Três décadas de Europa

A 1 de Janeiro de 1986, Portugal aderiu oficialmente à então Comunidade Económica Europeia – o maior e mais bem sucedido projecto de paz da História. Faz hoje 30 anos.

A incrível história de Armando Rodrigues de Sá

Há exactamente 50 anos, Armando Rodrigues de Sá desembarcava de um comboio na estação de Colónia. À sua espera tinha os empresários da região, uma banda e a imprensa. Motivo: era o trabalhador estrangeiro um milhão a chegar à Alemanha. Sem saber, estava a entrar na história. Desde então que o seu nome consta dos manuais escolares alemães, é referido em filmes e a motorizada que lhe foi oferecida na ocasião está exposta no museu de história contemporânea, em Bona. Mas em Portugal, poucos sabem o seu nome para além da sua terra natal, Vale de Madeiros. Esta é a sua história, que publiquei na Sábado, no início deste ano, e a peça televisiva, que fiz para a CMTV.

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“Estava tudo a postos. As bandeiras. Os cartazes de boas vindas. A banda. Os empresários. Os fotógrafos. As câmaras de televisão. Faltavam apenas os “convidados”. Um em especial. Era dia 10 de Setembro de 1964. Naquela manhã, chegavam à estação de Deutz, em Colónia, na Alemanha, dois comboios com 1106 trabalhadores estrangeiros: 933 espanhóis e 173 portugueses. E ao contrário do que acontecia habitualmente, iam ter direito a um comité de boas vindas. Motivo: assinalar a chegada do milionésimo gastarbeiter – trabalhador convidado, em alemão.

A primeira locomotiva entrou na estação pouco depois das 8h. A segunda cerca de duas horas mais tarde. Assim que o comboio parou, os passageiros desceram para o cais, intrigados com tanto aparato. Um intérprete começou então a percorrer as filas de trabalhadores e a gritar com um sotaque germânico: “Armando Rodrigues, Armando Rodrigues”.

Ao fundo da plataforma, Armando Rodrigues de Sá, 38 anos, não sabia o que fazer. “Ficou assustado”, conta à SÁBADO a viúva do português, Maria Emília Pais de Sá. “Achou que era a PIDE”, recorda. Nervoso, tentou esconder-se. Por alguma razão que desconhecia poderiam querer prendê-lo. Ou enviá-lo e volta para Portugal, tal como tinha acontecido a 24 parceiros de viagem que não tinham os papéis em ordem e que acabaram por na fronteira.

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A contragosto – e incentivado pelos companheiros de viagem que gritaram “está aqui, está aqui” – o carpinteiro português avançou. “Então o intérprete explicou-lhe que era o operário um milhão a chegar à Alemanha e que o governo tinha um prémio para ele”, recorda à SÁBADO, António da Silva Cravo, 74 anos, que fez a viagem com Rodrigues de Sá.

Levado para o centro da plataforma, Armando Rodrigues de Sá foi rodeado pelos representantes dos industriais alemães. A banda começou a tocar. Os fotógrafos aproximaram-se e dispararam as máquinas. Os operários gritaram vivas a Portugal e a Espanha. As câmaras de televisão captaram as imagens da festa. Apesar dos dois dias de viagem, o homenageado distinguia-se dos demais: de camisa, casaco e chapéu da cabeça, contrariava a imagem que havia sobre os povos do sul da Europa. Aos poucos, a tensão do seu rosto desapareceu. Foi substituída por um largo sorriso quando lhe deram para a mão – para além de um bouquet de flores e de um diploma que assinalava a ocasião – uma mota nova, da marca Zundap.

“Ele nem sabia andar”, recorda António Cravo. “Pegou-lhe com a mão e depois acabou por se montar nela, mas só para tirar fotografias”, diz. Envergonhado, agradeceu, e disse aos jornalistas que a recepção atenuava a dor da separação da família, mulher e dois filhos, que deixou em Portugal. Estava longe de imaginar que, 50 anos mais tarde, a sua fotografia faria parte dos manuais escolares germânicos e estaria exposta em museus como um símbolo da imigração alemã. 

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Armando Rodrigues de Sá nasceu em Vale de Madeiros, distrito de Viseu, a 4 de Janeiro de 1926. Aos 19 anos casou-se com Maria Emília Pais. Ela tinha 15 anos. “O meu pai era muito rico, tinha muitas terras. Como os pais dele eram pobres ele não o podia ver. Disse-me: ‘se deixares o Armando compro-te um cordão de ouro do teu tamanho’. Mas eu não queria o cordão, queria-o a ele. Era mesmo bonito”, recorda Maria Emília. Tiveram dois filhos. João e Rosa. Armando trabalhava na Companhia Portuguesa de Fornos Eléctricos. Era carpinteiro. E apesar de ter emprego decidiu tentar a sorte na Alemanha. “Havia mais gente daqui da zona a ir e ele também quis”, diz Maria Emília.

Naquela época, quem quisesse obter um passaporte válido para sair do País tinha que recorrer à Junta da Emigração (JE) e preencher uma série de requisitos: ter o serviço militar cumprido, apresentar uma certidão do registo criminal, documentar o grau de escolaridade, entregar uma certidão de nascimento, comprovar o estado civil e assinar uma declaração em que se responsabilizava pelo bem estar da família. Criada em 1947, a JE cooperava com entidades parceiras dos países que angariavam operários em Portugal. No entanto, o objectivo não seria incentivar a saída de trabalhadores do país. Seria controlá-la. De acordo com um artigo da historiadora Alexandra Ventura, em 1961, a embaixada alemã em Lisboa queixava-se, numa comunicação para Berlim: “Todo o processo é muito vagaroso e burocrático, o que atrasa a emigração. Isto é sem dúvida intencional por parte do governo que, se não pretende proibir a emigração para a Europa, pelo menos procura limitá-la”.

Para facilitar o processo, a 17 de Março de 1964 os governos de Portugal e da República Federal Alemã assinaram um acordo de destacamento de trabalhadores. Ao abrigo desse protocolo, o Departamento Federal do Trabalho germânico abriu dependências em Lisboa e no Porto. Mas o recrutamento continuou lento, apesar de a Alemanha estar a viver um período de grande crescimento económico. “Os alemães não percebiam porque não chegavam mais portugueses. Pensavam que era porque não conheciam a Alemanha. E decidiram então fazer uma cerimónia para mostrar que eram bem recebidos”, diz à SÁBADO o investigador do Instituto de Ciências Sociais, António Muñoz Sánchez. Havia ainda outro objectivo, para consumo interno. “Era preciso mostrar à sociedade alemã que eram necessários trabalhadores estrangeiros”, diz à SÁBADO Arnd Kolb, director do Domid, um centro de documentação e museu da imigração de Colónia. “Nesse ano chegou-se ao milhão de imigrantes. Mas não era possível saber qual era o milionésimo. Não havia uma lista. Armando Rodrigues de Sá foi escolhido. Foi uma decisão política e dos empresários para mostrar que a imigração era positiva”, concretiza António Muñoz Sánchez, que está a tentar organizar uma homenagem ao carpinteiro, em Setembro.

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Sem saber o que o esperava, Armando Rodrigues de Sá apanhou o comboio em Canas de Senhorim rumo a Lisboa. Com os requisitos preenchidos, embarcou para Colónia a 8 de Setembro de 1964 – o mesmo dia em que era publicado no jornal alemão Handelsblatt um artigo a lamentar a escassez de trabalhadores portugueses. Antes de deixar a capital portuguesa enviou um telegrama à mulher a pedir-lhe para ir ter com ele à estação de Canas de Senhorim (por onde passava o comboio). “Cheguei a casa e fui a correr para lá. Era para me dar a mala de ferramentas porque não era preciso levá-la”, conta Maria Emília Pais de Sá.

Daí, o carpinteiro seguiu para o Porto. António Cravo embarcou na estação de Campanhã e recorda uma viagem difícil. “Em Espanha juntaram-se muitos trabalhadores ao nosso grupo. Na fronteira com a França mudámos de comboio porque os carris eram diferentes e fomos para Paris. Aí mudámos novamente e seguimos para colónia. Foi uma viagem de 48h em bancos de madeira que faziam doer o rabo e com poucas casas de banho”, diz. Lembra-se de falar com Armando Rodrigues de Sá durante a viagem, mas já não recorda o assunto. “Éramos só homens. Conversávamos para passar o tempo. Uns tinham um realejo, outros concertina. Recebemos também uma espécie de ração de combate, com bolachas e atum”.

Quando chegaram a Colónia mandaram-nos sair do comboio. “Depois começaram a chamar pelo nome dele. Estava perto e ele não queria dizer nada”, recorda. Ao mesmo tempo, o grupo de empresários alemães esperava ansiosamente. O nome de Armando Rodrigues de Sá tinha sido seleccionado previamente de uma lista de 20 portugueses por corresponder ao imigrante ideal para a sociedade alemã: tinha 38 anos, era casado, com dois filhos e ficaria no país temporariamente. E, naquela altura, os industriais não sabiam se ele tinha sido um dos 24 a ficar retido na fronteira. “Por isso eles tinham outro nome de reserva, um português de apelido Varela”, diz Arnd Kolb.

Não foi necessário. Armando Rodrigues de Sá identificou-se, foi homenageado, deu entrevistas e depois seguiu para o seu destino. “Separámo-nos nessa altura”, diz António Cravo. “Os representantes das firmas com quem tínhamos contrato estavam à nossa espera. Eu fui para Noist. Ele para Estugarda”, lembra. A viagem do carpinteiro foi seguida pelas câmaras de televisão. E nas semanas seguintes continuou a dar entrevistas. Fosse na empresa onde trabalhava ou nas camaratas onde dormia – já de fato e gravata.

Assim que pôde, Armando Rodrigues de Sá avisou a família do que tinha acontecido. “Soubemos através de um telefonema”, recorda à SÁBADO o seu filho mais velho, João Pais de Sá. O governo português também foi informado, no dia seguinte, através de um telegrama enviado para o Ministério dos Negócios Estrangeiros pelo cônsul geral em Hamburgo: “As entidades deste país decidiram dar certo relevo à chegada do imigrante que completasse o número de um milhão de trabalhadores estrangeiros contratados para trabalhar na Alemanha. (…) [Armando Rodrigues de Sá] foi por isso alvo de várias homenagens, havendo discursos de boas vindas, várias ofertas de carácter pessoal, fotografias, etc. O acto foi transmitido pela televisão e os jornais de hoje referem-se largamente ao assunto.” E continua: “Devo acrescentar que o Sr. Sá Rodrigues [sic] deixou boa impressão, apesar de não poder esconder o seu espanto por uma recepção totalmente inesperada. Apresentou-se muito decentemente vestido, contrariamente a alguns imigrantes do grupo mas que foi impossível reconhecer se seriam portugueses ou espanhóis”.

João, Rosa e Maria Emília Pais de Sá Foto: Sérgio Azenha

João, Rosa e Maria Emília Pais de Sá
Foto: Sérgio Azenha

Nos seis anos seguintes, Armando Rodrigues de Sá passou várias temporadas na Alemanha. A primeira durou apenas três meses. “Ele voltou em Dezembro e despachou a mota para cá. Antes de regressar foi buscá-la a Lisboa. Mandava dinheiro todos os meses, quatro contos e tal”, recorda Maria Emília Pais de Sá. Provavelmente teria ficado mais tempo se não tivesse sofrido um acidente de trabalho em 1970. “A montar uns painéis de madeira apanhou com um no estômago”, recorda João Pais de Sá. “Nós escrevíamos três cartas por semana e de repente esteve uns 10 dias sem dar notícias. Como estava preocupada fui ao bruxo e ele disse-me: ‘vá descansada. O seu marido esteve no hospital mas já está bem. Quando chegar a casa já lá tem uma carta dele’. E foi verdade”, diz Maria Emília.

No entanto, o carpinteiro não estava totalmente bem. De regresso a Portugal, foi-lhe diagnosticado um cancro. Passou os anos seguintes em tratamentos. “Foi operado em Lisboa e ainda regressou para cá”, conta João Pais de Sá. O anonimato em Portugal contrastava com o reconhecimento de que era alvo na Alemanha. “Tornou-se um símbolo que representa a história da imigração”, diz António Muñoz Sánchez. “Aparece nos livros escolares, é frequentemente referido em documentários televisivos e há vários filmes que recuperaram as imagens da chegada dele a Colónia”, continua.

Maria Emília Pais de Sá confirma. “Ao longo dos anos vieram cá muitos jornalistas e historiadores alemães”, diz. “Portugueses nem por isso”, ri-se. No final da década de 1990, um grupo de responsáveis pelo museu de história contemporânea da RFA, em Bona, deslocaram-se a Vale de Madeiros com um objectivo: adquirir a mota que lhe foi oferecida em 1964. Hoje, o veículo está em destaque na secção dedicada à imigração junto a uma fotografia de Armando Rodrigues de Sá, que acabou por falecer a 5 de Junho de 1979. Longe das câmaras.”

A queda de Richard Nixon

Às 21h de 8 de Agosto de 1974, Richard Nixon anunciou ao povo norte-americano que iria resignar ao cargo de presidente dos Estados Unidos na sequência do escândalo Watergate. O que tinha começado como um simples assalto à sede da Convenção Nacional Democrata, no edifício Watergate, em Washington, revelou-se apenas a ponta de um novelo que incluía conspirações políticas ao mais alto nível e escutas a adversários. Neste caso, correram duas investigações em paralelo: a do FBI e a jornalística, liderada pelos repórteres do The Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein (com a ajuda de uma fonte do FBI, o famoso “garganta funda”).

A morte política de Nixon terá sido ditada quando um agente do Serviço Secreto revelou na comissão de inquérito que investigou o caso que a Casa Branca gravava todas as conversas na Sala Oval. Inicialmente, Nixon recusou-se a entregar os registos. Mas obrigado pelo Supremo Tribunal, não teve hipótese: as conversas revelavam o seu envolvimento directo na tentativa de encobrir o assalto. Este anúncio (e também os momentos que o antecederam, que não foram transmitidos em directo) foi feito três dias depois de as cassetes serem divulgadas.

Os 25 anos de Tiananmen

Em 1989, milhares de estudantes chineses juntaram-se em protesto na praça de Tiananmen. Um desses jovens, que enfrentou sozinho uma fila de tanques, tornou-se um ícone mundial – mesmo que não se saiba quem foi ele. Amanhã assinalam-se os 25 anos do massacre que pôs fim aos protestos – e que levou a uma série de reformas rumo ao capitalismo por parte do regime comunista.

O primeiro vídeo do YouTube

Eram 20h27m de 23 de Abril de 2005. Nesse momento, Jawed Karim, um dos fundadores do YouTube, colocou online o vídeo “Me at the zoo”. São 19 segundos que mostram Karim em frente aos elefantes do Jardim Zoológico de San Diego. Porque é que é importante: foi o primeiro filme colocado online no site que é hoje o maior local de partilha de vídeos do mundo. Faz hoje 9 anos. E já foi visto mais de 14 milhões de vezes.

Um genocídio com 20 anos

Há duas décadas, cerca de 800 mil pessoas foram assassinadas no Ruanda em pouco mais de 100 dias. Keith Richburg foi o repórter do The Washington Post que cobriu o conflito. Hoje, ele olha para o que foi o conflito – e para o que o mundo não aprendeu desde então.

A incrível história da criação do Gmail. Fez ontem 10 anos

Há 10 anos, a Google lançou o Gmail – um produto que rapidamente arrasou com a concorrência. Esta é a história sobre como o mais bem sucedido projecto do motor de busca foi criado, como quase esteve para não acontecer – e a incrível história do seu lançamento no dia das mentiras. Fez ontem 10 anos.

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O homem que mudou o mundo

A 11 de Fevereiro de 1979 era proclamado o triunfo da Revolução Islâmica no Irão. No dia em que se assinala o 35º aniversário fica aqui a primeira de três partes de um documentário da BBC sobre o homem que liderou o processo – e mudou o mundo: o Ayatollah Khomeini

Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não!

Fez ontem 58 anos. Mas como nunca é tarde para assinalar uma data importante, fica aqui a homenagem a Rosa Parks, a mulher que se recusou levantar-se do seu lugar num autocarro a um passageiro branco em Montgomery, no Alabama.

Photo: Montgomery Sheriff's Department

Photo: Montgomery Sheriff’s Department

Fidel Castro: “Oswald não pode ter morto Kennedy”

O jornalista Jeffrey Goldberg tinha acabado de escrever um artigo para a The Atlantic sobre os planos de Israel para bombardear as instalações nucleares iranianas. Em Cuba, Fidel Castro leu o artigo. Depois pediu à secção de interesses cubana em Washington que contactasse o repórter e o convidasse para visitar Cuba. O líder histórico comunista queria falar com ele. Como é óbvio, aceitou. E nas longas conversas que tiveram, John F. Kennedy foi um assunto incontornável. Foi assim que Fidel Castro acabou por revelar o medo que teve de ser apontado como responsável pelo assassinato e, logo, ver a ilha ser invadida pelos EUA. E também partilhou o que ele acha que aconteceu. O artigo chama-se “Oswald Could Not Have Been The One Who Killed Kennedy”. Está aqui. 

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A grande marcha

“O Sonho” faz 50 anos

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A 28 de Agosto de 1963, Martin Luther King tinha a sua maior audiência de sempre. 250 mil apoiantes do movimento dos direitos civis aglomeravam-se em frente ao Lincoln Memorial, em Washington, para o ouvir discursar. O texto não era grande coisa. Ele próprio não estava satisfeito com o seu desempenho perante tão grande audiência e com o presidente Kennedy a ouvi-lo na Casa Branca. Até que escutou uma voz de mulher ali perto. “Fala-lhes do sonho, Martin”, disse Mahalia Jackson. Ele falou. Largou o discurso que tinha planeado e proferiu as palavras que o deixaram na história. Faz hoje 50 anos.

“I say to you today, my friends, so even though we face the difficulties of today and tomorrow. I still have a dream. It is a dream deeply rooted in the American dream.

I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: “We hold these truths to be self-evident that all men are created equal.”

I have a dream that one day, on the red hills of Georgia, the sons of former slaves and the sons of former slave owners will be able to sit down together at the table of brotherhood.

I have a dream that one day even the state of Mississippi, a state sweltering with the heat of injustice, sweltering with the heat of oppression will be transformed into an oasis of freedom and justice.

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the colour of their skin but by the content of their character.

I have a dream today.

I have a dream that one day down in Alabama, with its vicious racists, with its governor having his lips dripping with the words of interposition and nullification, one day right down in Alabama, little black boys and black girls will be able to join hands with little white boys and white girls as sisters and brothers.

I have a dream today.

I have a dream that one day every valley shall be exalted, every hill and mountain shall be made low, the rough places will be made plain and the crooked places will be made straight, and the glory of the Lord shall be revealed and all flesh shall see it together.

This is our hope. This is the faith that I go back to the south with. With this faith we will be able to hew out of the mountain of despair a stone of hope. With this faith we will be able to transform the jangling discords of our nation into a beautiful symphony of brotherhood. With this faith we will be able to work together, to pray together, to struggle together, to go to jail together, to stand up for freedom together, knowing that we will be free one day.

This will be the day, this will be the day when all of God’s children will be able to sing with new meaning “My country tis of thee, sweet land of liberty, of thee I sing. Land where my fathers died, land of the pilgrim’s pride, from every mountainside, let freedom ring!”

And if America is to be a great nation, this must become true. So let freedom ring from the prodigious hilltops of New Hampshire. Let freedom ring from the mighty mountains of New York.

Let freedom ring from the heightening Alleghenies of Pennsylvania.

Let freedom ring from the snowcapped Rockies of Colorado.

Let freedom ring from the curvaceous slopes of California.

But not only that, let freedom ring from Stone Mountain of Georgia.

Let freedom ring from Lookout Mountain of Tennessee.

Let freedom ring from every hill and molehill of Mississippi, from every mountainside.

Let freedom ring.

And when this happens, and when we allow freedom ring, when we let it ring from every village and every hamlet, from every state and every city, we will be able to speed up that day when all of God’s children, black men and white men, Jews and Gentiles, Protestants and Catholics, will be able to join hands and sing in the words of the old negro spiritual, “Free at last, free at last. Thank God Almighty, we are free at last.”

Há 25 anos o país acordou assim

O fim do socialismo de rosto humano

Há exactamente 45 anos o exército soviético entrava na Checoslováquia para pôr fim à Primavera de Praga. A chamada “Operação Danúbio” foi a maior movimentação militar desde o fim da II Guerra Mundial: envolveu 27 divisões, cerca de 300 mil homens, que esmagaram facilmente o projecto de socialismo de rosto humano corporizado por Alexander Dubcek.

Fotografia: Reuters/Libor Hajsky

Fotografia: Reuters/Libor Hajsky

O domínio soviético estendeu-se até à queda do muro de Berlim. Na época, viviam em Praga vários portugueses. Os acontecimentos foram vividos intensamente. O historiador Flausino Torres escreveu um relato desses dias no seu diário, publicado anos mais tarde sob o título de “A Batalha e Praga”.  Meses depois a decisão do Partido Comunista Português em apoiar a intervenção soviética provocou uma enorme discussão entre a comunidade portuguesa residente na capital checoslovaca. Seis destes exilados assinaram uma carta em que se declaravam ao lado da justiça e contra a opressão:

QUERIDOS CAMARADAS

Em virtude de não termos podido obter qualquer informação sobre a posição do Partido Comunista Português no que respeita à trágica ocupação militar da Checoslováquia pelo exército das Repúblicas Populares da Alemanha Democrática, Bulgária, Hungria, Polónia e URSS, nós, Portugueses, exilados políticos, residentes na República Socialista da Checoslováquia, queremos declarar-vos:

– Toda a nossa solidariedade com o Partido Comunista da Checoslováquia, com o seu povo, assim como com os seus órgãos representativos democraticamente eleitos;

– Esperamos que esta ocupação militar termine o mais cedo possível, no interesse do movimento comunista internaciona1;

– Pensamos que esta nossa opinião, de completo desacordo com um erro político dramático, não dê aso a confusões com qualquer acto de anti-socialismo, pois nunca esquecemos as acções do Povo Soviético em prol da libertação dos outros povos, em 1945, da coexistência pacífica, do socialismo

e do progresso;

– Reafirmamos nesta nossa declaração as posições por nós assumidas nos primeiros dias da invasão – documentos entregues às Embaixadas dos países ocupantes, assim como aos dirigentes legais do Partido Comunista e do Povo Checoslovaco. Os dias decorridos entre o 1.º documento e este mais cimentaram as nossas opiniões acerca da injustiça dum tal acto que só ajudou as forças capitalietas e a reacção internacional;

– Expressamente, saudamos a calma, a dignidade, a inteligência, do Povo Checoslovaco e dos seus Dirigentes, desejando o completo restabelecimento do processo de democratização e o desenvolvimento do socialismo na liberdade – que tantas esperanças estava dando aqueles que, tanto nos países socialistas como no mundo capitalista, lutam por um socialismo humano e renovador.

Praga, 16 de Setembro de 1968

Apêndice

l.º Tomámos, apenas nesta noite de 17 de Setembro, conhecimento da decisão vergonhosa da Direcção do Partido Comunista Português e não nos solidarizamos com ela;

2′ . Com a responsabilidade de militantes que demos todos os nossos esforços à luta contra o fascismo português, queremos declarar expressamente que consideramos esta resolução – comprometendo somente o Secretariado do Partido Comunista Português – como renegando e traindo toda a Linha do Partido Comunista Português, aprovada nos seus Congressos, não só no que respeita à política nacional, mas também à política de Paz, de Fraternidade Socialista, de Coexistência Pacífica, no que concerne ao Movimento Comunista Internacional.”

No auge da polémica entre os portugueses, já em Novembro, o historiador Flausino Torres acabou mesmo por pedir a suspensão de Álvaro Cunhal – que nunca aconteceu. O PCP manteve-se ao lado da URSS, que era a sua principal fonte de financiamento.

O “construtor de nações” morreu há 10 anos

A 19 de Agosto de 2003, um atentado suicida em Bagdade, tirou a vida ao então chefe de missão da ONU, Sérgio Vieira de Mello. Foi o fim da linha para um homem que podia ter sido tudo na organização. Tudo. No ano seguinte publiquei um texto sobre ele em O Independente. Agora que se assinala uma década sobre esta morte trágica, fica aqui o registo.

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“SÉRGIO VIEIRA DE MELLO, O CONSTRUTOR DE NAÇÕES

 

Bagdade, 19 de Agosto de 2003. Terça-feira. Um condutor desconhecido estaciona um camião junto ao Hotel Canal, edifício sede da ONU em Bagdade. O veículo está parado por debaixo da janela do gabinete do representante especial do secretário-geral da ONU para o Iraque. Faltam poucos minutos para as 16h30. Sérgio Vieira de Mello trabalha no seu gabinete. Tal como nos últimos três meses.

Noutra zona do complexo, uma equipa de televisão japonesa transmite, em directo, a conferência de imprensa de um porta-voz da ONU. De súbito a imagem fica a negro. Quando a transmissão é retomada as primeiras imagens são de terror: jornalistas e funcionários das Nações Unidas estão cobertos de pó. Alguns sangram. Todos procuram uma saída através da escuridão. O Hotel Canal acabava de ser alvo de um atentado terrorista.

A explosão foi sentida em toda a capital iraquiana. O camião estacionado junto à sede da ONU foi pelos ares. E com ele grande parte do edifício onde se encontrava Sérgio Vieira de Mello.

Momentos depois o conselheiro político do representante de Kofi Annan, Ghassan Salamé subia ao segundo andar do complexo. “Vi-o em baixo [no rés-do-chão], imobilizado. Gritei ‘Sérgio, Sérgio’ e ele respondeu ‘Ghassan”‘. Vieira de Mello encontrava-se soterrada nos escombros, com as pernas esmagadas por uma viga de betão. Durante cerca de três horas, o chefe das Nações Unidas no Iraque comunicou com o exterior através do telemóvel. Sem sucesso. Quando as equipas de salvamento lá chegaram era tarde de mais. A morte fora ao encontro de Sérgio Vieira de Mello. Tinha 55 anos, era casado e pai de dois filhos.

O homem certo. Após a notícia do atentado, sucederam-se as manifestações de pesar. De George W. Bush a Xanana Gusmão, de Tony Blair a Lula da Silva, os líderes mundiais expressaram a sua consternação. O governo brasileiro decretou três dias de luto nacional.

Na sede da ONU, em Nova Iorque, as bandeiras dos 191 países-membros da organização foram colocadas a meia haste. E o secretário-geral das Nações Unidas era dos mais abatidos: “foi um duro golpe para a ONU e para mim pessoalmente”, desabafou Kofi Annan, de quem Vieira de Mello era apontado como provável sucessor. “Os que o mataram cometeram um crime não só contra a ONU, mas contra o Iraque”.

Sérgio, como era conhecido entre o pessoal da organização, era o homem mais bem preparado para a tarefa proposta por Annan de acordo com a resolução 1483 do Conselho de Segurança da ONU: ajudar à formação de uma administração interina iraquiana. Nas suas palavras as Nações Unidas teriam duas funções a desempenhar no Iraque. A primeira seria a de”ajudar [os iraquianos] a transmitir uma mensagem clara à coligação, a sua aspiração de que o conselho assuma fortes prerrogativas executivas; em segundo, que a ONU desempenhem um papel central na transição política e constitucional”.

As suas qualificações para o cargo eram inegáveis. Funcionário das Nações Unidas há mais de 3 5 anos, Vieira de Mello teve intervenções fundamentais em várias situações de conflito.

Entrou para a organização em 1969, como editor de publicações do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR). Mais tarde exerceu cargo no Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique e Peru. O primeiro papel de destaque surgiu no início da década de 80. Entre 1981 e 1983 foi o principal assessor das Nações Unidas no Líbano, aquando da invasão israelita. Em seguida mudou-se para a Ásia, primeiro como conselheiro no Vietname e depois como director de repatriamento no Cambodja. No início dos anos 90 regressa à Europa para liderar a Força de Protecção de Civis da ONU na antiga Jugoslávia.

Em 1999 chega a representante especial de Kofi Annan e dirige a administração da ONU no Kosovo. Aí esteve menos de um mês. Foi chamado para desempenhar funções semelhantes em Timor-Leste onde a extensão dos seus poderes não tinham qualquer precedente na organização. Sérgio era o governador de facto do território. Estava encarregue da força de manutenção de paz, liderada pela Austrália, e pelos aspectos da governação civil. O perigo já fazia parte da sua vida. Em Março de 2000, numa entrevista ao Independente confessava: “Eu já durmo mal em circunstâncias normais. Aqui ainda mais, ainda pior. Claro que eu tenho medo”. Determinado, criou um governo interino, organizou eleições para uma assembleia constituinte e por fim supervisionou as primeiras eleições presidenciais livres e imparciais de Timor-Leste. O mesmo que planeava fazer no Iraque. Com a convicção, expressa na mesma entrevista, de que “destruir é fácil, construir é demorado, se a construção for sustentada”.

Bagdade. Concluída com sucesso a missão em Timor-Leste, Vieira de Mello regressou a Genebra. Meses depois substitui a ex-primeira-ministra irlandesa Mary Robinson no cargo de Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Empenhou-se a fundo na tarefa. Mas mais uma vez, foi chamado por Annan. O secretário-geral escolheu-o como seu representante no Iraque para ajudar a reconstruir o país após uma guerra de que discordara. Contrariado, aceitou. “Apenas por quatro meses”. Como sempre, entrega-se às novas funções e deseja “ajudar o povo iraquiano a sair de um período terrível na sua longa e nobre história”.

Chega a Bagdade em Maio e logo declara que “a liberdade, dignidade e segurança têm, a partir de agora, de ser tidas como certas por todos os iraquianos”. Pouco tempo depois garante que “o actual estado de coisas vai chegar ao fim em breve. Eles [os iraquianos] precisam de saber que a estabilidade vai regressar e que a ocupação terminará”.

Passou quase três meses na capital iraquiana. Para se distanciar das forças de ocupação, a ONU optara pelos serviços mínimos de segurança. Terá sido relativamente fácil ao condutor desconhecido estacionar o camião junto ao gabinete de Sérgio Vieira de Mello. Dentro da betoneira, calcula-se que estivessem 211 quilogramas do explosivo plástico “C4″. A explosão provoca a morte de 24 pessoas e ferimentos em mais de 100. Foi o pior ataque da história da organização. Desaparecia um dos maiores activistas dos direitos humanos. Fez ontem um ano.”

As fugas que melhoram a democracia

Em Junho de 1971, o The New York Times começou a divulgar os chamados Pentagon Papers, cujo  conteúdo acabou por obrigar a administração Nixon mudar o curso da guerra do Vietname. Numa altura em que Edward Snowden divulgou uma enorme quantidade de informação sobre a actividade da NSA, é interessante recordar os acontecimentos de há 40 anos e perceber como eles contribuíram para melhorar a democracia norte-americana.

Um aparelho que mudou as nossas vidas

Na quarta-feira, dia 3 de Abril, o telemóvel fez 40 anos. A primeira chamada foi feita em Nova Iorque pelo seu inventor, Martin Cooper e teve um destinatário muito especial: o seu rival na corrida ao aparelho, Joel Engel. Desde então, deixou de ser um tijolo e mudou as nossas vidas. Aliás, este post esta a ser feito através de um.

A morte do camarada Iosif Vissarionovich Dzhugashvili

Stalin_1902

Iosif Vissarionovich Dzhugashvili nasceu na Geórgia, em 1889. O pai era um bêbado que o espancava. A mãe, lavadeira. Em criança, aprendeu russo numa escola de igreja ortodoxa. Entrou para o seminário de Tiflis, onde estudou para padre. Mas a certa altura, mudou o trajecto que lhe parecia ter sido traçado. Começou a ler Karl Marx e, em 1900, tornou-se um revolucionário. Participou em manifestações e greves. Aderiu ao movimento bolchevique e foi preso e exilado sete vezes. Em 1912 foi nomeado para o Comité Central do partido. No ano seguinte publicou um artigo sobre o papel do marxismo no destino da Rússia. E pela primeira vez assinou com o nome pelo qual ficou conhecido: Stalin.

Em 1917 deixou o exílio na Sibéria. A revolução de Outubro tinha deposto o czar. Nos anos seguintes subiu no partido. E quando Lenine morreu, em 1924, eliminou inimigos e rivais. Tornou-se líder absoluto da União Soviética. Com o início da II Guerra Mundial, chocou os comunistas ao assinar um acordo com a Alemanha Nazi. O pacto Ribentrop-Molotov permitiu-lhe anexar parte da Polónia, Roménia, Finlândia, Estónia, Letónia e Lituânia. Quando Hitler quebrou o acordo, manteve-se em Moscovo a liderar a resistência do Exército Vermelho. Mudou de lado e esteve em conferências históricas com os países ocidentais. Após a rendição alemã, continuou a ocupar a Europa de Leste. Tornou-se um dos maiores homicidas da história: condenou à morte entre oito e dez milhões de pessoas.

A 28 de Fevereiro de 1953 convidou Lavrentiy Beria, Georgy Malenkov, Nikolai Bulganiny e Nikita Krutchev para uma sessão de cinema na sua dacha. Às 4h da madrugada, foi-se deitar. Os guardas não voltaram a ouvir barulho. Estranharam. Mas temiam incomodar o líder sovietico. Ao início da noite seguinte, sob o pretexto de lhe entregar o correio, o comandante da guarda entrou no quarto. Stalin estava no chão. Tinha tido um derrame cerebral.

Durante mais quatro dias, agonizou. Os médicos temiam tratá-lo. Os potenciais sucessores não queriam que sobrevivesse. Morreu a 5 de Março de 1953. Faz hoje 60 anos. Eram exactamente 18h50m em Portugal.

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