Al-Baghdadi e a destruição da mesquita de Mossul

Não. Abu Bakr Al Baghdadi não proclamou a existência do “Califado” na mesquita de Al-Nuri, em Mossul, em Julho de 2014. Essa proclamação foi feita cinco dias antes, a 29 de Junho de 2014, pelo então porta voz do Estado Islâmico, Abu Muhammad Al-Adnani. Numa mensagem intitulada “Esta é a promessa de Alá”, traduzida para várias linguas e difundida na internet, foi Al-Adnani quem anunciou pela primeira vez a decisão do grupo terrorista de proclamar a existência do califado.

A 4 de Julho, Abu Bakr Al-Baghdadi apareceu na mesquita central de Mossul não para proclamar o Califado mas sim para dar o seu primeiro sermão como “Califa Ibrahim”. Nessa aparição pública – a única conhecida – Baghdadi usou a maior parte do tempo para apelar à hijra, a migração dos muçulmanos para o califado, que disse ser obrigatória. Apelou, sobretudo, à migração de quadros qualificados: professores, juízes, médicos, engenheiros, militares e pessoal com experiência em serviços e administração pública.

Abu-Bakr-al-Baghdadi.png

Estado Islâmico reivindica atentado em Manchester

Demorou poucas horas: o autoproclamado Estado Islâmico acabou de reivindicar o atentado terrorista em Manchester. Ao contrário dos últimos ataques, o grupo terrorista fê-lo através do seu órgão de comunicação central e não através da mais conhecida Agência Amaq – o que poderá indicar que foi um atentado conduzido e não apenas “inspirado”. Para além disso, a reivindicação refere terem sido colocados vários engenhos explosivos por um “soldado do califado” e não refere qualquer bombista suicida. O ataque é também justificado pelas “agressões” aos muçulmanos. A reivindicação foi primeiro publicada em árabe e logo depois em inglês. resta saber se irá ser divulgado em breve algum vídeo do autor a jurar fidelidade a Abu Bakr al-Baghdadi.

Mitos sobre os atentados do Estado Islâmico na Europa

Publicado originalmente aqui.

“O Estado Islâmico reivindica tudo e mais alguma coisa”
Nem por isso. Por norma, o autoproclamado Estado Islâmico (EI) reivindica apenas aqueles atentados com os quais teve algum tipo de ligação, por mais ténue que seja. Normalmente acaba por apresentar provas: geralmente um vídeo dos autores dos atentados a declarar a sua fidelidade a Abu Bakr al-Baghdadi. Foi assim, por exemplo, com Anis Amri, o autor do ataque ao mercado de Natal, em Berlim, ou com os dois terroristas que, em Julho de 2016, degolaram um padre no norte de França. Até agora não foi divulgado qualquer vídeo do género relacionado com o atentado desta quarta-feira, em Londres. Se tal vier a acontecer, poderemos distinguir entre um ataque “inspirado” e um ataque “dirigido”, mesmo que à distância.

fc8eb875-5d35-44b4-ad99-92063e8d0aed

“Estes tipos são uns amadores”
Não importa. A maioria dos atentados ocorridos nos últimos anos na Europa foi realizada por terroristas que nunca estiveram na Síria ou no Iraque mas que se prepararam através da internet. Como tal, não têm a mesma eficácia do grupo que, por exemplo, em Novembro de 2015 realizou os atentados de Paris. No entanto, quase sempre os autores receberam instruções sobre como agir do chamado serviço de informações externo do EI: a Amn al-Kharji. Um relatório da Henry Jackson Society, divulgado esta semana, conclui que 75% dos 148 atentados realizados na Europa e nos Estados Unidos entre 2002 e 2016 foram de alguma forma dirigidos por responsáveis ou intermediários do EI. Apenas 15% (22 ataques) foram cometidos pelos chamados lobos solitários.

“Esta é uma nova realidade”
Nem por isso. Em Setembro de 2014, o então porta-voz do EI, Abu Muhammad Al-Adnani, num discurso áudio partilhado na internet, já apelava a ataques indiscriminados contra cidadãos ocidentais. Pedia-o de uma forma bastante explicita:

“Se não forem capazes de encontrar um EEI [Engenho Explosivo Improvisado] ou uma bala, então ataquem os infiéis directamente – sejam americanos, franceses ou qualquer dos seus aliados. Esmaguem a cabeça [dos infiéis] com uma pedra, cortem-lhes a garganta com uma faca, ou atropelem-nos com o vosso carro, ou atirem-nos de um lugar alto, ou sufoquem-nos ou envenenem-nos. (…) Se não forem capazes de fazer isso, então incendeiem as suas casas, carros ou negócios. Ou destruam as suas colheitas. Se não forem capazes de fazer isso, então [pelo menos] cuspam na sua face.”
A ideia geral era a de que era dever de todos os muçulmanos fazerem a hijra (migração) para o Califado. Todos aqueles que não fossem capazes de o fazer deviam atacar os ocidentais onde quer que estivessem. Desde então que este apelo é repetido incessantemente, seja em discursos, seja nas publicações oficiais do EI.

“A maioria dos terroristas vieram da Síria”
Nem por isso. Pelo contrário. A maioria nasceu na Europa. Khalid Masood, o responsável pelo atentado de Londres, é apenas o último exemplo. Junta-se aos autores dos atentados terroristas de Londres, em 2005; ao responsável pelo ataque ao museu judaico de Bruxelas, em Maio de 2014; ao homem que decapitou o patrão em Saint-Quentin-Fallavier, perto de Lyon, em Junho de 2015; à dupla que degolou o padre da igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, na Normandia, em Julho de 2016; ao assassino de um casal de polícias na véspera do Euro 2016, nos arredores de Paris; aos responsáveis pelo ataque ao Charlie Hebdo e ao Hiper Cashier, em Paris, em Janeiro de 2015; aos autores dos atentados ao Bataclan, ao Stade de France e a dois cafés de Paris, em Novembro de 2015; e aos suicidas que levaram a cabo os atentados no aeroporto de Bruxelas e na estação de Maalbeek, em Março de 2016.“As polícias e os serviços de informações falharam”
Nem por isso. É fácil apontar o dedo a uma instituição quando algo falha. Sobretudo quando é divulgado que o responsável por um ataque era “conhecido das autoridades”. No entanto, se mais de cinco mil cidadãos ocidentais viajaram para a Síria e para o Iraque, muitos outros ficaram nos países de origem. Seja como apoiantes, seja como voluntários para realizar atentados futuros. É impossível às forças de segurança seguir todos os potenciais suspeitos 24h por dia. Fazê-lo implicaria ter uma equipa de 20 agentes permanentemente dedicada a apenas uma pessoa (com seguimentos físicos e monitorização telefónica e electrónica). A perspectiva é a oposta: com tantos apoiantes, o surpreendente é que não haja mais atentados – e aqui o mérito é das polícias e dos serviços de informações.

“Os terroristas são uns desgraçados com problemas mentais”
É duvidoso. A grande dificuldade do combate à radicalização é que não existe um perfil de um terrorista. Qualquer um pode ser aliciado. Seja um estudante universitário, um adolescente, um desempregado ou um médico. Existem todo o tipo de casos e os mais variados motivos para alguém decidir tornar-se um terrorista. No entanto, existem alguns indícios. Há estudos que indicam que existe uma relação entre a radicalização e o crime. Mais que isso: jovens com problemas com a lei são muitas vezes os alvos preferidos das redes jihadistas que lhes apresentam a radicalização como uma oportunidade de redenção. Nos últimos anos as prisões tornaram-se, com sucesso, autênticos pontos de recrutamento.

“A capacidade de propaganda do Estado Islâmico diminuiu”.
Nem por isso. Apesar de as redes sociais como o Twitter e o Facebook terem encerrado milhares de contas de jihadistas e apoiantes do EI nos últimos anos, elas continuam a surgir. Mais do que isso, os terroristas direccionaram a sua actividade para canais encriptados no Telegram. É aí que as organizações oficiais do grupo terrorista continuam a fazer as reivindicações, a divulgar vídeos de propaganda e é também aí que os apoiantes do EI partilham imagens a apelar a novos atentados. Se dúvidas houvesse em relação à vitalidade mediática do grupo, o atentado de ontem em Londres voltou a recordar que ela está para durar.

Estado Islâmico reivindica atentado de Londres

O autoproclamado Estado Islâmico acabou de reivindicar o atentado em Londres. Como de costume, a reivindicação foi feita através dos canais encriptados do grupo no Telegram. A fórmula é também a habitual: “uma fonte disse à agência Amaq que um soldado do Estado Islâmico efectuou um ataque, ontem, em frente ao parlamento britânico”.

Tal como foi feito em ocasiões anteriores, essa reivindicação foi feita em várias linguas. Aqui em inglês, francês, alemão e italiano.

fc8eb875-5d35-44b4-ad99-92063e8d0aed.jpg

a4f32b40-02c3-4182-a19e-5e7521e5968b.jpg

7f488a9b-ec30-493c-8b06-310059814c2e.jpg

007f2811-7415-4284-a499-ced9228cf100.jpg

Agora, a grande questão é: irá o Estado Islâmico divulgar uma mensagem em vídeo do atacante a declarar a sua fidelidade a Abu Bakr al-Baghdadi tal como aconteceu depois do ataque em Berlim?

 

O Estado Islâmico realizou 90 atentados suicidas em Janeiro

A Agência Amaq, o órgão de comunicação oficial do autoproclamado Estado Islâmico, divulgou nos canais encriptados do Telegram uma nova infografia com o resumo dos atentados suicidas realizados no Iraque e na Síria em Janeiro de 2017. Ao todo foram 90 ataques, a maioria através de veículos carregados de explosivos dirigidos em grande parte às forças iraquianas e curdas que tentam reconquistar Mossul.

iraque-e-siria-janeiro

Schiiiuuuu, não digam nada a Donald Trump…

Adel Kermiche e Abdel Malik Petitjean; Larossi Abballa; Ibrahim El Bakraoui, Najm al-‘Ashrāwī, Mohamed Abrini, Khālid al-Bakrāwī e Osama Krayem; Abdelhamid Abaaoud, Mohamed Abrini, Samy Amimour,  Salah Abdeslam, Brahim Abdeslam, Ismael Omar Mostefai, Samy Amimour,Foued Mohamed-Aggad; Amedy Coulibaly, Chérif Kouachi, Saïd Kouachi; Yassin Salhi; Mehdi Nemouche; Mohammad Sidique Khan, Shehzad Tanweer, Germaine Lindsay e Hasib Hussain.

Estes são os nomes dos autores dos atentados terroristas na Europa entre 2005 e 2016. Entre eles estão os dois jovens que degolaram o padre da igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, na Normandia, em Julho de 2016; o homem que matou um casal de polícias na véspera do Euro 2016, nos arredores de Paris; os responsáveis pelo ataque ao Charlie Hebdo e ao Hiper Cashier, em Paris, em Janeiro de 2015; os autores dos atentados à sala de espectáculos Bataclan, ao Stade de France e a vários cafés de Paris, em Novembro de 2015;  os suicidas que levaram a cabo os atentados no aeroporto de Bruxelas e na estação de metro de Maalbeek, em Março de 2016; o homem que decapitou o patrão em  Saint-Quentin-Fallavier, perto de Lyon, em Junho de 2015; o autor do atentado no museu judaico de Bruxelas, em Maio de 2014; os responsáveis pelos atentados terroristas de Londres, em Julho de 2005.

As suas acções provocaram centenas de mortos no Reino Unido, na França e na Bélgica. Para além de agirem em nome de grupos terroristas como o auto-proclamado Estado Islâmico ou a Al Qaeda, unia-os um detalhe: eram (ou são) todos cidadãos europeus, nacionais do Reino Unido, Bélgica, França e Suécia.

É bom que ninguém diga nada disto a Donald Trump. Caso contrário, em breve, poderemos ser proibidos de entrar nos Estados Unidos.

o_muro-1

A ilustração é do Vasco Gargalo.

Estado Islâmico divulga novo número da revista Rumiyah

Publicação acaba de ser divulgada nos canais encriptados do grupo terrorista do Telegram e inclui um artigo sobre como elaborar cocktail molotov e utilizar o fogo posto como arma. Responsável pelo ataque de Berlim é dado como um exemplo a seguir.

rumiyah

Estado Islâmico realizou 107 atentados suicidas em Dezembro

A agência noticiosa do autoproclamado Estado Islâmico divulgou uma infografia com o número de atentados suicidas realizados em Dezembro de 2016, no Iraque e na Síria. De acordo com a Amaq, o principal alvo destes ataques foram as forças iraquianas que tentam reconquistar Mossul.

photo1143846136087426911.jpg

 

Batalha por Mossul: semana nove

A Amaq divulgou uma nova infografia com o resumo da última semana de combates em Mossul.

852111902_42457

A batalha (esquecida) por Mossul

Com as atenções centradas em Aleppo e agora em Ancara e Berlim, o mundo parece ter esquecido a batalha que até há bem pouco tempo era considerada decisiva e seguida com grande atenção e expectativa: a operação para a reconquista de Mossul ao auto-proclamado Estado Islâmico. Se nos primeiros dias e semanas era habitual ver repórteres dos grandes jornais e televisões na linha da frente (inclundo o português José Manuel Rosendo, da Antena1), à medida que o tempo passou e os avanços se tornaram mais lentos do que o esperado, deixámos de ter grande informação sobre o que se passava no terreno.

Uma reportagem recente do The New York Times sobre o avanço das forças iraquianas começava assim:

“After two months, the battle to retake the Iraqi city of Mosul from the Islamic State has settled into a grinding war of attrition. The front lines have barely budged in weeks. Casualties of Iraqi security forces are so high that American commanders heading the United States-led air campaign worry that they are unsustainable. Civilians are being killed or injured by Islamic State snipers and growing numbers of suicide bombers.

As the world watches the horrors unfolding in Aleppo, Syria, where government forces and allied militias bombed civilians and carried out summary executions as they retook the last rebel-held areas, a different tragedy is transpiring in Mosul. Up to one million people are trapped inside the city, running low on food and drinking water and facing the worsening cruelty of Islamic State fighters.”

As tropas iraquianas encontraram obstáculos já esperados, mas numa dimensão que nunca imaginaram: túneis escavados ao longo dos últimos dois anos que permitem aos jihadistas aparecer e desaparecer num piscar de olhos, fábricas de bombas sofisticadas, toneladas de explosivos prontos a serem usados, minas, snipers e bombistas suicidas – muitos, mesmo muitos.

As baixas entre civis e militares não param de crescer. Se no início de Outubro as autoridades iraquianas agradeciam e apreciavam a companhia de jornalistas, a presença de repórteres na frente de combate foi, na maioria dos casos, proibida. Obter e verificar notícias tornou-se cada vez mais complicado.

Do outro lado, o autoproclamado Estado Islâmico continua a divulgar periodicamente estatísticas do que acontece no campo de batalha através dos canais oficiais e afiliados de propaganda do grupo na aplicação encriptada Telegram. Inicialmente, estas actualizações eram diárias e detalhadas: revelavam o número de bombistas suicidas (mártires), ataques com morteiros, veículos destruídos, mortes entre as forças iraquianas, e resultados dos bombardeamentos da coligação ocidental.

Com os passar dos dias e o prolongar dos combates, essas actualizações tornaram-se semanais.

Mais recentemente, o EI passou a fazer também actualizações mensais do que, alegadamente, se passará no terreno:

mossul-mes1mossul-mes2

Apesar de não ser possível confirmar a veracidade destes números, tudo aponta para que as baixas entre as tropas iraquianas sejam, realmente, enormes e talvez incomportáveis. A acreditar nas infografias divulgadas através da Amaq, a agencia noticiosa do grupo terrorista, as tropas iraquianas terão perdido quase cinco mil homens. Uma boa parte delas terão sido vítimas de uma das mais aterradoras armas do EI: os bombistas suicidas. Em dois meses, os jihadistas terão recorrido a 215 “mártires” na defesa de Mossul, o que dá uma média de um pouco mais de três por dia. Uma batalha “esquecida”, mas que durará ainda bastante tempo.

Uma reivindicação padrão

Ontem ao fim da tarde o autoproclamado Estado Islâmico reivindicou a autoria do atentado em Berlim. Primeiro em árabe:

c0jis2twqaeym22

Depois em alemão:

803730142_123269_533329842908738925

Foram ainda divulgadas reivindicações em russo e em francês, como é habitual, através dos canais oficiais do grupo terrorista no Telegram. Era previsivel que tal viesse a acontecer.

Tal como em anteriores ocasiões, esta reivindicação do grupo terrorista segue uma fórmula padrão: “uma fonte de segurança da agência Amaq indicou que a operação que teve lugar na cidade de Berlim, na Alemanha, foi realizada por um soldado do Estado Islâmico em resposta aos apelos a ataques nos países da coligação internacional”. Já tinha sido assim em Nice e em Orlando, entre outras. Ou seja, a organização não esteve directamente envolvida no planeamento e execução do ataque. O autor terá sido “inspirado” ou agido de acordo com instruções transmitidas por um elemento com ligações ao grupo.

O que é novo é que esta reivindicação foi feita sem que se saiba quem é o autor do atentado e com o mesmo ainda em fuga. Nas próximas horas poderá haver novidades. Não seria a primeira vez que, após a reivindicação, o EI divulgaria novos dados que provassem que autor e grupo terrorista estariam em contacto, mesmo indirecto.

Actualização (13h35): acabou de ser divulgado o comunicado no canal da Amaq em inglês

852117742_24755_7616458144294739352

Ontem em Berlim. Amanhã noutro lado qualquer

c0ejuhvxuaahscp

Se ainda houvesse dúvidas, os atentados de ontem na Turquia e na Alemanha vêm comprovar a nova realidade com a qual temos de aprender a viver. A grande dúvida já não é se irá ou não acontecer um ataque terrorista na Europa. Para as forças de segurança e serviços de informações – que tentam reduzir esta probabilidade ao máximo – a principal questão é “quando e onde vai ocorrer o próximo atentado?” E isso é praticamente impossível de prever.

Claro que há indícios que estão permanentemente a ser monitorizados. Um exemplo: no final de Novembro, o Departamento de Estado dos EUA alertou os cidadãos americanos para a probabilidade da ocorrência de um atentado terrorista em vários países europeus durante a época natalícia. Entre eles estavam a Turquia, a Bélgica, a França e a Alemanha. As autoridades americanas eram especialmente claras quanto aos potenciais alvos: festivais, eventos e mercados ao ar livre.

Estes ataques poderiam ser realizados por grupos organizados ou por elementos individuais – os chamados lobos solitários – através do recurso a armas convencionais e não convencionais. Se os primeiros poderão mais facilmente ser detectados pelas autoridades, é praticamente impossível prever ou monitorizar alguém que, sozinho, através da internet, decide levar a cabo um atentado terrorista. Foi o que aconteceu este ano em Nice ou em Orlando, por exemplo. Até prova em contrário poderá terá sido o que aconteceu em Berlim.

Na Alemanha, um condutor desconhecido enviou um camião contra as centenas de pessoas que estavam no tradicional mercado de Natal na Breitscheidplatz. Até agora sabe-se que o veículo tem matricula polaca, que estava carregado com vigas de aço, que o condutor foi encontrado morto no banco do pendura e que o ataque vitimou 12 pessoas e feriu quase 50. A polícia prendeu um primeiro suspeito, um refugiado paquistanês que chegou à Alemanha no início do ano, que negou qualquer ligação ao atentado e já foi libertado por falta de provas. As autoridades partem do princípio que o atacante está armado e em fuga. Não se conhecem as suas motivações, nem se agiu em nome individual ou em grupo.

Nas horas seguintes ao atentado, uma das principais preocupações dos órgãos de comunicação era saber quem estaria por detrás do atentado. O autoproclamado Estado Islâmico tornou-se imediatamente o suspeito número um. Pelo menos o The Washington Times e o The Sun atribuiram-lhe mesmo responsabilidades. No entanto, se o diário americano citava o britânico, este último citava militares iraquianos que por sua vez citavam alegados jihadistas. Na verdade, até agora, não houve qualquer reivindicação nos canais oficiais do EI. Pelo contrário. Desde ontem que as diversas contas no Telegram estão particularmente calmas.

Esta ausência de reivindicação não é nova. Por exemplo, após o atentado de Nice, quando o condutor de um camião matou 86 pessoas, o EI levou dois dias a reivindicar o ataque. E fê-lo em termos muito genéricos: atribuiu-o a um “soldado do califado” que respondeu aos “pedidos para atacar cidadãos das nações da coligação que combate o Estado Islâmico”. Ou seja, foi “inspirado”. Um exemplo mais recente: durante o fim-de-semana houve um atentado terrorista na Jordania. O ataque só foi reivindicado pelo EI esta terça-feira.

Existe ainda uma outra possibilidade: a de o EI ignorar sistematicamente os atacantes que sobrevivem ao próprio atentado. O exemplo mais flagrante é Saleh Abdeslam: o único elemento que restou dos atentados de Novembro de 2015 em Paris foi completamente banido das eulogias dedicadas aos restantes “mártires”.

Venha ou não a ser reivindicado, a única coisa que liga o atentado de Berlim ao EI é o padrão: o uso de veículos contra civis, uma das técnicas há muito propagandeadas como mais eficazes pelos jihadistas do EI. Já em 2014 o então porta-voz do EI, Abu Mohamad al Adnani, apelava aos seguidores do grupo que recorressem a carros ou camiões para realizar atentados. Mais recentemente, no terceiro número da revista Rumiyah, divulgado em Novembro em várias páginas encriptadas da internet, o grupo terrorista publicava um artigo que explicava a forma mais eficaz de utilizar um veículo no atentado. O mesmo já tinha sido feito pela revista Inspire, da Al Qaeda, no seu segundo número.

camioes

O texto da Rumiyah começava por realçar que os “mujahedines estacionados atrás das linhas inimigas” têm à sua disposição uma série de armas e técnicas que podem utilizar a qualquer momento e que, ao contrário das facas, por exemplo, os veículos motorizados não “causam suspeitas”. Depois, os autores do artigo explicavam quais os veículos ideais e aqueles a evitar, quais os melhores alvos – locais públicos com grande concentração de pessoas – e que passos preparatórios deveriam ser seguidos. Por fim, declaravam ser importante garantir que o motivo do ataque fosse conhecido – nem que fosse através de um simples papel com a frase “sou um soldado do Estado Islâmico”.

Essa simples menção será suficiente para o grupo terrorista reivindicar a autoria do atentado. Mesmo que não tenha estado envolvido na preparação, considerará que o terrorista respondeu ao apelo contínuo dos líderes da organização desde a proclamação do “califado”, em Junho de 2014: caso não consigam viajar para a Síria, deverão realizar atentados onde quer que estejam. Esta é a nova realidade. Só não se sabe onde nem quando. Haja ou não reivindicação

Heróis Contra o Terror: estão convidados para o lançamento

É já na 5ª feira, 17 de Novembro, na livraria Bertrand do Amoreiras Shopping Center, com o Rui Cardoso Martins e o Macer Gifford. Tem tudo para ser um debate interessante. Apareçam, que estão todos convidados.

Se quiserem seguir as novidades do livro, é só clicar na imagem e fazer like na página de Facebook.

Convite.jpg

Estado Islâmico reivindica ataque em França

A agência noticiosa ligada ao autoproclamado Estado Islâmico reivindicou para o grupo terrorista a responsabilidade pelo ataque na igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, próximo de Rouen, na Normandia. Tal como aconteceu em Orlando, Nice e esta semana na Alemanha a formulação utilizada foi que o atentado foi realizado por “dois soldados do califado”.

A reivindicação original, em árabe bem como a tradução para inglês citam “uma fonte”. A imagem em árabe e em francês contém um erro na data: 25 de Junho.

Depois desta reivindicação/apropriação resta aguardar se surgirá mais algum elemento de prova da ligação do grupo terrorista ao ataque.

A lista de alvos do Estado Islâmico

Um grupo de hackers ligado ao auto-proclamado Estado Islâmico divulgou uma lista com os dados pessoais de mais de 4000 pessoas com o seguinte conselho: “matem-nos”. Entre eles estão sete portugueses. Para ler, esta semana, na Sábado.

SAB - 636-Lisboa

Dois anos de califado

A Amaq Agency divulgou uma infografia a assinalar os dois anos da autoproclamação do califado. Para além de anunciar o controlo de várias áreas em 10 países, diz ter unidades ocultas em outros sete – incluindo a França e a Turquia.

803726777_13453_9561380320449728383.jpg

Atentado de Istambul ainda sem reivindicação

Este é o feed do Telegram da Amaq Agency, o meio de comunicação “oficial” do autoproclamado Estado Islâmico. Foi actualizado pela última vez às 21h58m. Não há, até agora, qualquer referência ao atentado no aeroporto de Istambul.

Untitled

Estado Islâmico com canal no Telegram em espanhol

O autoproclamado Estado Islâmico começou a manter, há algum tempo, um canal no Telegram em castelhano para espalhar propaganda no Ocidente. Estes canais juntam-se a muitos outros em inglês, francês, alemão e russo. Ao longo das últimas semanas, tal como os outros, os canais em espanhol têm sido criados e removidos a pedido das autoridades. No entanto, a organização terrorista tem criado novos veículos de comunicação.

803707475_37676_3528041719170529621

 

803732448_1790_2211947329498759273

O Telegram é uma aplicação informática que permite aos utilizadores trocarem mensagens encriptadas e criar canais abertos a um público ilimitado – desde que estes últimos conheçam os seus endereços.

Jihadi John em Portugal

Foi no Verão de 2011. Mohammed Emwazi ainda não era conhecido pela alcunha que o tornou famoso – Jihadi John – e esteve alguns dias em Lisboa. O The Sunday Times já tinha revelado o seu companheiro de viagem: Tarek Dergoul, um antigo preso em Guantánamo. O que não se sabia – até hoje – era a identidade do homem que eles vieram visitar. Querem saber quem era e o que vieram cá fazer? Está na SÁBADO desta semana.

Segurança

O terror no meio de nós VI

Em resumo: há muito que as autoridades alertam para o risco de atentados na Europa; o auto-proclamado Estado Islâmico (EI) tem inserido nas suas mensagens de propaganda sucessivas ameaças aos países europeus; o conflito com este grupo terrorista já dura há 13 anos; a guerra na Síria tornou-se o maior palco de mobilização de combatentes terroristas estrangeiros desde o fim da II Guerra Mundial; e um número inédito de cidadãos nacionais ou luso-descendentes juntaram-se a uma organização jihadista que tem por fim último a destruição da sociedade ocidental. A pergunta seguinte é: há um risco de atentados em Portugal? A resposta genérica é: “há, como em todos os outros países europeus”. Mas se a questão for mais específica, por exemplo, vão acontecer ataques terroristas em Portugal? A resposta honesta será: “talvez sim, talvez não. Ninguém sabe”.

No fundo, é tudo uma questão de probabilidades. Portugal está inserido no espaço europeu, faz parte da NATO, ocupa um território que integrou o longínquo Al Andalus e participa na coligação internacional que combate o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. É por isso natural que o nosso país esteja entre os alvos potenciais do terrorismo jihadista. É também natural que aqui e ali surjam referências a Portugal nos meios de propaganda oficiais do grupo terrorista (sem contar com afirmações esporádicas dos combatentes portugueses). E não é de agora, ao contrário do que tem sido escrito e dito nos últimos dias.

A primeira vez que tal aconteceu terá sido em Outubro do ano passado, no 11º número da revista Dabiq, num artigo de 10 páginas que comparava a luta de Maomé, em Medina, contra uma aliança entre judeus e tribos árabes à actual situação em que o EI enfrenta uma coligação internacional. De acordo com a crença islâmica, nessa batalha de Al-Ahzab os muçulmanos resistiram a um cerco entre Janeiro e Fevereiro do ano 627 e, apesar de estarem em minoria, saíram vitoriosos. O mesmo, escreveram, acontecerá agora. Em seguida, a revista enumerou os países e organizações empenhados na luta contra o EI – lista onde estava Portugal.

dabiq

Um mês depois, em Novembro de 2015, houve uma nova referência a Portugal, agora num vídeo de propaganda. Divulgado em contas do grupo terrorista no Twitter e no Telegram, alguns dias após os atentados terroristas de Paris, o vídeo foi produzido pelo Al Hayat Media Center – o departamento de comunicação destinado maioritariamente ao público ocidental – tinha a duração de quatro minutos e o título de “No Respite” (Sem tréguas, numa tradução livre).

Apesar de recorrer apenas a animações gráficas e a fotografias – em vez de imagens reais – o vídeo desafia os membros da coligação internacional a lançarem tudo o que tiverem contra o grupo terrorista. É aí que a bandeira portuguesa surge entre as dos 60 países que formam a coligação internacional que enfrenta o EI.

unnamed

A 29 de Janeiro, o EI colocou na internet um novo vídeo em que cinco prisioneiros são acusados no meio de ruínas no norte do Iraque. O único terrorista que fala para a câmara exprime-se em francês e ameaça sobretudo a França – mas também o Al Andalus, Portugal e Espanha. A referência ao nosso país, entre ameaças de novos atentados que farão esquecer o 11 de Setembro e os ataques de Paris e promessas de reconquista da Península Ibérica, é exactamente esta: “tenham paciência por Alá, vocês não são espanhóis nem portugueses, são muçulmanos do Al Andalus”. Apesar de não o confirmarem oficialmente, as autoridades portuguesas acreditam que existe uma forte probabilidade de o homem que surge encapuçado a falar para a câmara é o luso-descendente com passaporte português, Steve Duarte. No entanto, não há certezas. Há probabilidades.

745e96c95fb75251b1f43d091c55b4a48a35c02e

Na passada terça-feira, dia 29 de Março, o jornal norte-americano The Washington Times publicou uma notícia em que afirma que o Estado Islâmico, através do departamento de média Al Wafa, terá feito uma ameaça directa aos Estados Unidos e também a Portugal e à Hungria. A publicação cita um relatório do Middle East Media Research Institute (MEMRI), que se dedica a monitorar as comunicações jihadistas, que especifica que o comunicado do grupo garante que “Hoje foi Bruxelas e o seu aeroporto, amanhã poderá ser Portugal ou a Hungria”. A notícia do The Washington Times foi depois reproduzida na imprensa portuguesa – e húngara – e levou as autoridades a afirmarem que “tinham conhecimento” do caso e que o “estavam a acompanhar” .

Contudo, depois de aceder ao relatório original do MEMRI, pude confirmar que a ameaça não era tão certa. O instituto cita uma série de artigos, em árabe, colocados no Twitter por vários autores que pertencem à citada Al Wafa, que não é um departamento de média do Estado Islâmico mas sim um grupo de apoiantes da organização terrorista. É por isso que o título do relatório especifica: “Apoiantes do ISIS depois dos ataques de Bruxelas: América é a próxima; Londres vai tornar-se uma província do ISIS; a Europa enfrenta um futuro negro”. Talvez isso explique porque mais nenhum país do mundo – além de Portugal e da Hungria – tenha replicado a história. Ou seja, a ameaça não tinha credibilidade. São “vozes” anónimas na internet.

A conta de Twitter onde os textos foram publicados (@alwafa014794755) já não está activa. A maioria dos artigos ameaçava países como os Estados Unidos e o Reino Unido na sequência dos atentados de Bruxelas. Um deles tinha realmente como título a frase “Hoje foi Bruxelas e o seu aeroporto, amanhã poderá ser Portugal ou a Hungria”. No entanto, o texto assinado por um Al-Qurtubi Al-Qurashi, entre elogios aos jihadistas que atacaram Bruxelas, não faz qualquer referência a Portugal. Para os analistas do MEMRI o significado do título é apenas simbólico – o que não impediu o alarmismo generalizado da semana passada.

Apesar de todas estas referências, como dizia, é tudo uma questão de probabilidades. Se o risco de atentados em Portugal existe – é por isso que a ameaça terrorista é alvo de especial atenção por parte das autoridades, como se pode ler no Relatório Anual de Segurança Interna relativo a 2015 – a probabilidade de tal acontecer é incomparavelmente menor do que em outros países europeus, como a França, a Bélgica, o Reino Unido ou a Alemanha.

Em primeiro lugar por uma questão de mediatismo: um ataque em Portugal teria menos impacto do que um atentado numa grande capital europeia. Em segundo, por uma questão de apoio: eventuais células terroristas terão uma maior base de suporte em países onde existe uma grande comunidade islâmica, radicalizada, do que em Portugal, onde a população muçulmana é relativamente pequena e, sobretudo, moderada. Não é por acaso que todos os portugueses que se deslocaram para a Síria se radicalizaram no estrangeiro. Em terceiro, pelos próprios números de combatentes estrangeiros que cada país tem na Síria: a probabilidade de um atentado é maior em países com centenas ou milhares de voluntários jihadistas do que em Estados onde esse numero não ultrapassa as duas dezenas. Para contrariar esta última fragilidade, o Estado Islâmico estará a preparar unidades capazes de realizar ataques em qualquer Estado da Europa. A lógica é simples: será mais difícil às autoridades, por exemplo, portuguesas, detectarem jihadistas cipriotas do que os próprios cidadãos nacionais que estão perfeitamente identificados. Mas isso não muda a questão essencial: é tudo uma questão de probabilidades. E em Portugal, apesar do natural e saudável mediatismo da questão, ela é, até ver, reduzida – mas não pode ser descartada.

Esse é o grande problema do terrorismo: pode acontecer a qualquer altura, em qualquer lugar. As autoridades têm um papel fundamental na redução dos riscos – das probabilidades – mas esse papel cabe-nos também a nós, cidadãos. Tentar compreender um fenómeno que, aparentemente não é compreensível, é apenas o primeiro passo. Os restantes passam por estarmos conscientes de que esta é uma realidade com a qual teremos de viver, provavelmente, durante muito tempo e por tentarmos reduzir os factores de risco que levam alguém a decidir aderir a uma organização terrorista.

Ao longo dos últimos dois anos, falei com muitas pessoas que conheceram os portugueses que se juntaram ao Estado Islâmico ou a grupos como a Jabhat Al Nusra. A maioria, para não dizer todas, reagiu com surpresa ao saber onde estavam aquelas pessoas com quem tinham privado de perto. “Nunca imaginei” foi talvez a expressão mais usada. “Era um tipo tão porreiro” foi outra. Nós não pensamos neles desta forma mas, geralmente, os terroristas  não são indivíduos estranhos, são pessoas como nós. Podem ser os nossos vizinhos, amigos de infância, companheiros de equipa, colegas de escola e universidade, familiares ou apenas conhecidos de uma noite de copos que, por qualquer razão, enveredaram por aquele caminho. E isso é verdadeiramente assustador.

12910835_10153823550799584_620362008_n

ilustração é do Vasco Gargalo