Leitura para o fim-de-semana: a noite mais longa do Estado Novo

Durante 10 anos o Miguel Pinheiro dirigiu a Sábado com mestria. Enquanto foi director publicou a biografia de Sá Carneiro. Desde que deixou de o ser já publicou, com o Gonçalo Bordalo Pinheiro, o livro A Máquina do Poder, que relata os bastidores da campanha para as eleições europeias e a forma como os partidos manipulam a opinião pública. Agora, lançou o livro A noite mais longa, um relato detalhado das 13 horas em que Salazar esteve deitado na mesa de operações, cruzado com o outro grande acontecimento dessa noite: o “baile do século”, dado pelo milionário Antenor Patiño. E pelo excerto pré-publicado pelo Observador, vale todos os cêntimos.

livro

O calista que viu Salazar cair da cadeira

Miguel Pinheiro

Salazar não estava pronto para nada daquilo. Quando o motorista parou o Cadillac à porta do Hospital dos Capuchos, em Lisboa, onde iria ser feito um eletroencefalograma, o presidente do Conselho saiu pelo seu pé mas não andou muito. Tinha à espera uma cadeira de rodas. Precisou de ajuda para se sentar e disse, em voz baixa:

– É inacreditável, parece inacreditável.

Ao longo do mês anterior, o ditador tinha passado por uma acentuada deterioração física. Cometera o enorme erro de resistir aos conselhos do seu médico, de tentar adiar um tratamento inevitável e de esconder a verdadeira extensão dos seus sintomas. Se naquele momento estava sentado numa cadeira de rodas era por causa de tudo o que fizera – e, tão importante quanto isso, de tudo o que não fizera – desde o início de agosto. Os acontecimentos que se sucederam ao longo dessas semanas ajudam a explicar a gravidade e o dramatismo da noite de 6 de setembro de 1968.

Salazar nunca pensou que uma pequena queda acabasse assim. Na altura, tinha tudo parecido muito insignificante – até pouco depois das 9 horas da manhã, o dia 1 de agosto fora exatamente igual aos outros. Perto das 8 horas, um carro da Presidência do Conselho tinha parado na Rua do Carmo, em Lisboa, para apanhar um homem «elegante, alto e magro». Tratava‐se de Augusto Hilário, que se tornara enfermeiro‐calista do presidente do Conselho por herança. O pai era de Viseu e tinha estudado na mesma escola que Salazar. Quando morreu, deixou ao filho o consultório e o cliente.

O calista e o ditador costumavam ver‐se de três em três semanas. Essa periodicidade não era um capricho – era uma necessidade. Quando era mais novo, Salazar partira o pé direito e nunca recuperara. Tinha os ossos encavalitados uns nos outros e apareciam‐lhe calos que lhe provocavam dores. Aliás, por isso é que usava umas botas de pelica muito fina, característica que levaria os opositores do regime a tratá‐lo, com desprezo, por O Botas.

Nessa quinta‐feira, ao chegar ao Forte de Santo António, no Estoril, Augusto Hilário passou a porta de madeira e ferro. No átrio, onde existe um azulejo com excertos de Os Lusíadas em cada parede, a temperatura estava mais fresca do que lá fora. Subiu um primeiro lanço de escadas e logo depois outro. Virou à direita e atravessou o longo corredor com o teto em abóbada que divide as duas alas do forte. Era ali, na zona conhecida como «Arca de Noé», que Salazar costumava ler os jornais, almoçar e receber visitas – mas àquela hora não havia ninguém. O calista abriu a quarta porta à esquerda e entrou numa sala grande, a que chamavam «rouparia», dividida por um arco e com armários pintados de branco em todas as paredes. À direita ficava um recanto onde D. Maria costumava cozinhar para Salazar. Hilário pousou a pasta e começou a preparar os instrumentos de que ia precisar para o tratamento.

Naquele momento, Salazar estava a acabar de vestir o seu casaco de linho branco, no primeiro andar do forte. Saiu do quarto, atravessou um pequeno corredor, desceu dois lanços de escadas, atravessou a «Arca de Noé», entrou na sala onde estava o calista e cumprimentou‐o. Depois pediu‐lhe:

– Empreste‐me os seus jornais.

Hilário sabia que, sempre que ia ao forte, tinha de levar os matutinos. Era um pedido de D. Maria, a governanta de Salazar. Por causa de um daqueles inexplicáveis atrasos de que apenas as burocracias estatais são capazes, os jornais do presidente do Conselho só costumavam chegar ao fim da manhã. Quando havia visitas, podia começar a lê‐los mais cedo. Naquele dia, Salazar podia escolher: Hilário tinha‐lhe trazido o Diário de Notícias e A Bola. Preferiu o DN.

Desta vez, não houve tempo para falarem sobre música, sobre teatro ou sobre os espetáculos no São Carlos, como era hábito. Hilário virou‐se para ensaboar as mãos num lavatório encostado à parede, junto à porta, e ouviu um estrondo. Virou‐se imediatamente. Salazar, que tinha o perigoso hábito de se deixar cair quando se sentava, calculara mal a distância que o separava da cadeira de lona estilo realizador. Estava no chão e tinha batido fortemente com a cabeça. Quando se baixou para o ajudar a levantar‐se, Hilário viu que Salazar estava «branco como a cal».

Em pânico, sentou‐o «com cuidado» na cadeira e sugeriu que talvez fosse mais prudente pedir ajuda. Salazar disse‐lhe que não com a cabeça. Minutos depois, o ditador decidiu que não bastava o silêncio, era preciso um segredo: exigiu que o calista prometesse que nunca contaria a ninguém o que tinha acabado de ver. Hilário aceitou, mas ainda insistiu:

– Tome ao menos um pouco de água com açúcar.

Nem isso Salazar quis. Não voltou a pegar no jornal e manteve‐se quieto, enquanto o calista trabalhava. Ao fim de algum tempo estava melhor, pelo menos aparentemente.

– O senhor presidente já parece outro!

– E o senhor também. Olhe que ficou muito pálido…

No forte, havia uma terceira pessoa assustada. D. Maria, que estava no seu quarto, ouviu um estrondo e primeiro achou que tinha sido uma porta a bater. Quando desceu, percebeu que aquilo que tinha tomado por um contratempo doméstico era afinal uma preocupação clínica. Tentou convencer Salazar a chamar imediatamente um médico, mas ele recusou – dentro de cinco dias teria a sua consulta quinzenal de rotina com Eduardo Coelho e não via nenhuma razão para a antecipar.

O artigo completo está aqui.

Estaremos a viver a época mais pacífica da história? Provavelmente sim.

Guerra civil na Síria e no Iraque. Conflito armado na Ucrânia. Combate ao tráfico de droga no México. Guerra civil na República Centro Africana. Bombardeamentos com drones no Paquistão, Afeganistão e Iémen. Caos na Líbia e no Egipto. Conflitos insanáveis no Sudão. Ataques terroristas na Nigéria. Intervenções no Mali. Parece que vivemos numa época de guerra. Certo? Errado. Na realidade, ao contrário do que parece, esta é a época mais pacífica da história da humanidade – onde morrem cada vez menos pessoas em conflitos armados. Não é possível? É. Vejam o vídeo.

“O cavalo está para ficar, mas o carro é apenas uma novidade”

Fazer previsões é complicado. Fazê-lo e usar a palavra “nunca” é ainda pior. É meio caminho andado para, daí a uns anos, sermos alvos de chacota. Porque quebrar limites e estabelecer novas metas foi, desde sempre, o maior talento da humanidade. Eis 13 previsões que falharam. Redondamente.

A incrível história de Armando Rodrigues de Sá

Há exactamente 50 anos, Armando Rodrigues de Sá desembarcava de um comboio na estação de Colónia. À sua espera tinha os empresários da região, uma banda e a imprensa. Motivo: era o trabalhador estrangeiro um milhão a chegar à Alemanha. Sem saber, estava a entrar na história. Desde então que o seu nome consta dos manuais escolares alemães, é referido em filmes e a motorizada que lhe foi oferecida na ocasião está exposta no museu de história contemporânea, em Bona. Mas em Portugal, poucos sabem o seu nome para além da sua terra natal, Vale de Madeiros. Esta é a sua história, que publiquei na Sábado, no início deste ano, e a peça televisiva, que fiz para a CMTV.

Hist1

“Estava tudo a postos. As bandeiras. Os cartazes de boas vindas. A banda. Os empresários. Os fotógrafos. As câmaras de televisão. Faltavam apenas os “convidados”. Um em especial. Era dia 10 de Setembro de 1964. Naquela manhã, chegavam à estação de Deutz, em Colónia, na Alemanha, dois comboios com 1106 trabalhadores estrangeiros: 933 espanhóis e 173 portugueses. E ao contrário do que acontecia habitualmente, iam ter direito a um comité de boas vindas. Motivo: assinalar a chegada do milionésimo gastarbeiter – trabalhador convidado, em alemão.

A primeira locomotiva entrou na estação pouco depois das 8h. A segunda cerca de duas horas mais tarde. Assim que o comboio parou, os passageiros desceram para o cais, intrigados com tanto aparato. Um intérprete começou então a percorrer as filas de trabalhadores e a gritar com um sotaque germânico: “Armando Rodrigues, Armando Rodrigues”.

Ao fundo da plataforma, Armando Rodrigues de Sá, 38 anos, não sabia o que fazer. “Ficou assustado”, conta à SÁBADO a viúva do português, Maria Emília Pais de Sá. “Achou que era a PIDE”, recorda. Nervoso, tentou esconder-se. Por alguma razão que desconhecia poderiam querer prendê-lo. Ou enviá-lo e volta para Portugal, tal como tinha acontecido a 24 parceiros de viagem que não tinham os papéis em ordem e que acabaram por na fronteira.

SA_emigrante_milhao_7264_120214

A contragosto – e incentivado pelos companheiros de viagem que gritaram “está aqui, está aqui” – o carpinteiro português avançou. “Então o intérprete explicou-lhe que era o operário um milhão a chegar à Alemanha e que o governo tinha um prémio para ele”, recorda à SÁBADO, António da Silva Cravo, 74 anos, que fez a viagem com Rodrigues de Sá.

Levado para o centro da plataforma, Armando Rodrigues de Sá foi rodeado pelos representantes dos industriais alemães. A banda começou a tocar. Os fotógrafos aproximaram-se e dispararam as máquinas. Os operários gritaram vivas a Portugal e a Espanha. As câmaras de televisão captaram as imagens da festa. Apesar dos dois dias de viagem, o homenageado distinguia-se dos demais: de camisa, casaco e chapéu da cabeça, contrariava a imagem que havia sobre os povos do sul da Europa. Aos poucos, a tensão do seu rosto desapareceu. Foi substituída por um largo sorriso quando lhe deram para a mão – para além de um bouquet de flores e de um diploma que assinalava a ocasião – uma mota nova, da marca Zundap.

“Ele nem sabia andar”, recorda António Cravo. “Pegou-lhe com a mão e depois acabou por se montar nela, mas só para tirar fotografias”, diz. Envergonhado, agradeceu, e disse aos jornalistas que a recepção atenuava a dor da separação da família, mulher e dois filhos, que deixou em Portugal. Estava longe de imaginar que, 50 anos mais tarde, a sua fotografia faria parte dos manuais escolares germânicos e estaria exposta em museus como um símbolo da imigração alemã. 

SA_emigrante_milhao_7260_120214

Armando Rodrigues de Sá nasceu em Vale de Madeiros, distrito de Viseu, a 4 de Janeiro de 1926. Aos 19 anos casou-se com Maria Emília Pais. Ela tinha 15 anos. “O meu pai era muito rico, tinha muitas terras. Como os pais dele eram pobres ele não o podia ver. Disse-me: ‘se deixares o Armando compro-te um cordão de ouro do teu tamanho’. Mas eu não queria o cordão, queria-o a ele. Era mesmo bonito”, recorda Maria Emília. Tiveram dois filhos. João e Rosa. Armando trabalhava na Companhia Portuguesa de Fornos Eléctricos. Era carpinteiro. E apesar de ter emprego decidiu tentar a sorte na Alemanha. “Havia mais gente daqui da zona a ir e ele também quis”, diz Maria Emília.

Naquela época, quem quisesse obter um passaporte válido para sair do País tinha que recorrer à Junta da Emigração (JE) e preencher uma série de requisitos: ter o serviço militar cumprido, apresentar uma certidão do registo criminal, documentar o grau de escolaridade, entregar uma certidão de nascimento, comprovar o estado civil e assinar uma declaração em que se responsabilizava pelo bem estar da família. Criada em 1947, a JE cooperava com entidades parceiras dos países que angariavam operários em Portugal. No entanto, o objectivo não seria incentivar a saída de trabalhadores do país. Seria controlá-la. De acordo com um artigo da historiadora Alexandra Ventura, em 1961, a embaixada alemã em Lisboa queixava-se, numa comunicação para Berlim: “Todo o processo é muito vagaroso e burocrático, o que atrasa a emigração. Isto é sem dúvida intencional por parte do governo que, se não pretende proibir a emigração para a Europa, pelo menos procura limitá-la”.

Para facilitar o processo, a 17 de Março de 1964 os governos de Portugal e da República Federal Alemã assinaram um acordo de destacamento de trabalhadores. Ao abrigo desse protocolo, o Departamento Federal do Trabalho germânico abriu dependências em Lisboa e no Porto. Mas o recrutamento continuou lento, apesar de a Alemanha estar a viver um período de grande crescimento económico. “Os alemães não percebiam porque não chegavam mais portugueses. Pensavam que era porque não conheciam a Alemanha. E decidiram então fazer uma cerimónia para mostrar que eram bem recebidos”, diz à SÁBADO o investigador do Instituto de Ciências Sociais, António Muñoz Sánchez. Havia ainda outro objectivo, para consumo interno. “Era preciso mostrar à sociedade alemã que eram necessários trabalhadores estrangeiros”, diz à SÁBADO Arnd Kolb, director do Domid, um centro de documentação e museu da imigração de Colónia. “Nesse ano chegou-se ao milhão de imigrantes. Mas não era possível saber qual era o milionésimo. Não havia uma lista. Armando Rodrigues de Sá foi escolhido. Foi uma decisão política e dos empresários para mostrar que a imigração era positiva”, concretiza António Muñoz Sánchez, que está a tentar organizar uma homenagem ao carpinteiro, em Setembro.

mix

Sem saber o que o esperava, Armando Rodrigues de Sá apanhou o comboio em Canas de Senhorim rumo a Lisboa. Com os requisitos preenchidos, embarcou para Colónia a 8 de Setembro de 1964 – o mesmo dia em que era publicado no jornal alemão Handelsblatt um artigo a lamentar a escassez de trabalhadores portugueses. Antes de deixar a capital portuguesa enviou um telegrama à mulher a pedir-lhe para ir ter com ele à estação de Canas de Senhorim (por onde passava o comboio). “Cheguei a casa e fui a correr para lá. Era para me dar a mala de ferramentas porque não era preciso levá-la”, conta Maria Emília Pais de Sá.

Daí, o carpinteiro seguiu para o Porto. António Cravo embarcou na estação de Campanhã e recorda uma viagem difícil. “Em Espanha juntaram-se muitos trabalhadores ao nosso grupo. Na fronteira com a França mudámos de comboio porque os carris eram diferentes e fomos para Paris. Aí mudámos novamente e seguimos para colónia. Foi uma viagem de 48h em bancos de madeira que faziam doer o rabo e com poucas casas de banho”, diz. Lembra-se de falar com Armando Rodrigues de Sá durante a viagem, mas já não recorda o assunto. “Éramos só homens. Conversávamos para passar o tempo. Uns tinham um realejo, outros concertina. Recebemos também uma espécie de ração de combate, com bolachas e atum”.

Quando chegaram a Colónia mandaram-nos sair do comboio. “Depois começaram a chamar pelo nome dele. Estava perto e ele não queria dizer nada”, recorda. Ao mesmo tempo, o grupo de empresários alemães esperava ansiosamente. O nome de Armando Rodrigues de Sá tinha sido seleccionado previamente de uma lista de 20 portugueses por corresponder ao imigrante ideal para a sociedade alemã: tinha 38 anos, era casado, com dois filhos e ficaria no país temporariamente. E, naquela altura, os industriais não sabiam se ele tinha sido um dos 24 a ficar retido na fronteira. “Por isso eles tinham outro nome de reserva, um português de apelido Varela”, diz Arnd Kolb.

Não foi necessário. Armando Rodrigues de Sá identificou-se, foi homenageado, deu entrevistas e depois seguiu para o seu destino. “Separámo-nos nessa altura”, diz António Cravo. “Os representantes das firmas com quem tínhamos contrato estavam à nossa espera. Eu fui para Noist. Ele para Estugarda”, lembra. A viagem do carpinteiro foi seguida pelas câmaras de televisão. E nas semanas seguintes continuou a dar entrevistas. Fosse na empresa onde trabalhava ou nas camaratas onde dormia – já de fato e gravata.

Assim que pôde, Armando Rodrigues de Sá avisou a família do que tinha acontecido. “Soubemos através de um telefonema”, recorda à SÁBADO o seu filho mais velho, João Pais de Sá. O governo português também foi informado, no dia seguinte, através de um telegrama enviado para o Ministério dos Negócios Estrangeiros pelo cônsul geral em Hamburgo: “As entidades deste país decidiram dar certo relevo à chegada do imigrante que completasse o número de um milhão de trabalhadores estrangeiros contratados para trabalhar na Alemanha. (…) [Armando Rodrigues de Sá] foi por isso alvo de várias homenagens, havendo discursos de boas vindas, várias ofertas de carácter pessoal, fotografias, etc. O acto foi transmitido pela televisão e os jornais de hoje referem-se largamente ao assunto.” E continua: “Devo acrescentar que o Sr. Sá Rodrigues [sic] deixou boa impressão, apesar de não poder esconder o seu espanto por uma recepção totalmente inesperada. Apresentou-se muito decentemente vestido, contrariamente a alguns imigrantes do grupo mas que foi impossível reconhecer se seriam portugueses ou espanhóis”.

João, Rosa e Maria Emília Pais de Sá Foto: Sérgio Azenha

João, Rosa e Maria Emília Pais de Sá
Foto: Sérgio Azenha

Nos seis anos seguintes, Armando Rodrigues de Sá passou várias temporadas na Alemanha. A primeira durou apenas três meses. “Ele voltou em Dezembro e despachou a mota para cá. Antes de regressar foi buscá-la a Lisboa. Mandava dinheiro todos os meses, quatro contos e tal”, recorda Maria Emília Pais de Sá. Provavelmente teria ficado mais tempo se não tivesse sofrido um acidente de trabalho em 1970. “A montar uns painéis de madeira apanhou com um no estômago”, recorda João Pais de Sá. “Nós escrevíamos três cartas por semana e de repente esteve uns 10 dias sem dar notícias. Como estava preocupada fui ao bruxo e ele disse-me: ‘vá descansada. O seu marido esteve no hospital mas já está bem. Quando chegar a casa já lá tem uma carta dele’. E foi verdade”, diz Maria Emília.

No entanto, o carpinteiro não estava totalmente bem. De regresso a Portugal, foi-lhe diagnosticado um cancro. Passou os anos seguintes em tratamentos. “Foi operado em Lisboa e ainda regressou para cá”, conta João Pais de Sá. O anonimato em Portugal contrastava com o reconhecimento de que era alvo na Alemanha. “Tornou-se um símbolo que representa a história da imigração”, diz António Muñoz Sánchez. “Aparece nos livros escolares, é frequentemente referido em documentários televisivos e há vários filmes que recuperaram as imagens da chegada dele a Colónia”, continua.

Maria Emília Pais de Sá confirma. “Ao longo dos anos vieram cá muitos jornalistas e historiadores alemães”, diz. “Portugueses nem por isso”, ri-se. No final da década de 1990, um grupo de responsáveis pelo museu de história contemporânea da RFA, em Bona, deslocaram-se a Vale de Madeiros com um objectivo: adquirir a mota que lhe foi oferecida em 1964. Hoje, o veículo está em destaque na secção dedicada à imigração junto a uma fotografia de Armando Rodrigues de Sá, que acabou por falecer a 5 de Junho de 1979. Longe das câmaras.”

“Mais um dia de vida”

Em 1975, Ryszard Kapuscinski esteve em Angola a acompanhar a saída dos portugueses e o início da guerra civil onde três exércitos lutavam pelo poder num país recém independente. O resultado foi o livro Mais um dia de vida, que está agora a ser adaptado ao cinema e vai combinar animação feita em computador e imagens. A estreia está prevista para 2015. E o trailer promete. Muito.

A origem surpreendente de alguns alimentos

Imagem

The History Behind Your Favourite Foods

A paz nuclear

Numa visita recente ao submarino nuclear norte-americano Nautilus, exposto no museu da marinha norte-americana em New London, recordaram-me de um termo frequente nas aulas de Relações Internacionais: dissuasão nuclear. Ou seja, a ameaça de uma represália que não permita ao agressor sobreviver a uma eventual agressão. Algo que nos levou a isto.

Out of Control

Está na hora da revolução

O homem que prendeu os milionários no pós-25 de Abril

No início do mês, o meu camarada de redacção Pedro Jorge Castro lançou mais uma brilhante obra. Desta vez sobre o período conturbado do pós-25 de Abril. Chamou-lhe O Ataque aos Milionários e retrata de forma sublime a forma como as famílias mais ricas viveram a revolução de 1974. Os acontecimentos são relatados com base em 47 entrevistas e documentos inéditos encontrados numa dezena de arquivos. E provam que, com vontade e capacidade de trabalho, ainda há muita coisa para contar sobre a história recente do País.

Para o Pedro deixo aqui três notas: os meus parabéns, votos de muito sucesso nas vendas e um grande obrigado por permitir publicar aqui o prólogo do livro sobre Eduardo Rosário Dias, o “polícia da revolução”. Vão ver que quando acabarem de ler vão ter vontade de ir à livraria mais próxima. Ou ao link ali em cima.

capa O Ataque aos Milionários

O TENENTE QUE PRENDE OS BANQUEIROS

Às cinco da tarde, as mãos de Rosário Dias vão tremer quando apontar uma arma aos banqueiros da família Espírito Santo.

Horas antes, na manhã deste 11 de Março de 1975, o primeiro-tenente Eduardo Rosário Dias, 37 anos, encontra-se no gabinete do primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, onde é adjunto para os assuntos económicos. Quando os aviões começam a sobrevoar Lisboa para um golpe militar contra-revolucionário, outro colaborador do chefe do Governo invade a reunião do Conselho de Ministros e anuncia: «Senhor primeiro-ministro, estão a atacar o RALIS [Regimento de Artilharia de Lisboa], recebi instruções para o tirar daqui.»

Álvaro Cunhal, líder comunista e ministro sem pasta, já está de pé, a caminho da porta, mas ainda recomenda: «Metam o primeiro-ministro num bunker.»

O plano de segurança prevê algo parecido: Vasco Gonçalves deve ser transportado até à Base Naval do Alfeite, para embarcar num submarino que tem tudo preparado para permanecer até 30 dias no mar. O chefe do Governo é conduzido até à Margem Sul de Lisboa no seu Citroën «boca-de-sapo», escoltado por várias viaturas com cerca de 20 pessoas, entre membros do seu staff e seguranças – alguns destes, quando os carros saem de São Bento, levam metralhadoras no colo, prontas a disparar.

Na mesma direcção segue Ana Espírito Santo, 42 anos. Assim que vê a agitação militar em Lisboa, interrompe o almoço dos dois filhos e leva-os, juntamente com a empregada, para a Quinta do Peru, em Azeitão, onde está a sua mãe. Na Ponte 25 de Abril, apercebe-se do engarrafamento provocado pelas barricadas populares que revistam todas as viaturas, em busca de armas. Vira-se para o banco de trás e avisa os filhos, João, Manuel e Ana, de 10, 6 e 2 anos: «Meninos, se alguém vos perguntar o nome, são Brito e Cunha. Não dizem o nome Espírito Santo.»

Um dos populares dá um tiro no pneu de outro carro ali ao lado e Ana Espírito Santo pede aos filhos e à empregada para começarem a rezar. A sua carrinha é integralmente revistada pelos populares, que levantam o capot e reviram o porta-bagagens. Como não encontram armas, autorizam-na a seguir viagem.

Ana é neta do fundador do banco da família, José Maria Espírito Santo Silva; é sobrinha de José e Ricardo Espírito Santo, sucessores na presidência; é filha de Manuel Espírito Santo, que chefiou a instituição até 1973; e é irmã do líder do banco durante o processo revolucionário, Manuel Ricardo Espírito Santo, que, aos 41 anos, comanda o segundo maior grupo empresarial português.

O maior é a CUF (Companhia União Fabril), que integra mais de cem empresas, como o Banco Totta & Açores, a Lisnave e a seguradora Império. Os seus líderes também tentam sair de Lisboa. À uma da tarde, Jorge de Mello, 53 anos, procura obter, «com a máxima urgência», um bilhete para a Suíça, mas respondem-lhe, ao telefone, que já não seguirão aviões para o país. No aeroporto está desde as 11h30 o seu irmão e braço-direito, José Manuel de Mello, 47 anos, acompanhado por uma secretária, para apanhar o avião das 14h45 com destino a Paris.

Devido ao golpe orquestrado pelo anterior Presidente da República, António de Spínola, o aeroporto está controlado por militares e o avião da Air France já não faz escala na capital portuguesa. José Manuel de Mello pede então ao gerente do Banco Totta & Açores do aeroporto, seu funcionário, que accione contactos para conseguir lugar noutro voo, da KLM.

Enquanto espera, senta-se a beber uma cerveja e a comer uma sanduíche, e apercebe-se de que está rodeado por cerca de duas dezenas de militares. Sente-se tão ameaçado que combina com um empregado do bar, seu ex-colega de escola, a hipótese de fugir dali pela cozinha. Mas não é preciso. O empregado consegue interceptar as comunicações militares através do rádio. A seu lado, José Manuel de Mello ouve a voz do capitão responsável pela vigilância do aeroporto perguntar ao presidente, Costa Gomes, se deve prender o vice-presidente da CUF. Depois de uma ligeira hesitação, a resposta do chefe de Estado é negativa.

O presidente do Sindicato dos Bancários, Anselmo Dias, está em reuniões com sindicalistas na Beira Baixa. São outros dois dirigentes, António Marques Alves e Carlos Guimarães Abreu, os primeiros a chegar à sede do sindicato, na Rua de São José – preparam-se para fazer História: são eles que estabelecem a relação entre o golpe de Spínola e os interesses dos grandes banqueiros. Escrevem logo a «Informação 13/75», um apelo ao fecho dos bancos, para travar eventuais fugas de capitais ou financiamentos aos golpistas contra-revolucionários:

«Camaradas, face à tentativa desesperada dos restos da escumalha fascista, o sindicato de Lisboa decidiu: encerrar os bancos, mantendo a estrutura sindical a vigilância aos sectores fundamentais; não permitir o acesso aos estabelecimentos bancários às administrações.

Camarada Bancário: mantém o contacto com o Sindicato; cumpre e faz cumprir estas determinações durante o dia de hoje; aguarda novas instruções. Cumpre-as escrupulosamente e fá-las cumprir.»

A ordem do sindicato chega rapidamente à sede do Banco Espírito Santo, na Rua do Comércio. António Ricciardi, 54 anos, número 2 da administração do BESCL, e Carlos Mello estão a almoçar na sala de refeições da administração quando a comissão de trabalhadores percorre o edifício a avisar que todos têm de sair, porque o banco vai fechar.

Dezenas de empregados da instituição concentram-se à porta. Um dos directores, Jorge Espírito Santo, 38 anos, vai deixar as filhas a casa da avó, no Paço do Lumiar, de onde telefona para o seu gabinete, no fim da hora de almoço. «Patrão Jorge, não venha para o banco!», aconselha um dos trabalhadores. Apanhado de surpresa, o director pede para falar com o irmão Manuel Ricardo Espírito Santo, o presidente, mas do outro lado repetem: «Patrão Jorge, não venha para o banco!» Nova insistência, para saber o que se passa, provoca a mesma resposta, já mais em tom de ameaça do que de conselho: «Patrão Jorge, não venha para o banco!»

José Roquette, director da instituição, almoça no Chiado com o empresário João Flores e, entre tantos rumores que rapidamente se espalham sobre o golpe, também decide ligar para o gabinete do presidente do banco. Quem responde é um sindicalista: «O Dr. Manuel Ricardo não atende, nem nunca mais vai atender este telefone.» Roquette percebe que algo está a acontecer na sede, mas decide regressar. «Estou há quase 20 anos com eles. Se vão presos, eu tenho de ir também».

O subdirector José Manuel Espírito Santo, 29 anos, tenta entrar no edifício, mas barram-lhe o acesso. Procura então o irmão Manuel Ricardo, que está a acabar de almoçar num restaurante da Rua Ivens. Juntos, conseguem furar o cerco à porta e concentram-se, com os outros líderes do banco, na sala do conselho de administração.

Ricardo Salgado chega mais tarde – vem de uma reunião no Grémio dos Bancos e os piquetes de trabalhadores já não o deixam entrar no edifício.

No Alfeite, Vasco Gonçalves percebe que a situação está controlada e não chega a refugiar-se no submarino, fica a almoçar na base naval. Na sua comitiva cresce o nervosismo quando percebem que um dos oficiais responsáveis pelo Alfeite bebe whiskies a um ritmo pouco aconselhável, para o caso de ser preciso tomar decisões rápidas.

Entretanto, o adjunto para as questões económicas é alertado à distância para tudo o que se passa em Lisboa. «Tenho informações de que neste momento os administradores do Banco Espírito Santo estão reunidos e vou lá prendê-los», anuncia Rosário Dias. «Como é que vais?», pergunta-lhe Lopes Mendonça, o adjunto responsável pela protecção de Vasco Gonçalves. «Vou num dos carros que nós trouxemos, levo os nossos amigos seguranças e prendemo-los.»

Rosário Dias regressa a Lisboa, mas as brigadas populares também o obrigam a parar na Ponte 25 de Abril. Está vestido com o uniforme da Marinha e ainda não é claro se este ramo das Forças Armadas está ou não com os golpistas. Quando revistam a bagagem do carro oficial, encontram uma série de armas e pedem-lhe explicações, sem perceberem que estão a atrasar o adjunto mais revolucionário do primeiro-ministro. Só o deixam retomar a viagem graças à intervenção de um fuzileiro que passa no local e o reconhece.

Eduardo Rosário Dias é uma espécie de polícia da Revolução, visto por muitos dos próprios revolucionários ora como um idealista generoso, ora como um radical exaltado, ora como um «maluco perigoso» que intimida até os ministros do Governo a que ele também pertence. Lê tudo o que encontra sobre as revoluções de Cuba e do Chile, anda frequentemente acompanhado por sindicalistas, vive obcecado com as fugas de capitais ou, mais concretamente, com a mera possibilidade de o patronato conseguir fugir do país levando o dinheiro. É claramente impulsivo e de excessos.

Tudo passa por Rosário Dias: é ele que avalia os nomes dos novos administradores dos bancos; é ele que escreve relatórios em papel timbrado do gabinete do primeiro-ministro, onde se congratula com as conquistas sindicais na banca; é ele que tem o hábito de telefonar à Guarda Fiscal quando o Governo quer proibir a saída de algum empresário do país; e é ele que supervisiona as primeiras detenções de homens de negócios, a 13 de Dezembro de 1974, quando são presos os administradores da Torralta e do Banco Intercontinental Português, incluindo o presidente desta instituição, Jorge de Brito, fundador da Brisa e futuro presidente do Benfica.

Antes das detenções, Rosário Dias está presente em São Bento, na reunião em que Vasco Gonçalves informa os ministros da Justiça, Salgado Zenha, das Finanças, Silva Lopes, e da Economia, Rui Vilar, sobre as ordens de prisão contra 13 empresários acusados de sabotagem económica. «Se os procedimentos legais fossem cumpridos não era necessário chamar tantos ministros», responde Salgado Zenha. Mas a decisão está tomada e é Rosário Dias que vai comandar as operações – os ministros ficam impressionados com o pistolão que o adjunto de Vasco Gonçalves leva dentro da mala.

Não se inibe de dar ordens às direcções-gerais dos ministérios, passando por cima dos ministros, e identifica-se num cartão pessoal como «assessor para o Ministério das Finanças em representação do primeiro-ministro». Numa discussão mais tensa com Artur Alves Conde, o secretário de Estado do Tesouro dos três primeiros governos provisórios, responde: «Os senhores têm de tomar cuidado, eu cá por mim previno-me. Vê aqui isto?» Abre a mala e num ápice monta uma arma intimidatória. «É assim que me defendo.»

Na tarde de 11 de Março de 1975 é emitido este comunicado para tranquilizar a população:

«O Sindicato dos Bancários de Lisboa, face à desesperada tentativa reaccionária, resolveu encerrar os bancos a partir das 14 horas. Esta medida destina-se a proteger os valores à guarda dos bancos da rapina das administrações reaccionárias. Não há portanto motivo para qualquer receio.»

Quando Jorge Espírito Santo consegue entrar no banco para ocupar o seu lugar, aproxima-se um funcionário que ele próprio contratou depois de terem frequentado a mesma escola:

«Ó Jorge, dás-me um cigarro?» Acende-o com o isqueiro Dupont do director-adjunto do banco e aponta-lhe uma pistola à cabeça. Jorge Espírito Santo reage: «Quando for a minha vez, não tens tempo para pedir um cigarro, dispara logo isso.» Não há tiros, mas o seu ex-colega de escola não baixa a arma. Quando o director-adjunto pede para ir à casa de banho, segue-o com a pistola apontada. Depois, manda-o encostar-se a uma parede, de costas, e mãos no ar.

Rosário Dias usa mais uma vez os sindicalistas da banca como cúmplices e transforma-os, à sua imagem, em polícias da Revolução, seus ajudantes, identificados através de braçadeiras vermelhas. São eles que assinalam este momento histórico no livro de honra do banco, com o símbolo dourado na capa, habitualmente destinado a registar a visita de figuras ilustres. As últimas palavras tinham sido ali deixadas em Junho de 1973, um ano antes da Revolução, e mostram que foram escritas a seguir a um encontro de homens de negócios: «Foi um gosto estar aqui com tantos e bons amigos».

Nesta mesma página, na metade inferior, os revolucionários escrevem a maiúsculas:

«AQUI ACABOU O DOMÍNIO DOS CRIMINOSOS MONOPOLISTAS, INIMIGOS DO POVO E DA REVOLUÇÃO – 11/3/75 ÀS 14 HORAS».

São os trabalhadores que controlam a sede do banco na Rua do Comércio. A administração está cercada e vigiada na sala de refeições, usada para receber os clientes mais importantes. Estão o presidente, Manuel Ricardo Espírito Santo, os seus irmãos Jorge e José Manuel, o comandante António Ricciardi, o administrador Carlos Mello, o secretário-geral, José Maria Espírito Santo, e os directores José Roquette e Manuel Couto, acompanhados das respectivas secretárias.

«Acabou-se a brincadeira, agora é a sério, estes senhores estão presos», anuncia Rosário Dias, quando entra, de arma em punho. Num bloco de papel com o timbre do banco, anota os nomes que os sindicalistas lhe indicam. Depois, os administradores são revistados e seguidos até à rua por trabalhadores armados. «Matem-nos», grita-se à porta do banco. E enquanto os distribuem pelos carros, são alvo de insultos e cuspidelas.

Manuel Ricardo Espírito Santo é transportado no Citroën «boca-de-sapo» do primeiro-ministro Vasco Gonçalves, acompanhado pelo irmão mais novo, José Manuel, e por José

Roquette. Em mais dois Peugeot do banco seguem António Ricciardi, Carlos Mello, José Maria Espírito Santo, Jorge Espírito Santo e Manuel Couto. Durante a viagem, em todos os carros há empregados do banco com armas apontadas aos banqueiros.

À chegada a Caxias, ficam retidos à porta. O comandante da prisão, José Costa Xavier, não os deixa passar porque não há qualquer mandado a justificar a detenção. «Mas estão aqui os Espírito Santo todos presos e não os deixam entrar? É a galinha dos ovos de ouro…», responde, incrédulo, o condutor de uma das viaturas.

Esperam todos cerca de uma hora, dentro dos automóveis, até chegarem os mandados assinados por Otelo Saraiva de Carvalho, comandante do COPCON, o Comando Operacional do Continente, onde se controla todo o processo revolucionário.

Os banqueiros são então acusados de pertencerem a uma associação de malfeitores, de serem exploradores do povo e de sabotarem a economia.

Na cadeia, fuzileiros barbudos e de cabelos compridos empunham as armas enquanto lhes dão ordens: «Encoste-se ali», «Baixe as calças», «Tire a camisa e o casaco». São revistados, fotografados e obrigados a despir-se. Fecham-nos numa cela com cinco beliches, uma mesa com bancos e uma janela. É a sala 6 da prisão de Caxias, onde vão viver os próximos meses.

Manuel Ricardo Espírito Santo, líder do grupo há apenas dois anos, desabafa com o irmão Jorge: «Somos a terceira geração à frente do banco e vamos perder tudo.»

Rosário Dias regressa ao gabinete do primeiro-ministro. Descreve em detalhe, orgulhoso, o seu gesto revolucionário, mas assume a tensão do momento: «Pela primeira vez empunhei uma pistola e não consegui mantê-la firme.»

O tenente Eduardo Rosário Dias

O tenente Eduardo Rosário Dias

Um genocídio com 20 anos

Há duas décadas, cerca de 800 mil pessoas foram assassinadas no Ruanda em pouco mais de 100 dias. Keith Richburg foi o repórter do The Washington Post que cobriu o conflito. Hoje, ele olha para o que foi o conflito – e para o que o mundo não aprendeu desde então.

A história do salário mínimo norte-americano

Através deste vídeo a revista Time mostra como se pode contar uma boa história a partir de algo que poderia ser uma grande chatice: números, inflação, salários.

LIFE With Hillary: Portraits of a Wellesley Grad, 1969

Hillary Clinton, ainda uma promissora estudante longe de imaginar que seria primeira dama e candidata presidencial, fotografada em 1969 pela revista Life. São imagens que vale a pena ver

Lee Balterman—Time & Life Pictures/Getty Images

Lee Balterman—Time & Life Pictures/Getty Images

Tudo o que precisam de saber sobre a Ucrânia

O ritmo é alucinante. Os factos históricos são às centenas. Mas este vídeo é uma boa forma de compreender o que se passa na Ucrânia – e o caminho percorrido até à actual situação.

1000 anos de mudanças nas fronteiras da Europa

Algumas alterações no mapa não estão correctamente sincronizadas com os anos que passam na imagem. Ainda assim, é um exercício muito interessante para compreender as mudanças vividas pela Europa nos últimos 1000 anos. Este é, definitivamente, um trabalho em constante evolução.

A história da Guiné-Bissau

Ao fim de 40 anos de independência, a Guiné-Bissau continua a não ter uma história oficial publicada. Uma narrativa dos anos da luta pela libertação até à actualidade. Para acabar com essa lacuna o embaixador Francisco Henriques da Silva e o escritor Mário Beja Santos compendiaram numa única obra um relato da presença portuguesa na Guiné Bissau, dos anos da guerra e da vida do país independente. São cinco séculos de história que terminam no golpe de Estado de Abril de 2012. Ainda voltarei ao tema. Para já fica a divulgação e o aviso de que a apresentação será no próximo dia 9 de Abril, no Palácio da Independência, às 18h e estará a cargo dos professores Julião Soares Sousa e Eduardo Costa Dias.

untitled

As origens da crise na Ucrânia

O texto já tem quase um mês. Mas continua a ser uma excelente fonte de informação para todos aqueles que querem saber mais sobre a crise na Ucrânia. No blogue World Views, do The Washington Post

ukraine610-1

9 questions about Ukraine you were too embarrassed to ask

1. What is Ukraine?

Ukraine – not “the Ukraine” – is a country in Eastern Europe, between Russia and Central Europe. It’s big: about the area of Texas, with a little less than twice the population. Its history goes back thousands of years – the first domesticated horses were here – and has long been characterized by intersections between “east” and “west.” That’s continued right up to today’s crisis.

Ukraine has a long history of being subjugated by foreign powers. This is even reflected in its name, which many scholars believe means “borderland” and is part of why it used to be called “the Ukraine.” (Other scholars, though, believe it means “homeland.”) It’s only been independent since 1991, when the Soviet Union collapsed and it broke away. The last time it was independent (for a few short years right after World War I; before that, briefly in the 1600s), it had different borders and very different demographics. That turns out to be really important.

2. Why are so many Ukrainians protesting?

The protests started, mostly in the capital of Kiev, when President Yanukovych rejected an expected deal for greater economic integration with the European Union. The deal was popular with Ukrainians, particularly in Kiev and that part of the country (although not as popular as you may have heard: about 42 or 43 percent support it).

But this is about much more than just a trade deal. Symbolically, Yanukovych’s decision was seen as a turn away from Europe and toward Moscow, which rewarded Ukraine with a “stimulus” worth billions of dollars and a promise of cheaper gas exports. Moscow had subjugated or outright ruled Ukraine for generations, so you can see why this could hit a nerve.

But this is about more than just geopolitics. Yanukovych and his government, since taking power in 2010, have mismanaged the economy and have been increasingly seen as corrupt. In 2004, there had been mass protests against Yanukovych when he won the presidential election under widespread suspicions of fraud; those protests, which succeeded in blocking him from office, were called the “Orange Revolution” and considered a big deal at the time. But now he’s back.

The protests had actually been dying down until Jan. 16, when Yanukovych signed an “anti-protest law” that also deeply restricts free speech, the media (especially from criticizing the government), driving in a group of more than five cars, even wearing a helmet. Protests kicked back up with a vengeance, not just in Kiev but in a number of regional capitals, outright seizing government administration buildings in some.

Porque o futuro é realmente imprevisível

Fazer previsões é arriscado. Fazê-las pela negativa ainda mais. Porque se há algo que o engenho humano não tem é… limites.
The Future That Never Happened: 13 Failed Predictions That Couldn

by antoniodivico.
Explore more infographics like this one on the web’s largest information design community – Visually.

 

A Global Noticias e um novo conceito de liberdade de expressão

A Global Notícias quer obrigar a Alêtheia Editores a retirar do mercado o livro Os Saneamentos Políticos no Diário de Notícias que relata a história do saneamento de 24 jornalistas do DN, em Agosto de 1975, quando José Saramago era director-adjunto. Caso contrário, empreenderá “todos os meios judiciais e extra-judiciais disponíveis” para o fazer. Para além de dar uma enorme visibilidade à obra do investigador Pedro Marques Gomes, a Global Notícias inaugura toda uma nova posição na defesa da liberdade de expressão por parte de uma empresa que edita vários órgãos de comunicação social: “é muito bonita, mas só se não escreverem sobre nós”.
imprensa_e_revolucao_capa_29_large

Ucrânia, um Estado de caos

É o maior país da Europa de Leste. Dividido entre a União Europeia e a Rússia, tem sido palco de manifestações constantes que alguns já consideraram poder levar a uma guerra civil. Seria mais uma crise numa história de conflito. É o centro do programa Witness, da Al Jazeera. O nome diz tudo: Ucrânia, State of Chaos.

“Os advogados estavam na primeira linha de defesa dos direitos dos presos políticos”

Hoje, o movimento Não Apaguem a Memória realizou na Assembleia da República uma sessão de homenagem aos advogados dos presos políticos. Este foi o texto que escrevi para a Sábado da semana passada sobre o assunto: é uma espécie de história oral do que se passava nas salas dos Tribunais Plenários, construída através do depoimento de cinco advogados que, a partir da década de 1960, defenderam presos políticos. Antes deles outros fizeram história: Palma Carlos, Salgado Zenha e Mário Soares, são os expoentes máximos. Pela importância que fizeram, é uma homenagem mais do que merecida.

Pintura de José Dias Coelho

Pintura de José Dias Coelho

Como se defendia um preso político

Muitas vezes só viam os clientes no Tribunal Plenário, não tinham grandes hipóteses de defesa e acabavam por pagar pela ousadia: eram perseguidos ameaçados e até detidos

Nuno Tiago Pinto

Em Outubro de 1945, os crimes contra a segurança do Estado, de imprensa, açambarcamento, especulação e contra a economia nacional passaram a ser julgados no Tribunal Plenário Criminal (TPC) de Lisboa e Porto. Criado para substituir o antigo Tribunal Militar Especial, o TPC tinha, para a oposição ao regime do Estado Novo, um objectivo: disfarçar a situação interna no contexto da vitória das potências democráticas na Segunda Guerra Mundial. 

A maioria dos processos que lá chegavam eram políticos. E, como tal, estavam perdidos à partida. “Os juízes seguiam sempre a cartilha da PIDE. Era sempre uma causa perdida”, diz à SÁBADO a historiadora Irene Pimentel. Ainda assim, inúmeros advogados disponibilizaram-se para defender aqueles que eram considerados inimigos do Estado e denunciar as torturas a que tinham sido submetidos. “Ao fazê-lo, arriscavam muito pois passavam a ser considerados adversários do regime”, continua a historiadora.

Para reconhecer o trabalho destes advogados, o Movimento Não Apaguem a Memória promove, no próximo dia 28 de Janeiro, uma sessão de homenagem na Assembleia da República que contará com o testemunho do ex-presidente da República, Jorge Sampaio, ele próprio um antigo advogado de presos políticos.  Em antecipação, a SÁBADO recolheu os testemunhos de cinco advogados sobre o que era defender alguém num TPC.

MÁRIO BROCHADO COELHO: “Quando alguém era preso era preciso saber o que se passava. A melhor forma de o fazer era nomear um advogado. A família ou a estrutura partidária procurava um entre aqueles que tinham coragem de ir ao TPC. As defesas eram sempre gratuitas.”

JOSÉ AUGUSTO ROCHA: “O verdadeiro advogado do preso político interessava-se pelos detidos e fazia grande pressão sobre a polícia para o tentar visitar. Isso só acontecia a partir do momento em que eles saíam da sede da Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE) e iam para a prisão à espera do julgamento.”

JOAQUIM MONTEIRO MATIAS: “Durante a instrução do processo o preso só tinha a visita da família durante 30 minutos por semana e na presença de um agente da PIDE. Quando terminava a instrução deixava o isolamento e passava para uma cela com vários presos. Só a partir daí é que podia falar com os advogados.”

LEVY BAPTISTA: “A pessoa estava indefesa. Podia estar ano e meio sem falar com um advogado. Nós éramos importantes porque dávamos apoio. Quando podíamos ir visitá-los os presos sentiam que estávamos ali.”

MANUEL MACAÍSTA MALHEIROS: “Nós protestávamos, requeríamos, mas eles entendiam que os presos não tinham direito a advogado antes de ser deduzida a acusação.”

JOSÉ AUGUSTO ROCHA: “Consideravam que era uma fase administrativa e que por isso os presos não precisavam de ter os advogados presentes. Nas visitas à prisão o detido falava com o advogado no parlatório, separados por grades. Se o preso tinha confiança no advogado contava o que lhe tinha acontecido. Mas a verdade é que muitos advogados não iam à prisão, só aos julgamentos.”

JOAQUIM MONTEIRO MATIAS: “O TPC era presidido por um juiz desembargador, apoiado por dois asas que presidiam aos tribunais criminais, para além do procurador. O julgamento começava com o interrogatório dos presos. Muitos queriam falar das torturas que tinham sofrido mas não lhes era permitido.”

MANUEL MACAÍSTA MALHEIROS: “Participei no julgamento do Joaquim Araújo, que era defendido pelo Salgado Zenha. Quando lhe perguntaram se queria prestar declarações ele respondeu que sim, sobre a tortura na PIDE. A audiência foi suspensa e ele foi até aos calabouços a levar pancada. O advogado Cunha Leal estava na assistência e disse que aquilo não podia ser e foi também agredido.”

MÁRIO BROCHADO COELHO: “Houve advogados que se sacrificaram – muitas vezes fisicamente, com agressões na sala de audiência. Eu só tive um director da PIDE a ameaçar-me num julgamento. Perguntei ao juiz se não dizia nada e ele respondeu que não ouviu.”

JOSÉ AUGUSTO ROCHA: “Durante o julgamento da Diana Andringa reparei que a polícia estava a evacuar os corredores. Muitos dos que estavam na sala eram da PIDE. Protestei, disse que o julgamento era público e que as pessoas tinham direito a entrar. Houve um polícia que me deu ordem de prisão. O Manuel João da Palma Carlos disse-lhe: “como é possível um polícia falar assim a um advogado com toga?”. Virei-lhe as costas e fui-me embora. Mas ainda tive uma participação na Ordem dos Advogados por “incitamento às massas””

LEVY BAPTISTA: “No julgamento o advogado fazia requerimentos, contestava as acusações e pouco mais. Eram ouvidas as testemunhas de defesa e não havia produção de prova. Esta consistia apenas em dois agentes da PIDE ir a tribunal dizer que assistiram à confissão e que ela tinha sido livre e espontânea.”

MÁRIO BROCHADO COELHO: “Aquilo era uma farsa. Não eram julgamentos nem nada. Os juízes não estavam lá para fazer justiça. Não eram os códigos que regulavam a sentença. Quando os réus iam a julgamento já se sabia que iam ser condenados. Era sempre de acordo com a vontade da polícia. Às vezes conseguia-se libertá-los de algumas situações, mas numa percentagem muito pequena.”

JOAQUIM MONTEIRO MATIAS: “Na plateia estavam sempre muitos agentes da PIDE e havia sempre algum que fazia o relatório.”

MANUEL MACAÍSTA MALHEIROS: “As penas eram dadas em função do grau de importância dos presos. A partir de certa altura apanhavam penas de prisão maior com medidas de segurança – que significava a prorrogação da pena por tempo indeterminado. Os que tinham menos importância recebiam penas correccionais e eram castigados com multas para “sangrar” os cofres do partido. As custas do processo também eram convertidas em penas de prisão.”

LEVY BAPTISTA: “Só era possível recorrer da sentença do TPC para o Supremo Tribunal de Justiça em termos de direito. Os factos ficavam arrumados logo ali. Como a prisão preventiva também só contava por metade, os recursos eram inibidos. Toda essa organização era odiosa.”

MANUEL MACAÍSTA MALHEIROS: “Os advogados estavam na primeira linha de defesa dos direitos dos presos, mas era uma zona cómoda. Íamos à cadeia e saíamos. Mas éramos marcados. Alguns foram presos.”

LEVY BAPTISTA: “O Salgado Zenha foi preso no início da década de 1970. Houve um movimento de uns 100 advogados que enviaram um telegrama ao Marcelo Caetano. A PIDE mandou dizer que ele tinha sido preso para apurar responsabilidades.”

JOAQUIM MONTEIRO MATIAS: “Em tribunal eu era um advogado especialmente agressivo. E quando fui detido por causa das minhas ligações à Frente de Acção Popular fui olhado como uma presa apetecível: “Ai dizes mal de nós, vamos fazer-te o que quisermos”. E fizeram.”

MÁRIO BROCHADO COELHO: “A polícia considerava sempre que os advogados eram aliados dos réus. Achavam que eles traziam e levavam informações, que eram tão culpados como eles.”

MANUEL MACAÍSTA MALHEIROS: “Havia consequências, claro. A PIDE provocava, o telefone era controlado e a correspondência também. A Ana Benavente escreveu uma carta à minha mulher de Genebra e ela ficou no serviço postal militar. Encontrei-a no meu processo da PIDE.”

LEVY BAPTISTA: “Um dia saí do escritório e uns agentes da PIDE mandaram-me para a António Maria Cardoso. Fui no meu carro com eles atrás. Nem sei porquê. Puseram-me num corredor e ao fim de umas horas disseram-me que podia sair. Era para me intimidar.”

JOSÉ AUGUSTO ROCHA: “Os advogados deviam ter uma maior consciência das violações cometidas. E a maioria não teve. Ainda assim, no pós-25 de Abril a Ordem dos Advogados teve um papel importante para desmantelar o aparelho judiciário da PIDE e perseguir os seus agentes.”