Mitos sobre os atentados do Estado Islâmico na Europa

Publicado originalmente aqui.

“O Estado Islâmico reivindica tudo e mais alguma coisa”
Nem por isso. Por norma, o autoproclamado Estado Islâmico (EI) reivindica apenas aqueles atentados com os quais teve algum tipo de ligação, por mais ténue que seja. Normalmente acaba por apresentar provas: geralmente um vídeo dos autores dos atentados a declarar a sua fidelidade a Abu Bakr al-Baghdadi. Foi assim, por exemplo, com Anis Amri, o autor do ataque ao mercado de Natal, em Berlim, ou com os dois terroristas que, em Julho de 2016, degolaram um padre no norte de França. Até agora não foi divulgado qualquer vídeo do género relacionado com o atentado desta quarta-feira, em Londres. Se tal vier a acontecer, poderemos distinguir entre um ataque “inspirado” e um ataque “dirigido”, mesmo que à distância.

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“Estes tipos são uns amadores”
Não importa. A maioria dos atentados ocorridos nos últimos anos na Europa foi realizada por terroristas que nunca estiveram na Síria ou no Iraque mas que se prepararam através da internet. Como tal, não têm a mesma eficácia do grupo que, por exemplo, em Novembro de 2015 realizou os atentados de Paris. No entanto, quase sempre os autores receberam instruções sobre como agir do chamado serviço de informações externo do EI: a Amn al-Kharji. Um relatório da Henry Jackson Society, divulgado esta semana, conclui que 75% dos 148 atentados realizados na Europa e nos Estados Unidos entre 2002 e 2016 foram de alguma forma dirigidos por responsáveis ou intermediários do EI. Apenas 15% (22 ataques) foram cometidos pelos chamados lobos solitários.

“Esta é uma nova realidade”
Nem por isso. Em Setembro de 2014, o então porta-voz do EI, Abu Muhammad Al-Adnani, num discurso áudio partilhado na internet, já apelava a ataques indiscriminados contra cidadãos ocidentais. Pedia-o de uma forma bastante explicita:

“Se não forem capazes de encontrar um EEI [Engenho Explosivo Improvisado] ou uma bala, então ataquem os infiéis directamente – sejam americanos, franceses ou qualquer dos seus aliados. Esmaguem a cabeça [dos infiéis] com uma pedra, cortem-lhes a garganta com uma faca, ou atropelem-nos com o vosso carro, ou atirem-nos de um lugar alto, ou sufoquem-nos ou envenenem-nos. (…) Se não forem capazes de fazer isso, então incendeiem as suas casas, carros ou negócios. Ou destruam as suas colheitas. Se não forem capazes de fazer isso, então [pelo menos] cuspam na sua face.”
A ideia geral era a de que era dever de todos os muçulmanos fazerem a hijra (migração) para o Califado. Todos aqueles que não fossem capazes de o fazer deviam atacar os ocidentais onde quer que estivessem. Desde então que este apelo é repetido incessantemente, seja em discursos, seja nas publicações oficiais do EI.

“A maioria dos terroristas vieram da Síria”
Nem por isso. Pelo contrário. A maioria nasceu na Europa. Khalid Masood, o responsável pelo atentado de Londres, é apenas o último exemplo. Junta-se aos autores dos atentados terroristas de Londres, em 2005; ao responsável pelo ataque ao museu judaico de Bruxelas, em Maio de 2014; ao homem que decapitou o patrão em Saint-Quentin-Fallavier, perto de Lyon, em Junho de 2015; à dupla que degolou o padre da igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, na Normandia, em Julho de 2016; ao assassino de um casal de polícias na véspera do Euro 2016, nos arredores de Paris; aos responsáveis pelo ataque ao Charlie Hebdo e ao Hiper Cashier, em Paris, em Janeiro de 2015; aos autores dos atentados ao Bataclan, ao Stade de France e a dois cafés de Paris, em Novembro de 2015; e aos suicidas que levaram a cabo os atentados no aeroporto de Bruxelas e na estação de Maalbeek, em Março de 2016.“As polícias e os serviços de informações falharam”
Nem por isso. É fácil apontar o dedo a uma instituição quando algo falha. Sobretudo quando é divulgado que o responsável por um ataque era “conhecido das autoridades”. No entanto, se mais de cinco mil cidadãos ocidentais viajaram para a Síria e para o Iraque, muitos outros ficaram nos países de origem. Seja como apoiantes, seja como voluntários para realizar atentados futuros. É impossível às forças de segurança seguir todos os potenciais suspeitos 24h por dia. Fazê-lo implicaria ter uma equipa de 20 agentes permanentemente dedicada a apenas uma pessoa (com seguimentos físicos e monitorização telefónica e electrónica). A perspectiva é a oposta: com tantos apoiantes, o surpreendente é que não haja mais atentados – e aqui o mérito é das polícias e dos serviços de informações.

“Os terroristas são uns desgraçados com problemas mentais”
É duvidoso. A grande dificuldade do combate à radicalização é que não existe um perfil de um terrorista. Qualquer um pode ser aliciado. Seja um estudante universitário, um adolescente, um desempregado ou um médico. Existem todo o tipo de casos e os mais variados motivos para alguém decidir tornar-se um terrorista. No entanto, existem alguns indícios. Há estudos que indicam que existe uma relação entre a radicalização e o crime. Mais que isso: jovens com problemas com a lei são muitas vezes os alvos preferidos das redes jihadistas que lhes apresentam a radicalização como uma oportunidade de redenção. Nos últimos anos as prisões tornaram-se, com sucesso, autênticos pontos de recrutamento.

“A capacidade de propaganda do Estado Islâmico diminuiu”.
Nem por isso. Apesar de as redes sociais como o Twitter e o Facebook terem encerrado milhares de contas de jihadistas e apoiantes do EI nos últimos anos, elas continuam a surgir. Mais do que isso, os terroristas direccionaram a sua actividade para canais encriptados no Telegram. É aí que as organizações oficiais do grupo terrorista continuam a fazer as reivindicações, a divulgar vídeos de propaganda e é também aí que os apoiantes do EI partilham imagens a apelar a novos atentados. Se dúvidas houvesse em relação à vitalidade mediática do grupo, o atentado de ontem em Londres voltou a recordar que ela está para durar.

Schiiiuuuu, não digam nada a Donald Trump…

Adel Kermiche e Abdel Malik Petitjean; Larossi Abballa; Ibrahim El Bakraoui, Najm al-‘Ashrāwī, Mohamed Abrini, Khālid al-Bakrāwī e Osama Krayem; Abdelhamid Abaaoud, Mohamed Abrini, Samy Amimour,  Salah Abdeslam, Brahim Abdeslam, Ismael Omar Mostefai, Samy Amimour,Foued Mohamed-Aggad; Amedy Coulibaly, Chérif Kouachi, Saïd Kouachi; Yassin Salhi; Mehdi Nemouche; Mohammad Sidique Khan, Shehzad Tanweer, Germaine Lindsay e Hasib Hussain.

Estes são os nomes dos autores dos atentados terroristas na Europa entre 2005 e 2016. Entre eles estão os dois jovens que degolaram o padre da igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, na Normandia, em Julho de 2016; o homem que matou um casal de polícias na véspera do Euro 2016, nos arredores de Paris; os responsáveis pelo ataque ao Charlie Hebdo e ao Hiper Cashier, em Paris, em Janeiro de 2015; os autores dos atentados à sala de espectáculos Bataclan, ao Stade de France e a vários cafés de Paris, em Novembro de 2015;  os suicidas que levaram a cabo os atentados no aeroporto de Bruxelas e na estação de metro de Maalbeek, em Março de 2016; o homem que decapitou o patrão em  Saint-Quentin-Fallavier, perto de Lyon, em Junho de 2015; o autor do atentado no museu judaico de Bruxelas, em Maio de 2014; os responsáveis pelos atentados terroristas de Londres, em Julho de 2005.

As suas acções provocaram centenas de mortos no Reino Unido, na França e na Bélgica. Para além de agirem em nome de grupos terroristas como o auto-proclamado Estado Islâmico ou a Al Qaeda, unia-os um detalhe: eram (ou são) todos cidadãos europeus, nacionais do Reino Unido, Bélgica, França e Suécia.

É bom que ninguém diga nada disto a Donald Trump. Caso contrário, em breve, poderemos ser proibidos de entrar nos Estados Unidos.

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A ilustração é do Vasco Gargalo.

Ontem em Berlim. Amanhã noutro lado qualquer

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Se ainda houvesse dúvidas, os atentados de ontem na Turquia e na Alemanha vêm comprovar a nova realidade com a qual temos de aprender a viver. A grande dúvida já não é se irá ou não acontecer um ataque terrorista na Europa. Para as forças de segurança e serviços de informações – que tentam reduzir esta probabilidade ao máximo – a principal questão é “quando e onde vai ocorrer o próximo atentado?” E isso é praticamente impossível de prever.

Claro que há indícios que estão permanentemente a ser monitorizados. Um exemplo: no final de Novembro, o Departamento de Estado dos EUA alertou os cidadãos americanos para a probabilidade da ocorrência de um atentado terrorista em vários países europeus durante a época natalícia. Entre eles estavam a Turquia, a Bélgica, a França e a Alemanha. As autoridades americanas eram especialmente claras quanto aos potenciais alvos: festivais, eventos e mercados ao ar livre.

Estes ataques poderiam ser realizados por grupos organizados ou por elementos individuais – os chamados lobos solitários – através do recurso a armas convencionais e não convencionais. Se os primeiros poderão mais facilmente ser detectados pelas autoridades, é praticamente impossível prever ou monitorizar alguém que, sozinho, através da internet, decide levar a cabo um atentado terrorista. Foi o que aconteceu este ano em Nice ou em Orlando, por exemplo. Até prova em contrário poderá terá sido o que aconteceu em Berlim.

Na Alemanha, um condutor desconhecido enviou um camião contra as centenas de pessoas que estavam no tradicional mercado de Natal na Breitscheidplatz. Até agora sabe-se que o veículo tem matricula polaca, que estava carregado com vigas de aço, que o condutor foi encontrado morto no banco do pendura e que o ataque vitimou 12 pessoas e feriu quase 50. A polícia prendeu um primeiro suspeito, um refugiado paquistanês que chegou à Alemanha no início do ano, que negou qualquer ligação ao atentado e já foi libertado por falta de provas. As autoridades partem do princípio que o atacante está armado e em fuga. Não se conhecem as suas motivações, nem se agiu em nome individual ou em grupo.

Nas horas seguintes ao atentado, uma das principais preocupações dos órgãos de comunicação era saber quem estaria por detrás do atentado. O autoproclamado Estado Islâmico tornou-se imediatamente o suspeito número um. Pelo menos o The Washington Times e o The Sun atribuiram-lhe mesmo responsabilidades. No entanto, se o diário americano citava o britânico, este último citava militares iraquianos que por sua vez citavam alegados jihadistas. Na verdade, até agora, não houve qualquer reivindicação nos canais oficiais do EI. Pelo contrário. Desde ontem que as diversas contas no Telegram estão particularmente calmas.

Esta ausência de reivindicação não é nova. Por exemplo, após o atentado de Nice, quando o condutor de um camião matou 86 pessoas, o EI levou dois dias a reivindicar o ataque. E fê-lo em termos muito genéricos: atribuiu-o a um “soldado do califado” que respondeu aos “pedidos para atacar cidadãos das nações da coligação que combate o Estado Islâmico”. Ou seja, foi “inspirado”. Um exemplo mais recente: durante o fim-de-semana houve um atentado terrorista na Jordania. O ataque só foi reivindicado pelo EI esta terça-feira.

Existe ainda uma outra possibilidade: a de o EI ignorar sistematicamente os atacantes que sobrevivem ao próprio atentado. O exemplo mais flagrante é Saleh Abdeslam: o único elemento que restou dos atentados de Novembro de 2015 em Paris foi completamente banido das eulogias dedicadas aos restantes “mártires”.

Venha ou não a ser reivindicado, a única coisa que liga o atentado de Berlim ao EI é o padrão: o uso de veículos contra civis, uma das técnicas há muito propagandeadas como mais eficazes pelos jihadistas do EI. Já em 2014 o então porta-voz do EI, Abu Mohamad al Adnani, apelava aos seguidores do grupo que recorressem a carros ou camiões para realizar atentados. Mais recentemente, no terceiro número da revista Rumiyah, divulgado em Novembro em várias páginas encriptadas da internet, o grupo terrorista publicava um artigo que explicava a forma mais eficaz de utilizar um veículo no atentado. O mesmo já tinha sido feito pela revista Inspire, da Al Qaeda, no seu segundo número.

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O texto da Rumiyah começava por realçar que os “mujahedines estacionados atrás das linhas inimigas” têm à sua disposição uma série de armas e técnicas que podem utilizar a qualquer momento e que, ao contrário das facas, por exemplo, os veículos motorizados não “causam suspeitas”. Depois, os autores do artigo explicavam quais os veículos ideais e aqueles a evitar, quais os melhores alvos – locais públicos com grande concentração de pessoas – e que passos preparatórios deveriam ser seguidos. Por fim, declaravam ser importante garantir que o motivo do ataque fosse conhecido – nem que fosse através de um simples papel com a frase “sou um soldado do Estado Islâmico”.

Essa simples menção será suficiente para o grupo terrorista reivindicar a autoria do atentado. Mesmo que não tenha estado envolvido na preparação, considerará que o terrorista respondeu ao apelo contínuo dos líderes da organização desde a proclamação do “califado”, em Junho de 2014: caso não consigam viajar para a Síria, deverão realizar atentados onde quer que estejam. Esta é a nova realidade. Só não se sabe onde nem quando. Haja ou não reivindicação

O terror no meio de nós IV

Uma das mais importantes características do conflito na Síria e (por arrasto) no Iraque é a capacidade de atracção de combatentes estrangeiros. Ela é tão grande que o território se tornou no maior palco de mobilização de voluntários internacionais desde a Segunda Guerra Mundial.

O fenómeno não é exactamente novo. Há indivíduos que viajam para outros Estados para lutar há séculos. Seja como mercenários, voluntários ou, como agora, terroristas. A guerra civil espanhola foi um dos mais famosos exemplos durante o século XX. Nas últimas décadas existiram combatentes estrangeiros nos conflitos no Afeganistão, durante a ocupação soviética, na Bósnia, na Chechénia e, mais recentemente, novamente no Afeganistão, Iraque e Síria. Neste último caso, a diferença é que eles não são apenas considerados combatentes estrangeiros. São Combatentes Terroristas Estrangeiros, com direito a classificação numa resolução (2178) adoptada pelo Conselho de Segurança da ONU, em Setembro de 2014:

“[alguém que] viaje ou tente viajar para um Estado que não o seu Estado de residência ou de nacionalidade com o objectivo de perpetrar, planear, preparar ou participar em actos terroristas ou para fornecer ou receber treino terrorista.”

A definição é recente. Quando este movimento começou, em 2011, estes voluntários estrangeiros não foram imediatamente vistos como terroristas. Eram encarados como combatentes pela liberdade que viajaram para Síria para lutar contra o regime de Bashar al Assad. Na época, os Estados Unidos, a França e o Reino Unido apoiaram a oposição síria com dinheiro e informações e, em Maio de 2013, a União Europeia levantou mesmo o embargo da venda de armas aos rebeldes, como forma de mostrar o seu total apoio à implementação de um regime democrático na Síria. Isso mudou no Verão de 2014, após a auto-proclamação do Califado por parte do Estado Islâmico (EI).

O que é novo é a dimensão do fenómeno. Há uma década existiam alguns milhares de combatentes terroristas oriundos de um pequeno número de países. Mas desde que o conflito na Síria eclodiu, os números cresceram exponencialmente. Em Julho de 2014, um relatório do The Soufan Group estimava que 12 mil combatentes estrangeiros de 81 países tinham viajado para a Síria desde o início do conflito. Cerca de três mil eram ocidentais. Em Dezembro do ano passado, a mesma organização actualizou os números e concluiu que entre 27 mil e 31 mil pessoas tinham viajado para a Síria e para o Iraque para se juntarem ao Estado Islâmico e a outros grupos extremistas. Mais de cinco mil eram originários da União Europeia. Ou seja, os números não pararam de aumentar apesar dos mais de nove mil bombardeamentos realizados pela coligação internacional no último ano e meio.

A maioria destes combatentes são originários de países do Médio Oriente como a Tunísia (7000) , a Arábia Saudita (2500), e a Jordânia (2500). Segue-se depois a Rússia (2400), Turquia (2200), França (1700) e Marrocos (1500). Entre os países europeus mais afectados, em termos de quantidade, estão a Alemanha e o Reino Unido (760). Mas, em termos percentuais, nenhum país da Europa Ocidental tem um problema maior do que a Bélgica: os mais de 500 combatentes estrangeiros belgas na Síria e no Iraque representam cerca de 42 voluntários por cada milhão de habitantes. Na Europa de Leste o Kosovo terá 122 (por milhão de habitantes), a Bósnia, 84 e a Macedónia, 69.

As explicações para estes números são várias. A primeira é geográfica. Se em 1980 era difícil viajar para o Afeganistão, hoje em dia é muito fácil viajar para a Síria. Basta apanhar um avião, um comboio, um barco ou alugar um carro para chegar até à Turquia (onde os europeus não precisam de visto) e depois atravessar a fronteira. A viagem é também barata. Com cerca de 1000/1500 euros é possível comprar um bilhete de avião, ficar uma noite na Turquia e pagar às redes que transportam pessoas clandestinamente pelas antigas rotas de contrabando.

O último factor é a internet. O Estado Islâmico compreendeu o potencial das redes sociais para chegar a uma nova audiência, jovem, que cresceu no meio de uma revolução tecnológica e que está receptiva a ouvir quem fale a sua linguagem. Enquanto as mensagens da Al Qaeda se centravam em grupos de idosos, escondidos em cavernas, que proferiam longos sermões teológicos, as mensagens do Estado Islâmico são o oposto: focam-se em jovens endurecidos em batalha, fortemente armados, que surgem em paradas militares. Mostram força em vez de fraqueza. Os vídeos de propaganda obedecem a uma nova linguagem televisiva e de videojogos. Uma grande parte são propositadamente violentos com dois objectivos: atemorizar os inimigos e atrair novos recrutas – o que está a ter efeito.

Estes combatentes estrangeiros são, obviamente, uma ameaça aos seus países de origem caso eles decidam regressar. Actualmente, as estimativas indicam que cerca de 20% a 30% já voltaram à Europa depois de um período em que terão aprendido a usar uma arma, a fazer uma bomba ou a preparar ataques. A ONU já concluiu que aqueles que viajaram para a Síria e para o Iraque “vivem e trabalham numa verdadeira escola internacional de extremistas”, como foi o caso do Afeganistão na década de 1990 – só que a uma escala maior.

Até agora, as estatísticas indicavam que apenas 15% dos antigos combatentes que regressavam a casa tinham-se envolvido em atentados terroristas (um em nove, de acordo com um em estudo realizado pelo director do Norwegian Defence Research Establishment, Thomas Heggahammer). Esse baixo número devia-se a vários factores: muitos morriam, outros nunca voltavam, uma boa parte desiludia-se com a causa à qual se tinham juntado e, por fim, bastantes eram presos ou viam os planos boicotados pelas autoridades.

Esta é a boa notícia. A partir do momento em que alguém viaja para a Síria, torna-se mais facilmente controlável pelas autoridades. O que já não é o caso daqueles que se radicalizam e nunca chegam a viajar, cujo perigo é menor mas que são mais dificilmente detectados. No entanto, o perigo parece estar a aumentar com a decisão do Estado Islâmico em treinar grupos de comandos para realizar atentados na Europa, como retaliação pelos bombardeamentos da coligação ocidental. Os atentados de Paris, em Novembro do ano passado, e os recentes ataques na Bélgica, são um exemplo desse perigo. A maioria dos executantes nasceu na Europa mas passou algum tempo na Síria. Nisto, os Estados Unidos podem estar mais descansados: tal como é mais fácil aos europeus chegarem à Síria hoje em dia do que ao Afeganistão nos anos 1980, é também mais simples regressarem à Europa sem serem detectados do que atravessarem o Atlântico.

(Continua)

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Ilustração do Vasco Gargalo.

O terror no meio de nós III

O terror no meio de nós II

O terror no meio de nós

O terror no meio de nós III

Mas afinal de onde surgiu este grupo que parece ter uma enorme capacidade de iludir forças de segurança e serviços de informações, recursos infindáveis e uma determinação profunda em destruir todo e qualquer modo de vida que não se enquadre nos seus padrões? É uma história longa, com raízes no colonialismo, na divisão artificial de fronteiras feita pelas potências europeias, no apoio a regimes ditatoriais e bombardeamentos ocasionais que espalharam a semente do ressentimento e do ódio ao Ocidente.

Contudo, numa versão reduzida, podemos recuar apenas a 2003 e à invasão do Iraque por parte dos Estados Unidos. A guerra teve como pretexto oficial a posse de armas de destruição massiva por parte de Saddam Hussein e a ligação do ditador iraquiano à Al Qaeda de Bin Landen. Como pretexto oficioso havia a intenção de democratizar o Médio Oriente. Os dois primeiros vieram a provar-se falsos. O último, um desastre. Começou aí um conflito com uma organização que mudou várias vezes de nome até chegar à actual designação: Estado Islâmico.

O grupo nasceu em 1999, no Afeganistão, por iniciativa do jordano Abu Musab al-Zarqawi. Chamou‐se inicialmente Jund al Shaam (o Exército do Levante). Meses depois, o seu nome mudou para Jama’at al-Tawid wa al-Jihad (Organização para o Monoteísmo e Jihad), ou apenas Tawid wa al-Jihad (Monoteísmo e Jihad). O Monoteísmo é a crença fundamental em Alá como o único e verdadeiro Deus. A Jihad, a forma de estabelecer na terra a sua lei: a Sharia. Era então apenas um campo de treino, que teve um financiamento inicial da Al Qaeda. Nesses anos, Osama Bin Laden chamou al-Zarqawi a Kandahar cinco vezes para o convencer a prestar um juramento de fidelidade, um bayat. Em todas elas, o jordano recusou.

Após o 11 de Setembro, quando os Estados Unidos invadiram o Afeganistão, al-Zarqawi lutou pela primeira vez ao lado dos Taliban e da Al Qaeda. No final de 2001 fugiu pela fronteira com o Irão juntamente com 300 homens. Acabou por estabelecer uma base no Iraque. Ninguém sabia quem ele era. Nem tinha feito nada que justificasse que o mundo conhecesse o seu nome. Mas, a 5 de Fevereiro de 2003, o então secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, indicou-o como o elo de ligação entre o regime de Saddam Hussein e a Al Qaeda para justificar a necessidade de uma invasão do Iraque.

A base de al-Zarqawi em Suleymaniya tornou-se um alvo dos bombardeamentos norte-americanos. O grupo retaliou com uma série de atentados terroristas indiscriminados. E no final de 2004, por necessidade de apoio, aceitou fazer aquilo que tinha até então recusado: jurar fidelidade a Bin Laden e à Al Qaeda. O grupo passou então a designar-se Al Qaeda do Iraque. Apesar disso, os dois grupos tinham visões divergentes para o mesmo objectivo: a instauração de um Califado Islâmico. Enquanto a Al Qaeda via esse objectivo como sendo de longo prazo, um resultado da iniciativa popular e do cansaço do Ocidente, Zarqawi pretendia alcançá-lo no imediato através de uma política de caos e violência sectária e indiscriminada que iria colocar a população sunita do seu lado. Foi ele que iniciou a onda de decapitações de reféns ocidentais em frente às câmaras.

Em 2006, numa tentativa de coordenar a resistência iraquiana, a Al Qaeda do Iraque fundiu-se com cinco outros grupos. Formaram então o Majlis Shura al Mujahidin (Conselho Shura Mujahideen). Al-Zarqawi morreu seis meses depois. E, em Outubro desse ano, a organização anunciou a criação de um novo grupo: al-Dawla al-Islamiya fi Iraq, o Estado Islâmico do Iraque. Tinha como líder, Abu Omar al‐Baghdadi. Mas por uma questão de comodidade e de percepção do público em geral, os meios de comunicação ocidentais continuaram a referir-se-lhe apenas como Al Qaeda do Iraque. Remonta a esta época a separação entre o Estado Islâmico do Iraque e a Al Qaeda: não se conhece um juramento de fidelidade de al-Baghdadi a Bin Laden.

Em Maio de 2010, Abu Bakr al-Baghdadi assumiu a liderança do então Estado Islâmico do Iraque. A organização estava à beira da derrota. Mas o novo líder iniciou uma campanha de atentados suicidas e ataques a prisões que libertaram milhares dos seus membros e conseguiu recuperar o poder do grupo. A guerra civil na Síria deu-lhe depois a base que necessitava para lançar uma nova ofensiva. Em 2011 enviou um grupo de combatentes para a Síria para criar uma organização subordinada do outro lado da fronteira. Esse grupo viria a ser a Jabhat al Nusra. Dois anos depois, Baghdadi decidiu assumir a liderança de ambas as entidades e anunciou a criação do Estado Islâmico do Iraque e da Síria. Quando o líder da Jabhat al Nutra recusou e anunciou a sua fidelidade à Al Qaeda, iniciou-se um conflito entre os dois grupos que levou mais tarde o sucessor de Bin Laden a declarar que o Estado Islâmico do Iraque e da Síria não estava às suas ordens.

No Verão de 2014, após uma série de vitórias na Síria, os jihadistas de al-Baghdadi avançaram pelo norte do Iraque e conquistaram Mossul. O grupo anunciou então que tinha derrubado as “fronteiras de Sykes-Picot” entre o Iraque e a Síria e que passaria então a ser conhecido apenas como Estado Islâmico. Um Califado. Em poucos anos,  a organização tinha passado de um grupo terrorista, a uma entidade que controlava um enorme território, recursos naturais e financeiros, um exército e que assumia funções de um Estado tradicional, embora não reconhecido por ninguém.

Passaram quase dois anos. No fundo, há 13 anos que os Estados Unidos e o mundo Ocidental estão em guerra com uma única organização que assumiu várias designações antes da actual – e que começou agora a lançar ataques na Europa. Importa recordar: a Primeira Guerra Mundial durou quatro anos e a Segunda Guerra Mundial durou seis.

(Continua)

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Ilustração do Vasco Gargalo.

O terror no meio de nós II

O terror no meio de nós

O terror no meio de nós II

A realização de atentados terroristas na Europa não devia ser surpresa para ninguém. Não só por causa dos alertas das autoridades mas, sobretudo, por causa das ameaças dos próprios terroristas. Isso mesmo. Há muito que os líderes e membros do auto-proclamado Estado Islâmico (EI) exprimem abertamente a sua intenção de realizar atentados terroristas em solo europeu. Um objectivo que se intensificou no último ano e meio, na sequência dos bombardeamentos da coligação internacional na Síria e no Iraque.

Numa primeira fase, logo após a proclamação do Califado, no Verão de 2014, as comunicações mediática dos líderes do grupo terrorista centravam-se em dois grandes temas: a dinâmica de vitória dos seus combatentes, cujo expoente máximo foi a conquista de Mossul, e um apelo constante à migração dos muçulmanos para a terra prometida. No seu discurso já como “Califa Ibrahim”, Abu Bakr al Baghdadi dedicou uma boa parte da sua declaração a este apelo:

“Por isso, apressem-se, ó muçulmanos, para o vosso Estado. Sim, é o vosso Estado. Apressem-se, porque a Síria não é para os sírios e o Iraque não é para os iraquianos. A terra é de Alá. O Estado é um Estado para todos os muçulmanos. A terra é para os muçulmanos, todos os muçulmanos. (…)

Fazemos um apelo especial aos clérigos, fuqaha (peritos em jurisprudência islâmica), especialmente aos juízes, bem como às pessoas com competências militares, administrativas e de serviços, e médicos e engenheiros de todas as diferentes especializações e campos. Apelamos-lhes e lembramos-lhes para temerem Alá, porque a sua emigração é wajib’ayni (uma obrigação individual), para que eles possam responder às necessidades dos muçulmanos. As pessoas são ignorantes sobre a sua religião e estão sedentas daqueles que as podem ensinar e ajudar a compreendê-la Por isso temam Alá, ó escravos de Alá.”

Este apelo foi repetido vezes sem conta por combatentes estrangeiros em vídeos de propaganda colocados online. Alguns foram mesmo filmados a queimar os seus passaportes. Mas aos poucos, esta narrativa foi sendo complementada por outra: aqueles que, por qualquer motivo não fossem capazes de realizar a hijrah, a migração, não tinham desculpa para não levar a jihad onde quer que estivessem. No 11º número da revista Dabiq, publicada em Outubro do ano passado, há uma passagem esclarecedora sobre esta matéria:

“Quanto aos Muçulmanos incapazes de fazer a hijrah das terras infiéis para o Califado, há muitas oportunidades para eles atacarem os inimigos do Estado Islâmico. Há mais de 70 nações cruzadas, regimes ilegítimos, exércitos apóstatas, e facções para ele escolher. Os seus interesses estão espalhados por todo o mundo. Ele não deve hesitar em os atacar onde puder. Além disso, para além de matar cidadãos cruzados em qualquer ponto da terra o que é que, por exemplo, o impede de atacar comunidades em Dearborn (Michigan), Los Angeles e Nova Iorque?”

Há uma particularidade neste excerto. Ele aparecia num artigo de 10 páginas no qual os autores comparavam a luta de Maomé, em Medina, contra uma aliança entre judeus e tribos árabes à actual situação em que o EI enfrenta uma coligação internacional. De acordo com a crença islâmica, nessa batalha de Al-Ahzab os muçulmanos resistiram a um cerco entre Janeiro e Fevereiro do ano 627 e, apesar de estarem em menor número, saíram vitoriosos. O mesmo, escreveram, acontecerá agora. Em seguida, a revista enumerou os países e organizações empenhados na luta contra o EI – lista onde estava Portugal. Terá sido a primeira vez que o nosso país surgiu mencionado numa publicação jihadista.

Os avisos não foram apenas lançados em publicações oficiais. Em Julho de 2014, o luso-descendente (com passaporte português) Mickael dos Santos, começou a receber mais atenção por parte dos serviços secretos franceses e das autoridades portuguesas depois de escrever no Twitter: “Anuncio oficialmente e com toda a franqueza: estão a ser preparados dois atentados em França. Tenham paciência.” Mickael fazia parte de um grupo de combatentes que, após a proclamação do califado, tinha trocado a Jabhat al Nutra pelo Estado Islâmico. Era então conhecido pelas fotografias extremamente violentas que colocava no twitter, algumas delas a segurar ou com o pé sobre cabeças humanas. Como recém-convertido, parecia ser dos mais determinados  – e violentos. E a ameaça foi levada a sério.

Nos últimos seis meses, o nível de ameaça subiu. Incapaz de obter ganhos territoriais na Síria e no Iraque, acossado pelos bombardeamentos da coligação internacional e da aviação russa, estrangulado nas suas fontes de financiamento – que já levaram ao corte de 50% do salário dos combatentes – o EI terá visto na realização de atentados fora da Síria e do Iraque uma forma de desviar as atenções dos fracassos internos e manter a narrativa de vitória mediática que é tão importante para instigar medo nos adversários e recrutar novos voluntários. Não será por acaso que, no comunicado em que reivindica a autoria dos atentados em Bruxelas, o EI tenha frisado que a Bélgica é “um país que participa na coligação internacional contra o Estado Islâmico”.

Se antes as suas forças estavam concentradas na consolidação do poder no interior do território por elas controlado, agora uma parte desse foco ter-se-á movido para o exterior. Começou em Outubro de 2015, com a bomba que derrubou um avião russo na península do Sinai. Continuou depois em Beirute, Paris, Istambul, Jacarta e agora Bruxelas. Uma tendência que não dá sinais de parar.

(Continua)

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Ilustração do Vasco Gargalo

O terror no meio de nós

Ficou surpreendido com o atentado terrorista na Bélgica? Sorte a sua. Significa que tem andado distraído e, mais importante, não teve a necessidade de se preocupar com a maior ameaça à segurança mundial dos tempos modernos. Um monstro que mudou várias vezes de nome na última década até assumir a mais recente versão: Estado Islâmico (EI). A designação não é o mais relevante. O que importa é que, para os mais atentos, o ataque não foi surpresa. É por isso que a pergunta correcta não é “vai haver mais ataques?” mas sim “quando acontecerão novos ataques?” A resposta honesta é: ninguém sabe. Ou melhor, alguém saberá, mas está do outro lado da barricada.

Há também aqueles que procuram saber. E prevenir. Em Janeiro desde ano, a Europol divulgou um relatório que passou mais ou menos despercebido ao cidadão comum. No entanto, o documento alertava para a forte possibilidade de ocorrerem novos atentados na Europa, justamente em França e na Bélgica. Chamava-se “Mudanças no modus operandi dos ataques terroristas do Estado Islâmico“. Não se pode dizer que o título seja o mais claro. Ou interessante. Mas o conteúdo é da máxima importância. Estas são algumas passagens:

“Informações sugerem que o EI desenvolveu um comando de acção externas treinado para operações ao estilo de ‘forças especiais’ destinadas a ataques no estrangeiro, na União Europeia e na França em Particular. Isto pode significar que mais ataques como os que ocorreram em Paris em Novembro estão neste momento a ser planeados e preparados”.

“As células terroristas prontas para realizar um ataque terrorista são na maioria domésticas e/ou baseadas localmente”.

“Não há provas concretas de que os viajantes terroristas usem sistematicamente a onda de refugiados para entrar na Europa sem serem detectados. É possível que elementos da diáspora síria na Europa seja vulnerável à radicalização. Há relatos de que os centros de refugiados estão a ser um alvo de recrutadores do EI.”

“Para além das instalações de treino na Síria, existem campos de treino mais pequenos na União Europeia e nos países de Balcãs.”

Em suma: há muito que se sabe que o Estado Islâmico prepara atentados na Europa; há equipas especiais a serem treinadas para isso; e os terroristas são geralmente europeus. A tarefa de quem trabalha todos os dias para os impedir é hercúlea. Senão mesmo impossível. Alguém que tenha recebido treino num palco de conflito e que tenha também a motivação para o fazer, não terá grandes dificuldades para levar por diante um ataque que tem como único objectivo causar o maior número de vitimas.

Não importa se são militares, políticos, trabalhadores ou estudantes. Aos olhos dos radicais islamitas do EI não existem civis. Há inimigos. Que não merecem piedade e cuja morte não é de lamentar. E é isso que é assustador. Um novo atentado pode acontecer em qualquer lugar: transportes (metro, autocarros, comboios, aeroportos, gares, etc), estádios, centros comerciais, escolas, museus, salas de espectáculos, cafés, restaurantes… Locais de grande concentração de pessoas. É possível controlá-los todos? Não.

A opção que resta é tentar monitorizar os protagonistas. Identificar suspeitos, controlar comunicações, vigiar encontros, impedir acções – sempre dentro do respeito do primado da lei – e partilhar informações entre serviços de informações e forças de segurança. Só assim será possível reduzir as probabilidades de novos atentados. Tal como tem sido conseguido. Porque é disso que se trata: reduzir probabilidades.

Para isso são precisos recursos. Materiais e humanos. Para controlar um suspeito 24 horas por dia, física e electronicamente, são necessárias cerca de 25 pessoas. Isto inclui seguimentos físicos, escutas telefónicas, traduções, etc. Só em França há cerca de 5000 indivíduos referenciados pela Direção Geral de Segurança Interna por ligações a movimentos extremistas. E muitos outros que ainda não caíram no radar das autoridades. Jovens e menos jovens que passam os dias ou as noites ligados ao computador a ver vídeos de propaganda ou em comunicação directa com um jihadista que lhes dá instruções a partir de um cibercafé ou de um apartamento em Raqqa ou Mossul. Uma tarefa aparentemente impossível.

(Continua)

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Ilustração do Vasco Gargalo.