As generalizações e o dedo espetado de José Rodrigues dos Santos

Ele é um repórter experiente. É o mais antigo pivot de telejornal do País. Goza de um estatuto ímpar na RTP. É um escritor de sucesso. Tem opiniões fortes. E não hesita em dá-las. Até aqui tudo bem. O problema é quando José Rodrigues dos Santos deixa as convicções pessoais interferir com o seu trabalho. Ou quando decide fazer uma das coisas mais perigosas e injustas que um jornalista pode fazer: as generalizações. E ao serviço da RTP.

No passado SÁBADO, José Rodrigues dos Santos fez uma peça de quatro minutos para o telejornal carregada de generalizações, todas elas negativas para a população grega. O repórter da RTP diz vezes sem conta que “os gregos” cobriram as piscinas para fugirem ao fisco, “os gregos” inventam mil estratagemas para não pagar impostos. Sim, alguns farão, mas [todos] “os gregos”?

A certa altura, diz na peça: “Muitos dos gregos que passam a pé diante da cada do ex-ministro da defesa, são paralíticos… ou melhor subornaram um médico para obter uma certidão fraudulenta de deficiência que lhes permite receber mais um subsidiozinho”. Tem a certeza? Muitos? Falou com alguns? Com um? Quem lhe disse que aquelas pessoas que passam diante da casa fez algo do género? Aparentemente, ninguém. É uma conclusão. Ou uma convicção. Ou uma generalização.

No entanto, mais grave do que o que a peça transmite, foi o tom adoptado pelo experiente repórter da RTP no directo que se seguiu. Com ar indignado, de dedo espetado para condenar as atitudes “dos gregos”, José Rodrigues dos Santos adoptou uma postura mais própria de um líder populista ou de um reformado indignado que opina sobre o que se passa no mundo à mesa do café do que de um jornalista com obrigações de isenção. Por várias vezes diz que “os gregos” defendem que a Europa é que tem de lhes resolver os problemas (mais uma generalização). E pior: a certa altura diz que falou com “elementos próximos do governo grego” que dizem que a inflação está controlada. No entanto, não hesita em dizer que isso “não é verdade”. No entanto, não duvida da palavra de “um grego” que lhe disse que a sogra distribuiu envelopes no hospital para o marido ser atendido. Ou seja, assume um lado.

José Rodrigues dos Santos é um repórter experiente. Tem um estatuto ímpar. Exactamente por isso, não deve esquecer os deveres de jornalista. Nem assumir lados – o que não implica omitir as situações que descreve nas suas peças. Pelo contrário. Deve dá-las. Mas sem generalizar. Nem espetar o dedo.

A propósito do fecho da televisão pública grega

“You will not be able to stay home, brother.
You will not be able to plug in, turn on and cop out.
You will not be able to lose yourself on skag and skip,
Skip out for beer during commercials,
Because the revolution will not be televised.

The revolution will not be televised.
The revolution will not be brought to you by Xerox
In 4 parts without commercial interruptions.
The revolution will not show you pictures of Nixon
blowing a bugle and leading a charge by John
Mitchell, General Abrams and Spiro Agnew to eat
hog maws confiscated from a Harlem sanctuary.
The revolution will not be televised.

The revolution will not be brought to you by the
Schaefer Award Theatre and will not star Natalie
Woods and Steve McQueen or Bullwinkle and Julia.
The revolution will not give your mouth sex appeal.
The revolution will not get rid of the nubs.
The revolution will not make you look five pounds
thinner, because the revolution will not be televised, Brother.

There will be no pictures of you and Willie May
pushing that shopping cart down the block on the dead run,
or trying to slide that color television into a stolen ambulance.
NBC will not be able predict the winner at 8:32
or report from 29 districts.
The revolution will not be televised.

There will be no pictures of pigs shooting down
brothers in the instant replay.
There will be no pictures of pigs shooting down
brothers in the instant replay.
There will be no pictures of Whitney Young being
run out of Harlem on a rail with a brand new process.
There will be no slow motion or still life of Roy
Wilkens strolling through Watts in a Red, Black and
Green liberation jumpsuit that he had been saving
For just the proper occasion.

Green Acres, The Beverly Hillbillies, and Hooterville
Junction will no longer be so damned relevant, and
women will not care if Dick finally gets down with
Jane on Search for Tomorrow because Black people
will be in the street looking for a brighter day.
The revolution will not be televised.

There will be no highlights on the eleven o’clock
news and no pictures of hairy armed women
liberationists and Jackie Onassis blowing her nose.
The theme song will not be written by Jim Webb,
Francis Scott Key, nor sung by Glen Campbell, Tom
Jones, Johnny Cash, Englebert Humperdink, or the Rare Earth.
The revolution will not be televised.

The revolution will not be right back after a message
bbout a white tornado, white lightning, or white people.
You will not have to worry about a dove in your
bedroom, a tiger in your tank, or the giant in your toilet bowl.
The revolution will not go better with Coke.
The revolution will not fight the germs that may cause bad breath.
The revolution will put you in the driver’s seat.

The revolution will not be televised, will not be televised,
will not be televised, will not be televised.
The revolution will be no re-run brothers;
The revolution will be live.”

Como os bens do Estado chegam às mãos de privados

Depois do sucesso de Debtocracy – teve dois milhões de visualizações na Internet – os mentores do projecto voltaram-se para um novo tema relacionado com a crise económica grega e, em Abril de 2012, lançaram Catastroika, privatization goes public. O documentário, também realizado através de crowdfunding, debruçou-se sobre os processos de privatização em vários países. Tal como o predecessor, Catastroika foi distribuído gratuitamente na Internet.

Jornalismo feito para o público

A ideia era ambiciosa: produzir um documentário que explicasse as causas da crise da dívida soberana e apresentasse soluções para o problema. O principal problema do mentor do projecto, o jornalista Aris Chatzistefanou, era geral: não havia dinheiro. Então, juntamente com três outros repórteres, pediu apoio ao público e através do crowdfunding, reuniu €8000 em 15 dias. O resultado foi o documentário Debtocracy, lançado em Abril de 2011.

Micro revista de imprensa

Há quem diga que para sabermos o que o futuro nos reserva, ao abrigo do programa de ajustamento da troika, basta-nos olhar para o que se passa na Grécia. E as notícias que de lá chegam não são animadoras. Hoje, no Público (só para assinantes), a Maria João Guimarães conta que, sem dinheiro para electricidade e gasolina, os gregos começaram a queimar tudo o que podem para não morrerem de frio. As árvores estão a desaparecer dos parques e florestas, os livros são tirados das estantes e atirados para as fogueiras, móveis lacados são desmontados e queimados em fogões. A consequência é uma nuvem de fumo a cobrir as cidades e, em Atenas, a poluição chegou a ser três vezes superior ao nível de perigo definido pela União Europeia.

publico

Nota: a micro revista de imprensa destaca diariamente um artigo publicado nos jornais e revistas portugueses. Pode ser uma notícia, uma reportagem, uma entrevista ou uma crónica. Pode ter várias páginas ou ocupar uma coluna. O critério é sempre o mesmo: importância, interesse e qualidade.

A origem e o futuro do euro

Há pelo menos dois anos que surgem nos jornais e nas revistas europeias artigos sobre o anunciado fim do Euro (declaração de interesses: eu próprio já assinei um). Desde o início da crise grega, sucederam-se as marcações de reuniões “cruciais” para a moeda única e de eleições decisivas para o futuro da Grécia e da União Europeia (UE). Escreveram-se milhares de caracteres sobre as consequências da saída da Grécia da zona Euro, sobre o regresso do Escudo e sobre o próprio colapso do projecto europeu. A verdade é que, passado todo este tempo, o Euro mantém-se uma das moedas mais sólidas do mundo. Para o perceber é preciso recordar o objectivo fundamental da moeda única: manter a Alemanha reunificada integrada na economia europeia e evitar uma terceira guerra mundial.

Este é o ponto de partida para uma análise bem estruturada sobre o estado do Euro por parte de Vicente Navarro, cientista político e professor nas universidades Pompeu Fabra, em Barcelona e Johns Hopkins, em Maryland. Navarro compara a actuação do Banco Central Europeu (BCE) com a da Reserva Federal Americana e explica como a generalidade dos bancos europeus utilizou os empréstimos do BCE para lucrar milhões com o negócio da compra das dívidas soberanas; como, em última instância, a Alemanha é o principal interessado na manutenção da moeda única; e como o governo espanhol (e também o português) está a utilizar a desculpa da imposição externa (o argumento de “não há alternativa”) para impor as reformas com que sempre sonhou. É um ponto de vista de esquerda. Mas é uma discussão que vale a pena ter.