Leitura para o fim-de-semana: uma muçulmana na Casa Branca de Trump

Rumana Ahmed é muçulmana. Os pais imigraram do Bangladesh para os Estados Unidos. Em 2011, acabada de sair da faculdade, esta filha de imigrantes, muçulmana, começou a trabalhar na Casa Branca em 2011. Mais tarde, passou para o Conselho de Segurança Nacional norte-americano. Era a única a usar um hijab. Por opção. Acompanhou, receosa, a campanha eleitoral. Quando a nova administração tomou posse decidiu ficar. Aguentou oito dias. Neste texto, escrito na primeira pessoa, publicado na The Atlantic, explica porquê.

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Leah Varjacques / The Atlantic

 

Schiiiuuuu, não digam nada a Donald Trump…

Adel Kermiche e Abdel Malik Petitjean; Larossi Abballa; Ibrahim El Bakraoui, Najm al-‘Ashrāwī, Mohamed Abrini, Khālid al-Bakrāwī e Osama Krayem; Abdelhamid Abaaoud, Mohamed Abrini, Samy Amimour,  Salah Abdeslam, Brahim Abdeslam, Ismael Omar Mostefai, Samy Amimour,Foued Mohamed-Aggad; Amedy Coulibaly, Chérif Kouachi, Saïd Kouachi; Yassin Salhi; Mehdi Nemouche; Mohammad Sidique Khan, Shehzad Tanweer, Germaine Lindsay e Hasib Hussain.

Estes são os nomes dos autores dos atentados terroristas na Europa entre 2005 e 2016. Entre eles estão os dois jovens que degolaram o padre da igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, na Normandia, em Julho de 2016; o homem que matou um casal de polícias na véspera do Euro 2016, nos arredores de Paris; os responsáveis pelo ataque ao Charlie Hebdo e ao Hiper Cashier, em Paris, em Janeiro de 2015; os autores dos atentados à sala de espectáculos Bataclan, ao Stade de France e a vários cafés de Paris, em Novembro de 2015;  os suicidas que levaram a cabo os atentados no aeroporto de Bruxelas e na estação de metro de Maalbeek, em Março de 2016; o homem que decapitou o patrão em  Saint-Quentin-Fallavier, perto de Lyon, em Junho de 2015; o autor do atentado no museu judaico de Bruxelas, em Maio de 2014; os responsáveis pelos atentados terroristas de Londres, em Julho de 2005.

As suas acções provocaram centenas de mortos no Reino Unido, na França e na Bélgica. Para além de agirem em nome de grupos terroristas como o auto-proclamado Estado Islâmico ou a Al Qaeda, unia-os um detalhe: eram (ou são) todos cidadãos europeus, nacionais do Reino Unido, Bélgica, França e Suécia.

É bom que ninguém diga nada disto a Donald Trump. Caso contrário, em breve, poderemos ser proibidos de entrar nos Estados Unidos.

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A ilustração é do Vasco Gargalo.

A primeira conferência de imprensa de Donald Trump, presidente

A partir do minuto 11.

A América Dividida

Nos últimos meses este tem sido uma espécie de bebé nos bracos: planear, pensar, produzir e executar uma edição especial da Sábado dedicada inteiramente às eleições americanas.

Pelo meio tive o privilegio de passar três semanas em reportagem em quatro Estados norte-americanos (Califórnia, Texas, Mississipi e Virginia Ocidental) com o Alexandre Azevedo. São dele as fantásticas fotografias que fazem desta uma edição única, juntamente com um texto exclusivo do fotógrafo oficial e Obama, Pete de Souza, a estreia de Paulo Portas na análise da actualidade Internacional, entrevistas, perfis e grandes reportagens com apoiantes de Hillary e Trump. Fomos também ao muro que já separa o México dos EUA e entrámos no mundo da Cultura das armas na América.

Isto é só uma pequena amostra do que podem ler a partir deste sábado. Em breve contarei mais. Um trabalho de equipa com o João Carlos Silva e com o Gustavo Sampaio. E sim, esta Sábado sai a um sábado. Leiam e comentem. Ah, e bom sábado!

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O que se passa nos Açores?

Primeiro, os factos: os Estados Unidos reduziram a presença militar nas Lajes, tal como fizeram em muitas outros locais da europa, numa reformulação da presença de tropas americanas no mundo; a redução desse contingente na base das Lajes, teve efeitos directos na economia local; o governo regional e o governo nacional têm toda a legitimidade para procurar alternativas.

Ora, nas últimas semanas, uma delegação de várias dezenas de responsáveis chineses estiver na região a avaliar as possibilidades de investimento. Segundo o congressista americano, Devin Nunes, que escreveu uma carta ao secretário da Defesa dos Estados Unidos sobre o assunto, essas hipóteses centram-se na Base das Lajes e no porto de águas profundas da Praia da Vitória.

Ontem, o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, aterrou na ilha Terceira para uma escala técnica – que dura dois dias  – com a mulher e oito ministros, após um périplo pelo continente americano, que incluiu visitas à sede da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque, Canadá e Cuba. Passaram a noite em Angra, foram a um concerto e, pelo meio, foram recebidos pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva e pelo presidente do governo regional dos Açores, Vasco Cordeiro.

Três dias antes do encontro, o MNE enviou uma informação às redacções a informar que o encontro com o líder chinês se enquadrava na preparação da visita do primeiro-ministro, António Costa, à China, em Outubro. Admito estar enganado, mas a experiência diz-me que, normalmente, esta preparação ocorre ao mesmo nível: director de política externa com director de política externa; secretário de Estado com secretário de Estado; ministro com ministro. Mas claro que podem haver excepções.

Questionados sobre um eventual investimento chinês nos Açores, ou sobre eventuais negociações a decorrer, o MNE e o Governo Regional optaram, deliberadamente, por ignorar as perguntas e remeter-se ao silêncio. Não confirmam, mas também não negam. O que permite deixar a pergunta no ar: o que se está a passar nos Açores, longe de todas as atenções?

Actualização: citado pela agência Xinhua, a agência oficial do governo chinês, Li Keqiang, disse que “Portugal é um bom amigo da China na União Europeia” e que as  relações entre os dois países foram intensificadas nos anos recentes com esforços de ambos os lados. Afirmou também que a China está disponível para “aprofundar a confiança política, aumentar o entendimento mútuo, aumentar a cooperação pragmática, estabelecer uma comunicação civil mais próxima com Portugal e diversificar a parceria estratégica entre os dois países”. O primeiro-ministro chinês disse ainda esperar que os dois lados continuem a “explorar o potencial para cooperar nas áreas da “energia, finança e oceanos”.

Em resposta, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, manifestou o desejo de Portugal aumentar as exportações de produtos agrícolas para a China e também “fortalecer a cooperação com a China nas áreas da energia, infraestruturas de transportes e logística” e, para além disso, cooperar com a China como parceiro em outras regiões como, por exemplo, em África. (sublinhado meu).

Actualização II: O governo negou, oficialmente, qualquer negociação com a China sobre as Lajes.

 

China's Prime Minister Li Keqiang visits Portugal

epa05558268 Chinese Prime-Minister, Li Keqian (2-R), with Azores Regional Government President, Vasco Cordeiro (R), during a visit to Terceira Island, Azores, Portugal, 27 September 2016. Li Keqian is on an official visit to Portugal. EPA/ANTONIO ARAUJO

 

Tudo sobre as eleições americanas

São as eleições mais importantes do mundo. Não podemos votar, mas o que lá acontece influencia as nossas vidas – e o rumo que o mundo irá tomar. As presidenciais norte-americanas merecem ser seguidas com atenção. E agora há um site onde o podem fazer. Está aqui. Vão lá, leiam, comentem e partilhem.

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O terror no meio de nós III

Mas afinal de onde surgiu este grupo que parece ter uma enorme capacidade de iludir forças de segurança e serviços de informações, recursos infindáveis e uma determinação profunda em destruir todo e qualquer modo de vida que não se enquadre nos seus padrões? É uma história longa, com raízes no colonialismo, na divisão artificial de fronteiras feita pelas potências europeias, no apoio a regimes ditatoriais e bombardeamentos ocasionais que espalharam a semente do ressentimento e do ódio ao Ocidente.

Contudo, numa versão reduzida, podemos recuar apenas a 2003 e à invasão do Iraque por parte dos Estados Unidos. A guerra teve como pretexto oficial a posse de armas de destruição massiva por parte de Saddam Hussein e a ligação do ditador iraquiano à Al Qaeda de Bin Landen. Como pretexto oficioso havia a intenção de democratizar o Médio Oriente. Os dois primeiros vieram a provar-se falsos. O último, um desastre. Começou aí um conflito com uma organização que mudou várias vezes de nome até chegar à actual designação: Estado Islâmico.

O grupo nasceu em 1999, no Afeganistão, por iniciativa do jordano Abu Musab al-Zarqawi. Chamou‐se inicialmente Jund al Shaam (o Exército do Levante). Meses depois, o seu nome mudou para Jama’at al-Tawid wa al-Jihad (Organização para o Monoteísmo e Jihad), ou apenas Tawid wa al-Jihad (Monoteísmo e Jihad). O Monoteísmo é a crença fundamental em Alá como o único e verdadeiro Deus. A Jihad, a forma de estabelecer na terra a sua lei: a Sharia. Era então apenas um campo de treino, que teve um financiamento inicial da Al Qaeda. Nesses anos, Osama Bin Laden chamou al-Zarqawi a Kandahar cinco vezes para o convencer a prestar um juramento de fidelidade, um bayat. Em todas elas, o jordano recusou.

Após o 11 de Setembro, quando os Estados Unidos invadiram o Afeganistão, al-Zarqawi lutou pela primeira vez ao lado dos Taliban e da Al Qaeda. No final de 2001 fugiu pela fronteira com o Irão juntamente com 300 homens. Acabou por estabelecer uma base no Iraque. Ninguém sabia quem ele era. Nem tinha feito nada que justificasse que o mundo conhecesse o seu nome. Mas, a 5 de Fevereiro de 2003, o então secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, indicou-o como o elo de ligação entre o regime de Saddam Hussein e a Al Qaeda para justificar a necessidade de uma invasão do Iraque.

A base de al-Zarqawi em Suleymaniya tornou-se um alvo dos bombardeamentos norte-americanos. O grupo retaliou com uma série de atentados terroristas indiscriminados. E no final de 2004, por necessidade de apoio, aceitou fazer aquilo que tinha até então recusado: jurar fidelidade a Bin Laden e à Al Qaeda. O grupo passou então a designar-se Al Qaeda do Iraque. Apesar disso, os dois grupos tinham visões divergentes para o mesmo objectivo: a instauração de um Califado Islâmico. Enquanto a Al Qaeda via esse objectivo como sendo de longo prazo, um resultado da iniciativa popular e do cansaço do Ocidente, Zarqawi pretendia alcançá-lo no imediato através de uma política de caos e violência sectária e indiscriminada que iria colocar a população sunita do seu lado. Foi ele que iniciou a onda de decapitações de reféns ocidentais em frente às câmaras.

Em 2006, numa tentativa de coordenar a resistência iraquiana, a Al Qaeda do Iraque fundiu-se com cinco outros grupos. Formaram então o Majlis Shura al Mujahidin (Conselho Shura Mujahideen). Al-Zarqawi morreu seis meses depois. E, em Outubro desse ano, a organização anunciou a criação de um novo grupo: al-Dawla al-Islamiya fi Iraq, o Estado Islâmico do Iraque. Tinha como líder, Abu Omar al‐Baghdadi. Mas por uma questão de comodidade e de percepção do público em geral, os meios de comunicação ocidentais continuaram a referir-se-lhe apenas como Al Qaeda do Iraque. Remonta a esta época a separação entre o Estado Islâmico do Iraque e a Al Qaeda: não se conhece um juramento de fidelidade de al-Baghdadi a Bin Laden.

Em Maio de 2010, Abu Bakr al-Baghdadi assumiu a liderança do então Estado Islâmico do Iraque. A organização estava à beira da derrota. Mas o novo líder iniciou uma campanha de atentados suicidas e ataques a prisões que libertaram milhares dos seus membros e conseguiu recuperar o poder do grupo. A guerra civil na Síria deu-lhe depois a base que necessitava para lançar uma nova ofensiva. Em 2011 enviou um grupo de combatentes para a Síria para criar uma organização subordinada do outro lado da fronteira. Esse grupo viria a ser a Jabhat al Nusra. Dois anos depois, Baghdadi decidiu assumir a liderança de ambas as entidades e anunciou a criação do Estado Islâmico do Iraque e da Síria. Quando o líder da Jabhat al Nutra recusou e anunciou a sua fidelidade à Al Qaeda, iniciou-se um conflito entre os dois grupos que levou mais tarde o sucessor de Bin Laden a declarar que o Estado Islâmico do Iraque e da Síria não estava às suas ordens.

No Verão de 2014, após uma série de vitórias na Síria, os jihadistas de al-Baghdadi avançaram pelo norte do Iraque e conquistaram Mossul. O grupo anunciou então que tinha derrubado as “fronteiras de Sykes-Picot” entre o Iraque e a Síria e que passaria então a ser conhecido apenas como Estado Islâmico. Um Califado. Em poucos anos,  a organização tinha passado de um grupo terrorista, a uma entidade que controlava um enorme território, recursos naturais e financeiros, um exército e que assumia funções de um Estado tradicional, embora não reconhecido por ninguém.

Passaram quase dois anos. No fundo, há 13 anos que os Estados Unidos e o mundo Ocidental estão em guerra com uma única organização que assumiu várias designações antes da actual – e que começou agora a lançar ataques na Europa. Importa recordar: a Primeira Guerra Mundial durou quatro anos e a Segunda Guerra Mundial durou seis.

(Continua)

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Ilustração do Vasco Gargalo.

O terror no meio de nós II

O terror no meio de nós