar uma palavra sequer sobre isso?

E, o que é mais, se nos deixarmos assim tratar. Será assim tão impossivelmente heróico cumprir os nossos deveres e exigir os nossos direitos? Com que cara pediremos amanhã a alguém que dê a cara no nosso jornal, se não damos a cara por ele, pelo jornalismo, por nós? Com que cara continuaremos como se nada se tivesse passado, à espera de cair de vez?”

Hoje é mais um dia negro para o jornalismo português

Esta manhã a Controlinveste anunciou o despedimento de 160 pessoas, entre os quais 65 jornalistas. De acordo com o Expresso, o Diário de Notícias vai ser o mais afectado. É uma notícia triste: com menos meios, os jornais enfraquecem e, em última instância, é a democracia e a pluralidade de informação que são prejudicados. Ou seja, todos nós. Resta agora aguardar os novos projectos referidos no comunicado da empresa. Um forte abraço para todos os camaradas apanhados por esta medida. Nenhum de nós está livre de algo do género.

Actualização: para amanhã, quinta-feira, às 13h, está marcado um protesto em frente à sede do Diário de Notícias, em Lisboa, contra os despedimentos no grupo e o enfraquecimento do jornalismo.

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O Diário de Notícias precisa de um novo provedor. Há bastante tempo

No Verão do ano passado, o provedor do leitor do Diário de Notícias já tinha ultrapassado todos os limites do aceitável. Confesso que desde então passei a evitar passar os olhos pela página que Óscar Mascarenhas assina aos sábados no jornal da Controlinveste. Mesmo na semana passada, quando estalou a polémica com a Rita Marrafa de Carvalho, esforcei-me para não ir ver o que o provedor do DN escreveu. Os comentários que foram sendo feitos em blogues e redes sociais bastaram-me. Mas este sábado Óscar Mascarenhas voltou à carga. E não resisti. Fui ler. Depois decidi espreitar o estatuto do provedor do Diário de Notícias. Que diz isto: 

Estatuto

1. O provedor do leitor do Diário de Notícias é uma entidade independente que tem por missão assegurar a defesa dos direitos dos leitores.

2. Compete ao provedor do leitor:

2.1. Analisar as reclamações, dúvidas e sugestões formuladas por escrito pelos leitores.

2.2. Proceder à crítica regular do jornal, com base nas regras éticas e deontológicas do jornalismo.

2.3. Analisar e criticar aspetos do funcionamento e do discurso dos media que se possam repercutir nas reclamações com os respetivos destinatários.

3. O provedor do leitor exerce a sua função crítica através da secção semanal que publica no Diário de Notícias, da inserção pontual de textos (sempre que a importância do assunto o justifique) e de recomendações internas dirigidas à Direção e ao Conselho de Redação.

4. No exercício das suas funções, o provedor do leitor pode solicitar à Administração, à Direção, aos editores, aos jornalistas e ao Conselho de Redação esclarecimentos sobre questões com incidência ética e deontológica, os quais devem ser prestados, por escrito, no prazo de 72 horas.

4.1. As tomadas de posição do provedor do leitor sobre textos assinados por jornalistas devem, sempre que possível, ser precedidas de esclarecimento prévio do respetivo autor ou, na ausência deste, do editor da secção.

5. O diretor do Diário de Notícias indigitará e nomeará provedor do leitor uma personalidade de reconhecido prestígio, credibilidade e honestidade.

5.1. A nomeação depende de parecer favorável do Conselho de Redação, que deve pronunciar-se fundamentadamente sobre a personalidade indigitada, no prazo máximo de dez dias, considerando-se como aceitação a não emissão do parecer.

6. A nomeação do provedor do leitor vigora por um período de 3 (três) anos, não prorrogáveis.

6.1.1. As funções do provedor do leitor cessam:

6.2.2. Por iniciativa do próprio provedor do leitor.

6.3.3. Pelo não exercício do cargo durante um período superior a dois meses em cada ano.

7. Será celebrado um contrato entre o titular do cargo de provedor do leitor e a empresa jornalística proprietária do Diário de Notícias, com vista a garantir o cumprimento deste estatuto e especificar as condições de exercício do cargo.

8. O Código Deontológico do Jornalista, o Estatuto Editorial e o Livro de Estilo do Diário de Notícias, do qual este estatuto constitui parte integrante, são referências obrigatórias do provedor do leitor.

Agora gostava que alguém me explicasse como se tivesse seis anos como é que textos como esteeste cabem nas funções de um provedor do leitor. Textos ofensivos que se debruçam sobre o que uma jornalista de outro órgão de comunicação escreve na sua página do Facebook. E como é que são publicados. Obrigado. 

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EUSÉBIO, Sócrates e a doença nacional

As últimas páginas do Público e do Diário de Notícias de hoje valem o preço pago por todo o jornal. No primeiro, o Vasco Pulido Valente escreve sobre EUSÉBIO e o Panteão. No segundo, o Ferreira Fernandes sobre a doença nacional que é escrever sobre nada.

Sobre a Doença

Agora, devagarinho. Esta crónica não é sobre Sócrates. Aliás, a de ontem também não. Esta crónica é sobre uma doença mental. E a de ontem também. Esta semana, Sócrates falou, como tanta gente, sobre Eusébio e “eu”. Não disse nada de empolgante: que foi na escola que ele comemorou, tinha 8 anos, o jogo Portugal-Coreia do Norte. Sobre o âmago do assunto, Eusébio, li muito melhor. Na caixa de comentários do Guardian, um leitor lembrou a história que o seu pai sempre contara: que, em miúdo, vira o Eusébio no estádio de St. James” Park, em Newcastle, jogar de luvas, “era a primeira vez que via neve”, e marcar um belo golo de livre. No domingo, o filho disse ao pai que o “grande homem” morrera. Então, o pai repetiu a história e os por-menores. Ora, no ano passado, o Benfica jogou com o Newcastle e o filho soube que o Benfica e Eusébio nunca tinham estado em St. James” Park. No domingo, o filho rematou: “Não tive a coragem de dizer ao meu pai a verdade.” Ele escreveu heart, que em inglês quer dizer, além de coragem, coração. Reparem, ele não cobrava ao pai a inverdade, o pai baralhara memórias, como tantas vezes fazemos às antigas e por vezes às mais queridas. José Sócrates não baralhou a memória, o essencial do que disse já se confirmou – alguns garotos da Covilhã iam para o pátio da escola mesmo aos sábados e nas férias. O problema aqui não é Sócrates e o seu testemunho vulgar. O problema foi o alarido sobre esse nada. Esse nada, nada. Cometeram-no um diretor de jornal, um eurodeputado, blogues e o jornal mais vendido, patrulhando uma memória velha de 47 anos do que aconteceu a um miúdo de 8. Mesmo se ele se tivesse enganado merecia só um sorriso. A sanha persecutória, essa, sim, é doentia. Aliás, ela é a doença. Uma obsessão. Há três anos, ela diabolizou um lado a ponto de ter impedido o que era então necessário e o Presidente diz, só agora, ser necessário: um esforço conjunto para combater a crise. A doença já nos cegou uma vez. E a minha memória é exata.”

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O “ratinho branco” e os “senhores do FMI”

A crónica pode ser um instrumento poderoso da imprensa escrita. Ainda para mais quando é escrita com o brilhantismo do Ferreira Fernandes. Hoje, bo Diário de Notícias, o alvo são os senhores do FMI.

“Carta aberta a uns pedaços de merda

Olá, amiguinhos do FMI. Eu sou o ratinho branco. Desculpem estar a incomodar-vos agora que vocês estão com stress pós-traumático por terem lixado isto tudo. Concluíram vocês, depois do leite derramado: “A austeridade pode ser autodestrutiva.” E: “O que fizemos foi contraproducente.” Quem sou eu para desmentir, eu que, no fundo, só fiquei com o canto dos lábios caídos, sem esperança? O que é isso comparado com a vossa dor?! Eu só estiquei o pernil ou apanhei três tipos de cancro, mas é para isso que servimos nos laboratório: somos baratos e dóceis. Já vocês não têm esses estados de alma (ficar sem emprego, que mau gosto…), vocês são deuses com fatos de alpaca e gravata vermelha como esses três novos que acabam de desembarcar para nos analisar os reflexos. “Corre, ratinho branco!”, e eu corro. Vocês cortam-me as patas: “Corre, ratinho branco!”, e eu não corro. E vocês apontam nos vossos canhenhos sábios: “Os ratos sem pernas ficam surdos.” Como vocês são sábios! E humildes. Fizeram-nos uma experiência que falhou e fazem um relatório: olha, falhou. Que lição de profissionalismo, deixam-nos na merda e assumem. Assumir quer dizer “vamos mudar-lhes as doses”, não é? E, amanhã, se falhar, outro relatório: olha, falhou. O vosso destino, amiguinhos do FMI, eu compreendo. Vocês são aves de arribação, falham aqui, partem para ali. Entendo menos o dos vossos kapos locais: em falhando e ficando, porque continuam seguros no laboratório?”

Crónica sobre uma lei que pede: “vá, torce-me toda”

O Ferreira Fernandes é, indiscutivelmente, um dos melhores cronistas da imprensa portuguesa. Talvez seja mesmo o melhor de uma espécie em vias de extinção. Mais impressionante do que a qualidade das suas crónicas, é a regularidade com que nos deixa a sorrir no final de cada texto e a pensar “este gajo [normalmente o termo é outro] é mesmo bom”. Hoje, o “Ferfer” escreve sobre a confusão provocada pela lei de limitação de mandatos. E mais uma vez, é na mouche.

Um dó li tá e impugnado tu tá…

Eu não pugno, impugno. Lutar, pugnar, cansa. Por isso eu impugno. Na boa tradição portuguesa. Em exame ou concurso, concorrem uns e outros, uns melhores que outros, e eu só me inscrevo. Vem o resultado e, caso não aconteça o milagre de eu ter ganho, impugno. E uma e outra e outra vez, até que os outros desistam. E sabem porque os outros desistem? Porque eles pugnam, e isso quer dizer, lutam. Dá cansaço e suor. A mim, não. Só acrescento um prefixo de negação ao pugnar deles. Impugno. Há sempre um atraso, uma vírgula mal colocada – à impugnação nunca lhe falta motivo. É isto que se faz desde sempre neste país de especialistas de torcer leis. E eis agora que a febre da impugnação dos concursos para porteiro ou catedrático saltou para a eleição dos alcaides. A base das impugnações tradicionais, já o disse, está no torcer das leis. Ora, agora, temos melhor: uma lei feita torta de propósito. Uma lei viciosa, sempre a pedir: vá, torce-me toda… Para as autárquicas os deputados inventaram uma lei com um penduricalho (uma mudança de “presidente da câmara” para “presidente de câmara”) ávido de pareceres. No princípio do ano, a 30 de janeiro, alertei aqui para a confusão que se instalaria. Estamos, agora, a um mês das eleições. Os tribunais parecem baratas tontas. E os partidos, à falta de terem resolvido o penduricalho, partem para a impugnação. Preferem a negação (“im”) ao trabalho (“pugnação”). Do que estávamos à espera?”

O político contraditório

A memória é um bem inestimável. E a verdade é que, em geral, a temos muito curta. Só isso explica o nível de credibilidade que atribuímos a determinados elementos da nossa classe política. O que hoje é verdade, amanhã é mentira. O que ontem foi uma bandeira, hoje é uma nota de rodapé na lista de prioridades. O que em tempos foi uma certeza, ontem passou a ser uma dúvida e hoje uma incerteza. Este fim-de-semana, a Fernanda Câncio faz no Diário de Notícias o retrato de Paulo Portas, através das suas incontáveis contradições políticas. Não é o único. Um trabalho importante, a puxar pela nossa memória.

© João Girão / Global Imagens

© João Girão / Global Imagens

“Um político que de irrevogável só mesmo a contradição

por FERNANDA CÂNCIO

“Na semana em que o líder centrista se estreia a presidir ao Conselho de Ministros, revisite o percurso de quem jurava aos 30 nunca fazer política e aos 50 chega a vice-primeiro-ministro.

Não foi na semana passada (Passos veio de Manta Rota estragar a estreia) mas será nesta: Paulo Sacadura Cabral Portas não chega ao fim do seu meio século de vida (faz 51 em setembro) sem concretizar um sonho nada secreto: ser número um do Governo. Não é (ainda?) no organograma oficial, mas se há quem o garanta já, atendendo às pastas que agora acumula, primeiro-ministro de facto, inaugurar-se-á quinta-feira na direção do Conselho de Ministros.

“Graças a Deus”, dirá talvez, como tanto gosta de repetir. E graça tem certamente: é olhar o seu percurso. “Geneticamente anti-poder” aos 30, sem “nenhumas ambições políticas” aos 28, candidato a deputado aos 32. Amigo, criador e seguidor de Manuel Monteiro aos 31, derrotando-o (e desfazendo-o) na liderança do partido aos 33, em 1998. Inimigo ajuramentado de Cavaco e dos seus governos durante todo o tempo de O Independente, perguntando, em 1995, que raio iria este fazer para Belém, garante agora que o apoiou sempre nas candidaturas a PR. Antieuropeísta e antieuro nos anos 90, alertando para o perigo da Alemanha unificada, é em 2013 vice-PM de um governo que segue à risca a cartilha Merkel. Vigoroso denunciante do “bloco central dos interesses”, das “negociatas do poder” e do escândalo BPN, cede o MNE a Rui Machete, ex-presidente do conselho consultivo da SLN. Candidato à Câmara de Lisboa em 2001, garantia nos cartazes “eu fico” (como vereador), para não ficar. Antiausteridade até às eleições de 2011 (em entrevista ao DN, em 2009, defendia baixar impostos – “o défice é importante, mas a economia ainda é mais” – e em 2010 garantia “saber onde cortava” para poupar o Estado social), autor, em 2012, de uma carta aos militantes do CDS em que certificava não admitir outro agravamento fiscal, assinou o orçamento que em 2013 bateu o recorde da subida de impostos na democracia portuguesa; defensor irredutível dos pensionistas em setembro de 2012, dez meses depois anuncia o corte de 10% nas pensões da CGA. Liberal irreverente, individualista e antipartidos aos 29, logra ser quem há mais tempo (13 anos) dirige um, professando, no debate do Estado da Nação que se segue à revogada demissão irrevogável: “Em caso de opção entre a razão pessoal e a de partido, deve prevalecer a de partido.”

Primórdios. Mas, se perguntarmos se ele avisou, avisou. “Os políticos têm um código hipócrita, é preciso descodificar o que dizem”, garantia aos 29 anos o filho da economista (de direita?) Helena Sacadura Cabral e do arquiteto (próximo do PS) Nuno Portas (cujas pisadas profissionais teria querido seguir, não fosse o mal que se dava com a matemática). Dirigia então O Independente e fazia do semanário fundado em 1988 com Esteves Cardoso e o mais tarde correligionário no PP Nobre Guedes (amigo íntimo cuja demissão da vice-presidência do partido manterá em segredo quase um ano, atestando da dificuldade nessa rutura pessoal e política) o púlpito de onde esportulava a sua visão do que devia – e sobretudo do que não devia – ser a direita portuguesa. Tinha começado cedo, de resto, essa missão paralela à do irmão Miguel, militante do PCP e depois fundador do BE cuja morte, em 2012, uniu no palco do Teatro São Luís, numa longa cerimónia transmitida em direto, a nomenclatura do partido mais à esquerda no espectro parlamentar e o chefe do mais à direita, num inusitado misto de liturgia da dor e propaganda política.

Aos 13, ainda aluno do colégio São João de Brito, inscrevia-se, por via da admiração até hoje proclamada ao presidente-fundador Sá Carneiro, no PPD/PSD, cujo órgão oficial, Pelo Socialismo (!), chegou a dirigir; aos 15 ia a tribunal por ter acusado Eanes, Soares e Freitas de trair a pátria (em As três traições, publicado em 1978 no Jornal Novo); aos 19, dois anos após a morte do fundador, saía do partido para, afirmaria categoricamente durante 13 anos, nunca mais voltar à política – partidária, bem entendido. “Se há uma coisa definitiva na minha vida e na minha cabeça, uma delas é essa: gosto imenso de política mas nunca farei política”, certificava em 1991 numa entrevista na RTP2. “Os partidos são uma maçada, e ser militante é uma maçada. Os quadros dos partidos são muito medíocres e acham que aquela é a forma mais fácil de subir na vida. Os partidos dispensam o mérito.” Na mesma entrevista, esguio e jovem, tão jovem e descontraído na camisa clara, gestos rápidos como o olhar e o verbo, os tiques teatrais que hoje lhe conhecemos – a pose esforçada de estadista, a virilidade imposta na voz, a rima nas frases ritmadas – tão longe ainda, arrumava o CDS com desprezo: “Qualquer dia ninguém vai para lá.” E definia-se, no tom de enfant terrible bem nascido em que fazia questão (contra “a democracia dos ignaros” que invetivava na sua coluna, “os homens sem história”, “bando posidónio” do cavaquismo, que viam “na política uma espécie de promoção social” e consideravam “bem ter nascido mal”), como “uma pessoa de direita meio liberal meio conservador” elogiando em Salazar (no contraste com Cavaco, “um homem ordinário” com quem a comparação, a seu ver, era injusta para o ditador) a inteligência, a escrita e o “raffinement do cinismo”. Dois anos depois, no programa Raios e Coriscos, de Herman José, reiterava o nojo aos políticos: “O poder é a pior coisa… Sou geneticamente contra o poder, seja de quem for. No dia em que um amigo meu lá chegar, passo-me para a oposição ou deixo de ser amigo dele.”

Quase. No mesmo programa, Zita Seabra, acabada de chegar ao PSD vinda do PCP, apontava o bluff: “Quem é que tem mais poder, o Paulo como diretor do Independente ou o ministro do Mar ou de outra coisa qualquer?” A resposta é um chuto para canto. Afinal, faltam dois anos para que abandone o jornalismo (voltará a ser comentador político, mas só na TV, de cada vez que “sai” da política ativa, em 1997 e entre 2005 e 2007) pela tal maçadora, medíocre, oportunista e salobra “vida de partido”, e por uma imparável – irrevogável? – caminhada poder político acima. Aquela que o traz aqui, à semana de agosto de 2013 em que, pela terceira vez membro de um Governo de coligação PSD/CDS, tem pela primeira a sigla “PM” na descrição do cargo. Vistas daqui, as palavras do jornalista, recentemente objeto de resenha no Expresso, são uma espécie de outra vida – de tal modo que no registo parlamentar, em “ocupação principal”, apôs “jurista”, categoria para a qual o curso de Direito o habilita mas que nunca exerceu. Será mesmo dos únicos, senão o único, ex-colunista notável que nunca deu ao prelo os seus escritos em livro. Percebe-se: lê-lo e à sua acerada, quase sempre brutal, pluma não é só um exercício de contemplação da ironia e de revisitação nostálgica (ah, o quanto a vida nos muda). É sobretudo perguntarmo-nos o que não diria Portas colunista do Portas político, que adjetivos ofertaria a sua brilhante crueldade para tanta pirueta, cambalhota, dito por não dito, não dito por dito. E se, como jurava há 20 anos que faria, cortou relações consigo ou logrou refinar o cinismo até disso se poupar.”