A atracção pelo dinheiro da Guiné-Equatorial

A Guiné Equatorial é, por estes dias, um destino atractivo. Não só para angolanos, brasileiros e portugueses. É também um alvo preferêncial de empresários espanhóis e, sobretudo, de ex-políticos transformados em homens de negócios. É o caso do ex-presidente do governo Espanhol, José Luiz Zapatero e dos ex-ministros José Bono y Miguel Ángel Moratinos. Os três foram vistos e fotografados recentemente em Malabo, a capital da Guiné Equatorial, onde, segundo o jornal El Confidencial, têm estado várias vezes a actuar como lobbistas em nome de empresas castelhanas que querem entrar no mais recente membro da CPLP. Em troca dos seus contactos receberão comissões avultadas.

Em Portugal correm rumores de que ex-políticos também têm passado várias vezes em Malabo. Até agora, não apareceram provas. A ser verdade, será uma questão de tempo.

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Bono, Zapatero e Moratinos, no passado dia 2 de Julho, num restaurante de Malabo. (Foto: El Confidencial)

CPLP: mais países a caminho da organização

Depois da Guiné Equatorial, outros países com uma ténue ligação à língua portuguesa poderão entrar na CPLP. O aviso foi lançado hoje, pelo Jornal de Angola, o órgão oficial do regime angolano, num editorial que volta a criticar as “elites portuguesas” “preconceituosas”, “ignorantes e corruptas”, a propósito da oposição nacional à entrada do país liderado há 34 anos por Teodoro Obiang Nguema na organização.

“A grandeza da língua

O facto em si nada tem de marcante.Organizações que se formaram agregando países que falam a mesma língua receberam no seu seio Estados que não têm qualquer afinidade linguística. Moçambique faz parte da  Commonwealth e a Guiné-Bissau integra o bloco da Francofonia. Estes dois exemplos podem repetir-se às centenas.
O que marca a adesão da Guiné Equatorial à CPLP é o alarido feito por membros das elites preconceituosas portuguesas. Em Lisboa surgiram numerosas vozes contra a adesão. Muitas são daquelas que nunca chegarão aos céus. Mas entre os contestatários estão políticos e líderes de opinião que se dizem democratas. O que revela uma contradição insanável eivada de ignorância e uma tendência inquietante para criar um “apartheid” nas relações internacionais. De um lado os democratas puros, os fiéis. E do outro os impuros e infiéis.
Ninguém percebe donde vem a pureza e a fidelidade dos representantes das elites preconceituosas à democracia. Nem se compreende a soberba com que tratam a Guiné Equatorial e o Presidente Obiang. Em Lisboa é esgrimido um argumento muito débil: o país tem a pena de morte. Muitos estados dos EUA executam todos os dias condenados à pena capital e nem por isso os porta-vozes dessas elites querem expulsar o seu aliado da OTAN. Pelo contrário, quando Washington anunciou que ia sair da Ilha Terceira por já não ter interesse na Base das Lajes, todos se puseram de joelhos, implorando que a base aérea continue.
Outros parceiros políticos e económicos de Portugal têm a pena de morte e isso não impede que os portugueses façam grandes negócios e brindem em Lisboa com o sublime Vinho do Porto. Os argumentos, mais do que débeis, são primários. E mais do que isso: escondem hipocrisia e também muita pressuposição baseada em velhos conceitos coloniais.  A CPLP, já aqui o escrevemos, pode ter uma influência grande na política da Guiné Equatorial. O decreto presidencial que suspende a pena de morte até à produção de legislação que determine a sua abolição é um exemplo concreto dessa influência. Se a partir de agora o Governo daquele país se aproximar dos modelos constitucionais que vigoram nos outros Estados membros, então está justificada a adesão.
A questão da Língua Portuguesa também é levantada pelas elites portuguesas ignorantes e corruptas. A Guiné Equatorial adoptou o português como língua oficial, a par do castelhano e do francês. Portanto, esse argumento deixou de valer a partir desse momento. Mas nunca valeu mais do que a caspa que povoa as ideias dos contestatários portugueses à adesão daquele país à CPLP.  Explicamos pormenorizadamente.
Parte do território da Guiné Equatorial já foi colónia portuguesa. Só no século XVII passou para a soberania espanhola. A ilha de Fernando Pó recebeu o nome do navegador português que lá aportou. A Ilha de Ano Bom (Ano Novo) está nas mesmas condições. Mas na pequena ilha está um tesouro da lusofonia: fala-se crioulo (fá d’ambô) que tem por base o português arcaico e que chegou quase incólume aos nossos dias.
As ilhas da Guiné Equatorial, está provado, foram povoadas por escravos angolanos. Nós queremos ir lá render homenagem aos nossos antepassados. Agora que Fernando Pó e Ano Bom fazem parte da CPLP,  mais facilmente podemos cumprir esse dever. Mas sem a companhia das elites estrábicas, que nem sequer foram capazes de defender a dulcíssima Língua Portuguesa do Acordo Ortográfico.
Os angolanos querem saber mais sobre a Língua Portuguesa e na ilha de Ano Bom, território da CPLP, temos muito que investigar a cultura. Os portugueses deviam ter o mesmo interesse, mas pelos vistos só estão interessados em dar lições de democracia, quando dentro das suas portas há crianças a morrer de fome.
Os Media em Portugal praticam diariamente atentados contra a Língua Portuguesa. Nos jornais já se escrevem mais palavras em inglês do que em português. Nas rádios e televisões a situação é ainda pior. Escrever e falar o português contaminado de anglicismos e galicismos é uma traição a todos os que falam a língua que uniu os países da CPLP.
A Guiné Equatorial já está a preparar o ensino da Língua Portuguesa. Dentro de pouco tempo, os novos parceiros da CPLP vão falar melhor do que as elites portuguesas preconceituosas. O mesmo vai acontecer quando outros países que tiveram contacto com o português no advento dos “descobrimentos”, entrarem para a organização.
Os portugueses têm um grande orgulho na expansão marítima da qual resultou o seu império. Mas agora há países e povos que guardam a memória desse passado comum e querem pertencer à CPLP. Alguns  renegam esse passado e opõem-se ao alargamento da organização. São demasiado pequenos para a grandeza da Língua Portuguesa.

Sondagem: A Guiné-Equatorial e a CPLP

Podem escolher mais do que uma opção

Os negócios da Guiné Equatorial em Lisboa

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Em Fevereiro deste ano a República da Guiné Equatorial adquiriu três edifícios em Lisboa por um preço global de €12.750.000. Todos os negócios foram feitos com a mesma empresa: a Burgoparalelo, Imobiliária, Lda, uma sociedade destinada à compra e venda de imóveis que até Novembro de 2013 não tinha qualquer registo de actividade e que lucrou mais de cinco milhões de euros com os negócios. Mais: o gerente da empresa terá trabalhado cerca de uma década na Guiné Equatorial. Os contratos, consultados pela SÁBADO, foram efectuados no escritório da sociedade de advogados Cuatrecasas, Gonçalves Pereira.

A aquisição dos diferentes edifícios insere-se no processo de adesão da Guiné Equatorial à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Para além de tentar cumprir os requisitos impostos em 2010 para ser aceite como um membro de pleno direito da organização – ter o português como língua oficial, haver um ensino efectivo da língua e aprovar uma moratória à pena de morte –  o regime liderado há 34 anos por Teodoro Obiang Nguema decidiu abrir uma embaixada em Portugal. Apresentado pelo governo de Malabo como um dos “mais significativos passos” tomados com o objectivo de uma adesão plena à CPLP, o projecto culminou a 17 de Abril de 2013 na acreditação de José Dougan Chubum como embaixador em Lisboa. A embaixada da Guiné Equatorial foi então instalada numa moradia no Restelo. Mas isso deverá estar prestes a mudar, também graças à intervenção de um cidadão espanhol com ligações à Guiné Equatorial: José Maria Muñoz Suarez.

Sem qualquer relação empresarial em Portugal, a 8 de Outubro de 2013 o empresário tornou-se gerente da sociedade Burgoparalelo Imobiliária, Lda, uma empresa criada a 16 de Dezembro de 2012 por dois portugueses (Ricardo Louro e Luís Pereira) com um capital social de €1000 e que, até então, não terá realizado qualquer negócio. José Suarez ficou com uma quota de €500 e os restantes 50% da sociedade passaram para Roland Osita Bosah. Sobre este último, a SÁBADO não conseguiu apurar qualquer informação. No entanto, José Suarez surge identificado num relatório da Greenpeace espanhola, de Março de 2001, como tendo “trabalhado durante dez anos em empresas madeireiras da GuinéEquatorial”.

A 1 de Novembro de 2013, menos de um mês depois de se tornar gestor da Burgoparalelo, José Suarez assinou três escrituras no escritório da sociedade de advogados Cuatrecasas, Gonçalves Pereira, no Marquês de Pombal. Uma serviu para adquirir um palacete na Avenida João Crisóstomo por €1.475.000. Outra para adquirir uma moradia na Rua Pêro de Alenquer, no Restelo, por €3.800.000. Através da terceira comprou duas fracções na Avenida do Restelo por €1.800.000 cada. Todos tinham o mesmo destino: a revenda.

A 7 de Fevereiro deste ano, o empresário espanhol regressou à sede da Cuatrecasas. Nessa data, vendeu à República da Guiné Equatorial, representada pelo embaixador José Chubum, o palacete da avenida João Crisóstomo por €5 milhões. Lucro: €3.525.000. De acordo com a escritura, consultada pela SÁBADO, €4 milhões serviram para pagar o imóvel construído em 1913 e constituído por um rés-do-chão, primeiro andar e águas furtadas, com 10 salas divididas por 648m2 e um jardim nas traseiras. O outro milhão pagou o recheio do edifício que inclui ar condicionado, câmaras de vigilância, multimédia, elevador panorâmico, mobiliário e artigos de decoração. De acordo com os registos, o edifício será a futura embaixada da Guiné Equatorial em Lisboa.

A 28 de Fevereiro realizaram-se as outras duas vendas. Pela vivenda na Rua Pêro de Alenquer – destinada a residência oficial do embaixador –, com uma área total de 1139m2, a República da Guiné Equatorial pagou €5 milhões: €4 milhões pelo edifício com garagem, rés-do-chão e primeiro andar; e €1 milhão pelo recheio. Lucro da Burgoparalelo: €1.200.000.

Já por uma das fracções na Avenida do Restelo, destinada a residência do pessoal diplomático, a Guiné Equatorial pagou €2.250.000 – €250.000 pelo recheio. Todos os negócios foram pagos a pronto, excepto o último, cujo milhão final só será pago após a conclusão das obras acordadas entre as partes. Lucro da Burgoparalelo com a venda desta fracção: €450.000.

Para tentar esclarecer algumas questões levantadas pelos negócios, a SÁBADO tentou contactar todas as partes envolvidas. A advogada da Cuatrecasas que participou no negócio, Teresa de Almeida Ferreira, invocou o sigilo profissional para não prestar declarações. Já a Burgoparalelo não tem qualquer número de telefone, fax ou contacto de email conhecido. A SÁBADO deslocou-se à morada da empresa indicada nas escrituras mas ela serva apenas para efeitos fiscais: é a mesma da firma de contabilidade BDO. A responsável pela conta da firma confirmou à SÁBADO que a multinacional é apenas o Técnico Oficial de contas da Burgoparalelo e que qualquer questão deve ser enviada aos gerentes da empresa – que não têm outro contacto conhecido. Já o embaixador da Guiné Equatorial, José Chubum, não respondeu ao contacto da SÁBADO até ao fecho desta edição, na passada terça-feira.

* Texto publicado a 20 de Março de 2014 na edição 516 da revista SÁBADO.

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Tudo o que precisam de saber sobre… a Guiné Equatorial e a CPLP

É um dado adquirido: amanhã, 23 de Julho, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) vai crescer. Em tamanho, poderio económico e polémica. Tudo graças à entrada de um novo membro na família originalmente unida pela língua portuguesa: a GuinéEquatorial. Na cimeira que se realiza em Díli, Timor Leste, os chefes de Estado e de Governo deverão seguir a recomendação feita a 20 de Fevereiro pelos ministros dos Negócios Estrangeiros e aprovar a adesão do país governado há 34 anos por Teodoro Obiang Neguema. Será o culminar de um processo que começou há oito anos e que poderá transformar a CPLP numa organização mais orientada para os interesses económicos. Isto é tudo o que precisam de saber sobre o país – e a forma como conseguiu entrar na organização lusófona.

  • Não consegue encontrar a Guiné Equatorial num mapa? Não se preocupe. Primeiro: não deve ser o único. Segundo: não é fácil. Localizado no Golfo da Guiné, o país divide-se em quatro: uma zona continental (onde estáa ser construída uma nova sede de governo, Malabo II) e as ilhas de Bioko (onde fica a capital, Malabo), Annobón (que é separada da principal por São Tomé e Príncipe) e Corisco. Para todos os efeitos, é um pequeno país: tem 28 mil km quadrados e cerca de 700 mil habitantes. Portugal tem 92 mil km quadrados e 10 milhões de pessoas. Mas é também um gigante económico: em 2013 teve um Produto Interno Bruto per capita de 18.800 euros (o português foi de 16.800 euros), o mais alto do continente africano. Estes valores devem-se à produção de cerca de 318 mil barris de petróleo por dia, que fazem da Guiné Equatorial o terceiro maior exportador da África sub-saariana, atrás da Nigéria e de Angola.
  • Descoberto em 1472 pelo navegador português Fernando Pó, o território foi entregue a Espanha três séculos mais tarde através dos tratados de Santo Ildefonso e de El Pardo. Já no século XX, os territórios foram unificados na Guiné Espanhola. A República da Guiné Equatorial como a conhecemos obteve a independência a 12 de Outubro de 1968. Nas primeiras – e únicas – eleições livres no país, a população elegeu Francisco Macias Nguema presidente. Fez mal: o novo governante instaurou um regime ditatorial que se celebrizou pelas execuções de opositores. Muitas delas públicas. No Natal de 1975, por exemplo, cerca de 150   adversários foram executados no estádio de Malabo por soldados vestidos de Pai Natal. Os poderes que dizia ter e que proviriam de um crânio mágico não foram suficientes para o salvar: a 3 de Agosto de 1979 foi deposto por um golpe de Estado liderado pelo seu sobrinho, Teodoro Obiang Nguema, que era então responsável pela prisão de Praia Negra. Francisco Nguema foi julgado numa sala de cinema onde foi colocado numa jaula suspensa no tecto para “evitar usar os seus poderes”. Condenado à morte, foi executado nesse mesmo dia. Teodoro Obiang ficou com o crânio mágico.
  • A situação política do país não melhorou nos anos seguintes. Pelo contrário. Teodoro Obiang continuou a reprimir a oposição, passou a governar por decreto, foi acusado pelos adversários de canibalismo, instalou um regime de partido único onde a liberdade de imprensa não existe: além da televisão e rádio públicas, os únicos operadores privados pertencem ao seu filho mais velho “Teodorin”Nguema Obiang.
  • O país começou a suscitar o interesse internacional na década de 1990 com a descoberta de grandes reservas de petróleo e gás natural. As grandes companhias instalaram-se rapidamente na Guiné Equatorial. Mas apesar de, em 2003, a rádio estatal ter declarado que Teodoro Obiang está“em permanente contacto com o todo-poderoso”, a opinião pública ouviu falar pela primeira vez no pequeno Estado africano após a tentativa falhada de golpe de estado levada a cabo em 2004 por mercenários sul-africanos e que envolveria Mark Tatcher, o filho da primeira-ministra britânica, Margaret Tatcher.
  • Dois anos depois, Teodoro Obiang começou a aproximar-se da CPLP. Em Junho de 2006 obteve o estatuto de observador associado e passou a assistir às cimeiras da organização. Com o objectivo de se tornar um membro de pleno direito, no ano seguinte o presidente da Guiné Equatorial anunciou que o português se tornaria a terceira língua oficial do país, após o espanhol e o francês. Ninguém o levou muito a sério. Até que, em 2010, Angola, por iniciativa de José Eduardo dos Santos, colocou a questão em cima da mesa.
  • Os dois chefes de Estado conhecem-se há muito, chegaram ao poder quase em simultâneo e desenvolveram uma relação pessoal. Angola queria também afirmar-se como uma potência regional no Golfo da Guiné. O governo português de então, liderado por José Sócrates, tinha-se mostrado disposto a aceitar a situação. E foi com essa expectativa que Teodoro Obiang viajou para Luanda para participar na cimeira da CPLP de Julho de 2010. Três dias antes da reunião aprovou mesmo um decreto que reconhece o português como língua oficial. No entanto, pouco antes do encontro, o presidente da República, Cavaco Silva, manifestou o seu desconforto com a eventual adesão.
  • Apesar de a política externa ser uma competência do governo, há um entendimento de que na CPLP (como nas cimeiras Ibero-Americanas) o presidente tem uma palavra a dizer. O impasse só foi ultrapassado após reuniões bilaterais à margem do encontro, lideradas por José Sócrates, e a sugestão por parte do então ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, da adopção de um plano de acção com três componentes: o português ser a língua oficial; haver um ensino efectivo da língua e aprovação de uma moratória à pena de morte. Se as condições fossem cumpridas, Portugal retiraria a sua oposição. Obiang não gostou. José Eduardo dos Santos também não. Mas aceitaram.
  • Nos dois anos seguintes não houve avanços. Até os telegramas enviados pela diplomacia da Guiné Equatorial para a CPLP eram escritos em espanhol. Não foi, por isso, muito difícil a Portugal manter a posição na cimeira de Maputo no Verão de 2012. Mas a pressão aumentou. O Brasil, Timor e São Tomé e Príncipe juntaram-se a Angola na defesa da adesão. Em Maio de 2013 José Eduardo dos Santos terá mesmo garantido a Teodoro Obiang que o país entraria na CPLP em 2014. A revelação foi feita, em espanhol, pelo presidente da Guiné Equatorial numa conferência de imprensa no final de uma visita a Luanda.
  • Ao mesmo tempo, o filho mais velho do presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Nguema Obiang tornou-se presença regular nas páginas dos jornais. E não pelos melhores motivos. Entre 2004 e 2011, já como ministro da agricultura, e com um salário de cerca de seis mil dólares, “Teodorin”, como é conhecido, terá gasto cerca de 314 milhões de dólares. Nos Estados Unidos, entre as suas aquisições estão um relógio avaliado em 1.2 milhões de dólares, um Ferrari por 532 mil dólares, objectos que pertenceram a Michael Jackson (como uma luva branca) por 496 mil dólares e uma mansão em Malibu avaliada em 35 milhões, que foram palco de festas épicas que incluíam um tigre branco.
  • O filho do ditador tinha viajado para os Estados Unidos pela primeira vez em 1991 para estudar na Universidade de Pepperdine, na Califórnia. As despesas foram pagas pela petrolífera Walter Oil & Gas, uma das primeiras a explorar os recursos naturais do país. Vinte anos depois, em 2011, o departamento de justiça norte-americano confiscou-lhe bens no valor de 70 milhões de dólares alegadamente obtidos através de esquemas de corrupção e desvio de dinheiro pertencente ao povo da Guiné Equatorial. No ano seguinte foi a vez da justiça francesa emitir um mandado de detenção em nome de “Teodorin”ao abrigo de uma investigação por lavagem de dinheiro. Na sua mansão de seis andares em Paris foi apreendida uma colecção de automóveis avaliada em 10 milhões de dólares. Para evitar a sua detenção, Teodoro Obiang nomeou o filho representante do país junto da UNESCO, para lhe dar imunidade diplomática. Depois nomeou-o segundo vice-presidente do país, um cargo que não estáprevisto na constituição.
  • Para tentar credibilizar o regime e obter aceitação internacional, Teodoro Obiang não tem poupado esforços. Nem dinheiro. Em 2008 doou três milhões de dólares para a atribuição de um prémio científico pela UNESCO. A designação inicial causou polémica o galardão só foi entregue pela primeira vez três anos depois, quando Obiang aceitou retirar o seu nome da distinção. Já este ano ofereceu à Organização das Nações Unidas um edifício construído na nova capital, Malabo II. O prédio foi recebido pelo próprio secretário-geral Ban Ki Moon. Doou também 30 milhões de dólares para impulsionar a a criação do Fundo de Solidariedade para a Luta contra a Fome em África.
  • Na CPLP, para evitar o isolamento, o actual governo adoptou uma postura pró-activa. Em Dezembro a presidente do Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, Ana Paula Laborinho, deslocou-se a Malabo e, em Janeiro, foi a vez do secretário dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação visitar o país. Na ocasião, Luís Campos Ferreira assinou vários protocolos para a formação de professores e de pessoal da administração pública e para o apoio à tradução de documentos. Detalhe: foi a primeira vez que o país de Obiang assinou acordos apenas em português. O próprio presidente estará a aprender a língua, em aulas dadas por um professor brasileiro. A única escola onde se ensina a lingua é mesmo o Instituto Brasileiro. Por outro lado, o site oficial do governo da Guiné Equatorial continua a ter apenas três versões: em espanhol, francês e inglês.
  • Em Fevereiro, pouco antes de Rui Machete partir para Maputo para participar na reunião ministerial da CPLP, o Ministério dos Negócios Estrangeiros foi informado de que a Guiné Equatorial teria aprovado uma suspensão da pena de morte. O encontro, no dia 20, confirmou-o: Agapito Mba Mokuy, chefe da diplomacia de Malabo, anunciou que 72 horas antes tinha sido adoptada, com efeitos imediatos, uma suspensão da pena capital. Não disse que duas semanas antes o governo tinha executado quatro pessoas (algumas organizações internacionais falam em nove). Mas foi o suficiente para os ministros recomendarem aos chefes de Estado e de Governo a “adesão da GuinéEquatorial como membro de pleno direito”da CPLP.
  • Fevereiro foi mesmo um mês em cheio nas relações entre Lisboa e Malabo. No dia cinco, o Banif, presidido por Luís Amado, revelou a assinatura de um memorando de entendimento com a GuinéEquatorial que poderá levar à entrada de uma empresa do país africano no capital do banco. Se possível, esse investimento chegaria aos 133,5 milhões de euros – mas até agora não se concretizou. Dois dias depois, o embaixador da Guine Equatorial em Lisboa, José Chubun assinou, na sede do escritório de advogados Cuatrecasas, a escritura de compra e venda de um palacete na Avenida João Crisóstomo por cinco milhões de euros. E a 28 do mesmo mês o representante diplomático adquiriu em nome do seu país mais dois imóveis na capital portuguesa, ambos no Restelo: um por cinco milhões de euros, outro por 2.250.000 euros.
  • Curiosamente, mesmo após a adesão, a Guiné Equatorial será o único estado membro da CPLP onde Portugal não tem uma embaixada. A representação diplomática é assegurada pela embaixadora em São Tomé e Príncipe, Paula Cepeda. E pelo consul honorário Manuel Azevedo. Em compensação, já este ano os dois governos chegaram a acordo para a abertura de uma linha aérea directa entre as respectivas capitais. A ligação deverá ser assegurada pela White Airways, uma companhia portuguesa que representa a transportadora aérea guineense, Ceiba, que está impedida de viajar para a Europa.
  • Neste momento, são várias as empresas portuguesas já presentes na Guiné Equatorial. A Galp tem uma participação na exploração de hidrocarbonetos. A EDIFER, a Soares da Costa e a Mota Engil tem há muito interesses e projectos. O gabinete de arquitectura Miguel Saraiva e Associados e o escritório de advogados Miranda Correia Amendoeira e Associados têm escritório em Malabo. Negócios que se espera que estejam apenas no início com a adesão da Guiné Equatorial à CPLP.

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Uma viagem à Guiné Equatorial

Esta é a semana em que a Guiné Equatorial entra na CPLP. Pouco se sabe sobre o país governado há 34 anos por Teodoro Obiang Nguema e são poucos os jornalistas que entraram no país livremente. O documentário Once Upon a Coup é uma das raras excepções. Realizado na sequência da tentativa de golpe de Estado falhada que teve o apoio do filho da ex-primeira-ministra britânica, Mark Tatcher. Não está disponível no You Tube. Fica aqui o link. Vale mesmo a pena.

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Guiné Equatorial: mais um passo rumo à CPLP

Poucos deram por isso mas a Guiné Equatorial pediu a adesão à Confederação Empresarial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CE-CPLP) através de duas câmaras de comércio:as Câmaras Oficiais de Comércio, Agrícola e Florestal de Bioko e Rio Muni.

O presidente da CE-CPLP, Salomo Abdula, congratulou-se com a decisão: “Esta é uma grande notícia e um grande passo na história da nossa CPLP, que vai permitir alcançar maiores objectivos comuns a todos os empresários.

O anúncio foi feito ontem no site da CE-CPLP.

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