Leitura para o fim-de-semana: a noite mais longa do Estado Novo

Durante 10 anos o Miguel Pinheiro dirigiu a Sábado com mestria. Enquanto foi director publicou a biografia de Sá Carneiro. Desde que deixou de o ser já publicou, com o Gonçalo Bordalo Pinheiro, o livro A Máquina do Poder, que relata os bastidores da campanha para as eleições europeias e a forma como os partidos manipulam a opinião pública. Agora, lançou o livro A noite mais longa, um relato detalhado das 13 horas em que Salazar esteve deitado na mesa de operações, cruzado com o outro grande acontecimento dessa noite: o “baile do século”, dado pelo milionário Antenor Patiño. E pelo excerto pré-publicado pelo Observador, vale todos os cêntimos.

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O calista que viu Salazar cair da cadeira

Miguel Pinheiro

Salazar não estava pronto para nada daquilo. Quando o motorista parou o Cadillac à porta do Hospital dos Capuchos, em Lisboa, onde iria ser feito um eletroencefalograma, o presidente do Conselho saiu pelo seu pé mas não andou muito. Tinha à espera uma cadeira de rodas. Precisou de ajuda para se sentar e disse, em voz baixa:

– É inacreditável, parece inacreditável.

Ao longo do mês anterior, o ditador tinha passado por uma acentuada deterioração física. Cometera o enorme erro de resistir aos conselhos do seu médico, de tentar adiar um tratamento inevitável e de esconder a verdadeira extensão dos seus sintomas. Se naquele momento estava sentado numa cadeira de rodas era por causa de tudo o que fizera – e, tão importante quanto isso, de tudo o que não fizera – desde o início de agosto. Os acontecimentos que se sucederam ao longo dessas semanas ajudam a explicar a gravidade e o dramatismo da noite de 6 de setembro de 1968.

Salazar nunca pensou que uma pequena queda acabasse assim. Na altura, tinha tudo parecido muito insignificante – até pouco depois das 9 horas da manhã, o dia 1 de agosto fora exatamente igual aos outros. Perto das 8 horas, um carro da Presidência do Conselho tinha parado na Rua do Carmo, em Lisboa, para apanhar um homem «elegante, alto e magro». Tratava‐se de Augusto Hilário, que se tornara enfermeiro‐calista do presidente do Conselho por herança. O pai era de Viseu e tinha estudado na mesma escola que Salazar. Quando morreu, deixou ao filho o consultório e o cliente.

O calista e o ditador costumavam ver‐se de três em três semanas. Essa periodicidade não era um capricho – era uma necessidade. Quando era mais novo, Salazar partira o pé direito e nunca recuperara. Tinha os ossos encavalitados uns nos outros e apareciam‐lhe calos que lhe provocavam dores. Aliás, por isso é que usava umas botas de pelica muito fina, característica que levaria os opositores do regime a tratá‐lo, com desprezo, por O Botas.

Nessa quinta‐feira, ao chegar ao Forte de Santo António, no Estoril, Augusto Hilário passou a porta de madeira e ferro. No átrio, onde existe um azulejo com excertos de Os Lusíadas em cada parede, a temperatura estava mais fresca do que lá fora. Subiu um primeiro lanço de escadas e logo depois outro. Virou à direita e atravessou o longo corredor com o teto em abóbada que divide as duas alas do forte. Era ali, na zona conhecida como «Arca de Noé», que Salazar costumava ler os jornais, almoçar e receber visitas – mas àquela hora não havia ninguém. O calista abriu a quarta porta à esquerda e entrou numa sala grande, a que chamavam «rouparia», dividida por um arco e com armários pintados de branco em todas as paredes. À direita ficava um recanto onde D. Maria costumava cozinhar para Salazar. Hilário pousou a pasta e começou a preparar os instrumentos de que ia precisar para o tratamento.

Naquele momento, Salazar estava a acabar de vestir o seu casaco de linho branco, no primeiro andar do forte. Saiu do quarto, atravessou um pequeno corredor, desceu dois lanços de escadas, atravessou a «Arca de Noé», entrou na sala onde estava o calista e cumprimentou‐o. Depois pediu‐lhe:

– Empreste‐me os seus jornais.

Hilário sabia que, sempre que ia ao forte, tinha de levar os matutinos. Era um pedido de D. Maria, a governanta de Salazar. Por causa de um daqueles inexplicáveis atrasos de que apenas as burocracias estatais são capazes, os jornais do presidente do Conselho só costumavam chegar ao fim da manhã. Quando havia visitas, podia começar a lê‐los mais cedo. Naquele dia, Salazar podia escolher: Hilário tinha‐lhe trazido o Diário de Notícias e A Bola. Preferiu o DN.

Desta vez, não houve tempo para falarem sobre música, sobre teatro ou sobre os espetáculos no São Carlos, como era hábito. Hilário virou‐se para ensaboar as mãos num lavatório encostado à parede, junto à porta, e ouviu um estrondo. Virou‐se imediatamente. Salazar, que tinha o perigoso hábito de se deixar cair quando se sentava, calculara mal a distância que o separava da cadeira de lona estilo realizador. Estava no chão e tinha batido fortemente com a cabeça. Quando se baixou para o ajudar a levantar‐se, Hilário viu que Salazar estava «branco como a cal».

Em pânico, sentou‐o «com cuidado» na cadeira e sugeriu que talvez fosse mais prudente pedir ajuda. Salazar disse‐lhe que não com a cabeça. Minutos depois, o ditador decidiu que não bastava o silêncio, era preciso um segredo: exigiu que o calista prometesse que nunca contaria a ninguém o que tinha acabado de ver. Hilário aceitou, mas ainda insistiu:

– Tome ao menos um pouco de água com açúcar.

Nem isso Salazar quis. Não voltou a pegar no jornal e manteve‐se quieto, enquanto o calista trabalhava. Ao fim de algum tempo estava melhor, pelo menos aparentemente.

– O senhor presidente já parece outro!

– E o senhor também. Olhe que ficou muito pálido…

No forte, havia uma terceira pessoa assustada. D. Maria, que estava no seu quarto, ouviu um estrondo e primeiro achou que tinha sido uma porta a bater. Quando desceu, percebeu que aquilo que tinha tomado por um contratempo doméstico era afinal uma preocupação clínica. Tentou convencer Salazar a chamar imediatamente um médico, mas ele recusou – dentro de cinco dias teria a sua consulta quinzenal de rotina com Eduardo Coelho e não via nenhuma razão para a antecipar.

O artigo completo está aqui.

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Estaremos a viver a época mais pacífica da história? Provavelmente sim.

Guerra civil na Síria e no Iraque. Conflito armado na Ucrânia. Combate ao tráfico de droga no México. Guerra civil na República Centro Africana. Bombardeamentos com drones no Paquistão, Afeganistão e Iémen. Caos na Líbia e no Egipto. Conflitos insanáveis no Sudão. Ataques terroristas na Nigéria. Intervenções no Mali. Parece que vivemos numa época de guerra. Certo? Errado. Na realidade, ao contrário do que parece, esta é a época mais pacífica da história da humanidade – onde morrem cada vez menos pessoas em conflitos armados. Não é possível? É. Vejam o vídeo.

“O cavalo está para ficar, mas o carro é apenas uma novidade”

Fazer previsões é complicado. Fazê-lo e usar a palavra “nunca” é ainda pior. É meio caminho andado para, daí a uns anos, sermos alvos de chacota. Porque quebrar limites e estabelecer novas metas foi, desde sempre, o maior talento da humanidade. Eis 13 previsões que falharam. Redondamente.

A incrível história de Armando Rodrigues de Sá

Há exactamente 50 anos, Armando Rodrigues de Sá desembarcava de um comboio na estação de Colónia. À sua espera tinha os empresários da região, uma banda e a imprensa. Motivo: era o trabalhador estrangeiro um milhão a chegar à Alemanha. Sem saber, estava a entrar na história. Desde então que o seu nome consta dos manuais escolares alemães, é referido em filmes e a motorizada que lhe foi oferecida na ocasião está exposta no museu de história contemporânea, em Bona. Mas em Portugal, poucos sabem o seu nome para além da sua terra natal, Vale de Madeiros. Esta é a sua história, que publiquei na Sábado, no início deste ano, e a peça televisiva, que fiz para a CMTV.

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“Estava tudo a postos. As bandeiras. Os cartazes de boas vindas. A banda. Os empresários. Os fotógrafos. As câmaras de televisão. Faltavam apenas os “convidados”. Um em especial. Era dia 10 de Setembro de 1964. Naquela manhã, chegavam à estação de Deutz, em Colónia, na Alemanha, dois comboios com 1106 trabalhadores estrangeiros: 933 espanhóis e 173 portugueses. E ao contrário do que acontecia habitualmente, iam ter direito a um comité de boas vindas. Motivo: assinalar a chegada do milionésimo gastarbeiter – trabalhador convidado, em alemão.

A primeira locomotiva entrou na estação pouco depois das 8h. A segunda cerca de duas horas mais tarde. Assim que o comboio parou, os passageiros desceram para o cais, intrigados com tanto aparato. Um intérprete começou então a percorrer as filas de trabalhadores e a gritar com um sotaque germânico: “Armando Rodrigues, Armando Rodrigues”.

Ao fundo da plataforma, Armando Rodrigues de Sá, 38 anos, não sabia o que fazer. “Ficou assustado”, conta à SÁBADO a viúva do português, Maria Emília Pais de Sá. “Achou que era a PIDE”, recorda. Nervoso, tentou esconder-se. Por alguma razão que desconhecia poderiam querer prendê-lo. Ou enviá-lo e volta para Portugal, tal como tinha acontecido a 24 parceiros de viagem que não tinham os papéis em ordem e que acabaram por na fronteira.

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A contragosto – e incentivado pelos companheiros de viagem que gritaram “está aqui, está aqui” – o carpinteiro português avançou. “Então o intérprete explicou-lhe que era o operário um milhão a chegar à Alemanha e que o governo tinha um prémio para ele”, recorda à SÁBADO, António da Silva Cravo, 74 anos, que fez a viagem com Rodrigues de Sá.

Levado para o centro da plataforma, Armando Rodrigues de Sá foi rodeado pelos representantes dos industriais alemães. A banda começou a tocar. Os fotógrafos aproximaram-se e dispararam as máquinas. Os operários gritaram vivas a Portugal e a Espanha. As câmaras de televisão captaram as imagens da festa. Apesar dos dois dias de viagem, o homenageado distinguia-se dos demais: de camisa, casaco e chapéu da cabeça, contrariava a imagem que havia sobre os povos do sul da Europa. Aos poucos, a tensão do seu rosto desapareceu. Foi substituída por um largo sorriso quando lhe deram para a mão – para além de um bouquet de flores e de um diploma que assinalava a ocasião – uma mota nova, da marca Zundap.

“Ele nem sabia andar”, recorda António Cravo. “Pegou-lhe com a mão e depois acabou por se montar nela, mas só para tirar fotografias”, diz. Envergonhado, agradeceu, e disse aos jornalistas que a recepção atenuava a dor da separação da família, mulher e dois filhos, que deixou em Portugal. Estava longe de imaginar que, 50 anos mais tarde, a sua fotografia faria parte dos manuais escolares germânicos e estaria exposta em museus como um símbolo da imigração alemã. 

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Armando Rodrigues de Sá nasceu em Vale de Madeiros, distrito de Viseu, a 4 de Janeiro de 1926. Aos 19 anos casou-se com Maria Emília Pais. Ela tinha 15 anos. “O meu pai era muito rico, tinha muitas terras. Como os pais dele eram pobres ele não o podia ver. Disse-me: ‘se deixares o Armando compro-te um cordão de ouro do teu tamanho’. Mas eu não queria o cordão, queria-o a ele. Era mesmo bonito”, recorda Maria Emília. Tiveram dois filhos. João e Rosa. Armando trabalhava na Companhia Portuguesa de Fornos Eléctricos. Era carpinteiro. E apesar de ter emprego decidiu tentar a sorte na Alemanha. “Havia mais gente daqui da zona a ir e ele também quis”, diz Maria Emília.

Naquela época, quem quisesse obter um passaporte válido para sair do País tinha que recorrer à Junta da Emigração (JE) e preencher uma série de requisitos: ter o serviço militar cumprido, apresentar uma certidão do registo criminal, documentar o grau de escolaridade, entregar uma certidão de nascimento, comprovar o estado civil e assinar uma declaração em que se responsabilizava pelo bem estar da família. Criada em 1947, a JE cooperava com entidades parceiras dos países que angariavam operários em Portugal. No entanto, o objectivo não seria incentivar a saída de trabalhadores do país. Seria controlá-la. De acordo com um artigo da historiadora Alexandra Ventura, em 1961, a embaixada alemã em Lisboa queixava-se, numa comunicação para Berlim: “Todo o processo é muito vagaroso e burocrático, o que atrasa a emigração. Isto é sem dúvida intencional por parte do governo que, se não pretende proibir a emigração para a Europa, pelo menos procura limitá-la”.

Para facilitar o processo, a 17 de Março de 1964 os governos de Portugal e da República Federal Alemã assinaram um acordo de destacamento de trabalhadores. Ao abrigo desse protocolo, o Departamento Federal do Trabalho germânico abriu dependências em Lisboa e no Porto. Mas o recrutamento continuou lento, apesar de a Alemanha estar a viver um período de grande crescimento económico. “Os alemães não percebiam porque não chegavam mais portugueses. Pensavam que era porque não conheciam a Alemanha. E decidiram então fazer uma cerimónia para mostrar que eram bem recebidos”, diz à SÁBADO o investigador do Instituto de Ciências Sociais, António Muñoz Sánchez. Havia ainda outro objectivo, para consumo interno. “Era preciso mostrar à sociedade alemã que eram necessários trabalhadores estrangeiros”, diz à SÁBADO Arnd Kolb, director do Domid, um centro de documentação e museu da imigração de Colónia. “Nesse ano chegou-se ao milhão de imigrantes. Mas não era possível saber qual era o milionésimo. Não havia uma lista. Armando Rodrigues de Sá foi escolhido. Foi uma decisão política e dos empresários para mostrar que a imigração era positiva”, concretiza António Muñoz Sánchez, que está a tentar organizar uma homenagem ao carpinteiro, em Setembro.

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Sem saber o que o esperava, Armando Rodrigues de Sá apanhou o comboio em Canas de Senhorim rumo a Lisboa. Com os requisitos preenchidos, embarcou para Colónia a 8 de Setembro de 1964 – o mesmo dia em que era publicado no jornal alemão Handelsblatt um artigo a lamentar a escassez de trabalhadores portugueses. Antes de deixar a capital portuguesa enviou um telegrama à mulher a pedir-lhe para ir ter com ele à estação de Canas de Senhorim (por onde passava o comboio). “Cheguei a casa e fui a correr para lá. Era para me dar a mala de ferramentas porque não era preciso levá-la”, conta Maria Emília Pais de Sá.

Daí, o carpinteiro seguiu para o Porto. António Cravo embarcou na estação de Campanhã e recorda uma viagem difícil. “Em Espanha juntaram-se muitos trabalhadores ao nosso grupo. Na fronteira com a França mudámos de comboio porque os carris eram diferentes e fomos para Paris. Aí mudámos novamente e seguimos para colónia. Foi uma viagem de 48h em bancos de madeira que faziam doer o rabo e com poucas casas de banho”, diz. Lembra-se de falar com Armando Rodrigues de Sá durante a viagem, mas já não recorda o assunto. “Éramos só homens. Conversávamos para passar o tempo. Uns tinham um realejo, outros concertina. Recebemos também uma espécie de ração de combate, com bolachas e atum”.

Quando chegaram a Colónia mandaram-nos sair do comboio. “Depois começaram a chamar pelo nome dele. Estava perto e ele não queria dizer nada”, recorda. Ao mesmo tempo, o grupo de empresários alemães esperava ansiosamente. O nome de Armando Rodrigues de Sá tinha sido seleccionado previamente de uma lista de 20 portugueses por corresponder ao imigrante ideal para a sociedade alemã: tinha 38 anos, era casado, com dois filhos e ficaria no país temporariamente. E, naquela altura, os industriais não sabiam se ele tinha sido um dos 24 a ficar retido na fronteira. “Por isso eles tinham outro nome de reserva, um português de apelido Varela”, diz Arnd Kolb.

Não foi necessário. Armando Rodrigues de Sá identificou-se, foi homenageado, deu entrevistas e depois seguiu para o seu destino. “Separámo-nos nessa altura”, diz António Cravo. “Os representantes das firmas com quem tínhamos contrato estavam à nossa espera. Eu fui para Noist. Ele para Estugarda”, lembra. A viagem do carpinteiro foi seguida pelas câmaras de televisão. E nas semanas seguintes continuou a dar entrevistas. Fosse na empresa onde trabalhava ou nas camaratas onde dormia – já de fato e gravata.

Assim que pôde, Armando Rodrigues de Sá avisou a família do que tinha acontecido. “Soubemos através de um telefonema”, recorda à SÁBADO o seu filho mais velho, João Pais de Sá. O governo português também foi informado, no dia seguinte, através de um telegrama enviado para o Ministério dos Negócios Estrangeiros pelo cônsul geral em Hamburgo: “As entidades deste país decidiram dar certo relevo à chegada do imigrante que completasse o número de um milhão de trabalhadores estrangeiros contratados para trabalhar na Alemanha. (…) [Armando Rodrigues de Sá] foi por isso alvo de várias homenagens, havendo discursos de boas vindas, várias ofertas de carácter pessoal, fotografias, etc. O acto foi transmitido pela televisão e os jornais de hoje referem-se largamente ao assunto.” E continua: “Devo acrescentar que o Sr. Sá Rodrigues [sic] deixou boa impressão, apesar de não poder esconder o seu espanto por uma recepção totalmente inesperada. Apresentou-se muito decentemente vestido, contrariamente a alguns imigrantes do grupo mas que foi impossível reconhecer se seriam portugueses ou espanhóis”.

João, Rosa e Maria Emília Pais de Sá Foto: Sérgio Azenha

João, Rosa e Maria Emília Pais de Sá
Foto: Sérgio Azenha

Nos seis anos seguintes, Armando Rodrigues de Sá passou várias temporadas na Alemanha. A primeira durou apenas três meses. “Ele voltou em Dezembro e despachou a mota para cá. Antes de regressar foi buscá-la a Lisboa. Mandava dinheiro todos os meses, quatro contos e tal”, recorda Maria Emília Pais de Sá. Provavelmente teria ficado mais tempo se não tivesse sofrido um acidente de trabalho em 1970. “A montar uns painéis de madeira apanhou com um no estômago”, recorda João Pais de Sá. “Nós escrevíamos três cartas por semana e de repente esteve uns 10 dias sem dar notícias. Como estava preocupada fui ao bruxo e ele disse-me: ‘vá descansada. O seu marido esteve no hospital mas já está bem. Quando chegar a casa já lá tem uma carta dele’. E foi verdade”, diz Maria Emília.

No entanto, o carpinteiro não estava totalmente bem. De regresso a Portugal, foi-lhe diagnosticado um cancro. Passou os anos seguintes em tratamentos. “Foi operado em Lisboa e ainda regressou para cá”, conta João Pais de Sá. O anonimato em Portugal contrastava com o reconhecimento de que era alvo na Alemanha. “Tornou-se um símbolo que representa a história da imigração”, diz António Muñoz Sánchez. “Aparece nos livros escolares, é frequentemente referido em documentários televisivos e há vários filmes que recuperaram as imagens da chegada dele a Colónia”, continua.

Maria Emília Pais de Sá confirma. “Ao longo dos anos vieram cá muitos jornalistas e historiadores alemães”, diz. “Portugueses nem por isso”, ri-se. No final da década de 1990, um grupo de responsáveis pelo museu de história contemporânea da RFA, em Bona, deslocaram-se a Vale de Madeiros com um objectivo: adquirir a mota que lhe foi oferecida em 1964. Hoje, o veículo está em destaque na secção dedicada à imigração junto a uma fotografia de Armando Rodrigues de Sá, que acabou por falecer a 5 de Junho de 1979. Longe das câmaras.”

“Mais um dia de vida”

Em 1975, Ryszard Kapuscinski esteve em Angola a acompanhar a saída dos portugueses e o início da guerra civil onde três exércitos lutavam pelo poder num país recém independente. O resultado foi o livro Mais um dia de vida, que está agora a ser adaptado ao cinema e vai combinar animação feita em computador e imagens. A estreia está prevista para 2015. E o trailer promete. Muito.

A origem surpreendente de alguns alimentos

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The History Behind Your Favourite Foods

A paz nuclear

Numa visita recente ao submarino nuclear norte-americano Nautilus, exposto no museu da marinha norte-americana em New London, recordaram-me de um termo frequente nas aulas de Relações Internacionais: dissuasão nuclear. Ou seja, a ameaça de uma represália que não permita ao agressor sobreviver a uma eventual agressão. Algo que nos levou a isto.

Out of Control