Quando o jornalismo usa a tecnologia

O resultado é absolutamente incrível. Não há fronteiras. Vejam.

O Estado Islâmico realizou 90 atentados suicidas em Janeiro

A Agência Amaq, o órgão de comunicação oficial do autoproclamado Estado Islâmico, divulgou nos canais encriptados do Telegram uma nova infografia com o resumo dos atentados suicidas realizados no Iraque e na Síria em Janeiro de 2017. Ao todo foram 90 ataques, a maioria através de veículos carregados de explosivos dirigidos em grande parte às forças iraquianas e curdas que tentam reconquistar Mossul.

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Estado Islâmico realizou 107 atentados suicidas em Dezembro

A agência noticiosa do autoproclamado Estado Islâmico divulgou uma infografia com o número de atentados suicidas realizados em Dezembro de 2016, no Iraque e na Síria. De acordo com a Amaq, o principal alvo destes ataques foram as forças iraquianas que tentam reconquistar Mossul.

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A batalha (esquecida) por Mossul

Com as atenções centradas em Aleppo e agora em Ancara e Berlim, o mundo parece ter esquecido a batalha que até há bem pouco tempo era considerada decisiva e seguida com grande atenção e expectativa: a operação para a reconquista de Mossul ao auto-proclamado Estado Islâmico. Se nos primeiros dias e semanas era habitual ver repórteres dos grandes jornais e televisões na linha da frente (inclundo o português José Manuel Rosendo, da Antena1), à medida que o tempo passou e os avanços se tornaram mais lentos do que o esperado, deixámos de ter grande informação sobre o que se passava no terreno.

Uma reportagem recente do The New York Times sobre o avanço das forças iraquianas começava assim:

“After two months, the battle to retake the Iraqi city of Mosul from the Islamic State has settled into a grinding war of attrition. The front lines have barely budged in weeks. Casualties of Iraqi security forces are so high that American commanders heading the United States-led air campaign worry that they are unsustainable. Civilians are being killed or injured by Islamic State snipers and growing numbers of suicide bombers.

As the world watches the horrors unfolding in Aleppo, Syria, where government forces and allied militias bombed civilians and carried out summary executions as they retook the last rebel-held areas, a different tragedy is transpiring in Mosul. Up to one million people are trapped inside the city, running low on food and drinking water and facing the worsening cruelty of Islamic State fighters.”

As tropas iraquianas encontraram obstáculos já esperados, mas numa dimensão que nunca imaginaram: túneis escavados ao longo dos últimos dois anos que permitem aos jihadistas aparecer e desaparecer num piscar de olhos, fábricas de bombas sofisticadas, toneladas de explosivos prontos a serem usados, minas, snipers e bombistas suicidas – muitos, mesmo muitos.

As baixas entre civis e militares não param de crescer. Se no início de Outubro as autoridades iraquianas agradeciam e apreciavam a companhia de jornalistas, a presença de repórteres na frente de combate foi, na maioria dos casos, proibida. Obter e verificar notícias tornou-se cada vez mais complicado.

Do outro lado, o autoproclamado Estado Islâmico continua a divulgar periodicamente estatísticas do que acontece no campo de batalha através dos canais oficiais e afiliados de propaganda do grupo na aplicação encriptada Telegram. Inicialmente, estas actualizações eram diárias e detalhadas: revelavam o número de bombistas suicidas (mártires), ataques com morteiros, veículos destruídos, mortes entre as forças iraquianas, e resultados dos bombardeamentos da coligação ocidental.

Com os passar dos dias e o prolongar dos combates, essas actualizações tornaram-se semanais.

Mais recentemente, o EI passou a fazer também actualizações mensais do que, alegadamente, se passará no terreno:

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Apesar de não ser possível confirmar a veracidade destes números, tudo aponta para que as baixas entre as tropas iraquianas sejam, realmente, enormes e talvez incomportáveis. A acreditar nas infografias divulgadas através da Amaq, a agencia noticiosa do grupo terrorista, as tropas iraquianas terão perdido quase cinco mil homens. Uma boa parte delas terão sido vítimas de uma das mais aterradoras armas do EI: os bombistas suicidas. Em dois meses, os jihadistas terão recorrido a 215 “mártires” na defesa de Mossul, o que dá uma média de um pouco mais de três por dia. Uma batalha “esquecida”, mas que durará ainda bastante tempo.

John Cantlie reaparece em vídeo sobre Mossul

O autoproclamado Estado Islâmico divulgou um vídeo protagonizado por John Cantlie. O repórter britânico que há vários anos está refém do grupo terrorista, surge em Mossul a falar das consequências nefastas dos bombardeamentos da coligação internacional para a população civil da cidade iraquiana.

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O terror no meio de nós VI

Em resumo: há muito que as autoridades alertam para o risco de atentados na Europa; o auto-proclamado Estado Islâmico (EI) tem inserido nas suas mensagens de propaganda sucessivas ameaças aos países europeus; o conflito com este grupo terrorista já dura há 13 anos; a guerra na Síria tornou-se o maior palco de mobilização de combatentes terroristas estrangeiros desde o fim da II Guerra Mundial; e um número inédito de cidadãos nacionais ou luso-descendentes juntaram-se a uma organização jihadista que tem por fim último a destruição da sociedade ocidental. A pergunta seguinte é: há um risco de atentados em Portugal? A resposta genérica é: “há, como em todos os outros países europeus”. Mas se a questão for mais específica, por exemplo, vão acontecer ataques terroristas em Portugal? A resposta honesta será: “talvez sim, talvez não. Ninguém sabe”.

No fundo, é tudo uma questão de probabilidades. Portugal está inserido no espaço europeu, faz parte da NATO, ocupa um território que integrou o longínquo Al Andalus e participa na coligação internacional que combate o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. É por isso natural que o nosso país esteja entre os alvos potenciais do terrorismo jihadista. É também natural que aqui e ali surjam referências a Portugal nos meios de propaganda oficiais do grupo terrorista (sem contar com afirmações esporádicas dos combatentes portugueses). E não é de agora, ao contrário do que tem sido escrito e dito nos últimos dias.

A primeira vez que tal aconteceu terá sido em Outubro do ano passado, no 11º número da revista Dabiq, num artigo de 10 páginas que comparava a luta de Maomé, em Medina, contra uma aliança entre judeus e tribos árabes à actual situação em que o EI enfrenta uma coligação internacional. De acordo com a crença islâmica, nessa batalha de Al-Ahzab os muçulmanos resistiram a um cerco entre Janeiro e Fevereiro do ano 627 e, apesar de estarem em minoria, saíram vitoriosos. O mesmo, escreveram, acontecerá agora. Em seguida, a revista enumerou os países e organizações empenhados na luta contra o EI – lista onde estava Portugal.

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Um mês depois, em Novembro de 2015, houve uma nova referência a Portugal, agora num vídeo de propaganda. Divulgado em contas do grupo terrorista no Twitter e no Telegram, alguns dias após os atentados terroristas de Paris, o vídeo foi produzido pelo Al Hayat Media Center – o departamento de comunicação destinado maioritariamente ao público ocidental – tinha a duração de quatro minutos e o título de “No Respite” (Sem tréguas, numa tradução livre).

Apesar de recorrer apenas a animações gráficas e a fotografias – em vez de imagens reais – o vídeo desafia os membros da coligação internacional a lançarem tudo o que tiverem contra o grupo terrorista. É aí que a bandeira portuguesa surge entre as dos 60 países que formam a coligação internacional que enfrenta o EI.

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A 29 de Janeiro, o EI colocou na internet um novo vídeo em que cinco prisioneiros são acusados no meio de ruínas no norte do Iraque. O único terrorista que fala para a câmara exprime-se em francês e ameaça sobretudo a França – mas também o Al Andalus, Portugal e Espanha. A referência ao nosso país, entre ameaças de novos atentados que farão esquecer o 11 de Setembro e os ataques de Paris e promessas de reconquista da Península Ibérica, é exactamente esta: “tenham paciência por Alá, vocês não são espanhóis nem portugueses, são muçulmanos do Al Andalus”. Apesar de não o confirmarem oficialmente, as autoridades portuguesas acreditam que existe uma forte probabilidade de o homem que surge encapuçado a falar para a câmara é o luso-descendente com passaporte português, Steve Duarte. No entanto, não há certezas. Há probabilidades.

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Na passada terça-feira, dia 29 de Março, o jornal norte-americano The Washington Times publicou uma notícia em que afirma que o Estado Islâmico, através do departamento de média Al Wafa, terá feito uma ameaça directa aos Estados Unidos e também a Portugal e à Hungria. A publicação cita um relatório do Middle East Media Research Institute (MEMRI), que se dedica a monitorar as comunicações jihadistas, que especifica que o comunicado do grupo garante que “Hoje foi Bruxelas e o seu aeroporto, amanhã poderá ser Portugal ou a Hungria”. A notícia do The Washington Times foi depois reproduzida na imprensa portuguesa – e húngara – e levou as autoridades a afirmarem que “tinham conhecimento” do caso e que o “estavam a acompanhar” .

Contudo, depois de aceder ao relatório original do MEMRI, pude confirmar que a ameaça não era tão certa. O instituto cita uma série de artigos, em árabe, colocados no Twitter por vários autores que pertencem à citada Al Wafa, que não é um departamento de média do Estado Islâmico mas sim um grupo de apoiantes da organização terrorista. É por isso que o título do relatório especifica: “Apoiantes do ISIS depois dos ataques de Bruxelas: América é a próxima; Londres vai tornar-se uma província do ISIS; a Europa enfrenta um futuro negro”. Talvez isso explique porque mais nenhum país do mundo – além de Portugal e da Hungria – tenha replicado a história. Ou seja, a ameaça não tinha credibilidade. São “vozes” anónimas na internet.

A conta de Twitter onde os textos foram publicados (@alwafa014794755) já não está activa. A maioria dos artigos ameaçava países como os Estados Unidos e o Reino Unido na sequência dos atentados de Bruxelas. Um deles tinha realmente como título a frase “Hoje foi Bruxelas e o seu aeroporto, amanhã poderá ser Portugal ou a Hungria”. No entanto, o texto assinado por um Al-Qurtubi Al-Qurashi, entre elogios aos jihadistas que atacaram Bruxelas, não faz qualquer referência a Portugal. Para os analistas do MEMRI o significado do título é apenas simbólico – o que não impediu o alarmismo generalizado da semana passada.

Apesar de todas estas referências, como dizia, é tudo uma questão de probabilidades. Se o risco de atentados em Portugal existe – é por isso que a ameaça terrorista é alvo de especial atenção por parte das autoridades, como se pode ler no Relatório Anual de Segurança Interna relativo a 2015 – a probabilidade de tal acontecer é incomparavelmente menor do que em outros países europeus, como a França, a Bélgica, o Reino Unido ou a Alemanha.

Em primeiro lugar por uma questão de mediatismo: um ataque em Portugal teria menos impacto do que um atentado numa grande capital europeia. Em segundo, por uma questão de apoio: eventuais células terroristas terão uma maior base de suporte em países onde existe uma grande comunidade islâmica, radicalizada, do que em Portugal, onde a população muçulmana é relativamente pequena e, sobretudo, moderada. Não é por acaso que todos os portugueses que se deslocaram para a Síria se radicalizaram no estrangeiro. Em terceiro, pelos próprios números de combatentes estrangeiros que cada país tem na Síria: a probabilidade de um atentado é maior em países com centenas ou milhares de voluntários jihadistas do que em Estados onde esse numero não ultrapassa as duas dezenas. Para contrariar esta última fragilidade, o Estado Islâmico estará a preparar unidades capazes de realizar ataques em qualquer Estado da Europa. A lógica é simples: será mais difícil às autoridades, por exemplo, portuguesas, detectarem jihadistas cipriotas do que os próprios cidadãos nacionais que estão perfeitamente identificados. Mas isso não muda a questão essencial: é tudo uma questão de probabilidades. E em Portugal, apesar do natural e saudável mediatismo da questão, ela é, até ver, reduzida – mas não pode ser descartada.

Esse é o grande problema do terrorismo: pode acontecer a qualquer altura, em qualquer lugar. As autoridades têm um papel fundamental na redução dos riscos – das probabilidades – mas esse papel cabe-nos também a nós, cidadãos. Tentar compreender um fenómeno que, aparentemente não é compreensível, é apenas o primeiro passo. Os restantes passam por estarmos conscientes de que esta é uma realidade com a qual teremos de viver, provavelmente, durante muito tempo e por tentarmos reduzir os factores de risco que levam alguém a decidir aderir a uma organização terrorista.

Ao longo dos últimos dois anos, falei com muitas pessoas que conheceram os portugueses que se juntaram ao Estado Islâmico ou a grupos como a Jabhat Al Nusra. A maioria, para não dizer todas, reagiu com surpresa ao saber onde estavam aquelas pessoas com quem tinham privado de perto. “Nunca imaginei” foi talvez a expressão mais usada. “Era um tipo tão porreiro” foi outra. Nós não pensamos neles desta forma mas, geralmente, os terroristas  não são indivíduos estranhos, são pessoas como nós. Podem ser os nossos vizinhos, amigos de infância, companheiros de equipa, colegas de escola e universidade, familiares ou apenas conhecidos de uma noite de copos que, por qualquer razão, enveredaram por aquele caminho. E isso é verdadeiramente assustador.

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ilustração é do Vasco Gargalo

O terror no meio de nós III

Mas afinal de onde surgiu este grupo que parece ter uma enorme capacidade de iludir forças de segurança e serviços de informações, recursos infindáveis e uma determinação profunda em destruir todo e qualquer modo de vida que não se enquadre nos seus padrões? É uma história longa, com raízes no colonialismo, na divisão artificial de fronteiras feita pelas potências europeias, no apoio a regimes ditatoriais e bombardeamentos ocasionais que espalharam a semente do ressentimento e do ódio ao Ocidente.

Contudo, numa versão reduzida, podemos recuar apenas a 2003 e à invasão do Iraque por parte dos Estados Unidos. A guerra teve como pretexto oficial a posse de armas de destruição massiva por parte de Saddam Hussein e a ligação do ditador iraquiano à Al Qaeda de Bin Landen. Como pretexto oficioso havia a intenção de democratizar o Médio Oriente. Os dois primeiros vieram a provar-se falsos. O último, um desastre. Começou aí um conflito com uma organização que mudou várias vezes de nome até chegar à actual designação: Estado Islâmico.

O grupo nasceu em 1999, no Afeganistão, por iniciativa do jordano Abu Musab al-Zarqawi. Chamou‐se inicialmente Jund al Shaam (o Exército do Levante). Meses depois, o seu nome mudou para Jama’at al-Tawid wa al-Jihad (Organização para o Monoteísmo e Jihad), ou apenas Tawid wa al-Jihad (Monoteísmo e Jihad). O Monoteísmo é a crença fundamental em Alá como o único e verdadeiro Deus. A Jihad, a forma de estabelecer na terra a sua lei: a Sharia. Era então apenas um campo de treino, que teve um financiamento inicial da Al Qaeda. Nesses anos, Osama Bin Laden chamou al-Zarqawi a Kandahar cinco vezes para o convencer a prestar um juramento de fidelidade, um bayat. Em todas elas, o jordano recusou.

Após o 11 de Setembro, quando os Estados Unidos invadiram o Afeganistão, al-Zarqawi lutou pela primeira vez ao lado dos Taliban e da Al Qaeda. No final de 2001 fugiu pela fronteira com o Irão juntamente com 300 homens. Acabou por estabelecer uma base no Iraque. Ninguém sabia quem ele era. Nem tinha feito nada que justificasse que o mundo conhecesse o seu nome. Mas, a 5 de Fevereiro de 2003, o então secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, indicou-o como o elo de ligação entre o regime de Saddam Hussein e a Al Qaeda para justificar a necessidade de uma invasão do Iraque.

A base de al-Zarqawi em Suleymaniya tornou-se um alvo dos bombardeamentos norte-americanos. O grupo retaliou com uma série de atentados terroristas indiscriminados. E no final de 2004, por necessidade de apoio, aceitou fazer aquilo que tinha até então recusado: jurar fidelidade a Bin Laden e à Al Qaeda. O grupo passou então a designar-se Al Qaeda do Iraque. Apesar disso, os dois grupos tinham visões divergentes para o mesmo objectivo: a instauração de um Califado Islâmico. Enquanto a Al Qaeda via esse objectivo como sendo de longo prazo, um resultado da iniciativa popular e do cansaço do Ocidente, Zarqawi pretendia alcançá-lo no imediato através de uma política de caos e violência sectária e indiscriminada que iria colocar a população sunita do seu lado. Foi ele que iniciou a onda de decapitações de reféns ocidentais em frente às câmaras.

Em 2006, numa tentativa de coordenar a resistência iraquiana, a Al Qaeda do Iraque fundiu-se com cinco outros grupos. Formaram então o Majlis Shura al Mujahidin (Conselho Shura Mujahideen). Al-Zarqawi morreu seis meses depois. E, em Outubro desse ano, a organização anunciou a criação de um novo grupo: al-Dawla al-Islamiya fi Iraq, o Estado Islâmico do Iraque. Tinha como líder, Abu Omar al‐Baghdadi. Mas por uma questão de comodidade e de percepção do público em geral, os meios de comunicação ocidentais continuaram a referir-se-lhe apenas como Al Qaeda do Iraque. Remonta a esta época a separação entre o Estado Islâmico do Iraque e a Al Qaeda: não se conhece um juramento de fidelidade de al-Baghdadi a Bin Laden.

Em Maio de 2010, Abu Bakr al-Baghdadi assumiu a liderança do então Estado Islâmico do Iraque. A organização estava à beira da derrota. Mas o novo líder iniciou uma campanha de atentados suicidas e ataques a prisões que libertaram milhares dos seus membros e conseguiu recuperar o poder do grupo. A guerra civil na Síria deu-lhe depois a base que necessitava para lançar uma nova ofensiva. Em 2011 enviou um grupo de combatentes para a Síria para criar uma organização subordinada do outro lado da fronteira. Esse grupo viria a ser a Jabhat al Nusra. Dois anos depois, Baghdadi decidiu assumir a liderança de ambas as entidades e anunciou a criação do Estado Islâmico do Iraque e da Síria. Quando o líder da Jabhat al Nutra recusou e anunciou a sua fidelidade à Al Qaeda, iniciou-se um conflito entre os dois grupos que levou mais tarde o sucessor de Bin Laden a declarar que o Estado Islâmico do Iraque e da Síria não estava às suas ordens.

No Verão de 2014, após uma série de vitórias na Síria, os jihadistas de al-Baghdadi avançaram pelo norte do Iraque e conquistaram Mossul. O grupo anunciou então que tinha derrubado as “fronteiras de Sykes-Picot” entre o Iraque e a Síria e que passaria então a ser conhecido apenas como Estado Islâmico. Um Califado. Em poucos anos,  a organização tinha passado de um grupo terrorista, a uma entidade que controlava um enorme território, recursos naturais e financeiros, um exército e que assumia funções de um Estado tradicional, embora não reconhecido por ninguém.

Passaram quase dois anos. No fundo, há 13 anos que os Estados Unidos e o mundo Ocidental estão em guerra com uma única organização que assumiu várias designações antes da actual – e que começou agora a lançar ataques na Europa. Importa recordar: a Primeira Guerra Mundial durou quatro anos e a Segunda Guerra Mundial durou seis.

(Continua)

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Ilustração do Vasco Gargalo.

O terror no meio de nós II

O terror no meio de nós

A dimensão da guerra contra o Estado Islâmico

A coligação internacional contra o Estado Islâmico já lançou dois ataques aéreos por hora em mais de 450 dias. Parece muito? Vejam a comparação com o que aconteceu na Sérvia, no Iraque e na II Guerra Mundial. Pois

Finalmente: #NotAnotherBrother

“Don’t let your words turn our brothers into weapons”

Já não era sem tempo: um vídeo que contraria de forma decente a narrativa extremista da máquina de propaganda do Estado Islâmico.

Imagens da missão portuguesa no Iraque reveladas por Espanha

Em Portugal o secretismo sobre a missão portuguesa no Iraque é palavra de ordem. No entanto, o ministério da Defesa espanhol revelou vários detalhes sobre os 30 operacionais destacados para ajudar a treinar militares iraquianos – incluíndo fotografias do grupo. A notícia foi avançada em Portugal pelo site Operacional.

De acordo com o Estado Maior castelhano, o contingente português é conhecido por “secção Viriato” e está integrado nas forças espanholas desde 13 de Maio, “dia de Nossa Senhora de Fátima”.

“Treinta miembros del ejército de Portugal, al mando de un comandante, ya refuerzan al contingente español desplegado en Besmayah.

Desde el pasado miércoles 13 de mayo, día de Nuestra Señora de Fátima, el grupo de treinta militares que componen el contingente portugués desplegado en Iraq, ya se encuentra integrado y prestando sus servicios junto a los militares españoles destacados en la Base Gran Capitán, situada en el interior de los campos de adiestramiento militar iraquí de Besmayah, localidad situada a unos sesenta kilómetros al sur de Bagdad.

Al mando del grupo, que en su mayoría (20) son miembros de la Unidad de Comandos de Portugal, está el comandante Manuel Antonio Paulo Lourenço, un militar con una amplia formación y experiencia en misiones internacionales. El resto lo completan 5 paracaidistas, 2 artilleros, 2 de operaciones especiales y 1 de Caballería (carros).

Los soldados portugueses vienen a reforzar a los legionarios españoles, tanto en labores de adiestramiento, como en tareas operativas, logísticas o de servicios, como por ejemplo el sanitario.

La integración del contingente portugués, al que ya se conoce como la “Sección Viriato”, se escenificó ayer domingo con un solemne acto de Homenaje a los Caídos en el que se incluyó la ceremonia de izado de la enseña nacional de Portugal que, desde ese momento, ya ondea junto a las de España e Iraq en la Base Gran Capitán.”

As forças lusas partiram para o Iraque a 6 de Maio com a missão de dar formação aos militares Iraquianos que combatem o Estado Islâmico.

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O Estado Islâmico divulgou uma gravação de Abu Bakr al-Baghdadi

Divulgado ontem, o conteúdo da mensagem áudio foi traduzido e publicado em várias linguas: inglês, francês, russo, turco e alemão. Tem 34 minutos, refere-se a acontecimentos recentes – como os bombardeamentos sauditas no Iémen – e foi divulgado pelo departamento de comunicação do Estado Islâmico, Al Furqan.

No fundo, a gravação áudio de Abu Bakr al-Baghdadi terá um objectivo: pôr fim às especulações de que o auto-proclamado Califa teria morrido ou estaria incapacitado. Na mensagem ele incita os muçulmanos a emigrar para o EI e tenta mobilizar os seus combatentes após a derrota que foi a perda de Tikrit. Faz ainda ameaças à Arábia Saudita e condena a coligação internacional que reuniu dezenas de países no combate contra o grupo. A mensagem pode ser lida aqui.

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Leitura para o fim-de-semana: as armas químicas iraquianas

Quando decidiu invadir o Iraque, em 2003, o governo de George W. Bush apontou como objectivo a destruição dos programas de armas de destruição massiva de Saddam Hussein – apesar de a Agência Internacional de Energia Atómica garantir que eles tinham sido desmantelados. Com as tropas no terreno, a administração norte-americana foi forçada a admitir que as armas não existiam. Mas, entre 2004 e 2011, os militares dos Estados Unidos acabaram por ter contacto com milhares de ogivas que continham agentes químicos. Eram restos de programas há muito abandonados e que tinham sido apoiados pelo Ocidente.

A existência destes agentes – e os ferimentos provocados aos soldados que com eles lidaram – foi mantida em segredo durante anos. Revelá-los seria admitir mais uma vez que a invasão teve falsos pretextos. Pior: seria reconhecer que o Ocidente colaborara com Saddam nestes programas. Mas a verdade acabou por vir ao de cima, através de uma investigação do The New York Times, que encontrou 17 militares norte-americanos que estiveram expostos a químicos como gás mostarda – agentes que podem estar agora na posse do grupo terrorista Estado Islâmico.

Erica Gardner/United States Navy, via Getty Images

Erica Gardner/United States Navy, via Getty Images

The Secret Casualties of Iraq’s Abandoned Chemical Weapons

Tudo o que precisam de saber sobre o… Estado Islâmico

É vulgar dizermos que os extremistas islâmicos são loucos. Doidos. Varridos. Que vivem numa época medieval onde a razão não impera. Lunáticos. Fanáticos. Assassinos sem respeito pela vida humana. Radicais. Extremistas Irracionais. Mas serão mesmo? Ou será que – pelo menos os seus líderes – sabem exactamente aquilo que querem e qual a forma de alcançar esse objectivo. Assassinos, sim. Medievais e extremistas, também. Agora loucos? Talvez não. Desde o início que o grupo tem por objectivo a criação de um califado islâmico e, a partir de certa altura, seguiu uma estratégia clara e objectiva para o conseguir. Imediatamente. Ontem, na véspera de mais um aniversário dos antentados de 11 de Setembro, Barack Obama anunciou a estratégia para o tentar impedir: ataques aéreos às zonas controladas pelo EI no Iraque e na Síria. A longo prazo. Isto é tudo o que precisam de saber sobre o Estado Islâmico.

  • O grupo – ou a sua ideia – começou a formar-se na cabeça do jordano Abu Musab al-Zarqawi há mais de 20 anos. O islamita, nascido a 30 de Outubro de 1966, viajou para o Afeganistão no final da década de 1980 para lutar contra os soviéticos. No entanto, quando chegou, as tropas da então URSS já tinham deixado o país. De volta à Jordânia, criou o Jama’at al-Tawhid w’al-Jihad (JTJ) com o objectivo de derrubar o governo. Sem grande sucesso. Voltou então ao Afeganistão em 1999 para criar um campo de treino para terroristas. Foi aí que conheceu Osama Bin Laden.
  • Ao contrário de outros, al-Zarqawi preferiu não aderir à Al Qaeda. Continuou a tentar implantar o seu grupo. Mas a invasão norte-americana após o 11 de Setembro de 2001 obrigou-o a fugir para o Iraque. Aí, passou despercebido durante dois anos. Até que, a 5 de Fevereiro de 2003, o então secretário de Estado Colin Powell o indicou como um dos motivos que justificavam a invasão do Iraque. Segundo Powell, al-Zarqawi seria o elo de ligação entre Saddam Hussein e a Al Qaeda. Não era. Mas desde então que passou a ser uma figura a ter em conta.
  • Após a invasão norte-americana, al-Zarqawi tornou-se uma das principais figuras da resistência aos EUA. Mas não só. O seu objectivo passava também por derrubar o governo iraquiano e estabelecer um estado islâmico – tal como a Al Qaeda. As diferenças eram poucas. Prendiam-se sobretudo com a intenção de al-Zarqawi de atacar a população xiita, que via como herética. Foi ele que orquestrou o bombardeamento do templo de Najaf, um dos locais mais sagrados para os xiitas. Os objectivos eram também políticos: conseguir o apoio da população sunita, afastada do poder após a queda de Saddam.
  • Em 2004, al-Zarqawi tinha lançado uma campanha de ataques suicidas no Iraque. Bin Laden deu-lhe o seu apoio. E ele retribuiu, aderindo à Al Qaeda: o JTJ foi rebaptizado de Al Qaeda do Iraque (AQI). No entanto, a extrema violência dos ataques à população civil começaram a gerar anticorpos na hierarquia da Al Qaeda. Ele não ligou. Aqueles que lhe resistiam eram executados. Ao contrário de outros grupos ligados à Al Qaeda, a AQI não pedia resgates pelos presos estrangeiros. Os ocidentais eram capturados com um objectivo: serem executados. Al-Zarqawi tornou-se mesmo conhecido como o “sheikh dos matadores” por decapitar pessoalmente os detidos. O seu estilo era inconfundível: os presos eram obrigados a vestir um fato cor-de-laranja (como em Guantánamo). As execuções tornaram-se tão frequentes que o então número dois da Al Qaeda pediu-lhe para parar e matar apenas os prisioneiros.
  • Al-Zarqawi não chegou a cumprir o seu sonho. Em Junho de 2006, morreu durante um bombardeamento ao local onde estava escondido, na sequência de uma ofensiva preparada pelo General David Petraeus em colaboração com as tribos sunitas a quem foram prometidos perdões por crimes anteriores, contratos lucrativos no futuro e uma parte do poder político. A estratégia resultou – mas apenas em parte. Os ataques suicidas pararam e a AQI foi praticamente desmantelada. Mas as promessas aos sunitas não foram cumpridas: não receberam contratos e foram afastados dos cargos de poder pelo primeiro-ministro  Nouri al-Maliki.
  • Quando os Estados Unidos retiraram do Iraque, a AQI praticamente não tinha actividade. Mas continuava a existir. Era então liderada por Abu Bakr al-Baghdadi, um natural de Samarra que se licenciou em Estudos Islâmicos pela Universidade de Bagdade e subiu na cadeia hierárquica do grupo ao longo de oito anos. A AQI tinha também mudado de nome para Estado Islâmico do Iraque (ISI, em inglês). Al-Baghdadi voltou à estratégia do fundador do grupo: ataques indiscriminados contra a população xiita, numa tentativa de voltar a conquistar o apoio sunita. Conseguiu. Muitos daqueles que tinham sido armados pelos Estados Unidos para combater a AQI voltavam-se agora para o grupo que se dispunha a atacar o seu opressor: o governo iraquiano.
  • Com o início da guerra na Síria, al-Baghdadi viu uma oportunidade: recrutar milhares de jihadistas ávidos de combater. Com soldados calejados por anos de combate no Iraque, o ISI destacou-se facilmente dos restantes grupos que lutavam contra Bashar al Assad. Rapidamente voltou a mudar de nome: tornou-se no Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL, em inglês). O objectivo era claro: o estabelecimento de um estado islâmico na região entre os dois países.
  • Nesta altura as relações entre o ISIL e a Al Qaeda já não eram as melhores.  Em 2011, após a morte de Osama Bin Laden, al-Baghdadi jurou obediência ao novo líder da Al Qaeda, Ayman al-Zawahri. Mas, apesar dos objectivos comuns – o estabelecimento de um califado islâmico – os dois divergiam sobre a forma de o alcançar. A Al Qaeda prefere uma estratégia de desgaste lento dos governos apoiados pelo ocidente, sem campanhas de terror para não alienar a população civil. Já o ISIL defende a estratégia do caos, com bombardeamentos e ataques indiscriminados, que deixe os governos sem capacidade para os impedir de estabelecer um emirado.

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Por dentro do Estado Islâmico

Em Junho, o grupo terrorista Estado Islâmico do Iraque e da Síria surpreendeu o mundo ao conquistar largas parcelas de território da Síria e do Iraque. Esse avanço foi acompanhado pela captura de armas norte-americanas e de dinheiro depositado nos bancos iraquianos – meios que lhes permitiram continuar a ganhar terreno nos meses seguintes. Agora, o simplesmente denominado Estado Islâmico (EI), anunciou a sua intenção de reestabelecer um califado – do qual o seu líder, Abu Bakr al-Baghdadi, foi declarado califa.

Enquanto a maioria dos meios de comunicação têm acompanhado o crescimento do EI à distância e através da sua actividade nas redes sociais, o repórter da Vice, Medyan Dairieh, conseguiu obter um acesso sem precedentes ao grupo e passou três semanas com os seus responsáveis no Iraque e na Síria. O resultado foi o documentário The Islamic State, o mais completo retrato dos radicais responsáveis pelo recente assassinato do jornalista norte-americano James Foley.

Compreender o Iraque e as suas diferenças

A crise no Iraque em 4 minutos e trinta e cinco segundos

Leitura para o fim-de-semana: a traição norte-americana

Assim que chegou ao Iraque e ao Afeganistão, o exército norte-americano fez o que qualquer força faz num país estrangeiro: recrutou locais para desempenharem funções de guias, intérpretes e também de soldados. Tal como seria de esperar, essas pessoas – e as respectivas famílias – tornaram-se um alvo preferencial dos rebeldes iraquianos e dos talibã. Com a retirada das tropas e o seu regresso aos Estados Unidos, eles ficaram desprotegidos. E não conseguem sequer que lhes seja cumprida a promessa de obter um visto para os EUA. Este artigo da revista Men’s Journal, explora esta dura realidade.

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The Interpreters We Left Behind

As our troops pull out of Iraq and Afghanistan, we’re abandoning fixers and translators to the dangerous countrymen who view them as traitors. Asylum in the U.S. could be their last hope. If only we’d let them in.

They fanned out, facing the ridge, and waited to get shot. The eight National Guardsmen lay as flat as they could in the open creek while the dirt beside them jumped with machine-gun rounds. There were 45 Taliban blazing away above them, firing from two emplacements on the hill in Wahgez, a lawless, black-route district in southern Afghanistan. Still dazed by the rocket that pierced his “bomb resistant” truck and launched this hour-old ambush, First Lieutenant Matt Zeller was low on ammo and dropping in and out of consciousness. Twice he’d been rocked by mortar strikes while shooting at a gunner on the hill. The last one had knocked him back behind a grave, where he braced for the round that would cut him in half. “April 28, 2008,” he thought. “This is the day that I die.”

Suddenly, he saw a convoy roar up to a halt. The cavalry – a Quick Reaction Force from his base – began sawing open the tree line with high explosives. Zeller took to returning fire when the crack! of a rifle went off past his ear. He looked up to find Janis Shinwari, an Afghan interpreter assigned to Zeller’s National Guard unit, crouched beside him, shooting in the other direction. “Two Taliban had rounded a corner and were right behind me; another second and they’d have shot me in the back,” says Zeller. But Shinwari, who’d arrived with the QRF squad, calmly emptied his clip, killing them both, then dragged Zeller from the kill zone to the trucks.

Hours later, having towed the vehicles back to base and gotten medical care for his wounded, Zeller sat up drinking chai with Shinwari, a tall, sloe-eyed Pashtun with heraldic cheekbones and a deep-well air of calm. Though they shared the same quarters in Forward Operating Base Vulcan, they’d barely been introduced during Zeller’s fortnight in-country, and now Zeller needed to know this man who’d saved his life. “Why,” asked Zeller, “are you on our side and not theirs?”

“Because you are my guest here,” said Shinwari. “You come so many miles to help my family; I am honor-bound to protect you, brother.”

There was more to it, of course, but that was plenty for Zeller. The lead intel officer on the tiny base, he pulled rank the next day and had Shinwari assigned to his team of tactical advisers. For the next seven months, they were inseparable, riding shotgun with the Afghan army through explosions and ambushed missions. Shinwari, who’d taught himself English as a teen by watching Arnold Schwarzenegger mangle his lines in Terminator and Commando, wasn’t just the smartest linguist on base – he was also the best marksman. “He could shoot the cap off a pen at 800 meters,” says Zeller. “He saved at least five American lives there, not just mine.” That December, when his hitch was up, Zeller gave Shinwari a powerful hug and an open-ended offer to bring him to America if things got too hot for him and his family. “Thanks, but I’m staying,” said Shinwari. “I don’t scare from the Taliban; they scare from me.”

A couple of years passed; the two men kept in touch via Skype and Facebook chats. Then, in February 2011, Shinwari texted Zeller to redeem his offer of help. After five years of Taliban death threats, he’d been marked for death in a plot U.S. intelligence officers had intercepted. He stashed his wife and two kids with in-laws and went to live on-base while still working as an interpreter, but then word leaked that Allied forces were leaving, closing bases and laying off the many thousands who’d helped them – Afghan linguists and drivers and political fixers, all of whom had risked their lives for the vision marketed by U.S. leaders of a free and decent Afghanistan. Zeller knew what this augured for the collaborators left behind; he’d seen the severed limbs of captured allies left in burlap at the gate of his base, wrapped in warnings to repent before Allah.

Zeller, by then a captain in the Army Reserve and running for Congress in upstate New York, launched an all-points drive to bring Shinwari over on a special immigrant visa (SIV). He compiled 50 letters of recommendation from officers who’d served with Shinwari, documented and validated every death threat texted to Shinwari or slipped under his door, and followed up with letters and calls to the embassy in Kabul. “I figured he’d sail through in six to nine months,” says Zeller. “He’d been vetted by the CIA since ’06, and oh, by the way, he’s a hero.”

But the months turned to years of brick-wall delays, with no word from the State Department or Homeland Security. Zeller, like Shinwari, began to panic. He wrote an anguished op-ed for the Huffington Post, then another for the Guardian online. That fetched him a slew of follow-up coverage, and suddenly congressmen called the embassy, threatening to hold hearings. Meanwhile, Shinwari lived in mounting terror, moving himself and his family every few days to outflank the men with knives and beards who pounded on his in-laws’ door.

Finally, after a 30-month, one-man barrage, Zeller’s pressure won Shinwari a visa. He quit his job as an interpreter, sold his worldly goods, and hid out with his wife and kids while the final arrangements were made for them to come to the U.S. Then, a few days before their tickets came through, he was told over the phone – without a word of explanation – to hand back his hard-won visa. Heartsick, he called Zeller, who called the embassy in Kabul. Nothing; all hope extinguished. And with that, the two learned what political exiles have known since our withdrawal from Vietnam in 1973: When it comes to keeping a promise to wartime allies, America’s word is flimsy at best.In each of our foreign conflicts over the past half-century, America has staged withdrawals of its troops, tanks, and spies from bases of operation overseas but disastrously failed to plan for the dangers its abandoned allies would face after we left. In Saigon and Laos, we’d no sooner departed than the horrors began. Hundreds of thousands dead in South Vietnam, either killed in work camps or on the South China Sea aboard leaky refugee boats. In Laos, Hmong tribesmen who’d stood with us were slaughtered by the many thousands at the hands of Vietcong invaders. Eventually, the mass drownings and the sheer number of Amerasian offspring forced Congress to enter the fray, ordering airlifts of Indochinese exiles to resettlement camps in Guam, and passing laws conferring special immigrant status on the Vietnamese progeny of U.S. soldiers. “We took in more than 200,000 people with Amerasian visas – there was a strong sense of moral obligation,” says Becca Heller, the 30-year-old director of the Iraqi Refugee Assistance Project, a group of young, influential lawyers who intervene on behalf of political exiles, most of them from Iraq and Afghanistan. “That created a path for people who can’t get regular visas but to whom we felt a humanitarian duty.”

Our collective sense of shame, however late, redressed a grievous wrong in Vietnam. But you can’t feel shame for wars you have little stake in, and in Iraq and Afghanistan, we’ve waged armed conflict largely out of sight of the American public. Nightly coverage from the theater has dwindled close to zero, troops have been mustered from a sliver of the working poor, and the pain has been localized to those who fought there, their spouses, and their parents. “These wars will be the millennials’ Korea – they’ll go down as a joint footnote in school textbooks,” says Kirk Johnson, the founding director of the List Project, which, like the Iraqi Refugee Assistance Program, has used its shoestring budget to rescue at-risk exiles, many of them interpreters, from Iraq. An ex-Fulbright scholar and civilian aide in Fallujah whose harrowing memoir, To Be a Friend Is Fatal, was published to acclaim last summer, Johnson began the List Project after an Iraqi co-worker was targeted for assassination by Al Qaeda. Johnson wrote an op-ed for the Los Angeles Times, urging that steps be taken to protect his friend; almost instantly, he was inundated with frantic emails from Iraqis in similar straits.

O artigo completo está aqui. 

O interrogador

Quando a Wikileaks divulgou os documentos norte-americanos sobre a guerra no Iraque, em 2010, houve um termo que chamou a atenção da realizadora Maggie O’Kane: “Frago 242”, uma abreviatura de “Fragmentary Order 242”, uma directiva para os militares ignorarem a tortura a iraquianos feita por iraquianos. A investigação que se seguiu – e divulgada agora pela Al Jazeera – mostra como o Pentágono enviou um veterano da guerra do Vietname e das operações clandestinas na América Central para coordenar as unidades especiais da polícia cuja missão era obter informações de rebeldes através de detenções secretas e tortura. A certa altura, estes esquadrões da morte chegaram a ter 17 mil elementos que ajudaram à eclosão de uma guerra civil que já fez milhares de vítimas.

A recuperação de um soldado

Bobby Henline sobreviveu à explosão de uma bomba no Iraque. Foi o único. Ficou com 38% do corpo queimado. De regresso aos EUA enfrentou inúmeras cirurgias. Agora tornou-se um comediante de stand up que recorre ao seu estado físico para fazer humor. O documentário Healing Bobby, de Peter van Agtmael, conta a sua história.

O “construtor de nações” morreu há 10 anos

A 19 de Agosto de 2003, um atentado suicida em Bagdade, tirou a vida ao então chefe de missão da ONU, Sérgio Vieira de Mello. Foi o fim da linha para um homem que podia ter sido tudo na organização. Tudo. No ano seguinte publiquei um texto sobre ele em O Independente. Agora que se assinala uma década sobre esta morte trágica, fica aqui o registo.

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“SÉRGIO VIEIRA DE MELLO, O CONSTRUTOR DE NAÇÕES

 

Bagdade, 19 de Agosto de 2003. Terça-feira. Um condutor desconhecido estaciona um camião junto ao Hotel Canal, edifício sede da ONU em Bagdade. O veículo está parado por debaixo da janela do gabinete do representante especial do secretário-geral da ONU para o Iraque. Faltam poucos minutos para as 16h30. Sérgio Vieira de Mello trabalha no seu gabinete. Tal como nos últimos três meses.

Noutra zona do complexo, uma equipa de televisão japonesa transmite, em directo, a conferência de imprensa de um porta-voz da ONU. De súbito a imagem fica a negro. Quando a transmissão é retomada as primeiras imagens são de terror: jornalistas e funcionários das Nações Unidas estão cobertos de pó. Alguns sangram. Todos procuram uma saída através da escuridão. O Hotel Canal acabava de ser alvo de um atentado terrorista.

A explosão foi sentida em toda a capital iraquiana. O camião estacionado junto à sede da ONU foi pelos ares. E com ele grande parte do edifício onde se encontrava Sérgio Vieira de Mello.

Momentos depois o conselheiro político do representante de Kofi Annan, Ghassan Salamé subia ao segundo andar do complexo. “Vi-o em baixo [no rés-do-chão], imobilizado. Gritei ‘Sérgio, Sérgio’ e ele respondeu ‘Ghassan”‘. Vieira de Mello encontrava-se soterrada nos escombros, com as pernas esmagadas por uma viga de betão. Durante cerca de três horas, o chefe das Nações Unidas no Iraque comunicou com o exterior através do telemóvel. Sem sucesso. Quando as equipas de salvamento lá chegaram era tarde de mais. A morte fora ao encontro de Sérgio Vieira de Mello. Tinha 55 anos, era casado e pai de dois filhos.

O homem certo. Após a notícia do atentado, sucederam-se as manifestações de pesar. De George W. Bush a Xanana Gusmão, de Tony Blair a Lula da Silva, os líderes mundiais expressaram a sua consternação. O governo brasileiro decretou três dias de luto nacional.

Na sede da ONU, em Nova Iorque, as bandeiras dos 191 países-membros da organização foram colocadas a meia haste. E o secretário-geral das Nações Unidas era dos mais abatidos: “foi um duro golpe para a ONU e para mim pessoalmente”, desabafou Kofi Annan, de quem Vieira de Mello era apontado como provável sucessor. “Os que o mataram cometeram um crime não só contra a ONU, mas contra o Iraque”.

Sérgio, como era conhecido entre o pessoal da organização, era o homem mais bem preparado para a tarefa proposta por Annan de acordo com a resolução 1483 do Conselho de Segurança da ONU: ajudar à formação de uma administração interina iraquiana. Nas suas palavras as Nações Unidas teriam duas funções a desempenhar no Iraque. A primeira seria a de”ajudar [os iraquianos] a transmitir uma mensagem clara à coligação, a sua aspiração de que o conselho assuma fortes prerrogativas executivas; em segundo, que a ONU desempenhem um papel central na transição política e constitucional”.

As suas qualificações para o cargo eram inegáveis. Funcionário das Nações Unidas há mais de 3 5 anos, Vieira de Mello teve intervenções fundamentais em várias situações de conflito.

Entrou para a organização em 1969, como editor de publicações do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR). Mais tarde exerceu cargo no Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique e Peru. O primeiro papel de destaque surgiu no início da década de 80. Entre 1981 e 1983 foi o principal assessor das Nações Unidas no Líbano, aquando da invasão israelita. Em seguida mudou-se para a Ásia, primeiro como conselheiro no Vietname e depois como director de repatriamento no Cambodja. No início dos anos 90 regressa à Europa para liderar a Força de Protecção de Civis da ONU na antiga Jugoslávia.

Em 1999 chega a representante especial de Kofi Annan e dirige a administração da ONU no Kosovo. Aí esteve menos de um mês. Foi chamado para desempenhar funções semelhantes em Timor-Leste onde a extensão dos seus poderes não tinham qualquer precedente na organização. Sérgio era o governador de facto do território. Estava encarregue da força de manutenção de paz, liderada pela Austrália, e pelos aspectos da governação civil. O perigo já fazia parte da sua vida. Em Março de 2000, numa entrevista ao Independente confessava: “Eu já durmo mal em circunstâncias normais. Aqui ainda mais, ainda pior. Claro que eu tenho medo”. Determinado, criou um governo interino, organizou eleições para uma assembleia constituinte e por fim supervisionou as primeiras eleições presidenciais livres e imparciais de Timor-Leste. O mesmo que planeava fazer no Iraque. Com a convicção, expressa na mesma entrevista, de que “destruir é fácil, construir é demorado, se a construção for sustentada”.

Bagdade. Concluída com sucesso a missão em Timor-Leste, Vieira de Mello regressou a Genebra. Meses depois substitui a ex-primeira-ministra irlandesa Mary Robinson no cargo de Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Empenhou-se a fundo na tarefa. Mas mais uma vez, foi chamado por Annan. O secretário-geral escolheu-o como seu representante no Iraque para ajudar a reconstruir o país após uma guerra de que discordara. Contrariado, aceitou. “Apenas por quatro meses”. Como sempre, entrega-se às novas funções e deseja “ajudar o povo iraquiano a sair de um período terrível na sua longa e nobre história”.

Chega a Bagdade em Maio e logo declara que “a liberdade, dignidade e segurança têm, a partir de agora, de ser tidas como certas por todos os iraquianos”. Pouco tempo depois garante que “o actual estado de coisas vai chegar ao fim em breve. Eles [os iraquianos] precisam de saber que a estabilidade vai regressar e que a ocupação terminará”.

Passou quase três meses na capital iraquiana. Para se distanciar das forças de ocupação, a ONU optara pelos serviços mínimos de segurança. Terá sido relativamente fácil ao condutor desconhecido estacionar o camião junto ao gabinete de Sérgio Vieira de Mello. Dentro da betoneira, calcula-se que estivessem 211 quilogramas do explosivo plástico “C4″. A explosão provoca a morte de 24 pessoas e ferimentos em mais de 100. Foi o pior ataque da história da organização. Desaparecia um dos maiores activistas dos direitos humanos. Fez ontem um ano.”

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