O aviso do “animal feroz”

“A política para si acabou?

Oh, pelo contrário. Isto ainda agora começou.”

José Sócrates, ao Diário de Notícias

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A SÁBADO no The Sunday Times

A entrevista de Fábio, aliás AbduRahman Al Andalus, dada à SÁBADO em Outubro, está hoje em destaque no The Sunday Times. É bom saber que ainda há quem siga princípios simples – como citar as fontes. A entrevista completa está aqui.

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“Fidel colocou milhões em contas no exterior”

Durante 17 anos, Juan Reinaldo Sanchés fez parte da guarda pessoal de Fidel Castro. Com o passar do tempo, tornou-se um dos seus mais próximos colaboradores: era ele quem tinha de anotar num diário tudo o que El Comandante fazia. Quando quis abandonar o círculo que o rodeava, caiu em desgraça: foi preso e torturado. Após oito tentativas conseguiu fugir de Cuba para os Estados Unidos onde, este ano, lançou um livro com os detalhes da vida desconhecida de Fidel e as suas contradições com a ideologia comunista. De acordo com Juan Reinaldo Sanchés, El Comandante possui mais de 20 casas, incluindo uma ilha privada com tartarugas e golfinhos, só bebe leite fresco da sua vaca particular, grava todas as conversas no gabinete, esteve duas vezes às portas da morte e desviou milhões de dólares para contas por si controladas – para além de ser cúmplice com o tráfico de droga para os EUA. No dia em que ele está em Lisboa a promover a edição do seu livro em Portugal, deixo aqui a entrevista que lhe fiz há cerca de três meses e que foi a base para um artigo publicado na SÁBADO.

Juan Reinaldo mostra uma das fotografias com Fidel Castro

Juan Reinaldo mostra uma das fotografias com Fidel Castro

Quando se tornou guarda-costas de Fidel Castro?

A 1 de Maio de 1977. Antes tinha tirado um curso de dois anos numa escola de especialistas em segurança pessoal e já tinha uma experiência de nove anos em segurança pessoal, fazendo parte de outros “anéis” da segurança de Fidel.

Porque o escolheram?

Por causa do meu desempenho durante nove anos e pelos meus resultados na escola de especialistas em segurança pessoal. Já tinha cinturão negro em artes marciais e era campeão de tiro.

Como se tornou um dos mais próximos de Fidel no grupo de guarda-costas?

Não era o único mais próximo dele. Havia o chefe de equipa e o seu médico pessoal. Acontece que, como tinha a responsabilidade de escrever o diário pessoal de Fidel, isso aproximava-me bastante dele. Tinha de anotar tudo o que ele fazia desde que se levantava até que se deitava, quem via, com quem conversava, o que comia, por que vias circulava, etc. E para fazer essas anotações, devia estar sempre ao lado dele. Neste trabalho conheci diferentes presidentes que visitaram cuba entre 1977 e 1994 e também dirigente da esquerda latino-americana como Luís Gorvalán, do Chile, Schafik Jorge Handal, da FMLN de El Salvador, e Joaquín Villalobos, do Exército revolucionário do Povo.

No meu livro, que escrevi com a colaboração do jornalista francês Axel Guilden, conto a história de que Fidel Castro realizou várias reuniões em Cuba com estes homens de esquerda e comandantes guerrilheiros para utilizar em El Salvador a mesma estratégia que tinha desenvolvido na Nicarágua: a união das diferentes frentes guerrilheiras numa única grande ofensiva militar contra a capital. Mas Villalobos e Schafik nunca chegaram a acordo porque entre eles havia uma rivalidade pela liderança desta luta e nunca foi possível unirem-se para Fidel alcançar os seus objectivos

Quais eram as suas responsabilidades?

Primeiro tinha a responsabilidade da sua segurança. Depois tinha que escrever o seu diário pessoal. Além disso, durante alguns anos fui responsável pela preparação técnica, profissional e física dos outros membros da escolta. Fiz também parte da equipa avançada das viagens de Fidel Castro ao exterior e tornei-me responsável directo da segurança no estrangeiro a partir de 1989.  Numa dessas avançadas realizou-se a viagem ao Zimbabwe para a VIII cimeira dos países não alinhados em 1986. Conto como preparei várias casas que se compraram em dinheiro, assim como automóveis Mercedes e Toyotas para a segurança de Fidel durante a estada no país. Foi construído um refúgio na própria residência e uma sala de reuniões totalmente segura contra escutas estrangeiras. Esta operação, detalhada no livro, custou mais de dois milhões de dólares, para apenas uns dias de Fidel Castro neste país africano.

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Juan Reinaldo a retirar a caneta entregue por uma jornalista a Fidel Castro. A segurança temia tentativas de assassinato

 

Toda a sua vida Fidel Castro afirmou que não tinha património. Isso é verdade?

Não. Fidel tem residências espalhadas por toda a ilha. Durante o meu trabalho conheci pessoalmente mais de 20 casas de uso exclusivo de Fidel, moradias que não são habitadas por mais ninguém. Além disso, Fidel tem marinas com iates, como aquela que fica a sul de Cienaga de Zapata, chamada Caleta del Rosário, onde trabalham mais de 100 homens como marinheiros, mecânicos navais, pessoal de serviço e guardas, apenas para uso exclusivo de Fidel. Ele tem também uma ilha privada a sul da Cienaga de Zapata, possui um iate de 80 pés de comprimento por 20 de largura e outros três iates mais pequenos de 54 pés de comprimento por 17 de largura. Como se isso não bastasse, tem também à sua disposição barcos de pesca de 60 metros de comprimento a pescar apenas para ele. Todas as embarcações estão na Marina Caleta del Rosário. Fidel é ainda proprietário de um couto de caça nos arredores da povoação de Los Palácios, na província de Pinar del Rio, onde, no Inverno, se dedica a caçar patos que emigram da Florida.

Revela também a existência da ilha de Cayo Piedra. Pode descrevê-la?

Na verdade são duas ilhas pequenas unidas por uma ponte com mais de 200 metros de comprimento. Esta ilha fica a sul da Ciernaga de Zapata, na província de Matanzas. Fidel habita uma casa que anteriormente pertencia a um faroleiro e que foi convertida num chalet. Tem pista de helicóptero, molhe para atracar os iates, um restaurante flutuante, criadores de tartarugas e até um delfinário, para além de uma residência para visitantes com piscina olímpica e outras instalações.

Fidel ia para lá com frequência?

Geralmente ia aos fins-de-semana no Verão e passava a maior parte de Agosto na ilha. Eu ia com ele na maioria das vezes porque fazia parte dos mergulhadores que pescavam com Fidel.

Ele levava a família ou ia sozinho?

Geralmente ia com a família, a mulher Dália e o seu filho mais pequeno, Angel. Os outros filhos iam uns dias mas saíam já que estavam a estudar ou simplesmente gostavam mais de passar as férias em Varadero, rodeados de outros jovens filhos de dirigentes. Quando Fidel levava algum convidado então ia sozinho. A sua esposa, Dália, nunca apareceu em público até se conhecer a doença de Fidel em 2008.

Tinha amantes? Levava-as para lá?

Geralmente a sua amante Juanita Vera ia à ilha quando Fidel convidava algum estrangeiro que falava inglês porque ela era a tradutora de Castro.

E os filhos?

Os cinco filhos com Dália (Alexis, Alex, Alejandro, António e Angel) iam regularmente à ilha. Mas os outros filhos (Fidel Castro Diaz Balart e Jorge Angel Castro) não iam com frequência. Só os vi lá em duas ou três ocasiões e sempre em separado.

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No iate Aquarama II

O que faziam para passar o tempo?

Actividades próprias do mar, pesca submarina, pesca em barcos, nadar no mar alto, visitar outras ilhas da zona, etc.

Costumava levar convidados?

Os mais frequentes eram os seus amigos Gabriel Garcia Marquez e António Neñez Jimenez, assim como os seus familiares. Além deles também visitaram a ilha estrangeiros como o milionário Ted Turner e a jornalista Bárbara Walters.

Fala no iate Aquarama II. Pode descrevê-lo?

Foi fabricado em cuba com madeira preciosa enviada de Angola. O anterior, o Aquarama I, foi de um dirigente do governo anterior a 1959 e Fidel utilizou-o muitos anos até não poder navegar mais. Então mandou construir este, muito parecido com o anterior, mas com equipamentos de navegação mais modernos e uma estrutura mais aerodinâmica.

Fidel é um conhecido fã de desporto. Mas no livro diz que a pesca é o seu desporto favorito. Porquê?

Ele gosta imenso de pesca submarina. É o desporto que mais praticava durante o Verão. Mas no Inverno ia para o couto de caça particular, chamado La deseada.

Pode descrever o ritual da pesca submarina e o seu papel nessa actividade?

Fidel Castro pescava de uma forma pouco habitual. Entregávamos-lhe as armas de caça já carregadas e prontas para atirar. Ele disparava e quando um peixe ficava no arpão não o recolhia. Era um dos mergulhadores que o apanhava e levava para o barco. Fidel depois estedia a mão e outro mergulhador entregava-lhe um novo arpão pronto a disparar. O meu trabalho era apoiar estes mergulhadores e com uma espingarda submarina muito mais potente espantar os tubarões, barracudas e moreias que rodeavam Fidel Castro. Protegia-o desta forma quando estava na água.

Descreve Fidel como uma espécie de Luís XV. Porquê?

Porque tinha toda uma corte de servidores em seu redor, unicamente para o servir em todos os seus gostos e prazeres e porque tem condomínios e propriedades única e exclusivamente para seu uso pessoal, ilhas, iates, marinas, couto de caça, etc.

Como é possível que a existência da ilha se tenha mantido em segredo todos estes anos?

Porque tudo o que está relacionado com a vida pessoal de Fidel Castro sempre foi tratado em Cuba como um segredo de estado e apenas as pessoas escolhidas pelo próprio Fidel o podiam visitar.

A entregar a Fidel um presente no seu dia de anos

A entregar a Fidel um presente no seu dia de anos

Havia outros luxos?

Sim: vacas exclusivas para o leite que toma, fábricas de tabaco, iogurte, queijos, gelados, etc. Mas este aspecto está bem detalhado no livro já que se trata da vida oculta de Fidel.

Como era um dia normal?

Em Havana, levantava-se por volta das 13h ou 14h. A primeira coisa que fazíamos era dar-lhe “os telegramas”, ou seja, todas as notícias que saiam nas mais importantes agências de imprensa a nível mundial, juntamente com um relatório do ministério do interior, fundamentalmente da espionagem e contra espionagem, com o estado e desenvolvimento de actividades de espionagem em diferentes países, especialmente nos Estados Unidos e ainda outro relatório das forças armadas cubanas relativas às actividades das missões cubanas no exterior, seja em Angola, Nicarágua ou outro país. Saia de casa de Punto Cero às 15h ou 16h, ia ao Palácio ou ao Ministério das Forças Armadas para ver Raul ou aos dois lugares. No Palácio recebia as pessoas que queriam vê-lo ou ele tinha interesse em ver, nacionais ou estrangeiros, assistia às reuniões programadas do partido, Estado ou governo. Ao final da tarde ia visitar algum dignitário estrangeiro, ou então Garcia Marques ou Nuñez Jimenez nas suas casas. Depois ia para a sua residência de Punto Cero já de madrugada. Ficava lá ou saia com a mulher, Dália, para ver um filme no seu cinema particular que ficava a cerca de 1,5km de casa.

Mesmo em casa comiam como se estivessem num restaurante?

Na residência trabalham dois ou três cozinheiros e as refeições são feitas em função do que cada membro da família deseja comer. Este pedido é deixado na cozinha da residência por Dália no dia anterior, assinalando o que cada membro deseja comer ao pequeno almoço, ao almoço ou a comida e a que hora cada pedido deve estar pronto.

Falou em vacas exclusivas. O que quer dizer?

Na residência de Punto Cero há vacas, uma para cada membro da família. A destinada a Fidel é a número cinco. O leite é fresco, do dia. Mesmo quando Fidel viajava para o estrangeiro, um avião cubano ia ao encontro da delegação para enviar os telegramas e relatórios de que já falámos, assim como o leite, iogurte e vegetais que Fidel consumia.

É descrito como um indivíduo paranóico. Por quê?

Fidel quer mostra-se como uma pessoa calma e equilibrada e consegue-o em muitas ocasiões. Mas há momentos em que se mostra paranóico sobretudo no seu círculo mais intimo. Ninguém o pode contradizer, nem tem valor para o fazer – mesmo quando acha que ele está errado.

Ele grava todas as conversas?

Dentro de casa não sei. Grava as conversas telefónicas e também as da sua escolta. Para isso há, no perímetro de Punto Cero, uma pequena casa onde estão as equipas e membros da segurança que as manipulam a fim de ter todas as gravações que desejem. Dália sabe disto, uma vez que é ela quem dirige todo o que se relaciona com a residência e o pessoal que lá trabalha.

No seu gabinete no palácio, grava tudo. Desde as conversas com os visitantes, às que realiza por telefone. Há uma equipa de repórteres e gravadores. À frente desta equipa está Hilda Castro, uma antiga colaboradora de Fidel desde os anos 1960. Esta equipa faz também a transcrição das conversas telefónicas para quando Fidel as quiser ler.

Fidel Castro e Juan Reinaldo Sanches

Fidel Castro e Juan Reinaldo Sanches

Diz que os convidados estrangeiros eram vigiados pelos serviços de segurança. O que faziam concretamente?

Todas as pessoas de interesse, sejam presidentes, personalidades da cultura ou jornalistas, são vigiados constantemente pelos órgãos da contra-inteligência. Seja nas suas residências em Cuba ou quando estão a circular pelas ruas da cidade. Os relatórios são guardados e usados por Fidel num momento que considere oportuno.

Conta também que um diplomata francês apanhado no tráfico de arte se converteu num espião cubano?

Soube disto através de um relatório que a espionagem cubana enviou a Fidel sobre o caso dele.

Muitas vezes o mundo não conhecia o verdadeiro estado de saúde de Fidel. Como fazia para o ocultar?

Era um segredo de estado. Quando ele esteve internado em 1983 e 1993, vítima da doença que mais tarde o afastou do poder em 2006, nós na escolta fazíamos trabalhos de desinformação que consistia em utilizar um membro da escolta chamado Silvino Alvarez e disfarçá-lo com o uniforme de Fidel e uma barba postiça. Este duplo era utilizado à distância das pessoas, ou seja não era para o substituir numa reunião ou num discurso. Só o fazíamos quando o colocávamos no automóvel pessoal de Fidel e o passeávamos por Havana enquanto Fidel estava internado na sua clínica, com o objectivo de dar a impressão de que Fidel continuava a fazer a vida normal.

Qual era a relação dele com Angola?

Sempre disse que de Angola levaria só os mortos. No livro conto como foram parar a cuba madeiras preciosas e diamentes de Angola. E, no caso dos diamantes, como Fidel os recebeu em mão e também como desde a sede do ministério das Forças Armadas dirigiu toda a guerra neste país africano.

Ele tinha empresas e contas em bancos?

Sim, criou sociedades anónimas nos anos 1980 e que não estavam subordinadas à economia nacional: apenas ao conselho de estado, de forma a que os lucros dessas empresas fossem parar directamente às mãos de Fidel Castro. E sim, tinha contas em bancos mas só Fidel podia dispor delas. Empresas como a Coorporación Cimex, Cubalse, Cubanacán, etc. No livro conto como em várias ocasiões vi Abrahan Masique, então director de Cubanacán SA, entregar a Fidel Castro um milhão de dólares proveniente dos lucros de Cubanacán. Milhões que ele mandou um ajudante colocar em contas no exterior.

Porque deixou a escolta?

Em 1989 ouvi uma conversa (tal como os microfones do gabinete) entre Fidel Castro e o seu ministro do interior relacionado com o tráfico de droga. Aí dei-me conta que Fidel dirigia e sabia de tudo o que estava relacionado com a droga. Nesse momento senti-me enganado e defraudado por Fidel e pela revolução e estabeleci como objectivo sair. Mas tive de esperar até 1994, ano em que tinha todas as condições para pedir a reforma. Quando chegou a essa data pedi-a e Fidel enviou-me para a prisão. Passei dois anos detido, nas condições normais em Cuba: má alimentação, abusos por parte dos guardas, má higiene, etc.

Durante uma visita ao estrangeiro

Durante uma visita ao estrangeiro

Como foi para os Estados Unidos?

Quando saí da prisão, em 1996, comecei a tentar sair ilegalmente de Cuba, mas todas as tentativas foram infrutíferas até ao ano 2008 em que consegui sair ilegalmente através do México e daí para os Estados Unidos.

Porquê escrever este livro? .

Porque o mundo deve conhecer quem é verdadeiramente Fidel Castro. E não é o Fidel Castro que o próprio Fidel e o governo cubano trataram de promover pelo mundo.  Todos os livros sobre Fidel partem da informação dada por ele próprio ou pelo governo. Assim vemos os livros Um Grão de Milho, escrito por Tomás Borge, Fidel e a religião, de Frei Betto, e 100 horas com Fidel Castro, de Ignacio Ramonet. Todos partem de entrevistas a Fidel.

Na prisão dei-me conta de toda a informação que possuía e estabeleci o objectivo de dar a conhecer ao mundo o verdadeiro Fidel Castro. Fui tirando essa informação de Cuba por diferentes vias: na memória, em CD, em documentos e fotografias, de forma a que quando cheguei aos EUA tinha 90% da documentação que precisava. Posteriormente, em Miami, continuei a sacar informação valiosa de Cuba, o que me ajudou muito não só a escrever o livro como a provar o que dizemos. Este livro é o primeiro que aborda a vida privada de Fidel Castro, escrito por um testemunho presencial dos acontecimentos que ele trata. Daí a importância da obra.

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Fábio, o Estado Islâmico e uma entrevista

Quando surgiram no Expresso as primeiras notícias de que havia portugueses a combater nas fileiras do Estado Islâmico fiquei imediatamente interessado no tema. Quem eram aquelas pessoas? O que os levava a aderir a uma ideologia radical, contrária aos valores dos locais onde haviam sido criados? Eram algumas questões que importava responder. E isso implicava falar com eles. Quase todos teriam uma característica: eram activos nas redes sociais. Ao longo de semanas tentei localizá-los por todos os meios. Semana após semana a frustração foi crescendo na igual medida em que o Hugo Franco e a Raquel Moleiro iam fazendo um trabalho exemplar no Expresso (chápeau) Foram eles que contaram em primeiro lugar a história de Fábio e de Ângela, a rapariga que viajou para a Síria para casar com ele.

Quando encontrei finalmente uma página de Fábio na Internet, enviei-lhe uma mensagem. Não tinha grandes expectativas: a página estava inactiva há quase um ano e referia-se a um período antes de ele viajar para a Síria. Durante semanas não obtive resposta. Até que, no passado domingo, acordei com uma mensagem: um email de contacto. Contactei-o mas a mensagem veio devolvida. No entanto, esse email permitiu-me encontrar a nova página de Facebook de Fábio. Ou melhor, de Abdu Rahman Al Andalus. Contactei-o novamente, e ele respondeu. Primeiro em português. Depois, em inglês. Essa troca de mensagens inicial durou mais de seis horas. Continuou no dia seguinte. E no outro – já a partir de uma nova página porque a primeira tinha sido bloqueada.

O resultado dessa conversa foi publicado na última edição da Sábado. Foi o tema de capa e tem provocado alguma polémica – sobretudo entre jornalistas. Quanto a isso, tenho algo a dizer: acredito que todas as opções editoriais são criticáveis. Costumo dizer que essa é uma das belezas do jornalismo: não há verdades absolutas. Cada um de nós atribui importâncias diferentes a temas diferentes. Exemplos: o telejornal da RTP pode abrir com o ébola, o da SIC com a sobretaxa do IRS e o da TVI com o prémio Nobel da Paz. São escolhas diferentes e legítimas, de acordo com os critérios de quem está a coordenar a emissão.

Nos jornais essa escolha é feita todos os dias. Qual a melhor notícia para manchete? Qual a mais importante? E sim, qual a que mais vende? Porque um jornal que não vende é um jornal que, mais tarde ou mais cedo, morre. E essa não é uma boa notícia. Nas revistas essa escolha é diferente. Por norma, os temas de capa são planeados com antecedência. A não ser que haja uma questão de actualidade que se sobreponha, como a implosão do BES. Ou no caso de surgir uma história exclusiva que, pela sua relevância mereça o destaque de capa. Foi o caso da entrevista a Fábio. A existência de portugueses nas fileiras do Estado Islâmico (EI) é notícia? É. Perceber os motivos que os levaram a viajar para a Síria é relevante? É. Saber o que se passa do outro lado do mundo é importante? É. A decisão de fazer capa com a entrevista foi boa? Na minha opinião sim. É propaganda ao EI? Claro que não. É informação. E é essa a função dos jornalistas: publicar toda a informação para que os leitores possam tomar decisões conscientes e formar opiniões próprias. Não é escondê-la. Mesmo que ela agrida os nossos valores. Porque ocultá-la seria, isso sim, uma opção totalitária. E porque se quisermos melhorar o mundo, primeiro temos de conhecer os males que nele habitam.

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A entrevista (nesta altura só há uma de que toda a gente fala)

Não sou um grande fã de Judite de Sousa. Não o escondo. Mas reconheço os seus méritos. E o facto de ser a única – talvez com José Rodrigues dos Santos – jornalista-estrela do panorama jornalístico português. Ontem, ela voltou aos ecrãs após dois meses de ausência pelos motivos que todos conhecemos. Fez mal.

Primeiro que tudo: é preciso reconhecer a coragem de Judite de Sousa. Não imagino, nem quero imaginar, aquilo por que ela está a passar. Perder um filho é algo inimaginável. Arrasador. Voltar seria difícil para qualquer um. Fazê-lo com uma entrevista a Cristiano Ronaldo é ainda mais complicado. Não pela dificuldade da entrevista em si. Mas pela pressão. Pela expectativa criada pela própria TVI no “regresso em grande” da jornalista-bandeira da estação.

No entanto, o que vimos (e muitos o fizeram), especialmente na sexta-feira, foi uma mulher arrasada a obrigar-se a falar com voz firme (sem o conseguir) para a câmara. Tremia. Tinha dificuldades em articular as perguntas. Emocionou-se. Quase chorou. Teve certamente a simpatia dos telespectadores. Mas também os distraiu. Eu, por exemplo, a certa altura dei por mim a não ouvir as respostas do capitão da selecção nacional, mas a observar o estado de fragilidade da entrevistadora.

A realização também não a ajudou. Exagerou nos planos aproximados que realçaram as suas dificuldades em afastar o nervosismo. Ainda assim, aos poucos, Judite de Sousa melhorou. Ganhou mais à-vontade. A confiança começou a surgir. Houve mesmo um sorriso aqui e ali. Até o tratamento por “tu” que no início pareceu estranho (Ronaldo usou sempre o “você”) se tornou natural e familiar.

Não tenhamos ilusões: Judite de Sousa é uma privilegiada. Estar dois meses sem trabalhar após uma tragédia não está ao alcance de qualquer um. Ainda bem para ela. Teve mais tempo para fazer o seu luto. O que alguém lhe devia ter dito, porque é preciso que alguém o faça, é que só deveria regressar aos ecrãs quando estivesse realmente preparada para o fazer. Ninguém lhe ia levar a mal por isso. Pelo contrário. Podia perfeitamente regressar à redacção, assumir funções fora da antena e, com tranquilidade, voltar à emissão. Ela escolheu outro caminho. Provavelmente terá as suas razões. Há uma coisa que ninguém lhe pode tirar: teve uma coragem do tamanho do mundo. E agora só é possível melhorar.  Bem-vinda de volta.

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“Se acabar em Guantanamo, posso viver com isso”

O The Guardian entrevistou Edward Snowden em Moscovo. Este é o resultado final desse trabalho.

“Sou um pai que quer o filho de volta”

Bowe Bergdahl foi o último soldado americano aprisionado pelos Talibã a ser libertado. Na vespera da libertação do militar, o The Guardian conseguiu uma entrevista exclusiva com o seu pai, Bob Bergdahl.