Coincidências: o governo caiu no dia em que Cunhal nasceu

A data vai ficar na história. Esta terça-feira, 10 de Novembro, a maioria de esquerda na Assembleia da República derrubou o governo de coligação PSD/CDS-PP. Por ironia do destino, a moção de rejeição do Partido Socialista foi aprovada no dia em que Álvaro Cunhal, líder histórico comunista, faria 102 anos. Uma excelente ocasião para recordar um artigo e uma entrevista que guardo com especial carinho e orgulho.

Anúncios

A realidade e a ficção do aumento de impostos

O Documento de Estratégia Orçamental apresentado a 30 de Abril de 2014 tinha duas novidades:

  1. O Imposto sobre o Valor Acrescentado, também conhecido por IVA, vai subir de 23% para 23,25%;
  2. A Taxa Social Única, também conhecida por TSU que aumenta de 11% para 11,2%.

No dia seguinte, 1 de Maio de  2014, Pedro Passos Coelho afirmou:

“Vamos descer o défice dos próximos anos sem precisar de aumentar impostos e sem precisar de ir ao rendimento das pessoas.”

E sim, disse isso com um ar sério.

Passos 14623448786447175476

O Pedro bom e o Passos Coelho mau

Reconheço. É uma falha inacreditável. Ainda não tinha visto o vídeo do tempo de antena do Partido Socialista divulgado a 1 de Abril. Depois do artigo de ontem do João Miguel Tavares, no Público, não resisti e fui à procura. Sim, é um tempo de antena. Mas fora as considerações políticas, a selecção das imagens e de declarações podia ser um exercício jornalístico. Dos bons. Como tempo de antena é brilhante. Mas, como diz o João Miguel Tavares, podia ter sido feito pelo PSD sobre o governo Sócrates. Ou pelo PS sobre o executivo Barroso/Santana. Ou pelo PSD sobre o governo Guterres. E poderá ser feito pelo PSD um ano depois de António José Seguro (se lá chegar) se tornar primeiro-ministro. E é triste que assim seja. Ainda assim, é excelente.

“Gostava de dizer ao Presidente da República que este país não é seu, nem do governo do seu partido”

A Alexandra Lucas Coelho recebeu na passada segunda-feira o prémio APE pelo romance E a Noite Roda. O galardão devia ter sido entregue pelo Presidente da República. Não foi. Cavaco Silva fez-se representar. Tal como já tinha feito no prémio Gazeta de Jornalismo. Esta é uma parte do discurso da jornalista do Público.

images

“Estou a voltar de três anos e meio a morar no Brasil. Um dia, a meio dessa estadia brasileira, pediram-me que gravasse um excerto de um conto de Clarice Lispector para o site do Instituto Moreira Salles. Era um conto em que a protagonista era portuguesa, daí o pedido, que a voz coincidisse com o sotaque. Como detestei aquela portuguesa do conto da Clarice. Tudo na boca dela era inho e ito. Era o Portugal dos Pequenitos com a nostalgia das grandezas. Aquele que diz “cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas” mas sofre de ressentimento. O Portugal que durante 40 anos Salazar achou que era seu, pobre mas honesto-limpo-obediante, como agora o governo no poder quer Portugal, porque acha que Portugal é seu.

Estou a voltar a Portugal 40 anos depois do 25 de Abril, do fim da guerra infame, do ridículo império. Já é mau um governo achar que o país é seu, quanto mais que os países dos outros são seus. Todos os impérios são ridículos na medida em que a ilusão de dominar outro é sempre ridícula, antes de se tornar progressivamente criminosa.

Entre as razões porque quis morar no Brasil houve isso: querer experimentar a herança do colonialismo português depois de ter passado tantos anos a cobrir as heranças do colonialismo dos outros, otomanos, ingleses, franceses, espanhóis ou russos.

E volto para morar no Alentejo, com a alegria de daqui a nada serem os 40 anos da mais bela revolução do meu século XX, e do Alentejo ter sido uma espécie de terra em transe dessa revolução, impossível como todas.

Este prémio é tradicionalmente entregue pelo Presidente da República, cargo agora ocupado por um político, Cavaco Silva, que há 30 anos representa tudo o que associo mais ao salazarismo do que ao 25 de Abril, a começar por essa vil tristeza dos obedientes que dentro de si recalcam um império perdido.

E fogem ao cara-cara, mantêm-se pela calada. Nada estranho, pois, que este presidente se faça representar na entrega de um prémio literário. Este mundo não é do seu reino. Estamos no mesmo país, mas o meu país não é o seu país. No país que tenho na cabeça não se anda com a cabeça entre as orelhas, “e cá vamos indo, se deus quiser”.

Não sou crente, portanto acho que depende de nós mais do que irmos indo, sempre acima das nossas possibilidades para o tecto ficar mais alto em vez de mais baixo, Para claustrofobia já nos basta estarmos vivos, sermos seres para a morte, que somos, que somos.

Partimos então do zero, sabendo que chegaremos a zero, e pelo meio tudo é ganho porque só a perda é certa.

O meu país não é do orgulhosamente só. Não sei o que seja amar a pátria. Sei que amar Portugal é voltar do mundo e descer ao Alentejo, com o prazer de poder estar ali porque se quer. Amar Portugal é estar em Portugal porque se quer. Poder estar em Portugal apesar de o governo nos mandar embora. Contrariar quem nos manda embora como se fosse senhor da casa.

Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é seu, nem do governo do seu partido. É do arquitecto Álvaro Siza, do cientista Sobrinho Simões, do ensaísta Eugénio Lisboa, de todas as vozes que me foram chegando, ao longo destes anos no Brasil, dando conta do pesadelo que o governo de Portugal se tornou: Siza dizendo que há a sensação de viver de novo em ditadura, Sobrinho Simões dizendo que este governo rebentou com tudo o que fora construído na investigação, Eugénio Lisboa, aos 82 anos, falando da “total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página”.

Este país é dos bolseiros da FCT que viram tudo interrompido; dos milhões de desempregados ou trabalhadores precários; dos novos emigrantes que vi chegarem ao Brasil, a mais bem formada geração de sempre, para darem tudo a outro país; dos muitos leitores que me foram escrevendo nestes três anos e meio de Brasil a perguntar que conselhos podia eu dar ao filho, à filha, ao amigo, que pensavam emigrar.

Eu estava no Brasil, para onde ninguém me tinha mandado, quando um membro do seu governo disse aquela coisa escandalosa, pois que os professores emigrassem. Ir para o mundo por nossa vontade é tão essencial como não ir para o mundo porque não temos alternativa.

Este país é de todos esses, os que partem porque querem, os que partem porque aqui se sentem a morrer, e levam um país melhor com eles, forte, bonito, inventivo. Conheci-os, estão lá no Rio de Janeiro, a fazerem mais pela imagem de Portugal, mais pela relação Portugal-Brasil, do que qualquer discurso oco dos políticos que neste momento nos governam. Contra o cliché do português, o português do inho e do ito, o Portugal do apoucamento. Estão lá, revirando a história do avesso, contra todo o mal que ela deixou, desde a colonização, da escravatura.

Este país é do Changuito, que em 2008 fundou uma livraria de poesia em Lisboa, e depois a levou para o Rio de Janeiro sem qualquer ajuda pública, e acartou 7000 livros, uma tonelada, para um 11º andar, que era o que dava para pagar de aluguer, e depois os acartou de volta para casa, por tudo ter ficado demasiado caro. Este país é dele, que nunca se sentaria na mesma sala que o actual presidente da República.

E é de quem faz arte apesar do mercado, de quem luta para que haja cinema, de quem não cruzou os braços quando o governo no poder estava a acabar com o cinema em Portugal. Eu ouvi realizadores e produtores portugueses numa conferência de imprensa no Festival do Rio de Janeiro contarem aos jornalistas presentes como 2012 ia ser o ano sem cinema em Portugal. Eu fui vendo, à distância, autores, escritores, artistas sem dinheiro para pagarem dividas à segurança social, luz, água, renda de casa. E tanta gente esquecida. E ainda assim, de cada vez que eu chegava, Lisboa parecia-me pujante, as pessoas juntavam-se, inventavam, aos altos e baixos.

Não devo nada ao governo português no poder. Mas devo muito aos poetas, aos agricultores, ao Rui Horta que levou o mundo para Montemor-o-Novo, à Bárbara Bulhosa que fez a editora em que todos nós, seus autores, queremos estar, em cumplicidade e entrega, num mercado cada vez mais hostil, com margens canibais.

Os actuais governantes podem achar que o trabalho deles não é ouvir isto, mas o trabalho deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir isto, o que as pessoas têm a dizer, que foram eleitos, embora não por mim. Cargo público não é prémio, é compromisso.

Portugal talvez não viva 100 anos, talvez o planeta não viva 100 anos, tudo corre para acabar, sabemos, Mas enquanto isso estamos vivos, não somos sobreviventes.”

O discurso completo está aqui. 

O dia das mentiras é quando um político quiser

Eu já tive ocasião de dizer que o PSD, e eu próprio, não vamos mexer naquilo que são as taxas de IVA que estão previstas, nomeadamente no acordo que foi estabelecido com a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional. Nós vamos ter de recolher mais dinheiro dos impostos alargando a base, que não aumentando ou agravando as taxas do imposto”, Passos Coelho, 30 de Maio 2011.

“Eu nunca ouvi falar disso no PSD. Eu já ouvi o primeiro-ministro dizer, infelizmente, que o PSD quer acabar com muitas coisas e também com o 13.º mês, mas nós nunca falámos disso e isso é um disparate”, Passos Coelho, 1 de Abril 2011

“Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer“, Paulo Portas, 2 de julho de 2013

“Só a partir de duas ou mais pensões acumuladas com um valor superior a 2 mil euros sofrerá alguma forma redução”, Paulo Portas, 13 de Outubro de 2013.

“Tão pouco pertenci à administração, conselho fiscal, fui ou sou sócio ou acionista da Sociedade Lusa de Negócios”, Rui Machete, Novembro de 2008

“Tal como já foi explicitado pela própria na Comissão Parlamentar de Inquérito à Celebração de Contratos de Gestão de Risco Financeiro por Empresas do Setor Público, as funções de Maria Luis Albuquerque no IGCP eram de análise de pedidos das empresas públicas sobre empréstimos e não sobre “swaps'””, comunicado de Maria Luís Albuquerque, 17 de Setembro de 2013.

O Governo não dá orientações, nem recebeu qualquer tipo de informação, sobre negócios que têm em conta as perspectivas estratégicas da TVI”, José Sócrates, 24 de Junho de 2009

“Não. Era só o que faltava! Numa altura em que país enfrenta uma crise destas, acha que proporia aumentar os impostos? Se pudesse, até desceria mais os impostos, para que as empresas pudessem ter melhores condições. Baixámos o que pudemos”, José Sócrates, 10 de maio de 2009

“Juro por minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa”, Cavaco de Silva, 9 de Março de 2006 e 9 de Março de 2011.

“O primeiro-ministro não é candidato e o Governo português apoia a candidatura de António Vitorino à presidência da Comissão Europeia”, gabinete do primeiro-ministro Durão Barroso, 16 de Junho de 2004

Durão Barroso garante que viu provas das armas de destruição maciça iraquianas, Junho de 2003

Aceitam-se sugestões para aumentar a lista.

images

A impunidade

Berta Cabral é secretária de Estado da Defesa. Foi nomeada para o cargo na sequência de uma das diversas remodelações governamentais, após uma liderança falhada do PSD Açores e sem qualquer passado na área. Os meses passaram. Ontem soube-se, através de uma auditoria do Tribunal de Contas, que ela recebeu quase 20 mil euros indevidamente, em senhas de presença, enquanto presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, entre 1 de Março de 2004 e 31 de Dezembro de 2012.

Em tempos, a idoneidade dos governantes era algo sagrado. A mínima suspeita significava um rombo na credibilidade e na legitimidade de um executivo. Mesmo que se tenha provado que não havia qualquer ilegalidade. Veja-se o caso de António Vitorino, Jorge Coelho, Martins da Cruz e muitos outros. Hoje os tempos são outros. A impunidade é total. Um membro do governo pode ser suspeito de tudo e de mais alguma coisa, pode ser desautorizado em público como foi José Leite Martins que nada acontece. A política é esperar que a polémica passe. E ela passa. Se nós deixarmos.

berta

“A Alemanha precisa de fazer as reformas que Portugal já fez”

Bruno Maçães é um secretário de Estado português dos Assuntos Europeus. Não o conhecem? Não faz mal. Poucos sabem quem ele é. Na Grécia é conhecido como “o alemão” por aderir incondicionalmente às políticas ditadas por Berlim. No Conselho de Assuntos Gerais e no Conselho dos Negócios Estrangeiros da União Europeia – onde já substituiu o ministro Rui Machete – é conhecido por falar em inglês, posição que contraria a política oficial do governo português. No Twitter, mantém uma conta alimentada em inglês, que se tornou célebre depois de publicar uma fotografia tirada nas celebrações do dia da independência da Polónia e onde esta segunda-feira escreveu que “a Alemanha precisa de implementer muitas das reformas estruturais que Portugal implementou nos últimos anos”. A frase faz parte de um discurso feito por Maçães a 11 de Março no segundo fórum Alemanha-Portugal, em Berlim. Resta saber de que reformas estava ele a falar.

mac3a7c3a3es