O dia-a-dia dos espiões mundiais

Depois das revelações de Edward Snowden sobre a espionagem electrónica levada a cabo pelos serviços secretos norte-americanos e britânicos, um novo conjunto de novas revelações promete abalar a estruturas de espionagem: a Al Jazeera teve acesso a um conjunto de documentos dos principais serviços de informações mundiais que, em vez de estarem centrados na vigilância electrónica, tratam, sobretudo, de relações humanas. São um olhar inédito sobre o dia-a-dia de pessoas cujas vidas devem ser secretas. Nalguns casos, muito longe do glamour dos filmes. Chamaram-lhe, os Spy Cables

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O verdadeiro ataque à liberdade de imprensa

Em apenas 10 minutos, os serviços secretos britânicos recolheram cerca de 70 mil emails. entre eles estão as comunicações de jornalistas da BBC, Reuters, The Guardian, The New York Times, Le Monde, The Sun, NBC e do The Washington Post. Mais, alguns jornalistas de investigação foram classificados como “uma ameaça”. A revelação foi feita pelo The Guardian, com base nos documentos fornecidos por Edward Snowden. Sim, eles ainda continuam a publicar informação originária nessa gigantesca base de dados.

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A empresa amiga da secreta britânica

Como uma companhia britânica deu acesso aos serviços secretos britânicos acesso aos cabos de fibra óptica que transportam a informação de milhões de pessoas. Uma reportagem do Channel 4 News, com base em documentos revelados por Edward Snowden.

Leitura para o fim-de-semana: o espião que foi longe demais

Em 1984, Jacqui conheceu Bob Lambert num protesto pelos direitos dos animais. tinha 22 anos. Apaixonaram-se. Um ano depois tiveram um filho. Mas em 1987, Bob desapareceu. A mulher nunca mais ouviu falar nele. Até que, em 2012, viu uma fotografia nas páginas do Daily Mail que o identificava como um espião que, nos anos 1980 e 1990, esteve infiltrado nos grupos defensores dos direitos dos animais. E que, várias vezes, terá ido longe demais. Uma história para ler na The New Yorker.

Ilustração: Alex Williamson

Ilustração: Alex Williamson

The Spy Who Loved Me

An undercover surveillance operation that went too far.

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I—JUNE 14, 2012
It was four o’clock on a Thursday afternoon, and Jacqui had just got home from work. She made a pot of coffee and took it out to the garden with the Daily Mail. It was the start of her weekend. The sun was out. She sat down at a patio table and poured the coffee, taking a minute to enjoy the scent of the wisteria that was blooming on her trellis.

She opened the paper: the Queen in Nottingham for her Golden Jubilee; bankers under scrutiny; wives and girlfriends of the England football team. Absent-mindedly, she continued to read. She barely glanced at an article titled “How Absence of a Loving Father Can Wreck a Child’s Life.” A few pages later, she came to a photograph of a smiling young man with bouffy brown curls that parted like curtains around his eyes. Even after twenty-five years, she knew the face’s every freckle and line.
She subsequently told a parliamentary committee:

I went into shock. I felt like I couldn’t breathe and I started shaking. I did not even read the story which appeared with the picture. I went inside and phoned my parents. My dad got the paper from their nearest shop and my mum got out the photos of Bob and our son, at the birth and when he was a toddler. They confirmed to me, by comparing photos, it was definitely Bob.

Bob Robinson was Jacqui’s first love and the father of her eldest child. He had disappeared from their lives in 1987, when their son was two. (To protect her son’s privacy, Jacqui asked me not to use her last name.) Over the years, Jacqui had tried many times to track Bob down, but she had never been able to find him. Neither had any of the government agencies she had enlisted to help in the search. Bob had seemingly vaporized. Now there he was, staring back at her from the pages of a tabloid.

Jacqui tried to focus. “An undercover policeman planted a bomb in a department store to prove his commitment to animal rights extremists, an MP claimed yesterday,” the article that the picture accompanied began. “Bob Lambert is accused of leaving an incendiary device in a Debenhams in London—one of three set off in a coordinated attack in 1987.” (No one was hurt in the attacks, which caused millions of dollars’ worth of damage to the stores, targeted because they sold fur products.) It went on to explain that Caroline Lucas, an M.P. for the Green Party, had invoked parliamentary privilege to make the accusation. She was calling for “a far-reaching public inquiry into police infiltrators and informers.” Jacqui read on. The officer, the article said, had insinuated himself into animal-rights groups in the nineteen-eighties, creating an alter ego under which, for several years, he led a double life. Bob Robinson was Bob Lambert, and Bob Lambert was a spy.

O artigo completo está aqui.

As suspeitas de um “ex-espião aborrecido”

O Diário de Notícias faz hoje manchete com a notícia de que o Manual de Procedimentos do Serviço de Informações e Segurança (SIS) recomenda aos espiões que acedam a bases de dados protegidas por lei para obterem informações sobre alvos ou eventuais fontes. Essa recomendação consta da secção do manual dedicada aos procedimentos de pesquisa humana cuja digitalização anda a circular como anexo de um email de um alegado antigo operacional dos serviços secretos que se diz “aborrecido” com a forma como os serviços têm vindo a ser tratados.

Para além da relevância noticiosa sobre a forma como os espiões actuam, o interessante aqui é que esse documento poderia ser utilizado como defesa por parte dos envolvidos no chamado caso das secretas (em que Jorge Silva Carvalho e um antigo director operacional foram acusados de, entre outros crimes, abuso de poder, pelo acesso indevido aos registos telefónicos do jornalista Nuno Simas). Ou seja: em tribunal, se o documento fosse desclassificado, como foi pedido, os arguidos poderiam argumentar que agiram com a cobertura do manual de procedimentos dos serviços. Será que o vão fazer?

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No email, com o argumento de que assim terá credibilidade, o suposto ex-espião anexa um documento PDF com aquela parte específica do manual. Além disso, coloca uma série de questões e faz várias acusações relacionadas com a actividades dos serviços e dos seus responsáveis. Algumas conhecidas, umas restritas, outras realmente novas. A maioria delas, se forem provadas, são graves. Muito. É este o email que pelos vistos já não é assim tão restrito e do qual retirei uma questão que se referia a duas pessoas em concreto.

“Sou um cidadão aborrecido com a forma como alguns ‘agentes políticos’, magistrados, jornalistas, comentadores e outros cidadãos têm vindo a tratar quer os Serviços de Informação nacionais, quer todos quantos ali trabalham.

Mas sou também, eu próprio, um ex-Oficial de Informações que após bastantes anos ao serviço do meu País não posso continuar a tolerar a forma como políticos em geral e a hierarquia superior dos Serviços de Informação Portugueses, em particular, parecem apenas interessados em sacudir a água do capote e a protegerem-se a si próprios e não quem deveria ser protegido.

Por esse motivo, consciente do que faço, resolvi escrever e enviar esta pequena carta aberta, com algumas questões que espero ver respondidas em breve e devidamente investigadas pelos nossos jornalistas e pela Justiça, caso esta ainda funcione.

Antes de mais, precisamos não esquecer o seguinte:

O Oficial de Informações é ensinado/treinado para

>   – mentir
>   – falsificar e usar documentos de todos os tipos
>   – manipular pessoas
>   – criar empresas para cobertura das atividades que é suposto executar (nomeadamente de consultoria e media)

Um Oficial de Informações que não seja capaz de fazer, entre outras coisas, o que acima se refere é um mau Oficial de Informações sem expectativas de progressão ou será um ex-Oficial de Informações, quer porque se demita, quer porque seja exonerado.

Tendo esclarecido esta questão prévia que parece ter sido esquecida por todos os “especialistas” que tenho lido e ouvido pronunciar-se sobre matérias relativas a Serviços de Informação, para os quais um Oficial de Informações deve ser um anjinho a quem apenas faltam as asas e a auréola, passemos a assuntos mais relevantes.

Os Oficiais de Informação portugueses foram todos, de uma forma ou outra, treinados pelos Serviços de países amigos tais como os EUA, UK, Alemanha, Espanha ou Israel.

TODOS os Oficiais de Informação portugueses com mais de 15 anos de serviço passaram largas temporadas nos países mencionados a serem formados.

Segue agora a tal série de questões que gostaria de ver respondidas e investigadas por quem tem capacidade e legitimidade para tal:

– o que sucedeu a um relatório bastante detalhado (SWOT) sobre o BPN, elaborado pelos Serviços de Informação e entregue (presumo) a Durão Barroso quando este era Primeiro-Ministro e estava V. Constâncio à frente do Banco de Portugal?

– quem autoriza as operações contra individualidades estrangeiras em território nacional (TN), violando a sua privacidade (e por vezes imunidade), através da entrada não autorizada em quartos de hotéis e da instalação de meios técnicos, para recolha de áudio e vídeo, com violação de cofres e acesso a equipamento informático ali deixado?

– quem autoriza que cidadãos cumpridores e sobre os quais não recai qualquer suspeita da prática de crimes, possam ser “rotinados” (seguidos, filmados, fotografados e controlados 24 horas por dia) por vezes durante semanas, apenas porque desempenham uma actividade ou ocupam um cargo (numa empresa ou na função pública) que pode ter interesse ou utilidade para os Serviços, sendo o único objetivo destas acções arranjar formas de tornar o dito cidadão cumpridor numa fonte?

– Sr. Secretário-Geral do SIRP, já esclareceu as dúvidas de Belém, relativas a violação da privacidade (nomeadamente de sistemas informáticos) da Presidência da República?

– quem autoriza os pagamentos a fontes que desempenham funções públicas e que, devido ao cargo, possuem informações relevantes com interesse para os Serviços? Estou a referir-me a funcionários das Finanças, da Polícia Judiciária, da PSP, da GNR e, também, a alguns magistrados (no que a estes últimos se refere, sob a forma de prendas que podem ir de viagens de férias a uma garrafa de champanhe no período de Natal?)

– e quem autoriza os pagamentos a jornalistas? E os senhores jornalistas, não gostariam de saber quem, de entre eles, recebe um, não negligenciável, complemento salarial todos os meses?

– […]

– quem autoriza a colocação de meios técnicos e humanos dos Serviços de Informação ao serviço das policias nomeadamente GNR, PSP e SEF? Falo, em especial, da colocação de câmaras miniatura em locais públicos para identificação e controle de “alvos” daquelas polícias.

– quem autoriza os Serviços de Informação a utilizarem uma(?) viatura com equipamento de intercepção de comunicações móveis a qual, tanto quanto sei, pertence a um prestigiado órgão de investigação criminal que “só procede a intercepção de comunicações judicialmente autorizadas”? E quem autoriza que o funcionário daquele OPC, responsável pelo referido equipamento, seja tratado como “fonte” e seja pago pelos seus “serviços”?

– quem autorizou a instalação de cavalos-de-Tróia informáticos em sistemas públicos, privados e pertencentes a entidades a quem é devida lealdade institucional, tais como a PJ, GNR e PSP? E para que é necessário este verdadeiro sistema de “pesca de arrasto” e a quem aproveita na realidade? Sr. Secretário-Geral, as equipas responsáveis por estas acções são naturalmente por si nomeadas e o resultado das acções é-lhe entregue. Ou não é?

– quem autorizou as operações técnicas (penetração de sistemas e intercepção de emails e comunicações móveis) a grandes escritórios de advocacia (nomeadamente na Avenida da Liberdade) os quais tratam de dossiers como as grandes privatizações e contam entre os seus clientes nomes de relevo angolanos, chineses e outros?

– como se processam, na realidade, as admissões aos Serviços de Informação e quais os critérios porque se regem, uma vez que olhando para os nomes de quem é admitido nos anos mais recentes, parece estarmos a olhar para uma lista de “quem é quem” de filhos, irmãos, enteados, ex-maridos e mulheres de pessoas ligadas às magistraturas, à política e à defesa?

– como, porquê, e exatamente para quê, foi contratado e nomeado Director de Área do SIS, um ex-funcionário da Europol (e inspector da PJ) que era naquela agência responsável por um departamento designado “IM21 Special Projects”? O que o fez aceitar vir para Portugal ganhar 1/4 do que auferia anteriormente? Porque foi ele o único dos envolvidos no chamado caso do “Super-Espião” a nunca ser ouvido – nem como testemunha – pelo Ministério Público?

– o que sucedeu, na realidade, para os dois funcionários do SIED, exonerados daquele Serviço na sequência do caso “Super-Espião”, (por falta de lealdade e violação de segredo de estado?) estarem agora a trabalhar na PJ, exatamente na unidade responsável pelo chamado “wet work”? Como pode alguém ser considerado como indigno de confiança para trabalhar nos Serviços de Informação e, por outro lado, ser confiável para trabalhar num dos locais mais sensíveis da PJ?

– e, finalmente, Sr. Secretário-Geral já apareceu o disco duro que estava no computador de um destes dois indivíduos atrás referidos? E sabe que existem cópias desse disco duro?

– e o que fizeram e fazem as diversas personalidades nomeadas para fiscalizar os Serviços? Almoçam e bebem um Porto de honra cada vez que visitam as sedes dos Serviços? É que eu nunca vi nenhum desses senhores enquanto ali trabalhei… Mas recentemente foi ouvi-los a debitar os seus vastos conhecimentos para canais de televisão e jornais, sobretudo durante o caso do chamado “Super-Esião”…

Para atestar que sou quem digo ser, segue em anexo um documento de doze páginas (das quais apenas 11 são relevantes) contendo o índice do chamado “Manual de Procedimentos” do SIS, em vigor desde 2006, bem como alguns excertos com eventual interesse. Penso que ajudarão, aqueles que ainda são suficientemente ingénuos para não saberem o que realmente faz um SI e o que é esperado (e ensinado) aos seus homens e mulheres.

A primeira página será entendida apenas por uns poucos (mas bons).

Esta carta irá ser enviada para toda a imprensa portuguesa e para o Ministério Público, por forma a que as questões não se desvaneçam no ar, como é hábito.

Um Ex-OI Aborrecido e Desiludido”

Leitura para o fim-de-semana: os espiões amadores que batem aos pontos os profissionais

Cerca de três mil pessoas espalhadas pelo mundo fazem parto do The Good Judgment Project. O que fazem? Através de pesquisas na internet dedicam-se a fazer previsões geopolíticas e geoestratégicas sobre os acontecimentos mundiais. E, de acordo com este artigo da NPR, são tão bons ou melhores do que os profissionais com acesso a informação classificada.

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The morning I met Elaine Rich, she was sitting at the kitchen table of her small town home in suburban Maryland trying to estimate refugee flows in Syria.

It wasn’t the only question she was considering; there were others:

Will North Korea launch a new multistage missile before May 10, 2014?

Will Russian armed forces enter Kharkiv, Ukraine, by May 10? Rich’s answers to these questions would eventually be evaluated by the intelligence community, but she didn’t feel much pressure because this wasn’t her full-time gig.

“I’m just a pharmacist,” she said. “Nobody cares about me, nobody knows my name, I don’t have a professional reputation at stake. And it’s this anonymity which actually gives me freedom to make true forecasts.”

Rich does make true forecasts; she is curiously good at predicting future world events.

Better Than The Pros

For the past three years, Rich and 3,000 other average people have been quietly making probability estimates about everything from Venezuelan gas subsidies to North Korean politics as part of the Good Judgment Project, an experiment put together by three well-known psychologists and some people inside the intelligence community.

According to one report, the predictions made by the Good Judgment Project are often better even than intelligence analysts with access to classified information, and many of the people involved in the project have been astonished by its success at making accurate predictions.

When Rich, who is in her 60s, first heard about the experiment, she didn’t think she would be especially good at predicting world events. She didn’t know a lot about international affairs, and she hadn’t taken much math in school.

But she signed up, got a little training in how to estimate probabilities from the people running the program, and then was given access to a website that listed dozens of carefully worded questions on events of interest to the intelligence community, along with a place for her to enter her numerical estimate of their likelihood.

“The first two years I did this, all you do is choose numbers,” she told me. “You don’t have to say anything about what you’re thinking, you don’t have to justify your numbers. You just choose numbers and then see how your numbers work out.”

Rich’s numbers worked out incredibly well.

She’s in the top 1 percent of the 3,000 forecasters now involved in the experiment, which means she has been classified as a superforecaster, someone who is extremely accurate when predicting stuff like:

Will there be a significant attack on Israeli territory before May 10, 2014?

The Superforecasters

In fact, she’s so good she’s been put on a special team with other superforecasters whose predictions are reportedly 30 percent better than intelligence officers with access to actual classified information.

Rich and her teammates are that good even though all the information they use to make their predictions is available to anyone with access to the Internet.

When I asked if she goes to obscure Internet sources, she shook her head no.

“Usually I just do a Google search,” she said.

And that raises this question:

How is it possible that a group of average citizens doing Google searches in their suburban town homes can outpredict members of the United States intelligence community with access to classified information?

How can that be?”

O artigo completo está aqui. 

A luta contra a vigilância da NSA