Os culpados

Acontece de tempos a tempos. Um barco improvisado naufraga no mediterrâneo, dezenas ou centenas de pessoas morrem. Outras são salvas. Relatam o drama por que passaram. Os motivos que as levaram a arriscar a vida numa perigosa viagem. São depois levadas para centros de alojamento de onde, mais tarde ou mais cedo, acabam por sair. Umas porque conseguem asilo num país europeu. Outros porque fogem e engrossam a lista de imigrantes ilegais na União Europeia.

Enquanto isso, os responsáveis políticos europeus anunciam medidas: novos campos, mais apoios aos resgates no Mediterrâneo, por vezes mais dinheiro, mostram-se chocados, pesarosos, quase sempre apresentam um culpado. Normalmalmente, os transportadores. Mafiosos que se aproveitam do desespero alheio para ganhar dinheiro com quem está disposto a arriscar a vida para atravessar um mar. Foi o que aconteceu nos últimos dias. Mais uma vez.

Mas poucos se dispuseram a dizer o óbvio. Há aqui duas vontades conflituantes. De um lado, pessoas, seres humanos cuja realidade, cuja vida, é tão miserável que estão dispostas a arriscar tudo, incluindo a própria sobrevivência, numa travessia potencialmente mortal. Começam por percorrer milhares de quilómetros a pé, através de vários países africanos, com a ajuda de redes clandestinas, para chegar ao norte de África. Aí, se já não tiverem dinheiro, trabalham no que for possível para acumular a quantia pedida pelos transportadores. Juntam-se a milhares de outros, de diferentes nacionalidades que se acumulam na costa africana. Quem os pode censurar? Fogem à guerra, à fome, à pobreza, às limpezas étnicas e religiosas, à ditadura, à miséria. Se alguém lhes diz que os consegue levar para o outro lado do mar, para a terra de esperança, nem pensam duas vezes. Saltam para bordo. Muitas vezes para a morte.

Do outro lado desse mar está um continente que não está disposto a recebê-los. Pelo menos a todos. Isso seria o colapso do sistema social vigente. Mas ninguém está disposto a dizê-lo. Ninguém excepto os os partidos anti-imigração. E ninguém quer estar ao lado deles. Ninguém quer ser o responsável pela criação de uma fortaleza cujo destino final seria a queda. Ninguém. Mas todos pensam o mesmo. E todos têm responsabilidades históricas. Não só por causa da colonização e descolonização, mas também pelo apoio velado a guerras, revoluções e recentemente, em intervenções militares como na Líbia.

A solução não está em encontrar culpados. A solução está em implementar políticas efectivas que contrariem guerra, a fome, a pobreza, as limpezas étnicas e religiosas, a ditadura e a miséria. Medidas que permitam a essas pessoas ter vidas melhores nos seus países. Políticas que vão mais além da mera cooperação para o desenvolvimento que, apesar de importante, é um mero paliativo para problemas complexos. Cabe-nos a nós, cidadãos, exigir essa mudança. Cabe-nos a nós não aceitar nem tolerar os meros atirar de culpas. Porque aqueles que tentam atravessar o Mediterrâneo são inocentes. Os culpados somos nós.

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Uma imagem, duas realidades

Todos os anos, milhares de pessoas tentam atravessar a fronteira para a Europa. Algumas percorrem o continente durante anos até chegarem à fronteira. Aí, muitos aventuram-se de barco. Outros tentam saltar as vedações de  Ceuta e Melila, os enclaves espanhóis em Marrocos. Esta imagem foi tirada na passada semana em Melila, quando muitos imigrantes conseguiram trepar a vedação de seis metros e ficaram lá em cima várias horas com receio de serem presos e enviados novamente para Marrocos. Cá em baixo, no lado Europeu, alguns golfistas usavam um campo imaculado. São duas realidades, numa única imagem.

Foto: José Palazón/Reuters

Foto: José Palazón/Reuters

A incrível história de Armando Rodrigues de Sá

Há exactamente 50 anos, Armando Rodrigues de Sá desembarcava de um comboio na estação de Colónia. À sua espera tinha os empresários da região, uma banda e a imprensa. Motivo: era o trabalhador estrangeiro um milhão a chegar à Alemanha. Sem saber, estava a entrar na história. Desde então que o seu nome consta dos manuais escolares alemães, é referido em filmes e a motorizada que lhe foi oferecida na ocasião está exposta no museu de história contemporânea, em Bona. Mas em Portugal, poucos sabem o seu nome para além da sua terra natal, Vale de Madeiros. Esta é a sua história, que publiquei na Sábado, no início deste ano, e a peça televisiva, que fiz para a CMTV.

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“Estava tudo a postos. As bandeiras. Os cartazes de boas vindas. A banda. Os empresários. Os fotógrafos. As câmaras de televisão. Faltavam apenas os “convidados”. Um em especial. Era dia 10 de Setembro de 1964. Naquela manhã, chegavam à estação de Deutz, em Colónia, na Alemanha, dois comboios com 1106 trabalhadores estrangeiros: 933 espanhóis e 173 portugueses. E ao contrário do que acontecia habitualmente, iam ter direito a um comité de boas vindas. Motivo: assinalar a chegada do milionésimo gastarbeiter – trabalhador convidado, em alemão.

A primeira locomotiva entrou na estação pouco depois das 8h. A segunda cerca de duas horas mais tarde. Assim que o comboio parou, os passageiros desceram para o cais, intrigados com tanto aparato. Um intérprete começou então a percorrer as filas de trabalhadores e a gritar com um sotaque germânico: “Armando Rodrigues, Armando Rodrigues”.

Ao fundo da plataforma, Armando Rodrigues de Sá, 38 anos, não sabia o que fazer. “Ficou assustado”, conta à SÁBADO a viúva do português, Maria Emília Pais de Sá. “Achou que era a PIDE”, recorda. Nervoso, tentou esconder-se. Por alguma razão que desconhecia poderiam querer prendê-lo. Ou enviá-lo e volta para Portugal, tal como tinha acontecido a 24 parceiros de viagem que não tinham os papéis em ordem e que acabaram por na fronteira.

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A contragosto – e incentivado pelos companheiros de viagem que gritaram “está aqui, está aqui” – o carpinteiro português avançou. “Então o intérprete explicou-lhe que era o operário um milhão a chegar à Alemanha e que o governo tinha um prémio para ele”, recorda à SÁBADO, António da Silva Cravo, 74 anos, que fez a viagem com Rodrigues de Sá.

Levado para o centro da plataforma, Armando Rodrigues de Sá foi rodeado pelos representantes dos industriais alemães. A banda começou a tocar. Os fotógrafos aproximaram-se e dispararam as máquinas. Os operários gritaram vivas a Portugal e a Espanha. As câmaras de televisão captaram as imagens da festa. Apesar dos dois dias de viagem, o homenageado distinguia-se dos demais: de camisa, casaco e chapéu da cabeça, contrariava a imagem que havia sobre os povos do sul da Europa. Aos poucos, a tensão do seu rosto desapareceu. Foi substituída por um largo sorriso quando lhe deram para a mão – para além de um bouquet de flores e de um diploma que assinalava a ocasião – uma mota nova, da marca Zundap.

“Ele nem sabia andar”, recorda António Cravo. “Pegou-lhe com a mão e depois acabou por se montar nela, mas só para tirar fotografias”, diz. Envergonhado, agradeceu, e disse aos jornalistas que a recepção atenuava a dor da separação da família, mulher e dois filhos, que deixou em Portugal. Estava longe de imaginar que, 50 anos mais tarde, a sua fotografia faria parte dos manuais escolares germânicos e estaria exposta em museus como um símbolo da imigração alemã. 

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Armando Rodrigues de Sá nasceu em Vale de Madeiros, distrito de Viseu, a 4 de Janeiro de 1926. Aos 19 anos casou-se com Maria Emília Pais. Ela tinha 15 anos. “O meu pai era muito rico, tinha muitas terras. Como os pais dele eram pobres ele não o podia ver. Disse-me: ‘se deixares o Armando compro-te um cordão de ouro do teu tamanho’. Mas eu não queria o cordão, queria-o a ele. Era mesmo bonito”, recorda Maria Emília. Tiveram dois filhos. João e Rosa. Armando trabalhava na Companhia Portuguesa de Fornos Eléctricos. Era carpinteiro. E apesar de ter emprego decidiu tentar a sorte na Alemanha. “Havia mais gente daqui da zona a ir e ele também quis”, diz Maria Emília.

Naquela época, quem quisesse obter um passaporte válido para sair do País tinha que recorrer à Junta da Emigração (JE) e preencher uma série de requisitos: ter o serviço militar cumprido, apresentar uma certidão do registo criminal, documentar o grau de escolaridade, entregar uma certidão de nascimento, comprovar o estado civil e assinar uma declaração em que se responsabilizava pelo bem estar da família. Criada em 1947, a JE cooperava com entidades parceiras dos países que angariavam operários em Portugal. No entanto, o objectivo não seria incentivar a saída de trabalhadores do país. Seria controlá-la. De acordo com um artigo da historiadora Alexandra Ventura, em 1961, a embaixada alemã em Lisboa queixava-se, numa comunicação para Berlim: “Todo o processo é muito vagaroso e burocrático, o que atrasa a emigração. Isto é sem dúvida intencional por parte do governo que, se não pretende proibir a emigração para a Europa, pelo menos procura limitá-la”.

Para facilitar o processo, a 17 de Março de 1964 os governos de Portugal e da República Federal Alemã assinaram um acordo de destacamento de trabalhadores. Ao abrigo desse protocolo, o Departamento Federal do Trabalho germânico abriu dependências em Lisboa e no Porto. Mas o recrutamento continuou lento, apesar de a Alemanha estar a viver um período de grande crescimento económico. “Os alemães não percebiam porque não chegavam mais portugueses. Pensavam que era porque não conheciam a Alemanha. E decidiram então fazer uma cerimónia para mostrar que eram bem recebidos”, diz à SÁBADO o investigador do Instituto de Ciências Sociais, António Muñoz Sánchez. Havia ainda outro objectivo, para consumo interno. “Era preciso mostrar à sociedade alemã que eram necessários trabalhadores estrangeiros”, diz à SÁBADO Arnd Kolb, director do Domid, um centro de documentação e museu da imigração de Colónia. “Nesse ano chegou-se ao milhão de imigrantes. Mas não era possível saber qual era o milionésimo. Não havia uma lista. Armando Rodrigues de Sá foi escolhido. Foi uma decisão política e dos empresários para mostrar que a imigração era positiva”, concretiza António Muñoz Sánchez, que está a tentar organizar uma homenagem ao carpinteiro, em Setembro.

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Sem saber o que o esperava, Armando Rodrigues de Sá apanhou o comboio em Canas de Senhorim rumo a Lisboa. Com os requisitos preenchidos, embarcou para Colónia a 8 de Setembro de 1964 – o mesmo dia em que era publicado no jornal alemão Handelsblatt um artigo a lamentar a escassez de trabalhadores portugueses. Antes de deixar a capital portuguesa enviou um telegrama à mulher a pedir-lhe para ir ter com ele à estação de Canas de Senhorim (por onde passava o comboio). “Cheguei a casa e fui a correr para lá. Era para me dar a mala de ferramentas porque não era preciso levá-la”, conta Maria Emília Pais de Sá.

Daí, o carpinteiro seguiu para o Porto. António Cravo embarcou na estação de Campanhã e recorda uma viagem difícil. “Em Espanha juntaram-se muitos trabalhadores ao nosso grupo. Na fronteira com a França mudámos de comboio porque os carris eram diferentes e fomos para Paris. Aí mudámos novamente e seguimos para colónia. Foi uma viagem de 48h em bancos de madeira que faziam doer o rabo e com poucas casas de banho”, diz. Lembra-se de falar com Armando Rodrigues de Sá durante a viagem, mas já não recorda o assunto. “Éramos só homens. Conversávamos para passar o tempo. Uns tinham um realejo, outros concertina. Recebemos também uma espécie de ração de combate, com bolachas e atum”.

Quando chegaram a Colónia mandaram-nos sair do comboio. “Depois começaram a chamar pelo nome dele. Estava perto e ele não queria dizer nada”, recorda. Ao mesmo tempo, o grupo de empresários alemães esperava ansiosamente. O nome de Armando Rodrigues de Sá tinha sido seleccionado previamente de uma lista de 20 portugueses por corresponder ao imigrante ideal para a sociedade alemã: tinha 38 anos, era casado, com dois filhos e ficaria no país temporariamente. E, naquela altura, os industriais não sabiam se ele tinha sido um dos 24 a ficar retido na fronteira. “Por isso eles tinham outro nome de reserva, um português de apelido Varela”, diz Arnd Kolb.

Não foi necessário. Armando Rodrigues de Sá identificou-se, foi homenageado, deu entrevistas e depois seguiu para o seu destino. “Separámo-nos nessa altura”, diz António Cravo. “Os representantes das firmas com quem tínhamos contrato estavam à nossa espera. Eu fui para Noist. Ele para Estugarda”, lembra. A viagem do carpinteiro foi seguida pelas câmaras de televisão. E nas semanas seguintes continuou a dar entrevistas. Fosse na empresa onde trabalhava ou nas camaratas onde dormia – já de fato e gravata.

Assim que pôde, Armando Rodrigues de Sá avisou a família do que tinha acontecido. “Soubemos através de um telefonema”, recorda à SÁBADO o seu filho mais velho, João Pais de Sá. O governo português também foi informado, no dia seguinte, através de um telegrama enviado para o Ministério dos Negócios Estrangeiros pelo cônsul geral em Hamburgo: “As entidades deste país decidiram dar certo relevo à chegada do imigrante que completasse o número de um milhão de trabalhadores estrangeiros contratados para trabalhar na Alemanha. (…) [Armando Rodrigues de Sá] foi por isso alvo de várias homenagens, havendo discursos de boas vindas, várias ofertas de carácter pessoal, fotografias, etc. O acto foi transmitido pela televisão e os jornais de hoje referem-se largamente ao assunto.” E continua: “Devo acrescentar que o Sr. Sá Rodrigues [sic] deixou boa impressão, apesar de não poder esconder o seu espanto por uma recepção totalmente inesperada. Apresentou-se muito decentemente vestido, contrariamente a alguns imigrantes do grupo mas que foi impossível reconhecer se seriam portugueses ou espanhóis”.

João, Rosa e Maria Emília Pais de Sá Foto: Sérgio Azenha

João, Rosa e Maria Emília Pais de Sá
Foto: Sérgio Azenha

Nos seis anos seguintes, Armando Rodrigues de Sá passou várias temporadas na Alemanha. A primeira durou apenas três meses. “Ele voltou em Dezembro e despachou a mota para cá. Antes de regressar foi buscá-la a Lisboa. Mandava dinheiro todos os meses, quatro contos e tal”, recorda Maria Emília Pais de Sá. Provavelmente teria ficado mais tempo se não tivesse sofrido um acidente de trabalho em 1970. “A montar uns painéis de madeira apanhou com um no estômago”, recorda João Pais de Sá. “Nós escrevíamos três cartas por semana e de repente esteve uns 10 dias sem dar notícias. Como estava preocupada fui ao bruxo e ele disse-me: ‘vá descansada. O seu marido esteve no hospital mas já está bem. Quando chegar a casa já lá tem uma carta dele’. E foi verdade”, diz Maria Emília.

No entanto, o carpinteiro não estava totalmente bem. De regresso a Portugal, foi-lhe diagnosticado um cancro. Passou os anos seguintes em tratamentos. “Foi operado em Lisboa e ainda regressou para cá”, conta João Pais de Sá. O anonimato em Portugal contrastava com o reconhecimento de que era alvo na Alemanha. “Tornou-se um símbolo que representa a história da imigração”, diz António Muñoz Sánchez. “Aparece nos livros escolares, é frequentemente referido em documentários televisivos e há vários filmes que recuperaram as imagens da chegada dele a Colónia”, continua.

Maria Emília Pais de Sá confirma. “Ao longo dos anos vieram cá muitos jornalistas e historiadores alemães”, diz. “Portugueses nem por isso”, ri-se. No final da década de 1990, um grupo de responsáveis pelo museu de história contemporânea da RFA, em Bona, deslocaram-se a Vale de Madeiros com um objectivo: adquirir a mota que lhe foi oferecida em 1964. Hoje, o veículo está em destaque na secção dedicada à imigração junto a uma fotografia de Armando Rodrigues de Sá, que acabou por falecer a 5 de Junho de 1979. Longe das câmaras.”

Leitura para o fim-de-semana: uma vida sem documentos

Nos Estados Unidos há milhões de imigrantes ilegais. A maioria trabalha. Têm ordenados. Fazem descontos. Mas não têm documentos – pelo menos verdadeiros. É o caso de José António Vargas. Aos 12 anos chegou aopaís, vindo das Filipinas. Estudou, tirou um curso, tornou-se jornalista do The Washington Post e até ganhou um Púlitzer. Mas nunca teve um bilhete de identidade norte-americano. Nem uma carta de condução. Tinha uma vida dupla, sempre com receio de que alguém lhe pedisse a identificação. Num concerto, num bar, na rua. Em 2011, para surpresa geral, escreveu um texto na The New York Times Magazine a assumir-se como um imigrante ilegal. Deste então escreveu ainda um artigo que foi capa da Time e realizou um documentário que passou nos cinemas e na CNN. No início de Julho foi visitar uma cidade junto à fronteira com o México – e não voltou a saír. Foi detido por não ter identificação. Esta é a história que ele contou há três anos na primeira pessoa.

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My Life as an Undocumented Immigrant

“One August morning nearly two decades ago, my mother woke me and put me in a cab. She handed me a jacket. “Baka malamig doon” were among the few words she said. (“It might be cold there.”) When I arrived at the Philippines’ Ninoy Aquino International Airport with her, my aunt and a family friend, I was introduced to a man I’d never seen. They told me he was my uncle. He held my hand as I boarded an airplane for the first time. It was 1993, and I was 12.

My mother wanted to give me a better life, so she sent me thousands of miles away to live with her parents in America — my grandfather (Lolo in Tagalog) and grandmother (Lola). After I arrived in Mountain View, Calif., in the San Francisco Bay Area, I entered sixth grade and quickly grew to love my new home, family and culture. I discovered a passion for language, though it was hard to learn the difference between formal English and American slang. One of my early memories is of a freckled kid in middle school asking me, “What’s up?” I replied, “The sky,” and he and a couple of other kids laughed. I won the eighth-grade spelling bee by memorizing words I couldn’t properly pronounce. (The winning word was “indefatigable.”)

One day when I was 16, I rode my bike to the nearby D.M.V. office to get my driver’s permit. Some of my friends already had their licenses, so I figured it was time. But when I handed the clerk my green card as proof of U.S. residency, she flipped it around, examining it. “This is fake,” she whispered. “Don’t come back here again.”

Confused and scared, I pedaled home and confronted Lolo. I remember him sitting in the garage, cutting coupons. I dropped my bike and ran over to him, showing him the green card. “Peke ba ito?” I asked in Tagalog. (“Is this fake?”) My grandparents were naturalized American citizens — he worked as a security guard, she as a food server — and they had begun supporting my mother and me financially when I was 3, after my father’s wandering eye and inability to properly provide for us led to my parents’ separation. Lolo was a proud man, and I saw the shame on his face as he told me he purchased the card, along with other fake documents, for me. “Don’t show it to other people,” he warned.

I decided then that I could never give anyone reason to doubt I was an American. I convinced myself that if I worked enough, if I achieved enough, I would be rewarded with citizenship. I felt I could earn it.

I’ve tried. Over the past 14 years, I’ve graduated from high school and college and built a career as a journalist, interviewing some of the most famous people in the country. On the surface, I’ve created a good life. I’ve lived the American dream.

But I am still an undocumented immigrant. And that means living a different kind of reality. It means going about my day in fear of being found out. It means rarely trusting people, even those closest to me, with who I really am. It means keeping my family photos in a shoebox rather than displaying them on shelves in my home, so friends don’t ask about them. It means reluctantly, even painfully, doing things I know are wrong and unlawful. And it has meant relying on a sort of 21st-century underground railroad of supporters, people who took an interest in my future and took risks for me.

Last year I read about four students who walked from Miami to Washington to lobby for the Dream Act, a nearly decade-old immigration bill that would provide a path to legal permanent residency for young people who have been educated in this country. At the risk of deportation — the Obama administration has deported almost 800,000 people in the last two years — they are speaking out. Their courage has inspired me.

There are believed to be 11 million undocumented immigrants in the United States. We’re not always who you think we are. Some pick your strawberries or care for your children. Some are in high school or college. And some, it turns out, write news articles you might read. I grew up here. This is my home. Yet even though I think of myself as an American and consider America my country, my country doesn’t think of me as one of its own.

My first challenge was the language. Though I learned English in the Philippines, I wanted to lose my accent. During high school, I spent hours at a time watching television (especially “Frasier,” “Home Improvement” and reruns of “The Golden Girls”) and movies (from “Goodfellas” to “Anne of Green Gables”), pausing the VHS to try to copy how various characters enunciated their words. At the local library, I read magazines, books and newspapers — anything to learn how to write better. Kathy Dewar, my high-school English teacher, introduced me to journalism. From the moment I wrote my first article for the student paper, I convinced myself that having my name in print — writing in English, interviewing Americans — validated my presence here.

The debates over “illegal aliens” intensified my anxieties. In 1994, only a year after my flight from the Philippines, Gov. Pete Wilson was re-elected in part because of his support for Proposition 187, which prohibited undocumented immigrants from attending public school and accessing other services. (A federal court later found the law unconstitutional.) After my encounter at the D.M.V. in 1997, I grew more aware of anti-immigrant sentiments and stereotypes: they don’t want to assimilate, they are a drain on society. They’re not talking about me, I would tell myself. I have something to contribute.

To do that, I had to work — and for that, I needed a Social Securitynumber. Fortunately, my grandfather had already managed to get one for me. Lolo had always taken care of everyone in the family. He and my grandmother emigrated legally in 1984 from Zambales, a province in the Philippines of rice fields and bamboo houses­, following Lolo’s sister, who married a Filipino-American serving in the American military. She petitioned for her brother and his wife to join her. When they got here, Lolo petitioned for his two children — my mother and her younger brother — to follow them. But instead of mentioning that my mother was a married woman, he listed her as single. Legal residents can’t petition for their married children. Besides, Lolo didn’t care for my father. He didn’t want him coming here too.

But soon Lolo grew nervous that the immigration authorities reviewing the petition would discover my mother was married, thus derailing not only her chances of coming here but those of my uncle as well. So he withdrew her petition. After my uncle came to America legally in 1991, Lolo tried to get my mother here through a tourist visa, but she wasn’t able to obtain one. That’s when she decided to send me. My mother told me later that she figured she would follow me soon. She never did.

The “uncle” who brought me here turned out to be a coyote, not a relative, my grandfather later explained. Lolo scraped together enough money — I eventually learned it was $4,500, a huge sum for him — to pay him to smuggle me here under a fake name and fake passport. (I never saw the passport again after the flight and have always assumed that the coyote kept it.) After I arrived in America, Lolo obtained a new fake Filipino passport, in my real name this time, adorned with a fake student visa, in addition to the fraudulent green card.

Using the fake passport, we went to the local Social Security Administration office and applied for a Social Security number and card. It was, I remember, a quick visit. When the card came in the mail, it had my full, real name, but it also clearly stated: “Valid for work only with I.N.S. authorization.”

When I began looking for work, a short time after the D.M.V. incident, my grandfather and I took the Social Security card to Kinko’s, where he covered the “I.N.S. authorization” text with a sliver of white tape. We then made photocopies of the card. At a glance, at least, the copies would look like copies of a regular, unrestricted Social Security card.

Lolo always imagined I would work the kind of low-paying jobs that undocumented people often take. (Once I married an American, he said, I would get my real papers, and everything would be fine.) But even menial jobs require documents, so he and I hoped the doctored card would work for now. The more documents I had, he said, the better.

While in high school, I worked part time at Subway, then at the front desk of the local Y.M.C.A., then at a tennis club, until I landed an unpaid internship at The Mountain View Voice, my hometown newspaper. First I brought coffee and helped around the office; eventually I began covering city-hall meetings and other assignments for pay.

For more than a decade of getting part-time and full-time jobs, employers have rarely asked to check my original Social Security card. When they did, I showed the photocopied version, which they accepted. Over time, I also began checking the citizenship box on my federal I-9 employment eligibility forms. (Claiming full citizenship was actually easier than declaring permanent resident “green card” status, which would have required me to provide an alien registration number.)

This deceit never got easier. The more I did it, the more I felt like an impostor, the more guilt I carried — and the more I worried that I would get caught. But I kept doing it. I needed to live and survive on my own, and I decided this was the way.

Mountain View High School became my second home. I was elected to represent my school at school-board meetings, which gave me the chance to meet and befriend Rich Fischer, the superintendent for our school district. I joined the speech and debate team, acted in school plays and eventually became co-editor of The Oracle, the student newspaper. That drew the attention of my principal, Pat Hyland. “You’re at school just as much as I am,” she told me. Pat and Rich would soon become mentors, and over time, almost surrogate parents for me.

After a choir rehearsal during my junior year, Jill Denny, the choir director, told me she was considering a Japan trip for our singing group. I told her I couldn’t afford it, but she said we’d figure out a way. I hesitated, and then decided to tell her the truth. “It’s not really the money,” I remember saying. “I don’t have the right passport.” When she assured me we’d get the proper documents, I finally told her. “I can’t get the right passport,” I said. “I’m not supposed to be here.”

She understood. So the choir toured Hawaii instead, with me in tow. (Mrs. Denny and I spoke a couple of months ago, and she told me she hadn’t wanted to leave any student behind.)

Later that school year, my history class watched a documentary on Harvey Milk, the openly gay San Francisco city official who was assassinated. This was 1999, just six months after Matthew Shepard’s body was found tied to a fence in Wyoming. During the discussion, I raised my hand and said something like: “I’m sorry Harvey Milk got killed for being gay. . . . I’ve been meaning to say this. . . . I’m gay.”

I hadn’t planned on coming out that morning, though I had known that I was gay for several years. With that announcement, I became the only openly gay student at school, and it caused turmoil with my grandparents. Lolo kicked me out of the house for a few weeks. Though we eventually reconciled, I had disappointed him on two fronts. First, as a Catholic, he considered homosexuality a sin and was embarrassed about having “ang apo na bakla” (“a grandson who is gay”). Even worse, I was making matters more difficult for myself, he said. I needed to marry an American woman in order to gain a green card.

Tough as it was, coming out about being gay seemed less daunting than coming out about my legal status. I kept my other secret mostly hidden.”

O artigo completo está aqui. 

Uma viagem da Somália até à África do Sul

Há uma semana partilhei aqui a primeira parte da reportagem de Jamal Osman, o jornalista do Channel 4 News que decidiu reconstruir a viagem que fez há 17 anos: um percurso de milhares de quilómetros da Somália, a sua terra natal, até à África do Sul. Esta é a segunda parte desse trabalho.

Da Somália à Europa, passando pela África do Sul

Há 17 anos, Jamal Osman deixou a Somália em direcção à África do Sul. O objectivo era chegar à Europa. O Quénia foi a primeira paragem. Depois seguiu-se a Tanzânia e Moçambique e muitos outras paragens. Hoje, ele é um dos repórteres do Channel 4 News. E para contar a história dos muitos imigrantes africanos que todos os dias arriscam a vida numa viagem sem destino certo, resolveu reconstituir a sua própria caminhada rumo a Londres. Esta é a primeira parte dessa reportagem.

A lista dos passageiros sírios que vieram de Bissau

O blogue do jornalista António Aly Silva continua a ser uma das melhores fontes para se saber o que se passa na Guiné Bissau. Hoje, ele colocou online a lista dos sírios que, com passaportes turcos, entraram no voo da TAP que partiu de Bissau rumo a Lisboa no dia 10 de Dezembro. Está aqui. 

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