Será Angela Merkel a líder de uma nova Europa?

“One of the key purposes of NATO was to embed Germany in an international framework that would prevent it from becoming a threat to European peace as it had been in World War I and World War II. In the words of NATO’s first secretary general, NATO was supposed “to keep the Russians out, the Americans in, and the Germans down.” Now, Merkel is suggesting that the Americans aren’t really in, and, by extension, Germany and Europe are likely to take on a much more substantial and independent role than they have in the past 70 years.” 

A análise do The Washington Post ao discurso em que a chanceler alemã diz que a era em que podiamos confiar nos aliados terminou.

Bundeskanzlerin_Angela_Merkel_bei_einer_Wahlkampfveranstaltung_2013

 

Leitura para o fim-de-semana: uma muçulmana na Casa Branca de Trump

Rumana Ahmed é muçulmana. Os pais imigraram do Bangladesh para os Estados Unidos. Em 2011, acabada de sair da faculdade, esta filha de imigrantes, muçulmana, começou a trabalhar na Casa Branca em 2011. Mais tarde, passou para o Conselho de Segurança Nacional norte-americano. Era a única a usar um hijab. Por opção. Acompanhou, receosa, a campanha eleitoral. Quando a nova administração tomou posse decidiu ficar. Aguentou oito dias. Neste texto, escrito na primeira pessoa, publicado na The Atlantic, explica porquê.

lead_960

Leah Varjacques / The Atlantic

 

Schiiiuuuu, não digam nada a Donald Trump…

Adel Kermiche e Abdel Malik Petitjean; Larossi Abballa; Ibrahim El Bakraoui, Najm al-‘Ashrāwī, Mohamed Abrini, Khālid al-Bakrāwī e Osama Krayem; Abdelhamid Abaaoud, Mohamed Abrini, Samy Amimour,  Salah Abdeslam, Brahim Abdeslam, Ismael Omar Mostefai, Samy Amimour,Foued Mohamed-Aggad; Amedy Coulibaly, Chérif Kouachi, Saïd Kouachi; Yassin Salhi; Mehdi Nemouche; Mohammad Sidique Khan, Shehzad Tanweer, Germaine Lindsay e Hasib Hussain.

Estes são os nomes dos autores dos atentados terroristas na Europa entre 2005 e 2016. Entre eles estão os dois jovens que degolaram o padre da igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, na Normandia, em Julho de 2016; o homem que matou um casal de polícias na véspera do Euro 2016, nos arredores de Paris; os responsáveis pelo ataque ao Charlie Hebdo e ao Hiper Cashier, em Paris, em Janeiro de 2015; os autores dos atentados à sala de espectáculos Bataclan, ao Stade de France e a vários cafés de Paris, em Novembro de 2015;  os suicidas que levaram a cabo os atentados no aeroporto de Bruxelas e na estação de metro de Maalbeek, em Março de 2016; o homem que decapitou o patrão em  Saint-Quentin-Fallavier, perto de Lyon, em Junho de 2015; o autor do atentado no museu judaico de Bruxelas, em Maio de 2014; os responsáveis pelos atentados terroristas de Londres, em Julho de 2005.

As suas acções provocaram centenas de mortos no Reino Unido, na França e na Bélgica. Para além de agirem em nome de grupos terroristas como o auto-proclamado Estado Islâmico ou a Al Qaeda, unia-os um detalhe: eram (ou são) todos cidadãos europeus, nacionais do Reino Unido, Bélgica, França e Suécia.

É bom que ninguém diga nada disto a Donald Trump. Caso contrário, em breve, poderemos ser proibidos de entrar nos Estados Unidos.

o_muro-1

A ilustração é do Vasco Gargalo.

A primeira conferência de imprensa de Donald Trump, presidente

A partir do minuto 11.

A América Dividida

Nos últimos meses este tem sido uma espécie de bebé nos bracos: planear, pensar, produzir e executar uma edição especial da Sábado dedicada inteiramente às eleições americanas.

Pelo meio tive o privilegio de passar três semanas em reportagem em quatro Estados norte-americanos (Califórnia, Texas, Mississipi e Virginia Ocidental) com o Alexandre Azevedo. São dele as fantásticas fotografias que fazem desta uma edição única, juntamente com um texto exclusivo do fotógrafo oficial e Obama, Pete de Souza, a estreia de Paulo Portas na análise da actualidade Internacional, entrevistas, perfis e grandes reportagens com apoiantes de Hillary e Trump. Fomos também ao muro que já separa o México dos EUA e entrámos no mundo da Cultura das armas na América.

Isto é só uma pequena amostra do que podem ler a partir deste sábado. Em breve contarei mais. Um trabalho de equipa com o João Carlos Silva e com o Gustavo Sampaio. E sim, esta Sábado sai a um sábado. Leiam e comentem. Ah, e bom sábado!

OriginalSize$2016_10_07_17_43_03_188975.jpg

O que se passa nos Açores?

Primeiro, os factos: os Estados Unidos reduziram a presença militar nas Lajes, tal como fizeram em muitas outros locais da europa, numa reformulação da presença de tropas americanas no mundo; a redução desse contingente na base das Lajes, teve efeitos directos na economia local; o governo regional e o governo nacional têm toda a legitimidade para procurar alternativas.

Ora, nas últimas semanas, uma delegação de várias dezenas de responsáveis chineses estiver na região a avaliar as possibilidades de investimento. Segundo o congressista americano, Devin Nunes, que escreveu uma carta ao secretário da Defesa dos Estados Unidos sobre o assunto, essas hipóteses centram-se na Base das Lajes e no porto de águas profundas da Praia da Vitória.

Ontem, o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, aterrou na ilha Terceira para uma escala técnica – que dura dois dias  – com a mulher e oito ministros, após um périplo pelo continente americano, que incluiu visitas à sede da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque, Canadá e Cuba. Passaram a noite em Angra, foram a um concerto e, pelo meio, foram recebidos pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva e pelo presidente do governo regional dos Açores, Vasco Cordeiro.

Três dias antes do encontro, o MNE enviou uma informação às redacções a informar que o encontro com o líder chinês se enquadrava na preparação da visita do primeiro-ministro, António Costa, à China, em Outubro. Admito estar enganado, mas a experiência diz-me que, normalmente, esta preparação ocorre ao mesmo nível: director de política externa com director de política externa; secretário de Estado com secretário de Estado; ministro com ministro. Mas claro que podem haver excepções.

Questionados sobre um eventual investimento chinês nos Açores, ou sobre eventuais negociações a decorrer, o MNE e o Governo Regional optaram, deliberadamente, por ignorar as perguntas e remeter-se ao silêncio. Não confirmam, mas também não negam. O que permite deixar a pergunta no ar: o que se está a passar nos Açores, longe de todas as atenções?

Actualização: citado pela agência Xinhua, a agência oficial do governo chinês, Li Keqiang, disse que “Portugal é um bom amigo da China na União Europeia” e que as  relações entre os dois países foram intensificadas nos anos recentes com esforços de ambos os lados. Afirmou também que a China está disponível para “aprofundar a confiança política, aumentar o entendimento mútuo, aumentar a cooperação pragmática, estabelecer uma comunicação civil mais próxima com Portugal e diversificar a parceria estratégica entre os dois países”. O primeiro-ministro chinês disse ainda esperar que os dois lados continuem a “explorar o potencial para cooperar nas áreas da “energia, finança e oceanos”.

Em resposta, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, manifestou o desejo de Portugal aumentar as exportações de produtos agrícolas para a China e também “fortalecer a cooperação com a China nas áreas da energia, infraestruturas de transportes e logística” e, para além disso, cooperar com a China como parceiro em outras regiões como, por exemplo, em África. (sublinhado meu).

Actualização II: O governo negou, oficialmente, qualquer negociação com a China sobre as Lajes.

 

China's Prime Minister Li Keqiang visits Portugal

epa05558268 Chinese Prime-Minister, Li Keqian (2-R), with Azores Regional Government President, Vasco Cordeiro (R), during a visit to Terceira Island, Azores, Portugal, 27 September 2016. Li Keqian is on an official visit to Portugal. EPA/ANTONIO ARAUJO

 

Tudo sobre as eleições americanas

São as eleições mais importantes do mundo. Não podemos votar, mas o que lá acontece influencia as nossas vidas – e o rumo que o mundo irá tomar. As presidenciais norte-americanas merecem ser seguidas com atenção. E agora há um site onde o podem fazer. Está aqui. Vão lá, leiam, comentem e partilhem.

giphy

O terror no meio de nós III

Mas afinal de onde surgiu este grupo que parece ter uma enorme capacidade de iludir forças de segurança e serviços de informações, recursos infindáveis e uma determinação profunda em destruir todo e qualquer modo de vida que não se enquadre nos seus padrões? É uma história longa, com raízes no colonialismo, na divisão artificial de fronteiras feita pelas potências europeias, no apoio a regimes ditatoriais e bombardeamentos ocasionais que espalharam a semente do ressentimento e do ódio ao Ocidente.

Contudo, numa versão reduzida, podemos recuar apenas a 2003 e à invasão do Iraque por parte dos Estados Unidos. A guerra teve como pretexto oficial a posse de armas de destruição massiva por parte de Saddam Hussein e a ligação do ditador iraquiano à Al Qaeda de Bin Landen. Como pretexto oficioso havia a intenção de democratizar o Médio Oriente. Os dois primeiros vieram a provar-se falsos. O último, um desastre. Começou aí um conflito com uma organização que mudou várias vezes de nome até chegar à actual designação: Estado Islâmico.

O grupo nasceu em 1999, no Afeganistão, por iniciativa do jordano Abu Musab al-Zarqawi. Chamou‐se inicialmente Jund al Shaam (o Exército do Levante). Meses depois, o seu nome mudou para Jama’at al-Tawid wa al-Jihad (Organização para o Monoteísmo e Jihad), ou apenas Tawid wa al-Jihad (Monoteísmo e Jihad). O Monoteísmo é a crença fundamental em Alá como o único e verdadeiro Deus. A Jihad, a forma de estabelecer na terra a sua lei: a Sharia. Era então apenas um campo de treino, que teve um financiamento inicial da Al Qaeda. Nesses anos, Osama Bin Laden chamou al-Zarqawi a Kandahar cinco vezes para o convencer a prestar um juramento de fidelidade, um bayat. Em todas elas, o jordano recusou.

Após o 11 de Setembro, quando os Estados Unidos invadiram o Afeganistão, al-Zarqawi lutou pela primeira vez ao lado dos Taliban e da Al Qaeda. No final de 2001 fugiu pela fronteira com o Irão juntamente com 300 homens. Acabou por estabelecer uma base no Iraque. Ninguém sabia quem ele era. Nem tinha feito nada que justificasse que o mundo conhecesse o seu nome. Mas, a 5 de Fevereiro de 2003, o então secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, indicou-o como o elo de ligação entre o regime de Saddam Hussein e a Al Qaeda para justificar a necessidade de uma invasão do Iraque.

A base de al-Zarqawi em Suleymaniya tornou-se um alvo dos bombardeamentos norte-americanos. O grupo retaliou com uma série de atentados terroristas indiscriminados. E no final de 2004, por necessidade de apoio, aceitou fazer aquilo que tinha até então recusado: jurar fidelidade a Bin Laden e à Al Qaeda. O grupo passou então a designar-se Al Qaeda do Iraque. Apesar disso, os dois grupos tinham visões divergentes para o mesmo objectivo: a instauração de um Califado Islâmico. Enquanto a Al Qaeda via esse objectivo como sendo de longo prazo, um resultado da iniciativa popular e do cansaço do Ocidente, Zarqawi pretendia alcançá-lo no imediato através de uma política de caos e violência sectária e indiscriminada que iria colocar a população sunita do seu lado. Foi ele que iniciou a onda de decapitações de reféns ocidentais em frente às câmaras.

Em 2006, numa tentativa de coordenar a resistência iraquiana, a Al Qaeda do Iraque fundiu-se com cinco outros grupos. Formaram então o Majlis Shura al Mujahidin (Conselho Shura Mujahideen). Al-Zarqawi morreu seis meses depois. E, em Outubro desse ano, a organização anunciou a criação de um novo grupo: al-Dawla al-Islamiya fi Iraq, o Estado Islâmico do Iraque. Tinha como líder, Abu Omar al‐Baghdadi. Mas por uma questão de comodidade e de percepção do público em geral, os meios de comunicação ocidentais continuaram a referir-se-lhe apenas como Al Qaeda do Iraque. Remonta a esta época a separação entre o Estado Islâmico do Iraque e a Al Qaeda: não se conhece um juramento de fidelidade de al-Baghdadi a Bin Laden.

Em Maio de 2010, Abu Bakr al-Baghdadi assumiu a liderança do então Estado Islâmico do Iraque. A organização estava à beira da derrota. Mas o novo líder iniciou uma campanha de atentados suicidas e ataques a prisões que libertaram milhares dos seus membros e conseguiu recuperar o poder do grupo. A guerra civil na Síria deu-lhe depois a base que necessitava para lançar uma nova ofensiva. Em 2011 enviou um grupo de combatentes para a Síria para criar uma organização subordinada do outro lado da fronteira. Esse grupo viria a ser a Jabhat al Nusra. Dois anos depois, Baghdadi decidiu assumir a liderança de ambas as entidades e anunciou a criação do Estado Islâmico do Iraque e da Síria. Quando o líder da Jabhat al Nutra recusou e anunciou a sua fidelidade à Al Qaeda, iniciou-se um conflito entre os dois grupos que levou mais tarde o sucessor de Bin Laden a declarar que o Estado Islâmico do Iraque e da Síria não estava às suas ordens.

No Verão de 2014, após uma série de vitórias na Síria, os jihadistas de al-Baghdadi avançaram pelo norte do Iraque e conquistaram Mossul. O grupo anunciou então que tinha derrubado as “fronteiras de Sykes-Picot” entre o Iraque e a Síria e que passaria então a ser conhecido apenas como Estado Islâmico. Um Califado. Em poucos anos,  a organização tinha passado de um grupo terrorista, a uma entidade que controlava um enorme território, recursos naturais e financeiros, um exército e que assumia funções de um Estado tradicional, embora não reconhecido por ninguém.

Passaram quase dois anos. No fundo, há 13 anos que os Estados Unidos e o mundo Ocidental estão em guerra com uma única organização que assumiu várias designações antes da actual – e que começou agora a lançar ataques na Europa. Importa recordar: a Primeira Guerra Mundial durou quatro anos e a Segunda Guerra Mundial durou seis.

(Continua)

bwoling.1

Ilustração do Vasco Gargalo.

O terror no meio de nós II

O terror no meio de nós

Um quem é quem da guerra na Síria

As dúvidas sobre a “nova história” da morte de Bin Laden

O antigo embaixador do Paquistão em Washington escreveu um interessante texto na Foreign Policy sobre o artigo de Seymour Hersh na London Review of Books. E houve seguimento da história por parte da AFP e da NBC. Para ler aqui.

Foto: AP

Foto: AP

Uma história alternativa da guerra ao terrorismo

A história de que toda a gente fala. Barack Obama mentiu e os paquistaneses colaboraram no assalto à casa de Abbottabad? O jornalista Seymour M. Hersh garante que sim no artigo “A morte de Osama Bin Laden”, publicado na London Review of Books.

Foto: AP

Foto: AP

Uma memória de Guantánamo

Mohamedou Ould Slahi está preso em Guantánamo desde 2002. Nunca foi acusado de nenhum crime. Em 2005, anunciou aos guardas ter escrito um livro: um relato detalhado do programa de transferências de prisioneiros e as torturas a que eles foram submetidos, do ponto de vista de um dos detidos. No entanto, o documento foi classificado de secreto. Foram precisos seis anos de uma intensa batalha legal para o manuscrito ser desclassificado – e só após 2500 redacções e com partes censuradas para proteger a “segurança nacional”. Esta terça-feira, finalmente, o livro foi publicado. E o The Guardian fez um trabalho de vídeo incrível sobre estas memórias.

O legado de Barack Obama

Longe dos imbróglios do Médio Oriente, Barack Obama vai ficar na história como o presidente que restabeleceu as relações diplomáticas Cuba, com o país de Fidel Castro.

Leitura para o fim-de-semana: uma vida sem documentos

Nos Estados Unidos há milhões de imigrantes ilegais. A maioria trabalha. Têm ordenados. Fazem descontos. Mas não têm documentos – pelo menos verdadeiros. É o caso de José António Vargas. Aos 12 anos chegou aopaís, vindo das Filipinas. Estudou, tirou um curso, tornou-se jornalista do The Washington Post e até ganhou um Púlitzer. Mas nunca teve um bilhete de identidade norte-americano. Nem uma carta de condução. Tinha uma vida dupla, sempre com receio de que alguém lhe pedisse a identificação. Num concerto, num bar, na rua. Em 2011, para surpresa geral, escreveu um texto na The New York Times Magazine a assumir-se como um imigrante ilegal. Deste então escreveu ainda um artigo que foi capa da Time e realizou um documentário que passou nos cinemas e na CNN. No início de Julho foi visitar uma cidade junto à fronteira com o México – e não voltou a saír. Foi detido por não ter identificação. Esta é a história que ele contou há três anos na primeira pessoa.

26illegal1-articleInline-v2

My Life as an Undocumented Immigrant

“One August morning nearly two decades ago, my mother woke me and put me in a cab. She handed me a jacket. “Baka malamig doon” were among the few words she said. (“It might be cold there.”) When I arrived at the Philippines’ Ninoy Aquino International Airport with her, my aunt and a family friend, I was introduced to a man I’d never seen. They told me he was my uncle. He held my hand as I boarded an airplane for the first time. It was 1993, and I was 12.

My mother wanted to give me a better life, so she sent me thousands of miles away to live with her parents in America — my grandfather (Lolo in Tagalog) and grandmother (Lola). After I arrived in Mountain View, Calif., in the San Francisco Bay Area, I entered sixth grade and quickly grew to love my new home, family and culture. I discovered a passion for language, though it was hard to learn the difference between formal English and American slang. One of my early memories is of a freckled kid in middle school asking me, “What’s up?” I replied, “The sky,” and he and a couple of other kids laughed. I won the eighth-grade spelling bee by memorizing words I couldn’t properly pronounce. (The winning word was “indefatigable.”)

One day when I was 16, I rode my bike to the nearby D.M.V. office to get my driver’s permit. Some of my friends already had their licenses, so I figured it was time. But when I handed the clerk my green card as proof of U.S. residency, she flipped it around, examining it. “This is fake,” she whispered. “Don’t come back here again.”

Confused and scared, I pedaled home and confronted Lolo. I remember him sitting in the garage, cutting coupons. I dropped my bike and ran over to him, showing him the green card. “Peke ba ito?” I asked in Tagalog. (“Is this fake?”) My grandparents were naturalized American citizens — he worked as a security guard, she as a food server — and they had begun supporting my mother and me financially when I was 3, after my father’s wandering eye and inability to properly provide for us led to my parents’ separation. Lolo was a proud man, and I saw the shame on his face as he told me he purchased the card, along with other fake documents, for me. “Don’t show it to other people,” he warned.

I decided then that I could never give anyone reason to doubt I was an American. I convinced myself that if I worked enough, if I achieved enough, I would be rewarded with citizenship. I felt I could earn it.

I’ve tried. Over the past 14 years, I’ve graduated from high school and college and built a career as a journalist, interviewing some of the most famous people in the country. On the surface, I’ve created a good life. I’ve lived the American dream.

But I am still an undocumented immigrant. And that means living a different kind of reality. It means going about my day in fear of being found out. It means rarely trusting people, even those closest to me, with who I really am. It means keeping my family photos in a shoebox rather than displaying them on shelves in my home, so friends don’t ask about them. It means reluctantly, even painfully, doing things I know are wrong and unlawful. And it has meant relying on a sort of 21st-century underground railroad of supporters, people who took an interest in my future and took risks for me.

Last year I read about four students who walked from Miami to Washington to lobby for the Dream Act, a nearly decade-old immigration bill that would provide a path to legal permanent residency for young people who have been educated in this country. At the risk of deportation — the Obama administration has deported almost 800,000 people in the last two years — they are speaking out. Their courage has inspired me.

There are believed to be 11 million undocumented immigrants in the United States. We’re not always who you think we are. Some pick your strawberries or care for your children. Some are in high school or college. And some, it turns out, write news articles you might read. I grew up here. This is my home. Yet even though I think of myself as an American and consider America my country, my country doesn’t think of me as one of its own.

My first challenge was the language. Though I learned English in the Philippines, I wanted to lose my accent. During high school, I spent hours at a time watching television (especially “Frasier,” “Home Improvement” and reruns of “The Golden Girls”) and movies (from “Goodfellas” to “Anne of Green Gables”), pausing the VHS to try to copy how various characters enunciated their words. At the local library, I read magazines, books and newspapers — anything to learn how to write better. Kathy Dewar, my high-school English teacher, introduced me to journalism. From the moment I wrote my first article for the student paper, I convinced myself that having my name in print — writing in English, interviewing Americans — validated my presence here.

The debates over “illegal aliens” intensified my anxieties. In 1994, only a year after my flight from the Philippines, Gov. Pete Wilson was re-elected in part because of his support for Proposition 187, which prohibited undocumented immigrants from attending public school and accessing other services. (A federal court later found the law unconstitutional.) After my encounter at the D.M.V. in 1997, I grew more aware of anti-immigrant sentiments and stereotypes: they don’t want to assimilate, they are a drain on society. They’re not talking about me, I would tell myself. I have something to contribute.

To do that, I had to work — and for that, I needed a Social Securitynumber. Fortunately, my grandfather had already managed to get one for me. Lolo had always taken care of everyone in the family. He and my grandmother emigrated legally in 1984 from Zambales, a province in the Philippines of rice fields and bamboo houses­, following Lolo’s sister, who married a Filipino-American serving in the American military. She petitioned for her brother and his wife to join her. When they got here, Lolo petitioned for his two children — my mother and her younger brother — to follow them. But instead of mentioning that my mother was a married woman, he listed her as single. Legal residents can’t petition for their married children. Besides, Lolo didn’t care for my father. He didn’t want him coming here too.

But soon Lolo grew nervous that the immigration authorities reviewing the petition would discover my mother was married, thus derailing not only her chances of coming here but those of my uncle as well. So he withdrew her petition. After my uncle came to America legally in 1991, Lolo tried to get my mother here through a tourist visa, but she wasn’t able to obtain one. That’s when she decided to send me. My mother told me later that she figured she would follow me soon. She never did.

The “uncle” who brought me here turned out to be a coyote, not a relative, my grandfather later explained. Lolo scraped together enough money — I eventually learned it was $4,500, a huge sum for him — to pay him to smuggle me here under a fake name and fake passport. (I never saw the passport again after the flight and have always assumed that the coyote kept it.) After I arrived in America, Lolo obtained a new fake Filipino passport, in my real name this time, adorned with a fake student visa, in addition to the fraudulent green card.

Using the fake passport, we went to the local Social Security Administration office and applied for a Social Security number and card. It was, I remember, a quick visit. When the card came in the mail, it had my full, real name, but it also clearly stated: “Valid for work only with I.N.S. authorization.”

When I began looking for work, a short time after the D.M.V. incident, my grandfather and I took the Social Security card to Kinko’s, where he covered the “I.N.S. authorization” text with a sliver of white tape. We then made photocopies of the card. At a glance, at least, the copies would look like copies of a regular, unrestricted Social Security card.

Lolo always imagined I would work the kind of low-paying jobs that undocumented people often take. (Once I married an American, he said, I would get my real papers, and everything would be fine.) But even menial jobs require documents, so he and I hoped the doctored card would work for now. The more documents I had, he said, the better.

While in high school, I worked part time at Subway, then at the front desk of the local Y.M.C.A., then at a tennis club, until I landed an unpaid internship at The Mountain View Voice, my hometown newspaper. First I brought coffee and helped around the office; eventually I began covering city-hall meetings and other assignments for pay.

For more than a decade of getting part-time and full-time jobs, employers have rarely asked to check my original Social Security card. When they did, I showed the photocopied version, which they accepted. Over time, I also began checking the citizenship box on my federal I-9 employment eligibility forms. (Claiming full citizenship was actually easier than declaring permanent resident “green card” status, which would have required me to provide an alien registration number.)

This deceit never got easier. The more I did it, the more I felt like an impostor, the more guilt I carried — and the more I worried that I would get caught. But I kept doing it. I needed to live and survive on my own, and I decided this was the way.

Mountain View High School became my second home. I was elected to represent my school at school-board meetings, which gave me the chance to meet and befriend Rich Fischer, the superintendent for our school district. I joined the speech and debate team, acted in school plays and eventually became co-editor of The Oracle, the student newspaper. That drew the attention of my principal, Pat Hyland. “You’re at school just as much as I am,” she told me. Pat and Rich would soon become mentors, and over time, almost surrogate parents for me.

After a choir rehearsal during my junior year, Jill Denny, the choir director, told me she was considering a Japan trip for our singing group. I told her I couldn’t afford it, but she said we’d figure out a way. I hesitated, and then decided to tell her the truth. “It’s not really the money,” I remember saying. “I don’t have the right passport.” When she assured me we’d get the proper documents, I finally told her. “I can’t get the right passport,” I said. “I’m not supposed to be here.”

She understood. So the choir toured Hawaii instead, with me in tow. (Mrs. Denny and I spoke a couple of months ago, and she told me she hadn’t wanted to leave any student behind.)

Later that school year, my history class watched a documentary on Harvey Milk, the openly gay San Francisco city official who was assassinated. This was 1999, just six months after Matthew Shepard’s body was found tied to a fence in Wyoming. During the discussion, I raised my hand and said something like: “I’m sorry Harvey Milk got killed for being gay. . . . I’ve been meaning to say this. . . . I’m gay.”

I hadn’t planned on coming out that morning, though I had known that I was gay for several years. With that announcement, I became the only openly gay student at school, and it caused turmoil with my grandparents. Lolo kicked me out of the house for a few weeks. Though we eventually reconciled, I had disappointed him on two fronts. First, as a Catholic, he considered homosexuality a sin and was embarrassed about having “ang apo na bakla” (“a grandson who is gay”). Even worse, I was making matters more difficult for myself, he said. I needed to marry an American woman in order to gain a green card.

Tough as it was, coming out about being gay seemed less daunting than coming out about my legal status. I kept my other secret mostly hidden.”

O artigo completo está aqui. 

Uma longa viagem

Portugal, 1964. A crise sísmica dos Rosais deixou muitos habitantes da ilha de S. Jorge, nos Açores com uma alternativa: a imigração. Muitos foram para os Estados Unidos. Mas, por pressão do Estado Novo, 21 famílias foram enviadas para Angola onde formaram o colonato de S. Jorge em Cela. Entre elas estava um rapaz de seis anos. Luís Pedroso viajava para África pela primeira vez com o pai, a mãe, a irmã mais velha, a irmã gémea e ao irmão mais novo. Não se adaptaram. Ao fim de um ano regressaram aos Açores. E em 1969 partiram para a Califórnia. Viviam numa quinta, onde o pai de Luís Pedroso trabalhava como leiteiro. Pareciam ter estabilizado. Até que, quatro anos depois, uma visita do seu pai ao médico terminou num diagnóstico arrasador: leucemia.

A mãe optou por não lhe dizer o que tinha. “Ele sabia que era mau, mas não sabia o que era”, recorda Luís Pedroso à SÁBADO sentado no seu gabinete na Accutronics, a firma de componentes electrónicos que criou há 10 anos para dar emprego à família. Doente, o pai decidiu voltar aos Açores. No dia seguinte à chegada, foi internado no hospital de Angra do Heroísmo. Morreu 30 dias depois. Sozinha, com quatro filhos, a mãe de Luís Pedroso concordou em ir para Angola, onde os seus pais tinham ficado. Não contava com a revolução de 25 de Abril de 1974. Um contacto para São Jorge não podia ser mais explícito: “pegue nos seus filhos e vá para os Estados Unidos. Não há nada aí para si”.

Como grande parte dos açorianos, tinham família nos EUA. “A minha mãe escreveu a uma prima a perguntar-lhe se havia fábricas onde as mulheres pudessem trabalhar e se ela nos ajudava. Ela disse-lhe que sim”, conta Luís Pedroso. Um mês depois chegavam a Lowell, no Massachusetts, sem falar uma palavra de inglês. “A minha mãe e a minha irmã que já tinha 16 anos foram trabalhar para uma fábrica de sapatos dois dias depois, nós fomos para a escola”, continua.

Luís Pedroso fez o liceu mas decidiu não ir para a faculdade por não saber exactamente o que queria. Acabou a trabalhar numa fábrica de montagem de placas de computadores com a mãe e a irmã mais velha. Esteve lá um ano. Demitiu-se, arranjou emprego como caixa num banco, não gostou, voltou a despedir-se e regressou à electrónica. Foi contratado por uma empresa que produzia equipamentos electrónicos. Começou no armazém. Passados dois anos e meio tinha responsabilidades nas áreas da documentação, inspecção, montagem e inventário.

A empresa estava a crescer. Começaram a introduzir máquinas na produção para trabalho industrial. E iam deixar de produzir para algumas companhias. “Vi aí uma oportunidade”, recorda. “Falei com um colega que lidava com os clientes e disse-lhe que se conseguisse trazer um deles nós podíamos começar algo”. Após várias tentativas uma das empresas disse que sim. “Um mês depois demiti-me. Três semanas despediu-se ele. Começámos a Qualitronics”, conta.

Na época (em 1984) não era preciso muito capital para montar uma empresa. Era tudo feito à mão. Bastavam algumas mesas e ferramentas. A mãe e os irmãos despediram-se e foram trabalhar com ele. Dois anos depois comprou a parte do sócio na firma. O negócio cresceu. Todos os anos. Tornou-se avassalador. O trabalho era tanto que Luís Pedroso teve um esgotamento. No ano 2000 a firma tinha 165 empregados e facturava 25 milhões de dólares por ano. “Decidi vender a uma empresa que por sua vez fazia 800 milhões em vendas”, conta. Não revela o valor do negócio. Mas sabe que o timing foi perfeito. A crise afectou a área profundamente e essa firma acabou por ser vendida a outra que facturava oito mil milhões.

IMG_0163

Aos 42 anos estava reformado. Tinha uma vida tranquila. Mas quando a companhia decidiu levar as instalações para o México e para outros Estados, o irmão e as duas irmãs ficaram desempregadas. Pediram-lhe para os ajudar a começar algo. A primeira resposta foi não. “Só que acho que a minha irmã mais velha pediu à minha mãe para falar comigo”, ri-se. Criaram a Accutronics em Janeiro de 2004. Luís Pedroso concordou em financiar o negócio e ajudá-los durante cinco anos. Contratou duas pessoas, um engenheiro e um vendedor, sob condições muito específicas: só seriam pagos quando o negócio lhes pudesse pagar. “Era o incentivo deles”, diz.

Não resultou. Durante dois anos a empresa perdeu dinheiro todos os meses. “Essas duas pessoas saíram e nessa altura tive de entrar a tempo inteiro”, recorda. Foi o suficiente. Seis meses depois atingiram o equilíbrio financeiro e desde então que a firma dá lucro. A reputação que detinha no mercado terá ajudado. Os clientes começaram a aparecer. Hoje emprega 102 pessoas e estão a expandir-se para novas instalações. Produzem todo o tipo de equipamentos que tenha um circuito e que não compensa aos fabricantes produzirem devido ao nível de especialização necessária: impressoras de 3D, estúdios de televisão, scanners médicos, aparelhos rebóticos, componente de aviões, lasers, etc. Facturam cerca de 14 milhões por ano e, com a expansão, quer aproximar-se dos 30 milhões em cinco anos.

É Luís Pedroso quem gere o negócio. Mas é também accionista minoritário. Criou a empresa para os irmãos. E tem por objectivo trabalhar em part-time, apenas a olhar para os números. “Dei-lhes cinco anos e já vou em 10. Não me importo, mas quero libertar-me”, diz. Está profundamente envolvido na comunidade. Para além de benemérito, é consultor da Parker Foundation. Durante vários anos esteve na administração da Greater Lowell Community Foundation que apoia organizações não governamentais locais. Saiu recentemente porque foi nomeado para a administração do maior banco da cidade. Vai longe o tempo em que se sentia intimidado pelos engenheiros e vice-presidentes que tinham um diploma universitário. “Comecei a perceber que nem todos sabem tudo. Às tantas eles começaram a fazer-me perguntas e eu pensava: ‘esperem aí, vocês é que deviam saber isso’. A faculdade é importante e ajuda a quebrar barreiras, mas o senso comum não é assim tão comum. O tipo que inventou a expressão enganou-se: devia ser o senso incomum”.

A SÁBADO viajou para os Estados Unidos com o apoio da FLAD.

IMG_0167

A algarvia que deixa todos a sorrir

Liliana de Sousa é uma algarvia de sorriso fácil e contagiante. Nascida em Olhão em 1959, imigrou para os Estados Unidos quando tinha 12 anos. Foi morar para Provincetown, uma localidade piscatória na costa leste dos Estados Unidos. “Na altura isto era quase tudo de portugueses. Cerca de 80% dos três mil habitantes”, diz à SÁBADO, no último dia do festival português de Provincetown.

Tal como a maioria dos filhos dos imigrantes que quiseram estudar, acabou por deixar a localidade e mudar-se para Boston. Tirou um curso universitário e tornou-se administradora da TAP quando a companhia aérea portuguesa ainda tinha voos directos para a capital do estado norte-americano do Massachusetts. Hoje dirige uma clínica.

Apesar de já não ter casa na localidade, passa muitas vezes o fim-de-semana junto ao local onde cresceu e que se transformou num destino de artistas e escritores. Liliana recorda-se de se cruzar diariamente com o actor Richard Gere (com quem uma amiga dela garante ter tido um namoro) ou com o escritor Norman Mailler. “Ele estava sempre bêbado. Frequentava um pub no centro da cidade onde só vão os locais e sentava-se ao balcão onde acabava com a cabeça apoiada nos braços. Andava sempre descalço, excepto no Inverno, altura em que calçava umas sandálias”, recorda.

O estilista Marc Jacobs tem lá uma casa (e uma loja). O apresentador de televisão Anthon Bourdain também. “Ele foi chef num restaurante que já fechou”, conta num português perfeito onde ainda se nota o sotaque algarvio.  Fala da evolução da cidade com paixão. “Dizem que os gays vieram para cá por causa dos portugueses. Ao contrário de outros povos não se importavam com eles desde que não chateassem”, afirma. “No Verão, os artistas acampavam nos nossos terraços e os pescadores davam-lhes baldes com peixes”, lembra.

Juntamente com mais seis pessoas, é Liliana quem organiza o festival ano após ano. Na verdade, ela é considerada a alma do evento. Para além de ser a única portuguesa do grupo, é com ela que os participantes gostam de falar. Ela conhece-os. Depois de liderar o desfile do passado sábado, ficou à espera que os últimos elementos percorressem a Comercial Street – a principal da cidade. Cumprimentou-os quase todos pelo primeiro nome. Deu indicações. Dançou melodias tradicionais. E foi a ela que os visitantes da cidade se dirigiram para dar os parabéns pela organização do evento. Ela agradeceu a todos com um sorriso: “Obrigado. Não sabe o que isso significa para mim”.

Ela sabe. Todos os anos pensa que não consegue mais. Os preparativos para o ano seguinte começam em Setembro. “Quando chego a Maio digo que já não aguento e que não vou fazer nada. Mas depois acabo por mudar de ideias e é muito gratificante”, diz. Até ao próximo. Sempre com um sorriso.

A SÁBADO viajou para os EUA com o apoio da FLAD

IMG_6606

O santo e os pecadores de mãos dadas

Todos os anos, no último domingo de Junho, a imagem de S. Pedro deixa a igreja de Provincetown, em Cape Cod, na costa leste dos Estados Unidos, e atravessa as ruas da cidade. Carregado por quatro voluntários de origem portuguesa, o andor com o santo lidera uma procissão rumo ao cais de onde, desde o século XIX, navios com marinheiros lusos partem para dias, semanas ou meses de pesca nos mares do Atlântico. Junto ao mar, a imagem é colocada no chão para uma primeira benção em terra. Em seguida sobe a bordo de um navio que encabeça um cortejo de embarcações adornadas com bandeiras de Portugal e dos EUA que também recebem a benção católica.

A cerimónia é o último grande evento do festival português de Provincetown. Durante quatro dias a localidade fica coberta de bandeiras nacionais, é palco de promoções gastronómicas, espectáculos musicais e de uma parada que atravessa a Commercial Street, a principal avenida da cidade. Nela desfilam  ex-militares que combateram na guerra colonial, imigrantes que mantém vivas as tradições das suas regiões – como os ranchos folclóricos -, e também luso-descendentes que fazem questão de afirmar as suas origens.

Todo o evento é uma forma de assinalar a importante presença portuguesa na região. Os primeiros a chegar foram pescadores recrutados sobretudo nos Açores, mas também em Portugal continental, para trabalhar na indústria pesqueira norte-americana no início do século XIX. Por volta de 1890, a vila teve um rápido crescimento e devido às suas praias e belezas naturais começou a ser frequentada por artistas e escritores e a desenvolver uma pequena indústria turística – sobretudo homossexual. O grande boom de popularidade deu-se na década de 1960. Os preços baixos, o ambiente informal e libertino, os cafés, bares e restaurantes junto à praia atraíram uma clientela cada vez mais endinheirada que fizeram os preços das propriedades crescer brutalmente. Hoje, tem uma população de cerca de 3000 pessoas que no Verão cresce para os 60 mil e que a tornam no principal destino gay da costa leste dos Estados Unidos.

O contraste entre a tradição e libertinagem é enorme. No desfile do passado sábado, homens e mulheres com trajes minhotos acenavam a varandas cheias de grupos de homens em tronco nu e camisolas de alças, a casais de mulheres com um aspecto másculo ou drag queens que promoviam os eventos dessa noite. Já durante a procissão do dia seguinte, a imagem de São Pedro percorreu as ruas estreitas ladeadas por moradias de um ou dois andares que, na véspera, foram palco de festas e actos muito pouco católicos. Cruza-se com casais de homens de trocam carícias. Mulheres que se beijam na rua. Sempre num ambiente de grande tolerância. Vão de mãos dadas. Santos e pecadores.

20140630-085423-32063310.jpg

O fotógrafo tarado por cuequinhas

Os norte-americanos são uma caixinha de surpresas. O país que quase demitiu um presidente por alegadamente ter tido sexo com uma estagiária na sala oval enfrenta uma nova ameaça sexual. Chamam-lhe “upskirting”. Não me parece que haja uma expressão em português para esta forma de assédio. Mas a definição é simples: o usar um telemóvel ou de um tablet para fotografar disfarçadamente a roupa interior de uma mulher que use saias.
Sim. É verdade. Pelo menos no estado do Massachusetts, parece que há uma onda de paparazzos amadores que se dedicam a tirar retratos pirata da roupa interior das mulheres em plena rua. A ameaça é tão grande que, em Março, o congresso estadual aprovou uma lei que ilegalizou o “upskirting”. Podia ser mais uma lei ridícula que nunca seria aplicada. Mas não foi.
Na passada terça-feira, às 17h45, uma mulher estava na estação de autocarros de Forest Hill, quando sentiu algo estranho. Um homem, que estava sentado num banco, tinha acabado de esticar o braço para apontar a câmara de um iPad na direcção das suas coxas. Depois entrou num autocarro e desapareceu.
De acordo com o chefe da polícia de trânsito, Paul MacMillan, citado pelo The Boston Globe, a vítima chamou as autoridades e indicou-lhes o veículo em que o fotógrafo amador tinha entrado. Eles pararam o autocarro, viram um homem com um iPad na mão que correspondia à descrição, e levaram-no de volta à estação. Segundo as autoridades, nessa altura, o suspeito disse-lhes que tinha visto nas notícias que não era ilegal fotografar a roupa interior de uma mulher e que, por isso, não só achava que era permitido fazê-lo, como o tem vindo a fazer. Nem valia a pena dizer que estavam a confundi-lo com outra pessoa: quando estava a entrar no autocarro, a vítima usou o seu próprio telemóvel para o fotografar.
Já na esquadra, tornou-se o primeiro norte-americano a ser preso e acusado pela prática de “upskirting”. Mas afinal o que é que isso nos interessa? Quando se identificou às autoridades, o suspeito mostrou um bilhete de identidade com o nome de Joshua Gonsalves. Não sei se o paparazzo amador será luso-descendente. Mas num estado com uma das maiores comunidades portuguesas dos Estados Unidos, a probabilidade é grande.
Para já, Gonsalves saiu em liberdade com uma fiança de 150 dólares e a proibição de se aproximar da estação de comboios. Mas no próximo dia 22 de Agosto voltará a tribunal para ser julgado. Se, até lá, forem encontradas mais imagens do género no seu iPad e no seu iPhone, o número de acusações poderá subir. De qualquer o primeiro acusado de “upskirting” ficará na história com um nome português.

Nuno Tiago Pinto, nos Estados Unidos

A SABADO viajou para os EUA com o apoio da FLAD

A maior ponte do mundo

A noite de 6 de Dezembro de 1941 foi animada para Charles M. Braga. O marinheiro de 22 anos, filho de imigrantes portugueses da região de Fall River, estava colocado na base de Pearl Harbor. Fazia parte da tripulação do navio Pensilvânia. Era jovem. Tinha uma farda. Boa voz para cantar. Jeito para a dança. Para além disso, parecia ser um rapaz decente: entre os colegas era conhecido pela boa disposição e pela capacidade de sanar conflitos. Chamavam-lhe o “peacemaker”.

Todas somadas, estas características aumentavam-lhe as hipóteses de sucesso entre as mulheres. Nessa noite terá sido assim. Charles só regressou as camaratas depois de varias horas a dançar com as jovens da região. Mal sabia que na manhã seguinte seria uma das milhares de vítimas do ataque japonês à base naval norte-americana no pacífico: uma bomba explodiu no navio e o seu corpo nunca foi encontrado.

No início da década de 1950, as autoridades do Massachusetts começaram a planear a construção de uma ponte que atravessasse o rio Tauton. No entanto, o projecto só avançou com construção da auto-estrada 195 que liga Providence a New Bedford. A estrutura demorou sete anos a ser construída. E quando foi inaugurada, em 1966, ligava as cidades de Somerset e Fall River – cada uma na sua margem do rio. Foi baptizada de Charles M. Braga Jr. Memorial Bridge, em homenagem ao militar luso-descendente.

Entre os locais rapidamente começou a ser conhecida apenas como a Braga Bridge. Com pouco mais de um quilómetro, é uma das maiores pontes do Massachusetts. E, segundo se conta, é a mais longa do mundo. Maior mesmo do que a ponte Danyang-Kunshan que, com 164 quilómetros, faz parte do viaduto que liga Pequim a Shangai, na República Popular da China. Motivo: na verdade, ela “atravessa” o Atlântico e “liga” os Estados Unidos (Somerset) aos Açores, de onde é originária a esmagadora maioria dos 49% de luso-americanos que constituem a população Fall River.

Nuno Tiago Pinto

Nota: A SÁBADO viajou para os EUA com o apoio da FLAD

O plano quase perfeito para derrotar os EUA

O plano era perfeito. Saía de Lisboa às 13h20 e chegava ao aeroporto de Newark às 16h20 locais. Mesmo a tempo de ver o jogo entre Portugal e os Estados Unidos. Maravilhas da diferença horária. Estava tudo previsto: apanhava um taxi para Manhatan, deixava a mala no hotel, seguia de metro até Times Square e via a partida num ecrã gigante, pronto para agitar o cachecol e gritar alto e bom som quando aviássemos os gringos. Afinal, eles acham que futebol é um jogo que se joga com as mãos e o corpo.
Mas – há sempre um mas – nada aconteceu conforme planeado. A começar em Lisboa. Não, não houve um furacão. Não, não houve uma erupção vulcânica que cobriu os céus com uma cinza assassina. O avião nem sequer se atrasou vindo de outro local qualquer. Aliás, quando cheguei à porta de embarque com a antecedência necessária ele já lá estava estacionado. Só que ao contrário do que seria expectável não partiu à hora prevista. Passava das 15h30 quando o voo levantou – sem grandes explicações por parte da TAP.
Times Square estava fora de jogo. Restava um ecrã qualquer. Pouco depois da aterragem o comandante informava – com “honra” – que Portugal ganhava um a zero. Entre saír, atravessar os controlos fronteiriços, recolher a bagagem e apanhar um taxi a segunda parte estava a começar. A meio do caminho o motorista resolve alterar o preço e parou na berma da auto-estrada para eu decidir se continuava ou voltava para trás – claro que teria que pagar a corrida de regresso. Estávamos a discutir se as portagens estariam incluídas no preço quando os EUA empataram o jogo. A notícia chegou por SMS. Ao que parecia, não estava a perder grande coisa.
Acabei por fazer as pazes com o motorista, um haitiano simpático chamado Serge que vive há 29 anos nos EUA. Tinha acabado de regressar do seu país onde passou duas semanas numa reunião alargada de família. Viajou com a mulher, filhos, sobrinhos, cunhados e irmãos. A mãe, de 84 anos, também foi. Para a proteger, não lhe contaram que um sobrinho que vive no país morreu recentemente. Disseram-lhe que ele estava a tirar um curso de formação no Canadá. Ela acreditou: “não vale a pena preocupá-la”.
Quando lhe contei que vinha de Portugal, ele disse duas coisas. A primeira: “O jogo está empatado a um.” A segunda: “Tenho um sobrinho que casou com uma portuguesa e vive em Portugal. Conheceram-se na República Dominicana. Estavam os dois a dar lá aulas.”
Entre o transito para atravessar o Lincoln Tunnel não parecia haver muita gente interessada no jogo. Nem o Serge. Sem notícias do que se passava acabámos por ser informados através de um telefonema. A mãe do motorista ligou-lhe para lhe dizer que a partida tinha acabado com um empate a dois golos. Sem honra nem glória. Quando me deixou à porta do hotel, Serge despediu-se com um amigável “até à próxima”. Eu também. Sem grande convicção. O cachecol nem chegou a sair da mala. Só vi os golos mais tarde. Cruzei-me com americanos com a bandeira pintada na cara. O plano revelou-se tudo menos perfeito.

20140623-082807-30487046.jpg