Um encontro com Madeleine Albright

Quando entrei para o curso de Relações Internacionais, em Setembro de 1996, os Estados Unidos estavam em plena campanha eleitoral. De um lado, o presidente em funções, Bill Clinton. Do outro, o republicano Bob Dole. A eleição era, por isso, tema obrigatório de acompanhar. Tal como as teorias das relações internacionais que moldavam o mundo.

Aquela era ainda uma época de mudanças extraordinárias (não são todas?). O muro de Berlim tinha caído há sete anos e a Europa de Leste atravessava a chamada terceira vaga de democratização (que começou em Portugal, em 1974). Do outro lado do Atlântico, Bill Clinton era um defensor vocal da teoria da paz inter-democrática. Ou seja, da tese de que não há guerra entre democracias.

Depois de ser eleito para um segundo mandato, Clinton escolheu para secretária de Estado a mulher que tinha sido, até então, a representante dos EUA na Organização das Nações Unidas. Chamava-se Madeleine Albright. Natural da Checoslováquia – e por isso impedida de se candidatar à presidência -, foi a primeira mulher a ocupar o cargo. E nos anos seguintes tornou-se a grande artífice da expansão da NATO para a Europa de Leste e até hoje uma vocal defensora da paz entre democracias.

Nesse ano, Vasco Rato era o meu professor de Teoria das Relações Internacionais. Recordo-me que no fim do ano, durante o obrigatório exame oral, ele me perguntou o que achava da Teoria da Paz Inter-Democrática. Devo ter dito uma asneira qualquer porque ele respondeu-me com ar de poucos amigos: “então o senhor acha que o Bill Clinton é burro?” Lá balbuciei qualquer coisa, mas confesso que a partir daí não me lembro de muito mais. Só sei que passei com uma nota miserável e que nunca mais me esqueci do que é a paz inter-democrática e de quem foram os seus defensores.

Foi por isso engraçado ver o Vasco Rato, hoje presidente da FLAD, a moderar o debate com Madeleine Albright nas últimas conferências do Estoril (e sim, ela falou na paz entre democracias, teoria em que continua a acreditar). Mas melhor foi ter tido a oportunidade de a entrevistar em exclusivo, entre o fim do debate e o início da conferência de imprensa. Foram apenas 15 minutos, contados ao segundo pela assessora atenta que a acompanhava para todo o lado. No final, não lhe contei esta história. Mas não resisti em pedir-lhe para tirar com ela uma fotografia para a história. Obrigado, madam secretary.

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Foto original: Pedro Zenkl

O aviso do “animal feroz”

“A política para si acabou?

Oh, pelo contrário. Isto ainda agora começou.”

José Sócrates, ao Diário de Notícias

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A SÁBADO no The Sunday Times

A entrevista de Fábio, aliás AbduRahman Al Andalus, dada à SÁBADO em Outubro, está hoje em destaque no The Sunday Times. É bom saber que ainda há quem siga princípios simples – como citar as fontes. A entrevista completa está aqui.

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“Fidel colocou milhões em contas no exterior”

Durante 17 anos, Juan Reinaldo Sanchés fez parte da guarda pessoal de Fidel Castro. Com o passar do tempo, tornou-se um dos seus mais próximos colaboradores: era ele quem tinha de anotar num diário tudo o que El Comandante fazia. Quando quis abandonar o círculo que o rodeava, caiu em desgraça: foi preso e torturado. Após oito tentativas conseguiu fugir de Cuba para os Estados Unidos onde, este ano, lançou um livro com os detalhes da vida desconhecida de Fidel e as suas contradições com a ideologia comunista. De acordo com Juan Reinaldo Sanchés, El Comandante possui mais de 20 casas, incluindo uma ilha privada com tartarugas e golfinhos, só bebe leite fresco da sua vaca particular, grava todas as conversas no gabinete, esteve duas vezes às portas da morte e desviou milhões de dólares para contas por si controladas – para além de ser cúmplice com o tráfico de droga para os EUA. No dia em que ele está em Lisboa a promover a edição do seu livro em Portugal, deixo aqui a entrevista que lhe fiz há cerca de três meses e que foi a base para um artigo publicado na SÁBADO.

Juan Reinaldo mostra uma das fotografias com Fidel Castro

Juan Reinaldo mostra uma das fotografias com Fidel Castro

Quando se tornou guarda-costas de Fidel Castro?

A 1 de Maio de 1977. Antes tinha tirado um curso de dois anos numa escola de especialistas em segurança pessoal e já tinha uma experiência de nove anos em segurança pessoal, fazendo parte de outros “anéis” da segurança de Fidel.

Porque o escolheram?

Por causa do meu desempenho durante nove anos e pelos meus resultados na escola de especialistas em segurança pessoal. Já tinha cinturão negro em artes marciais e era campeão de tiro.

Como se tornou um dos mais próximos de Fidel no grupo de guarda-costas?

Não era o único mais próximo dele. Havia o chefe de equipa e o seu médico pessoal. Acontece que, como tinha a responsabilidade de escrever o diário pessoal de Fidel, isso aproximava-me bastante dele. Tinha de anotar tudo o que ele fazia desde que se levantava até que se deitava, quem via, com quem conversava, o que comia, por que vias circulava, etc. E para fazer essas anotações, devia estar sempre ao lado dele. Neste trabalho conheci diferentes presidentes que visitaram cuba entre 1977 e 1994 e também dirigente da esquerda latino-americana como Luís Gorvalán, do Chile, Schafik Jorge Handal, da FMLN de El Salvador, e Joaquín Villalobos, do Exército revolucionário do Povo.

No meu livro, que escrevi com a colaboração do jornalista francês Axel Guilden, conto a história de que Fidel Castro realizou várias reuniões em Cuba com estes homens de esquerda e comandantes guerrilheiros para utilizar em El Salvador a mesma estratégia que tinha desenvolvido na Nicarágua: a união das diferentes frentes guerrilheiras numa única grande ofensiva militar contra a capital. Mas Villalobos e Schafik nunca chegaram a acordo porque entre eles havia uma rivalidade pela liderança desta luta e nunca foi possível unirem-se para Fidel alcançar os seus objectivos

Quais eram as suas responsabilidades?

Primeiro tinha a responsabilidade da sua segurança. Depois tinha que escrever o seu diário pessoal. Além disso, durante alguns anos fui responsável pela preparação técnica, profissional e física dos outros membros da escolta. Fiz também parte da equipa avançada das viagens de Fidel Castro ao exterior e tornei-me responsável directo da segurança no estrangeiro a partir de 1989.  Numa dessas avançadas realizou-se a viagem ao Zimbabwe para a VIII cimeira dos países não alinhados em 1986. Conto como preparei várias casas que se compraram em dinheiro, assim como automóveis Mercedes e Toyotas para a segurança de Fidel durante a estada no país. Foi construído um refúgio na própria residência e uma sala de reuniões totalmente segura contra escutas estrangeiras. Esta operação, detalhada no livro, custou mais de dois milhões de dólares, para apenas uns dias de Fidel Castro neste país africano.

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Juan Reinaldo a retirar a caneta entregue por uma jornalista a Fidel Castro. A segurança temia tentativas de assassinato

 

Toda a sua vida Fidel Castro afirmou que não tinha património. Isso é verdade?

Não. Fidel tem residências espalhadas por toda a ilha. Durante o meu trabalho conheci pessoalmente mais de 20 casas de uso exclusivo de Fidel, moradias que não são habitadas por mais ninguém. Além disso, Fidel tem marinas com iates, como aquela que fica a sul de Cienaga de Zapata, chamada Caleta del Rosário, onde trabalham mais de 100 homens como marinheiros, mecânicos navais, pessoal de serviço e guardas, apenas para uso exclusivo de Fidel. Ele tem também uma ilha privada a sul da Cienaga de Zapata, possui um iate de 80 pés de comprimento por 20 de largura e outros três iates mais pequenos de 54 pés de comprimento por 17 de largura. Como se isso não bastasse, tem também à sua disposição barcos de pesca de 60 metros de comprimento a pescar apenas para ele. Todas as embarcações estão na Marina Caleta del Rosário. Fidel é ainda proprietário de um couto de caça nos arredores da povoação de Los Palácios, na província de Pinar del Rio, onde, no Inverno, se dedica a caçar patos que emigram da Florida.

Revela também a existência da ilha de Cayo Piedra. Pode descrevê-la?

Na verdade são duas ilhas pequenas unidas por uma ponte com mais de 200 metros de comprimento. Esta ilha fica a sul da Ciernaga de Zapata, na província de Matanzas. Fidel habita uma casa que anteriormente pertencia a um faroleiro e que foi convertida num chalet. Tem pista de helicóptero, molhe para atracar os iates, um restaurante flutuante, criadores de tartarugas e até um delfinário, para além de uma residência para visitantes com piscina olímpica e outras instalações.

Fidel ia para lá com frequência?

Geralmente ia aos fins-de-semana no Verão e passava a maior parte de Agosto na ilha. Eu ia com ele na maioria das vezes porque fazia parte dos mergulhadores que pescavam com Fidel.

Ele levava a família ou ia sozinho?

Geralmente ia com a família, a mulher Dália e o seu filho mais pequeno, Angel. Os outros filhos iam uns dias mas saíam já que estavam a estudar ou simplesmente gostavam mais de passar as férias em Varadero, rodeados de outros jovens filhos de dirigentes. Quando Fidel levava algum convidado então ia sozinho. A sua esposa, Dália, nunca apareceu em público até se conhecer a doença de Fidel em 2008.

Tinha amantes? Levava-as para lá?

Geralmente a sua amante Juanita Vera ia à ilha quando Fidel convidava algum estrangeiro que falava inglês porque ela era a tradutora de Castro.

E os filhos?

Os cinco filhos com Dália (Alexis, Alex, Alejandro, António e Angel) iam regularmente à ilha. Mas os outros filhos (Fidel Castro Diaz Balart e Jorge Angel Castro) não iam com frequência. Só os vi lá em duas ou três ocasiões e sempre em separado.

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No iate Aquarama II

O que faziam para passar o tempo?

Actividades próprias do mar, pesca submarina, pesca em barcos, nadar no mar alto, visitar outras ilhas da zona, etc.

Costumava levar convidados?

Os mais frequentes eram os seus amigos Gabriel Garcia Marquez e António Neñez Jimenez, assim como os seus familiares. Além deles também visitaram a ilha estrangeiros como o milionário Ted Turner e a jornalista Bárbara Walters.

Fala no iate Aquarama II. Pode descrevê-lo?

Foi fabricado em cuba com madeira preciosa enviada de Angola. O anterior, o Aquarama I, foi de um dirigente do governo anterior a 1959 e Fidel utilizou-o muitos anos até não poder navegar mais. Então mandou construir este, muito parecido com o anterior, mas com equipamentos de navegação mais modernos e uma estrutura mais aerodinâmica.

Fidel é um conhecido fã de desporto. Mas no livro diz que a pesca é o seu desporto favorito. Porquê?

Ele gosta imenso de pesca submarina. É o desporto que mais praticava durante o Verão. Mas no Inverno ia para o couto de caça particular, chamado La deseada.

Pode descrever o ritual da pesca submarina e o seu papel nessa actividade?

Fidel Castro pescava de uma forma pouco habitual. Entregávamos-lhe as armas de caça já carregadas e prontas para atirar. Ele disparava e quando um peixe ficava no arpão não o recolhia. Era um dos mergulhadores que o apanhava e levava para o barco. Fidel depois estedia a mão e outro mergulhador entregava-lhe um novo arpão pronto a disparar. O meu trabalho era apoiar estes mergulhadores e com uma espingarda submarina muito mais potente espantar os tubarões, barracudas e moreias que rodeavam Fidel Castro. Protegia-o desta forma quando estava na água.

Descreve Fidel como uma espécie de Luís XV. Porquê?

Porque tinha toda uma corte de servidores em seu redor, unicamente para o servir em todos os seus gostos e prazeres e porque tem condomínios e propriedades única e exclusivamente para seu uso pessoal, ilhas, iates, marinas, couto de caça, etc.

Como é possível que a existência da ilha se tenha mantido em segredo todos estes anos?

Porque tudo o que está relacionado com a vida pessoal de Fidel Castro sempre foi tratado em Cuba como um segredo de estado e apenas as pessoas escolhidas pelo próprio Fidel o podiam visitar.

A entregar a Fidel um presente no seu dia de anos

A entregar a Fidel um presente no seu dia de anos

Havia outros luxos?

Sim: vacas exclusivas para o leite que toma, fábricas de tabaco, iogurte, queijos, gelados, etc. Mas este aspecto está bem detalhado no livro já que se trata da vida oculta de Fidel.

Como era um dia normal?

Em Havana, levantava-se por volta das 13h ou 14h. A primeira coisa que fazíamos era dar-lhe “os telegramas”, ou seja, todas as notícias que saiam nas mais importantes agências de imprensa a nível mundial, juntamente com um relatório do ministério do interior, fundamentalmente da espionagem e contra espionagem, com o estado e desenvolvimento de actividades de espionagem em diferentes países, especialmente nos Estados Unidos e ainda outro relatório das forças armadas cubanas relativas às actividades das missões cubanas no exterior, seja em Angola, Nicarágua ou outro país. Saia de casa de Punto Cero às 15h ou 16h, ia ao Palácio ou ao Ministério das Forças Armadas para ver Raul ou aos dois lugares. No Palácio recebia as pessoas que queriam vê-lo ou ele tinha interesse em ver, nacionais ou estrangeiros, assistia às reuniões programadas do partido, Estado ou governo. Ao final da tarde ia visitar algum dignitário estrangeiro, ou então Garcia Marques ou Nuñez Jimenez nas suas casas. Depois ia para a sua residência de Punto Cero já de madrugada. Ficava lá ou saia com a mulher, Dália, para ver um filme no seu cinema particular que ficava a cerca de 1,5km de casa.

Mesmo em casa comiam como se estivessem num restaurante?

Na residência trabalham dois ou três cozinheiros e as refeições são feitas em função do que cada membro da família deseja comer. Este pedido é deixado na cozinha da residência por Dália no dia anterior, assinalando o que cada membro deseja comer ao pequeno almoço, ao almoço ou a comida e a que hora cada pedido deve estar pronto.

Falou em vacas exclusivas. O que quer dizer?

Na residência de Punto Cero há vacas, uma para cada membro da família. A destinada a Fidel é a número cinco. O leite é fresco, do dia. Mesmo quando Fidel viajava para o estrangeiro, um avião cubano ia ao encontro da delegação para enviar os telegramas e relatórios de que já falámos, assim como o leite, iogurte e vegetais que Fidel consumia.

É descrito como um indivíduo paranóico. Por quê?

Fidel quer mostra-se como uma pessoa calma e equilibrada e consegue-o em muitas ocasiões. Mas há momentos em que se mostra paranóico sobretudo no seu círculo mais intimo. Ninguém o pode contradizer, nem tem valor para o fazer – mesmo quando acha que ele está errado.

Ele grava todas as conversas?

Dentro de casa não sei. Grava as conversas telefónicas e também as da sua escolta. Para isso há, no perímetro de Punto Cero, uma pequena casa onde estão as equipas e membros da segurança que as manipulam a fim de ter todas as gravações que desejem. Dália sabe disto, uma vez que é ela quem dirige todo o que se relaciona com a residência e o pessoal que lá trabalha.

No seu gabinete no palácio, grava tudo. Desde as conversas com os visitantes, às que realiza por telefone. Há uma equipa de repórteres e gravadores. À frente desta equipa está Hilda Castro, uma antiga colaboradora de Fidel desde os anos 1960. Esta equipa faz também a transcrição das conversas telefónicas para quando Fidel as quiser ler.

Fidel Castro e Juan Reinaldo Sanches

Fidel Castro e Juan Reinaldo Sanches

Diz que os convidados estrangeiros eram vigiados pelos serviços de segurança. O que faziam concretamente?

Todas as pessoas de interesse, sejam presidentes, personalidades da cultura ou jornalistas, são vigiados constantemente pelos órgãos da contra-inteligência. Seja nas suas residências em Cuba ou quando estão a circular pelas ruas da cidade. Os relatórios são guardados e usados por Fidel num momento que considere oportuno.

Conta também que um diplomata francês apanhado no tráfico de arte se converteu num espião cubano?

Soube disto através de um relatório que a espionagem cubana enviou a Fidel sobre o caso dele.

Muitas vezes o mundo não conhecia o verdadeiro estado de saúde de Fidel. Como fazia para o ocultar?

Era um segredo de estado. Quando ele esteve internado em 1983 e 1993, vítima da doença que mais tarde o afastou do poder em 2006, nós na escolta fazíamos trabalhos de desinformação que consistia em utilizar um membro da escolta chamado Silvino Alvarez e disfarçá-lo com o uniforme de Fidel e uma barba postiça. Este duplo era utilizado à distância das pessoas, ou seja não era para o substituir numa reunião ou num discurso. Só o fazíamos quando o colocávamos no automóvel pessoal de Fidel e o passeávamos por Havana enquanto Fidel estava internado na sua clínica, com o objectivo de dar a impressão de que Fidel continuava a fazer a vida normal.

Qual era a relação dele com Angola?

Sempre disse que de Angola levaria só os mortos. No livro conto como foram parar a cuba madeiras preciosas e diamentes de Angola. E, no caso dos diamantes, como Fidel os recebeu em mão e também como desde a sede do ministério das Forças Armadas dirigiu toda a guerra neste país africano.

Ele tinha empresas e contas em bancos?

Sim, criou sociedades anónimas nos anos 1980 e que não estavam subordinadas à economia nacional: apenas ao conselho de estado, de forma a que os lucros dessas empresas fossem parar directamente às mãos de Fidel Castro. E sim, tinha contas em bancos mas só Fidel podia dispor delas. Empresas como a Coorporación Cimex, Cubalse, Cubanacán, etc. No livro conto como em várias ocasiões vi Abrahan Masique, então director de Cubanacán SA, entregar a Fidel Castro um milhão de dólares proveniente dos lucros de Cubanacán. Milhões que ele mandou um ajudante colocar em contas no exterior.

Porque deixou a escolta?

Em 1989 ouvi uma conversa (tal como os microfones do gabinete) entre Fidel Castro e o seu ministro do interior relacionado com o tráfico de droga. Aí dei-me conta que Fidel dirigia e sabia de tudo o que estava relacionado com a droga. Nesse momento senti-me enganado e defraudado por Fidel e pela revolução e estabeleci como objectivo sair. Mas tive de esperar até 1994, ano em que tinha todas as condições para pedir a reforma. Quando chegou a essa data pedi-a e Fidel enviou-me para a prisão. Passei dois anos detido, nas condições normais em Cuba: má alimentação, abusos por parte dos guardas, má higiene, etc.

Durante uma visita ao estrangeiro

Durante uma visita ao estrangeiro

Como foi para os Estados Unidos?

Quando saí da prisão, em 1996, comecei a tentar sair ilegalmente de Cuba, mas todas as tentativas foram infrutíferas até ao ano 2008 em que consegui sair ilegalmente através do México e daí para os Estados Unidos.

Porquê escrever este livro? .

Porque o mundo deve conhecer quem é verdadeiramente Fidel Castro. E não é o Fidel Castro que o próprio Fidel e o governo cubano trataram de promover pelo mundo.  Todos os livros sobre Fidel partem da informação dada por ele próprio ou pelo governo. Assim vemos os livros Um Grão de Milho, escrito por Tomás Borge, Fidel e a religião, de Frei Betto, e 100 horas com Fidel Castro, de Ignacio Ramonet. Todos partem de entrevistas a Fidel.

Na prisão dei-me conta de toda a informação que possuía e estabeleci o objectivo de dar a conhecer ao mundo o verdadeiro Fidel Castro. Fui tirando essa informação de Cuba por diferentes vias: na memória, em CD, em documentos e fotografias, de forma a que quando cheguei aos EUA tinha 90% da documentação que precisava. Posteriormente, em Miami, continuei a sacar informação valiosa de Cuba, o que me ajudou muito não só a escrever o livro como a provar o que dizemos. Este livro é o primeiro que aborda a vida privada de Fidel Castro, escrito por um testemunho presencial dos acontecimentos que ele trata. Daí a importância da obra.

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Fábio, o Estado Islâmico e uma entrevista

Quando surgiram no Expresso as primeiras notícias de que havia portugueses a combater nas fileiras do Estado Islâmico fiquei imediatamente interessado no tema. Quem eram aquelas pessoas? O que os levava a aderir a uma ideologia radical, contrária aos valores dos locais onde haviam sido criados? Eram algumas questões que importava responder. E isso implicava falar com eles. Quase todos teriam uma característica: eram activos nas redes sociais. Ao longo de semanas tentei localizá-los por todos os meios. Semana após semana a frustração foi crescendo na igual medida em que o Hugo Franco e a Raquel Moleiro iam fazendo um trabalho exemplar no Expresso (chápeau) Foram eles que contaram em primeiro lugar a história de Fábio e de Ângela, a rapariga que viajou para a Síria para casar com ele.

Quando encontrei finalmente uma página de Fábio na Internet, enviei-lhe uma mensagem. Não tinha grandes expectativas: a página estava inactiva há quase um ano e referia-se a um período antes de ele viajar para a Síria. Durante semanas não obtive resposta. Até que, no passado domingo, acordei com uma mensagem: um email de contacto. Contactei-o mas a mensagem veio devolvida. No entanto, esse email permitiu-me encontrar a nova página de Facebook de Fábio. Ou melhor, de Abdu Rahman Al Andalus. Contactei-o novamente, e ele respondeu. Primeiro em português. Depois, em inglês. Essa troca de mensagens inicial durou mais de seis horas. Continuou no dia seguinte. E no outro – já a partir de uma nova página porque a primeira tinha sido bloqueada.

O resultado dessa conversa foi publicado na última edição da Sábado. Foi o tema de capa e tem provocado alguma polémica – sobretudo entre jornalistas. Quanto a isso, tenho algo a dizer: acredito que todas as opções editoriais são criticáveis. Costumo dizer que essa é uma das belezas do jornalismo: não há verdades absolutas. Cada um de nós atribui importâncias diferentes a temas diferentes. Exemplos: o telejornal da RTP pode abrir com o ébola, o da SIC com a sobretaxa do IRS e o da TVI com o prémio Nobel da Paz. São escolhas diferentes e legítimas, de acordo com os critérios de quem está a coordenar a emissão.

Nos jornais essa escolha é feita todos os dias. Qual a melhor notícia para manchete? Qual a mais importante? E sim, qual a que mais vende? Porque um jornal que não vende é um jornal que, mais tarde ou mais cedo, morre. E essa não é uma boa notícia. Nas revistas essa escolha é diferente. Por norma, os temas de capa são planeados com antecedência. A não ser que haja uma questão de actualidade que se sobreponha, como a implosão do BES. Ou no caso de surgir uma história exclusiva que, pela sua relevância mereça o destaque de capa. Foi o caso da entrevista a Fábio. A existência de portugueses nas fileiras do Estado Islâmico (EI) é notícia? É. Perceber os motivos que os levaram a viajar para a Síria é relevante? É. Saber o que se passa do outro lado do mundo é importante? É. A decisão de fazer capa com a entrevista foi boa? Na minha opinião sim. É propaganda ao EI? Claro que não. É informação. E é essa a função dos jornalistas: publicar toda a informação para que os leitores possam tomar decisões conscientes e formar opiniões próprias. Não é escondê-la. Mesmo que ela agrida os nossos valores. Porque ocultá-la seria, isso sim, uma opção totalitária. E porque se quisermos melhorar o mundo, primeiro temos de conhecer os males que nele habitam.

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A entrevista (nesta altura só há uma de que toda a gente fala)

Não sou um grande fã de Judite de Sousa. Não o escondo. Mas reconheço os seus méritos. E o facto de ser a única – talvez com José Rodrigues dos Santos – jornalista-estrela do panorama jornalístico português. Ontem, ela voltou aos ecrãs após dois meses de ausência pelos motivos que todos conhecemos. Fez mal.

Primeiro que tudo: é preciso reconhecer a coragem de Judite de Sousa. Não imagino, nem quero imaginar, aquilo por que ela está a passar. Perder um filho é algo inimaginável. Arrasador. Voltar seria difícil para qualquer um. Fazê-lo com uma entrevista a Cristiano Ronaldo é ainda mais complicado. Não pela dificuldade da entrevista em si. Mas pela pressão. Pela expectativa criada pela própria TVI no “regresso em grande” da jornalista-bandeira da estação.

No entanto, o que vimos (e muitos o fizeram), especialmente na sexta-feira, foi uma mulher arrasada a obrigar-se a falar com voz firme (sem o conseguir) para a câmara. Tremia. Tinha dificuldades em articular as perguntas. Emocionou-se. Quase chorou. Teve certamente a simpatia dos telespectadores. Mas também os distraiu. Eu, por exemplo, a certa altura dei por mim a não ouvir as respostas do capitão da selecção nacional, mas a observar o estado de fragilidade da entrevistadora.

A realização também não a ajudou. Exagerou nos planos aproximados que realçaram as suas dificuldades em afastar o nervosismo. Ainda assim, aos poucos, Judite de Sousa melhorou. Ganhou mais à-vontade. A confiança começou a surgir. Houve mesmo um sorriso aqui e ali. Até o tratamento por “tu” que no início pareceu estranho (Ronaldo usou sempre o “você”) se tornou natural e familiar.

Não tenhamos ilusões: Judite de Sousa é uma privilegiada. Estar dois meses sem trabalhar após uma tragédia não está ao alcance de qualquer um. Ainda bem para ela. Teve mais tempo para fazer o seu luto. O que alguém lhe devia ter dito, porque é preciso que alguém o faça, é que só deveria regressar aos ecrãs quando estivesse realmente preparada para o fazer. Ninguém lhe ia levar a mal por isso. Pelo contrário. Podia perfeitamente regressar à redacção, assumir funções fora da antena e, com tranquilidade, voltar à emissão. Ela escolheu outro caminho. Provavelmente terá as suas razões. Há uma coisa que ninguém lhe pode tirar: teve uma coragem do tamanho do mundo. E agora só é possível melhorar.  Bem-vinda de volta.

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“Se acabar em Guantanamo, posso viver com isso”

O The Guardian entrevistou Edward Snowden em Moscovo. Este é o resultado final desse trabalho.

“Sou um pai que quer o filho de volta”

Bowe Bergdahl foi o último soldado americano aprisionado pelos Talibã a ser libertado. Na vespera da libertação do militar, o The Guardian conseguiu uma entrevista exclusiva com o seu pai, Bob Bergdahl.

Leitura para o fim-de-semana: uma longa entrevista ao criador de A Guerra dos Tronos

A quarta temporada de A Guerra dos Tronos aproxima-se do fim. Com a quinta já em preparação, os fãs da série têm uma preocupação: o autor, George R.R. Martin tem mais dois livros da saga previstos – mas nenhum está escrito. Portanto, o risco de só conhecermos o desfecho dos conflitos na terra dos sete reinos é real. Esse é apenas um dos temas desta longa entrevista da The Rolling Stone

Foto: Peter Yang

Foto: Peter Yang

George R.R. Martin: The Rolling Stone Interview

On a cold night in January, George R.R. Martin sits inside the Jean Cocteau Cinema, a revival theater that he owns in Santa Fe, New Mexico, where he has lived since 1979. The Cinema had been showing the first three seasons of HBO’s megahit series Game of Thrones, which is based on Martin’s still-in-the-works sagaA Song of Ice and Fire. After viewing the ninth episode, “Baelor,” in which the story’s apparent hero, Ned Stark, is unexpectedly beheaded, with the screen falling to black, Martin sits quietly for several moments, then says, “As many times as I’ve watched this, it still has great effect. Of course for me, there’s so much more to the books.”

And much more to come: The Song of Ice and Fire cycle – first published in 1996 – currently stands at five volumes, with two more books ahead. Those final works, though, won’t be anytime soon. Because Martin is a meticulous and slow writer, it is likely that years will pass before we learn the fates of Daenerys and her dragons, the recriminatory Lannister siblings and the shellshocked progeny in the Stark family. There is even the chance that the HBO series might arrive at key plot points before the books do, and though Martin once dismissed that possibility, he’s now mindful of it. “I better get these books done,” he tells me, on a drive through the streets of Santa Fe.

Later on, Martin takes me to a small house with a book tower that serves as his office and writing space. (The home where he lives with his second wife, Parris, is nearby.) Martin has been writing since childhood, and started publishing science-fiction short stories just out of college in the early 1970s. They quickly established him as a serious and imaginative writer, telling tales of tragedy and, sometimes, of uncommon and hard-won redemption. He spent much of the Eighties and early Nineties working as a screenwriter in Hollywood. Then in 1991 he began A Game of Thrones, primarily a story about power and family, about the disastrous nature of both war and the human heart, and so far it has shown nobody – including the audience – any mercies. As is apparent in the fourth season, there are no guarantees that anybody in this story is safe.

At his office, Martin escorts me to the den where we would talk. The room’s walls hold glass cases, full of hundreds of beautiful miniatures of medieval figures and fantasy characters and scenes from Martin’s books. Near a staircase that leads to Martin’s library – at 65, he remains a voracious reader – stands a full-size and operational model of the famous Robby the Robot, from the 1956 film Forbidden Planet. “Robby the Robot,” he tells me, “it was a great kick to buy him and to show him off. A bunch of money sitting in a pile – what do I get out of that?”

Martin is an affable, candid, terrifically smart man, and he is loquacious. We talked for 10 hours that day, breaking only for dinner. His way of discussing Game of Thrones surprised me: He often spun questions into larger dissertations about history, war and society. Because Martin is a big man, with an infectious laugh and white hair, there might seem something of a Santa Claus aspect about him, except for his eyes, which are constantly flickering with thought – some of it quite dark – conveying a mind as shrewd as that belonging to any of his characters.

One of the more dominant themes in Game of Thronesis family. It’s what gives the characters purpose, but it also ruins them. What was your own sense of family and home like?
I was born in 1948, and raised in Bayonne, New Jersey, which is a peninsula just south of Jersey City. By bus, it was 45 minutes to the heart of Manhattan, but Bayonne really was a world in and of itself. New York was very close, but we didn’t go there very often. From the age of four I lived down on First Street, in the public-housing projects, facing the waters of Kill Van Kull, with Staten Island on the other side.

My father was a Martin, but he was of Italian and German descent. My mother was a Brady – Irish. I heard a lot from my mother about the heritage of the Bradys, who had been a pretty important family at certain points in Bayonne history. I knew at a very early age that we were poor. But I also knew that my family hadn’t always been poor. To get to my school, I had to walk past the house where my mother had been born, this house that had been our house once. I’ve looked back on that, of course, and in some of my stories there’s this sense of a lost golden age, where there were wonders and marvels undreamed of. Somehow what my mother told me set all that stuff into my imagination.

Was your relationship with your parents close?
My father was a distant figure. I don’t think that he ever understood me, and I don’t know that I ever understood him. We didn’t use the term then, but you could probably say he was a functioning alcoholic. I saw him every day, but we hardly talked. The only thing that we really bonded over was sports.

Did you get out of Bayonne much before college?
We never had a car. My father always said that drinking and driving was very bad, and he was not going to give up drinking [laughs]. My world was a very small world. For many years I stared out of our living-room window at the lights of Staten Island. To me, those lights of Staten Island were like Shangri-La, and Singapore, and Shanghai, or whatever. I read books, and I dreamed of Mars, and the planets in those books, and of the Hyborian Age of Robert E. Howard’s Conan books, and later of Middle-earth – all these colorful places. I would dream of those places just as I dreamed of Staten Island, and Shanghai.”

A entrevista completa está aqui. 

Jorge Jesus e os três dedos mostrados ao treinador do Tottenham

Jorge Jesus dá hoje uma entrevista ao Sol, que faz a capa da revista Tabu. É uma leitura imperdível para quem quer conhecer melhor o treinador do Benfica: no futebol e fora dele. Tem também o grande mérito de ser lida e dar a sensação de que JJ está a falar directamente com o leitor. Há várias partes da destacar – sobretudo aquela em que ele diz que no final da época passada teve tudo acertado com aquele clube cujo nome não deve ser mencionado e que só não saiu do Benfica por causa de Luís Filipe Vieira e de dois jovens sócios -, mas não resisto a partilhar a descrição que ele faz do “incidente” com o treinador do Tottenham, Tim Sherwood, durante o jogo do Benfica em Londres.

“Sabia que o André [Vilas-Boas] tinha sofrido com ele e tinha-lhe dito: ‘Se eliminarmos o Tottenham, vou-lhe chegar a roupa ao pêlo na conferência de imprensa’. Ia dizer que o Tottenham jogava muito mais com o André, que agora era zero tacticamente. Já tinha isso na minha cabeça e, durante o jogo, entrei sem querer no espaço dele. Olhou-me assim de cima para baixo, à inglês, como quem diz ‘ouve lá, portuga, o teu lugar é ali, põe-te ali quietinho que tu és muita pequenino’. Percebi aquele olhar e a seguir entrou ele no meu espaço. Então disse-lhe para saír dali. ‘Back, back, back’. Mas ele aguentou-se e ficou ali comigo. Fiquei com aquilo na cabeça e, quando marcámos o golo, nem sei porquê, foi instintivo, fiz aquele gesto da dança. Como quem diz: ‘Tás a levar um baile e não tás a ver nada’. Isto aconteceu no um a zero e lembrei-me que ainda faltavam muitos minutos, que ainda não tinha acabado. E virei-me ao contrário: ‘Tá mas é caladinho que isto aindap ode mudar.’ Quando fizemos o três a um é que lhe disse: ‘My name is André. One, two, three’. E aí ele ficou louco: ‘Fuck you’. E eu: ‘Fuck a p…’ bem, disse-lhe tudo e o árbitro ali no meio de nós. Mas eu estavaa ganhar; por isso estava tranquilo. E pensei: ‘Este gajo vai dar-me um soco’ Mas não. Ele é um atrevido, atenção. Fiquei a gostar dele. Num jogo depois desse, do campeonato inglês, o Tottenham ganhou 3-2 após ter estado a perder 2-0 e dei umsalto quando fizeram o três a dois.

Porque ficou a gostar dele?

Porque o achei um homem destemido. Não teve medo nenhum de mim. Se fosse preciso dar-,e uma cabeçada ali, dava-me. O que ele estava a dizer era: ‘Não tenho medo nenhum de ti. Estás a levantar cabelo e daqui a um bocado ainda te bato’. Gosto de gente assim.”

É de homem. Foi isto:

Glenn Greenwald, um ano depois das primeiras revelações sobre a NSA

A 1 de Junho de 2013, Glenn Greenwald foi o primeiro jornalista a encontrar-se com Edward Snowden. Conheceram-se em Hong Kong, após meses de trocas de mensagens encriptadas. As primeiras horas foram passadas com o repórter a interrogar o antigo analista da NSA num hotel para perceber quais as motivações para aquela que seria uma das maiores fugas de informação da história. A primeira de um conjunto de notícias que lhe valeram o prémio Pulitzer foi publicada a 5 de Julho. Quase um ano depois, Greenwald está a lançar o livro “Sem Esconderijo” onde conta como tudo aconteceu e, em entrevista à PBS, recordou a importância das revelações que foram feitas.

Leitura para o fim-de-semana: espião maçon conta tudo, versão uncut

Na semana passada, a Sábado fez capa com uma entrevista a Jorge Silva Carvalho. Como acontece na maioria dos casos, o espaço disponível em papel não chegou para acomodar todos os minutos da entrevista feita pelo Fernando Esteves. Houve muito material que ficou de fora – e do bom. Acompanhei o trabalho do Fernando até ele convencer o antigo espião a dar-lhe esta entrevista. Faz por isso todo o sentido que ele tenha publicado no seu blogue uma versão integral: que eu estou a surripiar-lhe descaradamente. Neste caso não é ofensa. Nem roubo. É homenagem. Vale mesmo a pena ler.

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“Nos últimos dois anos fiz-lhe pelo menos 10 pedidos de entrevistas, sempre recusados. Porque é que só agora aceitou falar?

Porque terminou uma fase importante do processo, uma fase que não é a minha, foi despoletada pelo Dr. Nuno Vasconcellos, que fez um pedido de instrução em relação à acusação que lhe foi feita pelo Ministério Público. É uma fase em que eu tinha de deixar correr também a estratégia de defesa do Dr. Nuno Vasconcellos e dos seus advogados. O Nuno é meu amigo, sinto que ele foi injustamente envolvido nesta situação. A acusação do Ministério Público MP) é de cariz político, superficial e sem qualquer base de sustentação.

Onde é que entra a política neste processo?

O crime de corrupção é eminentemente político no sentido lato do termo. É, por exemplo, usado em certos Estados para anular rivais políticos. Quando você acusa alguém de corrupção está não só a colocá-lo no âmbito de um processo criminal, como também a destruí-lo em qualquer sociedade, sobretudo numa sociedade democrática.

O que está a insinuar é que existe uma intenção deliberada do Ministério Público de destruir o carácter de Nuno Vasconcellos.

Não digo que haja uma intenção deliberada de destruir o seu carácter. Aliás, aí ponho-me no mesmo barco que ele. A acusação incide mais sobre mim mas tinha de haver outro lado da moeda. Neste caso começámos a falar do Nuno Vasconcellos mas a questão principal até podia situar-me a mim. Eu acho que a acusação de corrupção surge até pelo próprio grupo de magistrados do MP que faz a acusação, que são particularmente vocacionados para esse crime. Portanto, há coisas que decorrem diretamente da forma de pensar das pessoas que estão envolvidas no processo acusatório. Durante estes dois anos tive de respeitar aquilo que era o direito de exercício dos seus meios de defesa por parte do Nuno Vasconcellos. Foi ele que despoletou a instrução. Esta pronúncia não é sobre mim. Fui acusado há dois anos. Já me cansei de rebater isso, acho que não vale a pena, que o processo mediático é quase autofágico e tem a sua própria lógica. Eu fui posto nesta cobertura noticiosa como o centro mas esta instrução não era minha, eu fui testemunha do Nuno Vasconcellos na instrução. Havia outros aspectos da instrução que eram relevantes para a minha defesa futura e para o meu processo mas não era sobre mim e no entanto acabei por ser eu o cabeça de cartaz no processo, o que nesta fase da minha vida assumo de bom grado porque quando sou eu que estou a ser exposto reputacionalmente não são amigos meus e não são outras pessoas que, coitadas, não têm culpa nenhuma. E portanto não fiz nenhum esforço para nadar contra a maré.

Nuno Vasconcellos terá de responder em tribunal pelo crime de corrupção activa e o senhor pelo de corrupção passiva. Está preparado?

Fá-lo-ei com todo o gosto. Aliás, foi uma opção que desde o início foi tomada. Em Maio de 2012, quando foi feita a acusação do MP, requeri ao tribunal que o julgamento fosse agendado o mais rapidamente possível, prescindindo de toda a tramitação processual possível previamente porque eu sei que só em tribunal poderei explicar melhor a falsidade da maior parte destas acusações. Quando me acusam de corrupção nos termos em que acusaram fizeram-me o pior dos insultos pessoais. E eu vou lidar com esta questão do ponto de vista de uma acusação criminal, mas jamais esquecerei o insulto pessoal.

A acusação de corrupção baseia-se numa troca de sms entre si e o presidente da Ongoing. Nela, entre outras coisas o senhor pergunta a Nuno Vasconcellos quanto é que ele achava que os seus serviços valiam. O MP considera que o que está inerente à sua pergunta é a oferta de informações privilegiadas.

Sim, mas é uma interpretação baseada em zero. Recordo-me que o MP baseia toda a sua  narrativa a partir de um extracto de um sms. Ora, como qualquer pessoa sabe, um sms é apenas uma parte de uma conversa. Muitas vezes não reflecte sentimentos, não reflecte tons, é menos neutral do que a palavra escrita. Depois, esse sms, sendo parcial, não diz coisa nenhuma. Diz apenas que eu estava a comunicar ao Dr. Nuno Vasconcellos quanto é que auferia no Estado. Desmontando a sua pergunta, a questão que está por trás da narrativa do Ministério Público é a história do período de nojo. Não há período de nojo. A minha obrigação era respeitar o segredo de Estado e manter um comportamento eticamente aceitável para um ex-director-geral dos serviços. Nunca me esqueci disso nem durante nem depois de ter saído. Escolhi a Ongoing por uma questão de falta de tempo. Pedi a um amigo um emprego. Não preparei a minha saída dos serviços. Tive de tomar uma decisão perante factos que eu considerava inaceitáveis no Estado português em relação ao serviço de informações.

Quais eram esses factos?

Não posso falar sobre isso. Foram expostos por escrito ao senhor secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP).

É desses factos de que fala quando se refere à questão do levantamento do segredo de Estado na sua defesa?

Não só. Eu fui para casa em meados de Novembro de 2010 e nunca mais voltei ao serviço, mas permaneci no posto oficialmente a pedido do próprio secretário-geral porque ele não queria causar ondas. A minha saída oficial coincide com o despacho de nomeação do meu substituto, cerca de 15 dias depois da minha saída efectiva. Agora, mesmo para além disso houve um regime de interinato em que eu respondia às perguntas que eram necessárias, havia assuntos que eram da minha lavra, que eram acompanhados por mim. Havia coisas que só eu é que conhecia, que tive de responder por telefone ou pessoalmente a várias pessoas que me foram pedindo. Eu assumi o cargo de director-geral do SIED tinha uma carreira de 17 anos nas informações, quase toda ela feita na estrutura operacional no Serviço de Informações de Segurança, e tinha comigo um lastro de coisas de natureza operacional que eram exploradas por mim directamente. E demorou. Pus-me à disposição para passar isso, para passar determinados dossiers. Veja: é muito difícil fazer uma saída deste estilo, para mim foi uma ruptura de vida, não foi apenas uma decisão de um qualquer director de um serviço de informações que saiu e voltou à sua profissão. Eu não saí só de um posto para que fui nomeado, saí de um lugar que eu adorava, de uma função para a qual fui treinado toda a minha vida, saí de uma função que para mim correspondia ao clímax de tudo o que tinha querido ao longo da vida. Dei tudo o que tinha na função. Julgo que para o SIED, naquela altura, provavelmente, foram os três anos em que passou a assumir-se como um serviço de informações de corpo inteiro e organizado profissionalmente. Não digo que não tenha cometido erros, é impensável dizer isso, mas tenho a certeza absoluta de que o trabalho que o SIED fez naqueles três anos foi respeitado. Sem contar com aquilo que contribuímos para o nosso sistema de informações. Agora, as pessoas olham porque quiseram olhar – incluindo o Ministério Público – para isto de uma forma simplista. Quiseram olhar para um mundo que é de várias tonalidades só olhando a branco e preto. Claro que o Ministério Público olha para isto e olha para um conjunto de coisas que se passaram dois ou três meses depois como se fossem coisas que eu já estava a fazer no sector privado. Ora isto é, no mínimo… não quero apelidar porque não vou cometer o erro que outras pessoas têm cometido comigo durante estes dois, três anos, desde que começou a campanha do Expresso em Julho de 2011. Às vezes a emoção trai-nos e podemos estar também a ser injustos como eu acho que foram injustos comigo, às vezes de forma negligente, outras com dolo.

O Ministério Público diz que na sua negociação com Nuno Vasconcellos ficou assente – e isso é dito de forma concludente – que lhe daria informações internas dos serviços e que terá inclusivamente oferecido a sua influência sobre dirigentes do SIED depois de sair dos serviços. Como é que interpreta isso?

É uma perfeita falsidade. Jamais tive uma única conversa com o Nuno Vasconcellos em que lhe prometesse o que quer que fosse. Esse sms de que fala, eu não consigo perceber como é que se consegue inferir isso daí. O que eu digo ao Nuno Vasconcellos é: “Não te arrependerás do favor que me estás a fazer, vou trabalhar para o merecer.”

Não há nenhum sms em que diga ao Nuno Vasconcellos: “Eu forneço-te informações privilegiadas…”?

O único sms de que me lembro, já não sei se é um sms se é uma declaração, em que eu terei dito ao Nuno Vasconcellos: “Vou-te compensar daquilo que estás a fazer por mim.” E fi-lo. Durante um ano na Ongoing trabalhei e fiz o possível para ajudar a empresa e o grupo a triunfar. Disse ao Nuno Vasconcellos que eu queria fazer um corte, mudar de vida. Trabalhava dez, doze, quatorze horas por dia nos serviços de informações, tinha filhos pequenos, queria deixar de carregar às costas a responsabilidade de tem um cargo público como o que desempenhava.

Ganhava cerca de 4000 euros como director-geral do SIED. Foi para a Ongoing ganhar quanto?

Dez mil euros líquidos.

Foi um salto importante.

Sim, mas foi um salto não negociado, foi puramente oferecido da parte do Nuno Vasconcellos.

Foi administrar logo três empresas.

Mais, até. Acabei por estar envolvido em praticamente todas as actividades do grupo com gosto. Mais do que a minha palavra e do que aquilo que eu digo, basta ler o despacho de pronúncia e ler o que disseram todos os quadros da Ongoing que foram lá testemunhar. E isso deixa-me satisfeito porque mesmo pessoas com quem eu não tenho uma relação pessoal perfeita, que conheci na Ongoing e não tinha visto antes, fazem as declarações que fazem acerca do meu trabalho. As pessoas dizem e eu demonstro à exaustão o que andei a fazer. Andei a fazer coisas que nunca pensei andar a fazer como gestor. Devo-lhe dizer que andei a fazer coisas tão simples como montar serviços comuns, serviços partilhados, que são no fundo funções que eu já tinha tido no Estado mas que eram asseguradas por pessoas abaixo de mim. Eu era um coordenador macro enquanto que ali estive directamente envolvido em actividades de gestão pura e dura.

O PROJECTO DE PODER DENTRO NA MAÇONARIA

Conheceu Nuno Vasconcellos na maçonaria. Quando é que isso foi e quem vos apresentou?

A questão da maçonaria é uma falsa questão por um simples motivo: eu conheci o Dr. Nuno Vasconcellos em 2005 no âmbito de um grupo alargado de amigos. Se eu não falo sobre maçonaria é porque entendo que normalmente a maçonaria é normalmente posta de forma errada na comunicação social.

Porquê?

Porque é um libelo acusatório. Nunca desmenti uma pertença maçónica mas também nunca a afirmei porque isso nunca foi importante para mim.

Há uma sombra tóxica sobre a instituição?

Não tenho dúvidas nenhumas sobre isso. É usada por um conjunto de pessoas para deixar uma marca em determinadas pessoas como forma de as desvalorizar à partida. Nunca desmenti uma pertença maçónica mas também nunca a afirmei porque isso nunca foi importante para mim.

Mas compreende que olhando para a célebre loja Mozart ,em que conviviam empresários poderosos como Nuno Vasconcellos, políticos influentes como Pedro Duarte, Luís Montenegro, Agostinho Branquinho e Vasco Rato, juntamente com alguns espiões, as pessoas pensem que existia ali um projecto de poder?

Compreendo. O grande problema destes grupos humanos é quando o critério de alguma forma falha ou quando crescem demasiado ou se tornam demasiado ambiciosas. A maçonaria, como outras organizações que funcionam da mesma forma, pode ser desvirtuada. Do que conheço da loja Mozart posso dizer-lhe que o grande problema foi ter tentado manter-se à parte, ter-se mantido isolada de eventuais influências perniciosas da maçonaria e de outros sectores, inclusivamente de partidos políticos, etc.

O isolamento da Mozart virou-se contra si mesma, acabou também por se transformar num estigma, não acha?

Acho. E pagou-se caro por isso.

O facto de estarem fechados levou a que as pessoas mesmo dentro da maçonaria pensassem que vocês tinham uma agenda própria.

Claro, estou totalmente de acordo consigo.

Como ficou a sua relação com os seus antigos colegas de loja depois do escândalo eclodir?

Volto a dizer-lhe o seguinte: toda esta situação não começou com a campanha do Expresso, começou um bocadinho antes, com algumas notícias dirigidas por alguns actores políticos através de alguns jornalistas com maior ligação às suas fontes, inclusivamente no Diário de Notícias, sobre o período de nojo, sobre a minha saída do SIED. Recordo-me que houve um relatório do Conselho de Fiscalização que normalmente sai no primeiro trimestre e que acabou por sair mesmo em cima da tomada de posse do Governo. No meio do relatório, se a memória não me falha, vinha uma frase que dizia qualquer coisa como isto: falava-se na transição directa para o sector privado, coisa que é perfeitamente normal. Aliás, anormal seria a existência de um período de nojo que eu não conheço em mais lado nenhum. E como não reconheço em Portugal ninguém com melhor conhecimento de serviços de informações do que eu… Reconheço a outras pessoas tão bom conhecimento como o que eu tenho. Não me lembro de ver nenhum regime de período de nojo como aquele que estava a ser pensado e falado há pouco. E muito mais não existia naquela altura. Mas a questão começou a ser aflorada e começou a ser aflorada de uma certa forma. Foi quase feita uma leitura acompanhada pelo jornalista daquilo que vinha nesse relatório. Você sabe como as coisas funcionam e portanto em Portugal é assim, fez-se uma leitura acompanhada, fizeram-se uns títulos, fizeram-se umas notícias e passado um mês há a tomada de posse do governo, etc. Um pouco mais tarde surgem as notícias do Expresso, a campanha que se inicia e que se concentra basicamente durante seis, sete meses de cobertura jornalística até à minha saída da Ongoing. Curiosamente não foi até à minha acusação em Maio. No final de Janeiro, com a minha saída da Ongoing, que acho que foi uma medida interessante e inteligente, mútua, minha e da empresa, a campanha caba por esmorecer. Termina com aquele episódio relacionado com as acusações maçónicas e com um conjunto de pessoas a prestar declarações sobre essa matéria. Eu acho que hoje, quando se fala do período de nojo e da declaração de interesses, quando as declarações são feitas por elementos do poder político, por deputados mais ou menos inexperientes, ou são feitas de uma forma tonta ou menos tonta não por minha causa ou por causa dos serviços, mas para serem utilizadas como arma política dentro do PSD e dentro do jogo político. Estas coisas quando não são tontas são feitas de uma forma muito agressiva.

Em que sentido é que isso tem sido utilizado dentro do PSD?

Acho que isso é uma mensagem dirigida dentro da cúpula do PSD a outros elementos da cúpula do PSD.

Quem e contra quem?

Pessoas que são tidos como maçons. Só isso. É um ajuste de poder e um ajuste de placas tectónicas dentro do PSD em que por acaso usaram o meu caso…

Diz isso mas Luís Montenegro, que pertence à Loja Mozart, a que o senhor também pertencia, continua como líder da bancada parlamentar.

Não vou falar sobre as ligações maçónicas do Dr. Luís Montenegro. Do que conheço dele pessoalmente só posso dizer bem. Politicamente não tenho acompanhado ao pormenor. Acho que ele e outras pessoas viram-se envolvidas neste processo, que foi logo posto sem que eu tivesse podido defender-me. Foi logo posto de uma forma infamante e usado como arma de arremesso contra pessoas que estão na vida pública. Essas pessoas tiveram várias opções. Uma delas foi defenderem-se. Depois há formas de defesa. Umas fugiram mais aceleradamente há outros que criaram apenas chinese walls e há outros que criaram trincheiras e fugiram completamente e desapareceram e quiseram isolar completamente os dois patamares. É legítimo. Quando as pessoas estão a viver e estão a defender a sua própria vida, aquilo a que têm direito, a sua intimidade, o seu bom nome, é legítimo, mesmo que às vezes isso implique deixar cair um amigo.

 A “INVASÃO” DO TELEFONE DO JORNALISTA DO PÚBLICO

 A 7 de Agosto de 2010 o senhor terá pedido a uma pessoa dos serviços secretos, João Luís, que também vai a julgamento no processo, que obtivesse os dados das chamadas de telemóvel do jornalista Nuno Simas, que tinha escrito uma notícia no Público sobre o mal-estar que se vivia no SIED. Confirma que foi o senhor que pediu o acesso à facturação detalhada?

Sobre esse caso não vou falar de todo. Falarei em tribunal se vier a ser libertado pelo senhor primeiro-ministro do segredo de Estado tal como em relação a todas as acusações que o MP me fez. Cheguei a conhecer o jornalista Simas, não fiquei com má impressão dele, foi uma pessoa que se demonstrou afável. Na sequência da primeira notícia, ele faz duas notícias em meados de 2010.

Sobre o mal-estar nas secretas.

Uma delas horrível, absolutamente falsa. Horrível no conteúdo, não digo que sob o ponto de vista jornalístico não estivesse bem feita. Pedi, aliás, a uma pessoa que nos conhecia, o ex-ministro Miguel Relvas, para me facilitar o contacto com ele. Disse-lhe que precisava de conhecer o jornalista porque não percebia a razão daquela notícia.

Nessa altura tinha uma relação próxima com Miguel Relvas?

Não, de todo. Nunca tive.

Então porque é que lhe pediu precisamente a ele? Miguel Relvas já era nessa altura um facilitador, é isso?

São palavras suas. Não tenho essa impressão dele nem tenho conhecimento para usar qualquer tipo de epíteto. A minha relação com o Dr. Miguel Relvas foi uma relação pontual. Acho que estive dez ou doze vezes com ele no meio de outras pessoas. Não tenho sequer uma opinião formada sobre ele.

Depois de Miguel Relvas ter feito a ponte falou com o jornalista?

Sim, e expliquei-lhe as razões. Eu reconheço que nem sempre os serviços de informações tiveram a melhor política de comunicação no sentido de falar com a imprensa. Mas há uma coisa que eu acho que as pessoas entendem: um serviço de informações é tão mais frágil quanto o seu elemento mais frágil. O SIED sempre teve fugas de informações, reveladoras de fragilidades de estrutura, de nomeações.

E achava que era importante identificar as fontes dentro dos serviços?

Não é tanto a pessoa que fala porque falou com o jornalista a ou b ou com o político a ou b, é o princípio. Quando cheguei ao SIED em 2008 já o acompanhava, até como chefe de gabinete do secretário-geral. Sempre teve fugas de informações. Desde a sua fundação, inclusivamente com o chamado caso Veiga Simão, teve situações de ruptura interna gravíssima, que tiveram danos reputacionais enormes. Todas as direcções tiveram os seus problemas com fugas de informação. Aliás o meu antecessor teve várias vezes queixas e notícias, inclusivamente na SÁBADO, sobre os serviços. Se eu olhar para aquelas notícias como quadro dos serviços acho que aquilo não tem interesse nenhum. Mas eram reveladoras de fragilidades de estrutura. A pessoa que fala com o jornalista a ou b porque está insatisfeito, porque não se sente bem remunerado, porque acha que é mais inteligente do que o director-geral que lá está ou do que os dirigentes que estão acima dele, não tem carácter para estar nos serviços de informações. Se eu ao longo da minha vida tivesse falado com jornalistas ou com políticos sempre que me senti maltratado ou desvalorizado, tinha falado durante vinte anos com dezenas de pessoas. Nunca o fiz. É assim que começam as fugas a sério. Se você fizer uma análise histórica de todos os casos dos serviços mais conhecidos, daqueles que forma romanceados sobretudo no período da guerra fria, constatará que independentemente das motivações de fulano, sicrano ou beltrano, todos eles tinham uma característica no carácter, que era a necessidade de se exaltarem, de sobressair. Todos eles tinham um factor de queixa.

Do ponto de vista da percepção pública, o seu comportamento pode ser encarado de uma forma muito simples: o director do SIED acedeu à facturação detalhada do telemóvel de um jornalista para fazer uma caça às bruxas dentro dos serviços.

Mas isso é o Fernando que está a dizer.

Não estou a dizer, estou a perguntar-lhe se percebe que a percepção geral é essa.

Nunca fiz uma caça às bruxas! Disse-se tudo durante estes três anos. Disseram-se outras coisas, por exemplo em relação à maçonaria. Nunca nomeei um maçon. Nunca.

Mas relacionava-se com espiões na maçonaria.

Espiões na maçonaria… (hesita)

… João Alfaro fazia parte da mesma loja que o senhor, a Mozart.

Mas o Dr. João Alfaro teve uma passagem episódica pelos serviços e penso que as duas coisas não foram sobrepostas. A minha participação na maçonaria é muito recente. Eu tinha a minha carreira praticamente feita em termos de cargos ocupados, as coisas nunca se misturaram. A questão maçónica foi sempre um espinho na minha carreira. Vou-lhe dizer que a única questão que me foi posta como objecção à minha nomeação para director-geral do SIED foi a ligação à maçonaria, pelo então Secretário-Geral do SIRP, o Dr. Júlio Pereira.

O que lhe respondeu?

O Dr. Júlio Pereira conhece-me desde que eu era director do departamento de relações internacionais no SIS. Sempre fui muito claro com ele. Ele sabia de tudo ou quase tudo da minha loja, o seu nome, etc. Nunca escondi.

José Manuel Anes, um conhecido maçon da Grande Loja Legal de Portugal, acusou-o de ter um projecto de pode dentro da Maçonaria.

Não quero falar sobre isso por um motivo: é como eu estar a falar sobre os meus filhos e estar a descrever-lhe os oxiuros que eles têm de vez em quando. Acho que na vida existem pessoas de quem se pode falar e outras que não têm dimensão nem relevância.

 O CONVITE DE PEDRO PASSOS COELHO E AS ACUSAÇÕES A VASCO RATO

 Houve muitas pessoas que o deixaram cair?

Houve muitas que se afastaram. Em momentos de tensão afere-se a qualidade de muitas relações. Houve muitas que eu até subestimava e que se revelaram férreas e depois houve outras novas, muitas. Hoje sou um homem tranquilo, não porque essas relações me vão dar alguma vantagem mas porque em nenhum momento fui desrespeitado, mesmo as pessoas que desapareceram do meu universo, que agiram como ratos…

…está a referir-se concretamente a Vasco Rato?

(risos) Isso é a sua inferência. O Dr. Vasco Rato não é relevante. Não tenho a opinião dele que ele aparentemente manifestou numa entrevista que lhe deu a si sobre mim.

Entre outras coisas ele afirmou que se arrependia de o ter apresentado a Passos Coelho e que o senhor não era o tipo de pessoa de quem ele gostasse. A expressão que utilizou foi: “He´s not my cup of tea”.

Sim, eu tenho poucas características físicas que me façam comparar com uma chávena de chá. Mas isso são palavras do Vasco Rato, ele disse o que tinha a dizer pelos motivos que entendeu. Era amigo do Dr. Passos Coelho, foi recompensado por essa amizade, é hoje presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Enfim, não é a mesma coisa que ser Ministro dos Negócios Estrangeiros mas tem a sua recompensa e desejo-lhe boa sorte. Há pessoas muito piores na sociedade portuguesa e na política portuguesa.

Alguma vez Vasco Rato ou alguém do PSD lhe deu a entender que caso o PSD ganhasse as eleições podia ser o próximo secretário-geral do SIRP?

Normalmente não falo de convites porque têm de ser as pessoas que fazem os convites a falar deles. Mas uma vez surgiu um convite que me espantou. Já tinha havido eleições estava-se na fase de constituição do governo. Fui consultado por um dos assessores principais de Pedro Passos Coelho, que me perguntou se aceitaria ser secretário-geral do SIRP. Eu recusei, ele insistiu eu entendi que depois de recusar uma primeira vez não podia fazê-lo uma segunda. Disse que aceitava ponderar o regresso se houvesse um convite formal do primeiro-ministro.

Que nunca aconteceu.

Não porque foi um período muito curto de duas semanas, em que houve vários contactos com esse assessor, com outros elementos do gabinete e com pessoas da esfera do Governo a constituir, para quem a minha ida já era um acto consumado.

Mas estamos a falar do gabinete do primeiro-ministro ou do de Miguel Relvas?

Do primeiro-ministro. A única conversa que tive com o Dr. Miguel Relvas sobre esse assunto foi para lhe dizer que não queria liderar o SIRP. Ser secretario-geral nunca foi a minha ambição. Se tive uma foi ser director-geral, era a cereja no topo do gelado.

Uma das acusações que lhe são feitas é que quando ainda trabalhava no SIED terá dado ordens para se fazer um relatório sobre dois empresários russos com quem a Ongoing estava a planear um negócio de 350 milhões de euros. Depois disso terá feito chegar esse documento a Vasco Rato, na altura administrador da Ongoing. Isso é verdade?

Não me recordo de nenhum email para o Dr. Vasco Rato. Não tinha com ele nenhuma relação de cariz profissional nem quando ele estava fora nem dentro da Ongoing. Lembro-me que ele teve um papel importante no agendamento de um encontro com Pedro Passos Coelho quando este ainda era chefe da oposição e o Dr. Vasco rato quis que ele tivesse uma percepção do que se passava nos serviços de informações.

Vasco Rato diz que o apresentou a Pedro Passos Coelho a seu pedido.

O Vasco Rato certamente confundiu-se quanto a esse assunto…

Então como foi?

Nunca tive interesse claro em conhecer o Dr. Pedro Passos Coelho. Tive um almoço com ele no Gambrinus.

O que falaram nesse almoço?

Puramente sobre o sistema de informações. Antes de ir avisei o Dr. Júlio Pereira. A reacção não foi particularmente boa. Argumentou que estávamos num período político intenso e eu disse-lhe que a PSP e a GNR também recebiam os líderes da oposição para visitas institucionais.

Júlio Pereira receava que José Sócrates, que tutelava directamente os serviços, não gostasse.

Foi assim que eu li as suas reservas.

E pareceu-lhe que Pedro Passos Coelho percebia alguma coisa sobre serviços secretos?

Pareceu-me não particularmente vocacionado. É difícil ter um conhecimento específico sobre esta área. Mas demonstrou-se interessado.

Alguma vez José Sócrates tentou utilizar os serviços secretos em benefício próprio?

Isso tem de perguntar ao Dr. Júlio Pereira, não a mim. Não tive uma relação directa com o primeiro-ministro José Sócrates.

Era ele quem politicamente tutelava o serviço.

Sim, mas directamente nunca me tentou contactar.

Sentiu que alguma coisa mudou a partir do momento em que os serviços passaram a ser tutelados pelo primeiro-ministro?

Mudou o apoio. A grande vantagem de os serviços estarem com o primeiro-ministro é uma certa proximidade ao centro de decisão. Mas infelizmente há também uma perda de poder relativo em termos de negociação orçamental porque o primeiro-ministro é um primus inter pares, quando está num conselho de ministros tem de tomar decisões equilibradas entre ministérios. E por isso o PM tem muitas dificuldades em proteger os serviços de informações. Nos últimos quatro anos foram feitos cortes mesmo em coisas importantes para que um pais como nós, até na circunstância de fragilidade em que estamos, são importantes para nos manter íntegros como Estado e essa foi uma das questões de base na minha decisão. Sair dos serviços foi a decisão mais difícil da minha vida em termos profissionais.

 A UTILIZAÇÃO DUVIDOSA DE INFORMAÇÃO CONFIDENCIAL

É acusado de, já depois de ter entrado na Ongoing, ter continuado a receber dos serviços os resumos diários das notícias e de as reencaminhar para uma mailing list onde estavam altos quadros da Oingoing como Nuno vasconcellos, Rafael Mora, Vasco Rato ou José Eduardo Moniz. Isso é verdade?

Sim, é verdade. O que o MP entende é que eu deveria ter feito uma lobotomia, como se depois da saída dos serviços deixasse de ter qualquer ligação aos mesmos.

Não é suposto que quando se abandona os serviços não se partilhe este tipo de informação?

Porque é que é suposto?

Porque é informação pública.

É suposto eu não usar a informação erroneamente. Qualquer contacto que eu tenha tido com os serviços de informações foi sempre para tentar ajudá-los e, através disso, o Estado português. A minha opção de serviço público é uma opção de vida. Podia ter tido outras carreiras melhor remuneradas desde muito cedo. O Ministério Público parte de um pressuposto idiota porque eu estava num lugar em que segundo o MP eu tinha um conjunto de acessos e eu fui deixar esse lugar onde era relativamente inimputável pela funcão que exercia para quê?, para vir para um sítio e ficar a depender de contactos. Ninguém minimamente estruturado ou inteligente faria uma coisa dessas. Mais: conhecendo determinadas pessoas do MP que são supostos especialistas em corrupção, elas sabem perfeitamente que não é o modus operandi.

O que o MP diz é que havia uma intenção da sua parte de dar a entender às pessoas com quem trabalhava de que continuava a ter acesso a informação privilegiada.

Isso é a narrativa do MP. Se a comparar com a do Expresso é basicamente igual. Até os termos são os mesmos. Não sei quem contagiou quem. Se olhar a acusação ela podia ser reduzida a menos de um terço. O resto são especulações. Nunca violei o segredo de Estado nem o dever de sigilo. Prová-lo-ei  à exaustão.

O que o MP diz é que qualquer relatório interno do SIED está em segredo de Estado. Tendo em conta que o senhor terá divulgado um relatório interno sobre dois empresários russos…

Não é verdade e a acusação nesse aspecto é falaciosa e propagandística nesta perspectiva: juntam os quatro crimes de que sou acusado e montam-nos de forma a tornar indefensável ou a tornar a defesa cada vez mais difícil porque há situações que se referem a momentos em que exerci as minhas funções de director-geral, há situações que se referem a coisas que teria feito no período transitório e há coisas que dizem respeito ao tempo em que já estava na minha vida civil, se quiser. Entre a mentira e a verdade há várias tonalidades. Há a verdade desvirtuada, a verdade que pode ser apresentada de diferentes formas…  Voltando atrás, a história não começa no Público, começa com o Expresso e com o caso Bairrão. Depois, passado uma semana ou quinze dias vem uma notícia sobre mim com a história dos russos e outras completamente alucinadas mas que não são despropositadas. Eu ainda não tenho a certeza de que o Expresso tenha desvirtuado deliberadamente a informação ou se quem lhe enviou a informação ajudou a fazer uma leitura negativa da coisa. Tenho uma carta do director do Expresso em meu poder em que ele diz que não teve acesso a nenhum email meu. Alguns desses supostos emails são verdadeiros e aparecem fotocopiados no cacifo do deputado Sousa Pinto na Assembleia da República de uma forma até engraçada de descrever, sobretudo tendo em conta as relações humanas dos diferentes intervenientes.

A verdade é que as notícias que o Expresso publicou foram validadas pelo MP, que as confirmou na acusação. Ou seja, tudo indica que as notícias eram verdadeiras.

É precisamente por isso que eu digo que as duas narrativas se acompanham. Sou contactado pelo Expresso aquando da primeira notícia no final de Julho de 2011 por uma jornalista que eu até tinha em boa conta. Sou contactado na sexta-feira por volta das três, quatro horas. O jornal estava a fechar. Sou posto perante uma acusação gravíssima. O Expresso tinha aquela linha definida, pegou no que as suas fontes disseram e fizeram as notícias. Eu ainda não tenho a certeza de que o Expresso desvirtuou deliberadamente a informação ou se quem lhe enviou a informação ajudou a fazer uma leitura negativa da coisa. Tenho uma carta do director do Expresso em meu poder em que ele diz que não teve acesso a nenhum email meu.

Foi surpreendido pela busca que a Polícia Judiciária (PJ) fez em sua casa?

Naquele dia sim.

Não estava à espera?

Estava à espera até porque sei como as coisas funcionam.

Entre outras coisas a PJ encontrou na sua residência caixotes com listas com os contactos das antenas do SIED no estrangeiro. Porque é que tinha esse material em casa?

Isso é tudo especulativo…

Não é verdade que encontraram esse material?

Sim, mas nesta perspectiva…

E é verdade ou não que isso contraria as normas de segurança?

Não. Não vi os documentos, mas sei que não encontraram nenhum documento oficial. Quando saí do serviço deixei tudo. Até a caneta. Não voltei e fiz gala disso. Esse material foi-me enviado alguns meses depois. Já eu estava na Ongoing quando me foi entregue em casa pela segurança dos serviços como material retirado do meu gabinete. Esses documentos estavam na minha agenda de papel, que é uma agenda robusta. As minhas secretárias tinham acesso a ela e foram elas que juntaram tudo e meteram lá dentro. Não cheguei a ver os documentos mas penso que o que está em causa são documentos que eu próprio classifiquei. Ou seja, eram documentos que um director-geral tem à mão. Normalmente classificava-os como confidencial para me chamar à atenção. Estamos a falar de cinco meses depois de ter saído. Estavam na minha arrecadação!

O que esta a dizer é que não foi o senhor que os levou para casa; eles foram para lá enviados pelos serviços.

Sim. Quando os inspectores da PJ foram lá a casa abriram o lacre original e eu frisei isso junto deles. E são documentos no mínimo acessórios. Isto é um jogo e as pessoas dizem só o que querem dizer. Daí que quando vi a acusação tenha concluído que é claramente persecutória. No processo de inquérito nunca o MP me quis ouvir. Porquê?

Acha que a decisão de o acusar estava tomada desde o início?

Sim.

O MP elenca mais situações em que terá existido confusão entre as suas funções públicas e privadas. Uma delas respeita a um caso em que entre 10 e 21 de Dezembro terá pedido ao espião João Luís que recolhesse informação sobre um empresário madeirense. Para isso, ele terá consultado uma base de dados, a Dun & Bradstreet, e ter-lhe-á enviado esses dados. Isso é verdade?

Não me recordo em absoluto.

Foi uma das notícias do Expresso.

Sim, eu sei disso, mas não me recordo nem de o ter pedido, nem de o ter recebido do Dr. João Luís ou de outra pessoa qualquer do serviço. Agora, há uma coisa que lhe vou dizer: não conheço as pessoas descritas na notícia do Expresso, não me lembro de nenhum email, embora não diga que não haja.

O que a acusação conclui é que há dois emails, um direccionado para uma conta e outro para outra. E que as duas são suas.

O que o Expresso me diz por escrito é que não tem esses emails. Quando eu fiz uma queixa contra terceiros a dizer que tinha sido violada a minha privacidade e que alguém tinha feito um ataque electrónico ao meu computador, que por acaso era um computador que me tinha sido dado pelo serviço e que por acaso era mantido tecnicamente por alguém do serviço…

… Está a insinuar que esse ataque pode ter sido feito a partir do próprio serviço?

Não estou a insinuar nada. Estou-lhe a dizer duas coisas: o computador foi-me cedido pelo serviço, a operação de transferência da memória de outro computador que eu tinha para esse computador foi feita por pessoal dos serviços e a última manutenção foi feita por uma das testemunhas de acusação do MP.

Conhecendo tão bem os serviços secretos, e sabendo que tem inimigos lá dentro, nunca pensou que uma coisa dessas podia acontecer?

As palavras são suas. Não considero ninguém inimigo nos serviços.

Quando entrou para director-geral trocou pessoas de postos, fez novas nomeações e criou uma série de resistências.

Tudo o que diz foi feito com base em razões puramente técnicas, aconselhado pelo secretário-geral do SIRP, que formalmente foi quem fez as nomeações e exonerações.

O senhor era considerado de forma mais ou menos unânime o espião mais qualificado de Portugal. É estranho que o funcionário mais qualificado possa ser alvo de um ataque deste tipo. Não se precaveu.

Aceder ao computador de alguém é um crime grave, não é? Pensar que alguém – e ainda não quero acreditar que foi alguém dos serviços – que jurou um conjunto de princípios, vai infringi-los a todos com base numa putativa suspeita ou numa rivalidade pessoal…

Isso não é uma perspectiva ingénua por parte de uma pessoa com o seu perfil?

Não. Eu até admitiria que alguém que discorde do seu chefe e que acha que ele é uma pessoa nociva e corrupta pudesse cometer um crime para prevenir um mal maior e que depois fizesse queixa. Isso de alguma forma desculparia o comportamento criminoso. Mas o que aconteceu foi mais grave do que isso. Quanto aos emails que a procuradoria entende que existem, nomeadamente os dos russos, estamos a falar de um tempo mediado entre a minha saída, em Novembro de 2010, e o princípio de Agosto de 2011. Oito meses, no total. Alguém que está na posse de tal “bomba” imagino eu que tivesse ido imediatamente a correr falar com a Presidência da República, com a Procuradoria-Geral da República, com a PJ ou outra instituição… Curiosamente esses emails que dizem que existem –  e note, quem tem acesso a cinco ou seis como a Procuradoria descreve, tem acesso a todos. E portanto no meio de centenas de emails, seis foram escolhidos e vieram à superfície. E volto a dizer: em nenhum desses emails há qualquer tipo de passagem de informação para qualquer tipo de empresa privada, não só para a Ongoing. Esperaram oito meses.

E qual é a sua interpretação para que isso tenha acontecido?

Coincidentemente com a tomada de posse do novo governo.

Acha que é só uma coincidência?

O que lhe posso dizer é que as notícias surgiram e não é à toa que surgem no Expresso, que tinha um conflito com a Ongoing. Aquilo caiu como mel na sopa. O que quero dizer com isto é que a intenção de quem quer que tenha protagonizado essa actividade criminosa foi a de beneficiar o seu grupo e o seu sector numa lógica de jogo de poder do mais nocivo que existe.

Acha que as pessoas tiveram medo que o senhor, com a nomeação de Pedro Passos Coelho, voltasse aos serviços?

Sim, é natural. Eu fiz uma limpeza profunda nos serviços tentando acabar com estes grupos e tentando profissionaliza-los. Em nenhuma nomeação que eu tenha proposto ao secretário-geral estiveram critérios pessoais. A única pessoa que foi nomeada com base num conhecimento pessoal aprofundado foi uma pessoa que tinha 25 anos de experiência, que provavelmente é a que mais sabe sobre a actividade operacional dos serviços de informações. Foi o Dr. João Luís, que é das pessoas mais injustiçadas neste processo. Mesmo o meu director-adjunto, o Dr. João Bicho, é um quadro nado e criado no SIED com uma reputação a toda a prova como profissional dentro do serviço. Todas estas pessoas foram massacradas.

Como sabe eles são apresentados pelo MP como as suas toupeiras dentro dos serviços secretos.

O MP queria a todo o custo fazer uma acusação, que é uma coisa que eu não esperava do MP. Aceitou um conjunto de indícios como provas válidas. Pensei que quisesse procurar a verdade. Não procurou uma explicação da minha parte. Quando fui constituído arguido apresentaram-me quase o texto da acusação e aí entendi que não devia prestar declarações. Quando fiz uma queixa contra terceiros por causa da invasão do meu email nem me ouviram. Zero.

O RELATÓRIO SOBRE A VIDA PRIVADA DE PINTO BALSEMÃO

É complicado de aceitar que o MP acuse alguém de crimes tão graves como o da violação do segredo de Estado ou de corrupção de forma tão leviana como o senhor diz que aconteceu.

Não estou a dizer que foi leviana…

…o que me está a dizer é mais do que isso. Está a afirmar que não só a fundamentação é leviana, como a própria atitude da procuradora que conduziu o caso também o foi.

O termo adequado não é leviano, é persecutório, intencional. Leviano implicaria que não foi intencional.

Mas o que é que ela pode ter contra si? Não se conheciam, certo?

Não.

Mas acha que há uma agenda do MP contra si?

Acho que é uma agenda demasiado fácil. Você tem a maior empresa de comunicação social contra si, um inimigo da maior dimensão em Portugal, habituado a por e dispor em função dos seus interesses. Não tenho nada com o Dr. Balsemão, não tenho particular apreço pela sua figura histórica não o conheço nem tenho interesse em conhecê-lo…

 …terá de o conhecer agora porque o senhor acaba de ser pronunciado pelo crime de devassa da sua vida privada. Vão encontrar-se em julgamento.

O Dr.Balsemao quer fazer-se conhecer. Ele foi no mínimo precipitado neste processo. Veio a praça pública fazer acusações infundadas contra os serviços…

 …mas foi ou não o senhor que pediu um relatório sobre o Dr. Pinto Balsemão em que havia detalhes sobre a sua vida privada?

Não vou pronunciar-me sobre isso. Conheço o relatório, que estava na minha posse.  O que  lhe posso dizer é que não fui eu que o fiz.

Mas foi o senhor que o mandou fazer.

Aquele relatório assim não.

Então qual foi o relatório que encomendou?

No âmbito das minhas funções havia um conjunto de solicitações sobre stakeholders importantes envolvidos até em casos judiciais, e isso pede-se a empresas no mercado. Aliás, o Dr. Balsemão tem uma empresa no grupo Impresa que faz isso mesmo: recolhe informação em fonte aberta faz relatórios sobre pessoas, assuntos ou instituições.

Quando solicitou o relatório não pediu dados sobre a vida privada de Pinto Balsemão?

Não, aquilo que era solicitado habitualmente não era isso. Mas se há dados sobre a vida privada de uma pessoa em fonte aberta, na internet, é porque alguém os deixou ir para lá. O que o MP fez é uma interpretação talibã da lei, que não esperava. Devo dizer-lhe que acho o relatório do Dr. Balsemão um lixo.

Porquê?

E um documento que eu jamais escreveria, e se fosse alguém que trabalhasse para mim a fazê-lo nunca o faria naqueles termos.

O que e que está mal feito?

É um relatório formalmente errado, e uma justaposição de supostos factos.

 Eu li-o e o que me parece e que é uma elencagem de rumores.

Alguns serão rumores, que apareceram de alguma forma. Um jornalista do Crime que fez uma notícia sobre o assunto foi ouvido pelo MP e elencou claramente onde estão as fontes desse relatório.

 Quando o leu não lhe pareceu que era um documento irresponsável pelos boatos de natureza privada que continha?

Irresponsável não sei.

Irresponsável no sentido em que é uma pessoa com muitas responsabilidades na sociedade portuguesa, é um ex-primeiro-ministro, não é uma pessoa qualquer. Um relatório daqueles que seja tornado público pode ter danos reputacionais arrasadores sobre o visado.

O documento nunca foi tornado público. Quem o tornou público foi o MP por acção do processo penal.

 Mas é um perigo ter um relatório daqueles numa prateleira de uma empresa.

Um perigo porquê? O uso é que é negativo, não a sua existência. Se ler o que se escreveu na internet sobre mim nos últimos três anos, tem coisas doentias.

Nunca usou internamente o conteúdo do relatório enquanto administrador da Ongoing?

Hoje em dia nos negócios há um direito à privacidade mas também há um direito à informação. Você sabe que hoje não é apenas o cash flow que conta num negócio, não há nenhuma empresa que olhe para uma aquisição ou fusão que na olhe para quem são as pessoas que estão lá dentro, para os riscos reputacionais…

 …é exactamente esse o caso dos empresários russos por que responderá em julgamento.

Não tem nada a ver.

O princípio é o mesmo. A Ongoing queria saber quem eram duas pessoas com quem se preparava para fazer um negócio de mais de 300 milhões de euros.

Não posso falar sobre isso. Para mim das coisas mais sagradas – e só usarei isso se o primeiro-ministro me permitir – é a preservação das minhas fontes. Nunca ninguém se lembrou quando analisa esses casos de pôr as coisas ao contrário.

Como assim?

Você quando tinha um email ou um SMS de um processo, imagine que alguém lhe manda dez pecas informativas. Você como jornalista recebe dez informações, você depois devolve e dá orientações de acordo com os interesses da revista. Depois alguém isola um dos emails e acusa-o de andar a dar informações da revista a uma pessoa qualquer. E é sobre isso que eu não posso falar.

 A LISTA TELEFÓNICA COM A ORIENTAÇÃO SEXUAL DE UM CONTACTO

 Quando lhe foram apreendidos os seus telemóveis tinha neles fichas em que tinha informações sobre as convicções políticas, partidárias e aspectos da vida privada dos seus contactos, incluindo a sua orientação sexual. Arrepende-se ou não de ter feito este tipo de registos?

Estamos a falar do Outlook, de um programa que deve ser utilizado por umas oito milhões de pessoas em Portugal.  Uma vez mais é a interpretação talibã das coisas. Há coisas que fazemos à pressa no telemóvel por alguma razão. Mesmo para uma pessoa treinada, que no fundo regista para apagar depois e com a vida agitada acaba por não apagar. Estamos a falar de coisas que para uma pessoa com o ritmo de vida que eu tinha era difícil de me lembrar, mas que, quando são esmiuçadas a posteriori com intenção persecutória, até as virgulas são utilizadas. Se fiz isso em relação a alguém não é bonito. Nem sequer é alguma coisa que me desse alguma vantagem. Nada, zero. É-me absolutamente irrelevante a orientação sexual. Pelo contrário, precisava talvez como auxiliar de memória, para quando estivesse com essa pessoa não cometer uma gafe. Não procedi correctamente ao não ter apagado. Mas também não me lembro de ter lá qualquer tipo de dado confidencial.

Qual é a utilidade que tem para si o facto de na sua lista telefónica registar a orientação sexual de um político ou de quem quer que seja?

Eu tinha cerca de quatro mil fichas individuais em vários telefones. Não me lembro de quem era a pessoa sobre a qual haveria esse tipo de indicação. Mas se foi, foi apenas uma.

Não se lembra de quem era?

Não. O meu advogado disse-me que é um jornalista. Foi um disparate.

Não houve uma fase em que, enquanto director-geral do SIED, sentiu algum inebriamento pelo poder?

Nunca desmaiei nem me inebriei, nunca perdi a consciência.

 Nunca se deslumbrou?

Não, eu tenho uma pessoa em casa, que é a minha mulher, que é mais anti-inebriamento possível. Para além disso, sou filho de pais de classe média. Estou habituado a trabalhar para ter as minhas coisas, nunca me esqueço de onde vim. Sou muito realista. Gosto do sentir o Sol no fim do dia depois de ter transpirado na terra.

 A NOVA VIDA E O FUTURO

 Como está o processo da sua reintegração na PCM agora que o Supremo Tribunal administrativo lhe deu razão no processo que interpôs contra o Estado?

Estou a espera que a PCM me contacte para ser reintegrado. Acho que temos de manter um grau de humildade nestas coisas. Tendo em conta a campanha que me foi movida, eu estou perante um tipo de ofensiva mediática sem meios de defesa. Durante estes dois anos tive de respeitar aquilo que era o direito de exercício dos seus meios de defesa por parte do Nuno Vasconcellos. Foi ele que despoletou a instrução. Nunca existiu qualquer tentativa do Nuno Vasconcellos para me corromper. Mas isto sou eu a dizer. Não há. É muito injusto para ele. Preferia que ele tivesse saído do processo. Tem toda a minha amizade e solidariedade. Eu estou manietado desde muito cedo porque pedi ao senhor primeiro-ministro… não que tivesse grande gozo particular em usar a informação que tinha para me defender, eu preferia não ter sido atacado. Mas o mesmo Estado, o mesmo governo,  o mesmo secretario-geral do SIRP que com base numa interpretação mais ou menos pessoalística de uma suposta declaração que eu fiz numa entrevista, reencaminha o processo para a Procuradoria, no fundo não é mais do que sacudir a água do capote e eliminar um putativo rival para o lugar, segundo ele. Porque sendo magistrado do MP sabe que alguém que é envolvido num processo com este nível de incidência reputacional, mesmo que não venha a dar em nada, deixa de ser opção para qualquer tipo de cargo. Nos processos internos, ao que sei, o meu nome nunca foi envolvido. Se ler as declarações do Dr. Júlio Pereira na acusação, há uma em particular então que é absurda, quando diz que no inquérito interno não tinham meios para ter a certeza de que havia fuga de informação. “E então reencaminhamos para a PGR”. Foi a coisa mais feia que alguém já me fez. Porque alguém que trabalhou comigo, que me conhece profissionalmente a fundo, que me conhece pessoalmente, que esteve em minha casa, dar a entender que não apuraram nada mas não podia garantir que não tenha havido… Pois eu também não posso garantir que não tenha havido de uma série de coisas por parte de outras pessoas. Chama-se a isso a inversão do ónus da prova e o Dr. Júlio Pereira não hesitou em fazê-lo.

 Foi traído por Júlio Pereira?

Nesse aspecto sim. Completamente.

 E neste momento o seu regresso ao Estado e um embaraço para Pedro Passos Coelho.

Não sei. Não tenho qualquer relação com o primeiro-ministro. Como cidadão discordo de muitas das suas opções. Situando-me pessoalmente no espectro ideológico da social-democracia, eu sempre me situei no mundo das informações num âmbito suprapartidário. Há pessoas que confundem isso. Com este meu processo os serviços foram remetidos a sua menoridade.

 O que mudou na sua vida nos últimos dois anos?

Muita coisa. Este processo nunca me deixou fazer uma ruptura total com os serviços. Se alguém gostaria que isso acontecesse falhou. Aproximou-me de pessoas.

 Como é o seu dia-a-dia?

Estou muito mais tempo com a família, tem sido o mais importante. Finalmente consegui acompanhar os meus três filhos. Enquanto quadro dos serviços nunca tive muito tempo para lhes dedicar e hoje sou um pai presente, até demasiado. Também voltei a praticar actividade física….

… Desportos de combate.

Sim, voltei as artes marciais, ao judo, comecei há três anos a praticar kickboxing para recuperar fisicamente. Dediquei-me também a estudar. Era profundamente dedicado ao que fazia e não tinha tempo. Fiz várias pós-graduações a longo da vida muito à pressa porque a profissão não me dava muita disponibilidade. Enquanto alguns dedicaram muito tempo a estudar e menos a trabalhar, eu fiz o contrário. Agora fiz o mestrado, entreguei a tese, as coisas correram muito bem. Fi-lo na área da gestão, não tanto com o objectivo de procurar uma actividade profissional imediata porque tenho de ter em atenção o meu processo, mas tenho feito algumas coisas com amigos, com empresas…

 Tem feito consultadoria?

Sim, na área da gestão estratégica, internacionalização, novos mercados, que são áreas de que gosto muito, e na área da gestão do conhecimento.

 Acredita que algum dia poderá reconstruir a sua imagem depois deste processo?

Nao. A cem por cento não. Mesmo que seja totalmente ilibado em tribunal. Nos últimos vinte anos o meu caso foi o que mais primeiras páginas fez no Expresso. Mais do que a pedofilia. Em seis meses foram cinquenta por cento de assunto de primeira página. Apenas em dois números não foi focado. Há um colunista em particular, ex-director do jornal, que escreveu uma coluna violentíssima. Como era meu amigo no Facebook perguntei-lhe o porquê de tanta violência, em mensagem privada. Ele respondeu-me “para não levar o assunto pessoalmente”. Nem respondi. Bloqueei-o da mesma forma que fiz com Miguel Relvas ou Nuno Magalhães a seguir a uma ida dos dois ao Parlamento para falarem do meu caso. Há coisas que não se fazem!”

Já agora, fica aqui novamente a peça que editei para a CMTV

A batalha, parte dois: José Sócrates vs José Rodrigues dos Santos

Se dúvidas houvesse de que José Sócrates não concordou com a mudança de estilo do seu programa de comentário político ontem à noite elas ficaram desfeitas. Na segunda vez em que partilhou o ecrã com José Rodrigues dos Santos, o ex-primeiro-ministro mostrou ao que vinha: passou toda a emissão ao ataque e a tentar irritar o jornalista da RTP com referências constantes aos “seus arquivos”. (Enquadramento: há 15 dias, José Rodrigues dos Santos disse que tinha estado a “organizar os arquivos” e que foi por isso que encontrou as divergências de opinião de Sócrates relativamente à austeridade).

Para além disso, José Sócrates não pareceu tão bem preparado como prometeu. Ou melhor: José Rodrigues dos Santos pareceu ainda melhor preparado do que ele. Munido de documentos oficiais que citou incessantemente, foi, afinal, o pivot da RTP quem conseguiu irritar o ex-líder do PS. Sócrates começou por dizer: “este programa chama-se a minha opinião, se me permite, gostaria de dar a minha opinião. Já ouvimos o seu ponto de vista”. Mas piorou. Novamente confrontado com uma “opinião” diferente da sua, Sócrates partiu para o insulto: “Eu compreendo o seu ponto de vista. Você acha que se deve comportar no sentido de colocar-se no papel do ‘advogado do diabo’… estou a citá-lo bem? Só que até o advogado do diabo pode ser inteligente e pode perceber que não basta papaguearmos tudo aquilo que nos dizem para fazer uma entrevista”. Colocado numa situação muito difícil – em directo – Rodrigues dos Santos disse apenas: “Muito bem. Fica registado o seu insulto ao qual não vou responder”.

Como já disse aqui, acho que o formato assim não faz sentido. Uma entrevista semanal a José Sócrates sobre o seu passado como governante não tem grande futuro – para além do interesse inicial. Agora ou a RTP quer acabar com o programa ou deixa de o identificar como um espaço de opinião. Que deixou de ser há 15 dias. Como ainda não foi colocada no YouTube, a entrevista está aqui.

José-Socrates

Manuel Forjaz: “Posso morrer de cancro mas ele nunca me matará”.

Durante cinco anos, Manuel Forjaz lutou contra o cancro. Não se escondeu. Nem desistiu. Pelo contrário. Criou uma página no Facebook onde contava a sua experiência e dava conselhos, foi orador em palestras, escreveu um livro e há cerca de um mês tornou-se colunista da Sábado. Ontem, morreu de cancro. Mas a doença não o matou. Tal como ele queria. Há três meses deu uma extraordinária entrevista à Catarina Carvalho, na Notícias Magazine. Pode ser lida, aqui.  

Foto: Jorge Simão

Foto: Jorge Simão

As justificações de José Rodrigues dos Santos sobre a batalha com José Sócrates

Ontem, o espaço de comentário de José Sócrates, foi transformado numa entrevista à actuação do ex-primeiro-ministro. Ainda não a viram? Então vão aqui, espreitem e depois voltem. Vale a pena.

Agora, que já sabem do que estou a falar, ficam também a saber que na sequência da sua postura confontativa, José Rodrigues dos Santos foi insultado por alegados fiéis de José Sócrates na página que mantém no Facebook para promover os seus livros. Por isso, o jornalista da RTP publicou um longo comunicado sobre o assunto, em que, para além de exibir os galões do seu passado na BBC, explica o seu entendimento sobre qual deve ser o papel de um jornalista numa conversa com um político. É isto que diz Rodrigues dos Santos:

1. A isenção de um jornalista não é obrigatória. Depende da linha editorial do jornal. Não faz sentido esperar que um jornalista do «Avante!», por exemplo, seja isento. A linha editorial do «Avante!» é claramente comunista e um jornalista que não a queira respeitar tem a opção de se ir embora. Há muitos casos que se podem encontrar de linhas editoriais que implicam alinhamentos (partidários, desportivos, ideológicos, etc).

2. No caso da RTP, a linha editorial é de isenção. Isto acontece porque se trata de um meio público, pago por todos os contribuintes, pelo que deve reflectir as diferentes correntes de opinião. Os jornalistas esforçam-se por escrever as notícias com neutralidade e, nos debates, os moderadores esforçam-se por permanecer neutrais.

3. Nas entrevistas, no entanto, as regras podem mudar. Há dois tipos de entrevista: a confrontacional (normalmente a entrevista política) e a não confrontacional. Em ambos os casos a isenção pode perder-se, não porque o entrevistador seja pouco profissional, mas justamente porque é profissional. Por exemplo, numa entrevista não confrontacional com a vítima de uma violação é normal que o entrevistador se choque com o que aconteceu à sua entrevistada. Estranho seria que ele permanecesse indiferente ao sofrimento. Não se trata um violador e uma mulher violada da mesma maneira, não se trata um genocida e uma pessoa que perdeu a família inteira da mesma maneira – a regra da isenção não se aplica necessariamente.

4. As entrevistas políticas são, por natureza, confrontacionais (estranho seria que não fossem e que jornalista e político tivessem uma relação de cumplicidade). Uma vez que o agente político que está a falar não tem ninguém de outra força política que lhe faça o contraditório (como aconteceria num debate), essa função é assumida pelo entrevistador. O entrevistador faz o contraditório, assume o papel de advogado do diabo. Portanto, o jornalista suspende por momentos a sua isenção para questionar o entrevistado. Isto é uma prática absolutamente normal. O entrevistador não o faz para “atacar” o entrevistado, mas simplesmente para fazer o contraditório. Acontece até frequentemente fazer perguntas com as quais não concorda, mas sabe que o seu papel é fazer de “oposição” ao entrevistado.

5. Dizem os manuais de formação da BBC, e é assim que entendo o meu trabalho, que o entrevistador não é nem pode ser uma figura passiva que está ali para oferecer um tempo de antena ao político. O entrevistador não é o “ponto” do teatro cuja função é dar deixas ao actor. Ele tem de fazer perguntas variadas, incluindo perguntas incómodas para o entrevistado. Não deve combinar perguntas com os políticos, mas deve informá-lo dos temas. No acto da entrevista o entrevistado “puxa” pela sua faceta positiva e o entrevistador confronta-o com a sua faceta potencialmente negativa. Espera-se assim que o espectador veja as duas facetas.

6. Uma vez apresentado o princípio geral, vejamos o caso de José Sócrates. É falso que José Sócrates desconhecesse esta minha linha de pensamento. Almoçámos e expliquei-lhe o meu raciocínio. Avisei-o de que, se encontrasse contradições ou aparentes contradições entre o que diz agora e o que disse e fez no passado, as colocaria frente a frente e olhos nos olhos, sem tergiversações nem subterfúgios, como mandam as regras da minha profissão. Far-me-ão a justiça de reconhecer que fiz o que disse que ia fazer.

7. Como todas as figuras polémicas, José Sócrates é amado por uns e odiado por outros. É normal com as figuras públicas, passa-se com ele e passa-se comigo e com toda a gente que aparece em público. Mas o que se está a passar com ele é que muita gente fala mal nas costas e ninguém pelos vistos se atreve a colocar-lhe as questões frontalmente. Fui educado fora de Portugal e há coisas que me escapam sobre o país, mas dizem-me que é um traço normal da cultura portuguesa: falar mal pelas costas e calar quando se está diante da pessoa. Acho isso, devo dizer, lamentável. Quando alguém é muito atacado, devemos colocar-lhe frontalmente as questões para que ele tenha o direito de as esclarecer e assim defender-se. Foi o que foi feito na conversa com José Sócrates. As questões que muita gente coloca pelas costas foram-lhe apresentadas directamente e ele defendeu-se e esclareceu-as. Se o fez bem ou mal, cabe ao juízo dos espectadores.

8. O caso de José Sócrates tem alguns contornos especiais e raros. Ele foi Primeiro-Ministro durante seis anos e acabou o mandato com o país sob a tutela da troika. Quando era chefe do Governo, começou a aplicar medidas de austeridade. No PEC I foram muito suaves (cortes em deduções fiscais e outras coisas), mas foram-se agravando no PEC II (aumento de impostos) e no chamado PEC III, que na verdade era o Orçamento de 2011 (corte de salários no sector público, introdução da Contribuição Especial de Solidariedade aos pensionistas, aumento de impostos, cortes nas deduções, etc). Defendendo estas medidas, afirmou em público que “a austeridade é o único caminho”. Agora, nas suas declarações públicas, ele mostra-se contra a austeridade. Estamos aqui, pois, perante uma contradição – ou aparente contradição. Não tem um jornalista o dever de o colocar perante essa (aparente ou não) contradição, dando-lhe assim oportunidade para esclarecer as coisas?

9. Na entrevista não é para mim necessariamente relevante se ele tinha razão quando aplicou a austeridade ou se tem razão agora que critica a austeridade. O que é relevante é que há uma aparente contradição e cabe ao jornalista confrontá-lo com ela. Foi o que foi feito e ele prestou os seus esclarecimentos. Se foi convincente ou não, cabe a cada espectador ajuizar, não a mim. Limitei-me a apresentar-lhe directamente os problemas e a dar-lhe a oportunidade de os esclarecer. O meu trabalho ficou completo.

10. Como disse no ponto 8, o caso de José Sócrates é raro. Não é muito normal termos entrevistados com as circunstâncias dele. O tipo de conversa que era necessário para esclarecer as coisas não nasce do facto de ele ser do PS, mas das suas circunstâncias únicas. Se o entrevistado fosse, por exemplo, Ferro Rodrigues ou Maria de Belém ou Francisco Assis ou qualquer outra figura do partido, o perfil da conversa teria de ser diferente porque nenhum deles teve funções de Primeiro-Ministro durante tanto tempo e imediatamente antes da chegada da troika nem entrou num discurso tão aparentemente contraditório como José Sócrates. São as suas circunstâncias específicas que exigem uma abordagem específica. Se o Primeiro-Ministro que governou nos seis anos antes da chegada da troika fosse do PSD, CDS, PCP, BE, MRPP ou o que quer que seja, e fizesse declarações tão aparentemente contraditórias com o que disse e fez quando governava, não tenham dúvidas de que as minhas perguntas seriam exactamente as mesmas.

11. No final, temos de nos perguntar: José Sócrates esclareceu bem a sua posição? Essa resposta cabe a cada um e aí não meto eu o dedo. Limitei-me a dar-lhe a oportunidade de tudo esclarecer.

12. E aquele espaço?, perguntarão alguns. É entrevista? É comentário? Boa pergunta. A minha resposta está no ponto 5.

Um abraço a todos.

José Rodrigues dos Santos

Ou seja, José Rodrigues dos Santos entende que aquele espaço que foi apresentado como de “comentário” por parte de José Sócrates não é de opinião. É uma entrevista. Pura e dura. O que levanta algumas questões. Para além de estar a passar um atestado de incompetência a todos os camaradas de profissão que partilham – ou já partilharam – espaços de comentários com políticos (Cristina Esteves, Judite de Sousa, Rodrigo Guedes de Carvalho, Clara de Sousa, Maria da Flor Pedroso, Ana Lourenço, etc), José Rodrigues dos Santos parece ter inventado um novo género jornalístico: a entrevista fixa. 

Normalmente, a importância de uma entrevista mede-se por um conjunto de factores incluindo a sua exclusividade (quanto mais rara, melhor), a relevância do entrevistado e do conteúdo e o momento em que é dada. Sendo aquele um espaço semanal, José Sócrates passará a ser o único político mundial com uma entrevista marcada para o horário nobre de todos os domingos.

Tenho imensas dúvidas de que políticos profissionais mereçam ter um espaço de opinião nos principais telejornais. Já o disse. A sua posição não é isenta e, na maioria das vezes, estão ali a servir um interesse: o deles próprios. No entanto, foi sempre assim que ele foi apresentado: como o espaço de “comentário” de José Sócrates. O entendimento de que  a presença de um jornalista o torna, obrigatoriamente, numa entrevista parece-me, no mínimo, peculiar. Para além disso, será interessante perceber o que acontecerá quando, salvaguardadas as respectivas diferenças, o jornalista da RTP moderar o espaço de comentário de Nuno Morais Sarmento? Será tão agressivo? 

Por fim, saiu uma informação útil do comunicado: José Sócrates não foi totalmente apanhado de surpresa: o jornalista e o ex-primeiro ministro almoçaram e José Rodrigues dos Santos avisou-o de que seria mais interventivo e que lhe apontaria as contradições. Talvez não tenha dito o quanto o faria. 

P.S. – Não estou aqui a defender José Sócrates. Há muito que o ex-primeiro-ministro devia ter sido confrontado com as suas contradições narrativas. E, para que conste, José Rodrigues dos Santos fê-lo muito bem.

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“O PAIGC soube fazer a guerra, o problema é que não soube fazer a paz”

Há alguns dias referi aqui o lançamento de um livro sobre a Guiné-Bissau. Escrito pelo embaixador Francisco Henriques da Silva e pelo escritor Mário Beja Santos, a obra abarca cinco séculos de história do território: da chegada dos portugueses, aos anos da guerra, à vida em independência. Apesar de o lançamento só estar marcado para o próximo dia 9 de Abril, no Palácio da Independência, em Lisboa, os dois autores tiveram a amabilidade de responder a algumas questões por escrito que vão muito para além do livro e que resultaram numa reflexção sobre o estado actual da Guiné-Bissau. Aos dois, muito obrigado.

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Porque decidiram escrever um livro que abarca cinco séculos de História?

Essencialmente, porque, por estranho que possa parecer, tanto quanto é do nosso conhecimento, não existia nada do género. Nesta matéria, prevalecia, sim, um vazio enorme e verdadeiramente escandaloso relativo ao passado e presente do que é hoje a Guiné-Bissau. Lacuna inaceitável que se nos afigurou necessário preencher. Apesar de existir muita documentação dispersa, a verdade é que os documentos e as obras publicadas sobre a História da Guiné então portuguesa já estavam profundamente ultrapassados quando se deu a independência. A República da Guiné-Bissau cumpre, agora, 40 anos de existência e, tanto quanto sabemos, não dispõe de uma narrativa sequencial e lógica, abstraindo de quaisquer outros considerandos, desde a luta de libertação aos nossos dias. Há testemunhos como os de Luís Cabral e Aristides Pereira, mas são, por definição, manifestamente insuficientes.

Propusemo-nos apenas orientar o leitor desde a chegada dos nossos navegadores a um território que podemos designar vagamente como Senegâmbia até ao golpe de Estado de 12 de Abril de 2012. Aqui traçamos uma linha de fronteira temporal, para criarmos algum distanciamento em relação aos acontecimentos mais recentes. Mas não escrevemos, nem pretendemos escrever, um livro de História; este Roteiro é, quanto muito, uma obra de enquadramento histórico. Por isso lhe chamamos uma rosa-dos-ventos. Remetemos o leitor para leituras relacionadas com a História. Mas referimo-nos também à literatura colonial, à literatura de guerra, à actual literatura bissau-guineense, à biografia de uma figura emblemática como foi Amílcar Cabral, à política de cooperação, à expansão da língua portuguesa, a questões de ordem antropológica, à política, à economia, enfim a uma multiplicidade de temas, que, nalguns casos, pecarão porventura por excesso e noutros por defeito.

O que é que ele traz de novo?

A grande inovação é que se trata de um instrumento até à data inexistente que fica ao dispor principalmente dos leitores de Portugal, da Guiné-Bissau e do espaço lusófono, mas não só, porque vivemos num mundo globalizado, já que estamos esperançados que a obra irá incitar estudos mais desenvolvidos, em todos os domínios. A obra não tem outra ambição que não seja a de pretender atrair mais e melhor estudo sobre a História da Guiné portuguesa e da Guiné-Bissau.

Como caracterizam a presença dos portugueses na Guiné-Bissau?

A presença dos portugueses na Guiné, ou no que podemos designar por Grande Senegâmbia, ou seja, uma vastíssima área da África Ocidental que vai desde o Rio Senegal até ao Sul da atual Guiné-Conacri (ou se quisermos de uma região ainda mais ampla que iria do que é hoje a Mauritânia à Serra Leoa), data da década de 1440, com Nuno Tristão e outros navegadores que foram descobrindo e mapeando os territórios e rios por onde iam passando, reivindicando para a Coroa Portuguesa essas terras e aprisionando os primeiros escravos que trouxeram para Portugal. Todavia, a presença portuguesa durante séculos foi meramente epidérmica, circunscrevendo-se às praças ou aos presídios, nas margens dos rios, como Cacheu ou Ziguinchor, sem penetração para o interior. Apenas os chamados lançados ou tango-maos, isto é os proscritos, os condenados ou os aventureiros é que se internavam no “hinterland” africano e se misturavam com as populações locais. A presença portuguesa era, pois, muito frágil e precária. Após a Conferência de Berlim (1885) e, sobretudo na sequência da Convenção Luso-francesa de 1886 é que se iniciou a penetração para o interior e a pacificação do território que, note-se bem, só se deu por terminada já no ano tardio de 1936.

Os portugueses estão hoje em grande número na Guiné-Bissau devendo cifrar-se em cerca de 3.000 ou mesmo 4.000 os cidadãos de nacionalidade portuguesa residentes no país. Todavia, apenas 300 ou 400 podem ser considerados verdadeiros emigrantes.

Podem dar-me algum exemplo?

Os portugueses estão em praticamente todos os setores relevantes da vida económica e social da Guiné-Bissau: telecomunicações, banca, seguros, combustíveis, setor agro-alimentar, transportes, comércio, restauração, hotelaria, ensino, etc. Todavia, dado o estado de pauperização em que o país se encontra e a endémica instabilidade política muitos empresários afastam-se. Sejamos claros: os atrativos locais não são muito estimulantes.

Em Angola, a guerra colonial começou em 1961. Na Guiné o início da luta de libertação só teve início em 1963, com o ataque ao quartel de Tite. Porque demorou tanto tempo?

Por três razões principais: porque o PAIGC pensava que ainda era possível um processo negocial com as autoridades portuguesas; porque existiam outros grupos rivais com ações já empreendidas no terreno; porque não dispunham de quadros políticos e militares preparados. Em 1961 e 1962, os homens do PAIGC pretenderam, sem qualquer êxito, negociar com as autoridades portuguesas, sobretudo após os acontecimentos de Março de 1961 em Angola, que inflamaram os ânimos. Decidiram passar à ação direta, mas para tal havia todo um trabalho prévio a fazer, naqueles anos, de mobilização política e militar, tendo particularmente em conta que existiam então numerosos grupos rivais. Registam-se ações na região de S. Domingos e Praia Varela logo em 1961, perpetradas pelo Movimento de Libertação da Guiné de François Mendy, mas que mais não foram que meros atos de vandalismo. Todavia, há relatos de incidentes esporádicos noutros pontos do território onde se verificaram tiroteios e ações hostis, isto antes do ataque a Tite. O PAIGC só decide agir quando tem os seus principais quadros formados, sobretudo na China e possui o controlo efetivo dos seus homens, esgotada que estava a via negocial. Contrariamente, a todas as expetativas não ataca na periferia, mas bem no centro da Guiné, em Tite, demonstrando uma capacidade ofensiva pujante até então insuspeitada. A guerra estendeu-se de imediato a uma grande parte do território Morés (mata do Oio), ao Xime e a regiões do Sul, logo em 1963, e, posteriormente, à mata do Cantanhez e à ilha de Como.

No início os portugueses optaram por uma postura defensiva. O que mudou com António de Spínola? 

A guerra dividiu-se, de facto, em duas fases distintas: de 1963 a 1968 e deste ano até ao final (1974) que correspondem a perceções da situação no terreno e a estratégias distintas. Com António de Spínola, a partir de 1968, passa-se, como refere, de uma postura defensiva ou estritamente militar a uma estratégia, mais complexa, articulada em quatro eixos fundamentais: em primeiro lugar, uma política económico-social em prol das populações locais e contando com a sua participação ativa, sob o lema “Por uma Guiné melhor”; em segundo lugar, uma crescente africanização da guerra, com a criação das unidades de elite guineenses e com a organização das populações em auto-defesa; em terceiro lugar, com uma maior capacidade ofensiva, em termos militares, utilizando meios mais sofisticados e o recurso a tropa especial e, finalmente, a intenção clara de conversações secretas com o PAIGC, corroborando implicitamente a tese de que a solução do conflito era política e não exclusivamente militar. Em suma, para Spínola haveria que retomar-se, por um lado, a ofensiva e, por outro, subtrair as populações civis ao controlo do PAIGC com uma política de conquista dos “corações e almas”.

Houve um grande impacto na população?

Em geral, a população sentiu benefícios reais com esta política e o PAIGC viu a sua argumentação e a sua base de apoio popular ameaçadas. Spínola implementa a acção psicológica em larga escala, com meios adequados e ideias adaptadas ao ambiente local, acresce que a sua estratégia militar ofensiva também começa a produzir resultados. As populações islamizadas, sobretudo no Leste do país, sobretudo Fulas e Mandingas, apoiam-no. Na região Oeste, os Manjacos pendem também para o lado governamental. Toda a atuação de Spínola começa, pois, a deixar marcas. Existem inúmeras deserções no lado dos guerrilheiros e um acentuado cansaço de guerra. Todavia, esta política surge claramente fora do tempo e o PAIGC, beneficiando do quadro da “guerra fria”, reage com armamento cada vez mais sofisticado, designadamente com a introdução dos mísseis terra-ar, e com apoios sólidos do bloco de Leste. Para além disso, Amílcar Cabral vai recorrer com êxito à diplomacia para fazer vingar as suas teses na cena internacional. Logo, neste “duelo de titãs”, como lhe chama o historiador bissau-guineense Leopoldo Amado, Cabral acabaria por levar a melhor, mas não a viu concretizada, pois foi assassinado em 1973.

O que os portugueses deixaram nesse período ao país?

O país, durante anos, foi o parente pobre da colonização portuguesa – se é que se pode falar em colonização stricto sensu na Guiné. No período spinolista foi criada uma rede viária moderna, como, tanto quanto sabemos, não existia então outra em toda a África Ocidental, sem falar na reconstrução dos portos do interior, no saneamento básico, nas escolas, hospitais, no melhoramento da rede elétrica, ou seja o bem-estar das populações e o desenvolvimento económico consistiam em objetivos prioritários a atingir, no quadro de um diálogo constante com as populações. Foi, sem dúvida alguma, um período de fomento. O problema é que veio demasiado tarde, todavia a obra perdurou durante alguns anos até gradualmente desaparecer com a inevitável passagem do tempo e a incompetência dos governantes que lhe sucederam.

 

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Apesar da independência, a vida da Guiné Bissau tem sido tudo menos pacífica. Conseguem encontrar uma explicação?

Resumiríamos a nossa explicação numa pequena frase: “Não há dúvida que o PAIGC soube fazer a guerra, o problema é que não soube fazer a paz”, ou seja provou que sabia combater no campo de batalha, mas foi totalmente ineficaz na governação, nem tão-pouco criou as condições mínimas para governar. Existem vários fatores a considerar: começaríamos por referir que a Guiné-Bissau averba uma história de violência quase ininterrupta desde o período colonial à atualidade. Em segundo lugar, o país é um mosaico de povos, de línguas e de culturas cuja unidade é muito, mas muito, frágil. Em terceiro lugar, desde o tempo da luta armada, mas sobretudo a partir do golpe de Estado de “Nino” Vieira de 14 de novembro de 1980 e, com maioria de razão, após o termo da guerra civil de 98-99, os militares passaram a intervir ativamente na vida pública e assistiu-se a uma ligação espúria, promíscua e malsã entre as classes castrense e política. O fator étnico também pesa – e muito – nesta equação, como é óbvio. Em quarto lugar, sendo o país, pobre entre os pobres, gera sempre alguns ricos, ou seja oportunistas de todos os quadrantes que ganham dinheiro de qualquer maneira e por todos os meios ao seu alcance, desde a corrupção ao narcotráfico. Neste contexto, devíamos ainda adicionar a criminalidade impante, impune e omnipresente, o crescimento desmesurado da cidade em relação ao interior, o problema social dos antigos combatentes, a falta de quadros, o desinteresse generalizado da comunidade internacional por este pequeno país da África ocidental, etc. Podíamos ir mais longe nestas considerações, mas o quadro genérico está traçado.

O que poderia ter sido feito de diferente?

As coisas foram como foram e são o que são. Em História não se põem “ses”. Creio que caberá aos bissau-guineenses responderem a esta pergunta e haverá, seguramente, uma grande diversidade de opiniões, nesta matéria. Pensamos que a inevitável rutura com Cabo Verde, a gritante falta de quadros, a inexperiência de governação, a ausência de um verdadeiro projeto nacional e, sobretudo, a falta de subordinação do poder militar ao poder civil legalmente constituído terão contribuído para a atual situação. A nosso ver, a questão fundamental reside na verdadeira Reforma do Setor de Defesa e de Segurança. Este é o verdadeiro calcanhar de Aquiles da Guiné-Bissau. As Forças Armadas bem como as forças policiais têm de passar a constituir um verdadeiro exército republicano, ajustado às necessidades do país e da sociedade bissau-guineense, subordinado ao poder político sem quaisquer ressaibos ou conotações étnicas. O tempo da guerrilha já lá vai. Caso contrário, todas as aventuras militares são possíveis e perigosas.

Como é que o país chegou ao actual Estado?

Pelas razões já apontadas. O que vamos dizer é duro e melindroso: a Guiné-Bissau constituiu-se como Estado sem ter verdadeiras condições para tal. As questões políticas, económicas e sociais eternizam-se e ampliam-se sem solução à vista porque as instituições do Estado não funcionam, não se assumem como tal, ou pura e simplesmente não existem. Estamos perante um Estado caótico, desestruturado e disfuncional: na prática, um “não Estado”, se é que esta expressão faz algum sentido.

É possível alterar este estado de coisas?

Cabe aos bissau-guineenses consciencializarem-se do status quo e resolverem por si próprios os seus problemas com um mínimo de seriedade. Caso contrário, as perguntas subsistem e impõem-se: para que é que se fez a luta de libertação nacional e que sentido tem a independência da Guiné-Bissau? Ter a perceção do status quo é, desde logo, ter a noção clara e inequívoca de que a Guiné-Bissau é um Estado falhado, uma entidade ingovernável. Essa tomada de consciência constitui, a nosso ver, o primeiro passo para que as coisas mudem. Ora bem, a sequela lógica tem de ser dita sem palpos na língua: tem de se reconstruir o Estado porque ele verdadeiramente não existe.

O que Portugal ainda pode fazer pela Guiné?

Portugal tem de ajudar a Guiné-Bissau a construir um verdadeiro Estado, começando pela Reforma do Setor de Defesa e Segurança, pela instauração de um Poder republicano e democrático que respeite os direitos humanos e o primado da lei, contribuindo para a administração e funcionalidade do aparelho de Estado e, finalmente, pela cooperação fraterna em todos os setores que a Guiné-Bissau carece e a que Portugal manifeste disposição e abertura para ajudar, desde a Educação à Saúde, da Justiça à Administração Local. Mas para tal é preciso que a Guiné-Bissau esteja disposta a ser ajudada.

José Medeiros Ferreira (1942-2014)

Foto: Tiago Miranda

Foto: Tiago Miranda

Morreu um dos intelectuais mais reconhecidos da política portuguesa. Há dois anos, deu uma excelente entrevista ao José Pedro Castanheira e ao Martim Silva, no Expresso. Está aqui.

Uma boa entrevista, onde faltam dois temas fundamentais

No domingo, Rui Machete deu ao Público a primeira entrevista desde que tomou posse como ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, há sete meses. O grande tema das duas horas de conversa com a directora Bárbara Reis e o jornalista Nuno Ribeiro foi a mais que provável adesão da Guiné Equatorial à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). E foi essa a melhor parte da entrevista. Rui Machete foi confrontado com uma série de argumentos e soube defender-se bem. Agarrou-se a um facto concreto e dali não saiu: há um compromisso formalizado em 2010 e que diz que o país entra na organização se cumprir determinados requisitos. Fala também da relação com Angola – não diz muito – e um pouco do caso da expulsão de António Capucho do PSD. No entanto, ao longo das cinco páginas faltam dois temas fundamentais numa entrevista ao ministro dos Negócios Estrangeiros: não há uma palavra – sejam perguntas ou respostas – sobre a situação na Ucrânia nem sobre o facto de Rui Machete ter mentido ao Parlamento na Comissão de Inquérito ao BPN.

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Glenn Greenwald na primeira pessoa

Em 2013, Glenn Greenwald publicou a história do ano: o escândalo de espionagem da NSA. Elaboradas com base nos documentos desviados por Edward Snowden, as sucessivas notícias revelaram práticas ilegais por parte da agência de espionagem norte-americana. Por causa delas, o companheiro de Greenwald foi preso durante várias horas num aeroporto britânico. A Vice viajou até ao Rio de Janeiro – onde ele vive – para o entrevistar e saber mais sobre este advogado transformado em jornalista paladino das liberdades individuais.

A conselheira de Barack Obama

Susan Rice é a conselheira de Segurança Nacional de Barack Obama. Antes, foi embaixadora dos Estados Unidos na ONU. E esteve para suceder a Hillary Clinton, no cargo de Secretária de Estado. Agora é ela quem acorda o presidente norte-americano se há uma crise internacional. Em entrevista a Lesley Stahl, do 60 Minutes, fala sobre as crises no Irão, Síria e o escândalo de espionagem da NSA – sobre o qual diz que Edward Snowden não merece uma amnistia: merece um julgamento.